{"id":4010,"date":"2026-11-01T08:10:03","date_gmt":"2026-11-01T11:10:03","guid":{"rendered":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-10\/"},"modified":"2026-11-01T08:10:03","modified_gmt":"2026-11-01T11:10:03","slug":"episodio-10","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-10\/","title":{"rendered":"Epis\u00f3dio 10: A Pessoa que Lembrava"},"content":{"rendered":"<style>\n.sdc-wrap{--ink:#18252d;--muted:#5b6570;--gold:#b88730;--green:#116458;--paper:#fbfaf6;color:var(--ink);font:18px\/1.78 Georgia,serif;max-width:820px;margin:0 auto;padding:10px 0 48px}.sdc-wrap *{box-sizing:border-box}.sdc-wrap h1,.sdc-wrap h2,.sdc-wrap h3{line-height:1.23;color:#14222a}.sdc-wrap h1{font-size:clamp(34px,6vw,54px);letter-spacing:-.035em;margin:.25em 0 .55em}.sdc-wrap h2{font-size:clamp(25px,4vw,33px);margin:2.2em 0 .7em}.sdc-wrap h3{font-size:22px;margin:1.8em 0 .55em}.sdc-eyebrow,.sdc-meta,.sdc-nav,.sdc-note,.sdc-card small,.sdc-credits{font-family:system-ui,sans-serif}.sdc-eyebrow{font-size:12px;font-weight:700;letter-spacing:.13em;text-transform:uppercase;color:#80652f}.sdc-hero{width:100%;aspect-ratio:16\/9;object-fit:cover;border-radius:14px;margin:18px 0 24px;background:#0c332f}.sdc-lead{font-size:21px;line-height:1.65}.sdc-note{border-left:5px solid var(--gold);background:#f3ecdc;padding:17px 20px;margin:26px 0;font-size:15px;line-height:1.58}.sdc-note p{margin:.4em 0}.sdc-note-imagined{border-color:var(--green);background:#e8f1ed}.sdc-credits{font-size:14px;line-height:1.6;color:var(--muted);margin:26px 0}.sdc-nav{display:flex;justify-content:space-between;gap:12px;flex-wrap:wrap;border-top:1px solid #d8d3c7;border-bottom:1px solid #d8d3c7;padding:15px 0;margin:28px 0;font-size:15px}.sdc-nav a{font-weight:650}.sdc-grid{display:grid;grid-template-columns:repeat(auto-fit,minmax(235px,1fr));gap:13px;padding:0;list-style:none}.sdc-card{display:block;height:100%;padding:16px 18px;border:1px solid #ddd6c8;border-radius:10px;background:#fff;text-decoration:none!important;box-shadow:0 3px 12px rgba(22,34,42,.04)}.sdc-card:hover{border-color:var(--gold);transform:translateY(-1px)}.sdc-card small{display:block;color:var(--green);font-size:11px;font-weight:800;letter-spacing:.1em;margin-bottom:4px}.sdc-card strong{color:#192b31}.sdc-divider{border:0;border-top:1px solid #d8d3c7;margin:42px auto;width:100px}.sdc-wrap blockquote{border-left:4px solid #c8b17b;margin:1.5em 0;padding:.25em 0 .25em 1.2em;color:#3f4b52}.sdc-wrap hr{border:0;border-top:1px solid #d8d3c7;margin:38px auto;width:90px}.sdc-wrap p{overflow-wrap:break-word}.sdc-kicker{display:inline-block;border:1px solid #bcd1ca;border-radius:999px;padding:5px 11px;color:var(--green);font:700 12px\/1.2 system-ui,sans-serif;letter-spacing:.04em}.sdc-wrap a{color:#165c75;text-underline-offset:3px}@media(max-width:520px){.sdc-wrap{font-size:18px}.sdc-nav a{width:100%}.sdc-hero{border-radius:8px}}\n.sdc-episode-hero{width:100%;aspect-ratio:16\/9;object-fit:cover;border-radius:14px;margin:20px 0 10px;background:#0c332f}.sdc-card{padding:0;overflow:hidden}.sdc-card img{display:block;width:100%;aspect-ratio:16\/9;object-fit:cover}.sdc-card span{display:block;padding:13px 16px 16px}@media(max-width:520px){.sdc-episode-hero{border-radius:8px}}\n<\/style>\n<article class=\"sdc-wrap\">\n<p class=\"sdc-eyebrow\">Passado Presente Futuro \u00b7 Saga dos C\u00e9us<\/p>\n<h1>Epis\u00f3dio 10: A Pessoa que Lembrava<\/h1>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"sdc-episode-hero\" src=\"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/saga-dos-ceus-episodio-10.webp\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio 10: A Pessoa que Lembrava\"><\/p>\n<nav class=\"sdc-nav\" aria-label=\"Navega\u00e7\u00e3o entre epis\u00f3dios\"><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-09\/\">\u2190 Epis\u00f3dio 9<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/\">Todos os epis\u00f3dios<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-11\/\">Epis\u00f3dio 11 \u2192<\/a><\/nav>\n<h2>Cap\u00edtulo 1 \u2014 A briga na porta de casa<\/h2>\n<p>A briga daquela manh\u00e3 foi a pior de todas.<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou procurar ela, Seika.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai a lugar nenhum com essa perna.<\/p>\n<p>\u2014 <strong>Ela sumiu faz uma semana!<\/strong><\/p>\n<p>Seiya estava na porta da casa, apoiado no batente, com a coxa enfaixada e a cara de quem n\u00e3o dormia havia dias.<\/p>\n<p>A Seika estava do lado de dentro, de bra\u00e7os cruzados, e n\u00e3o sa\u00eda da frente.<\/p>\n<p>\u2014 Seika, eu nem conhe\u00e7o direito essa menina. Eu falei com ela umas quatro vezes na vida. \u2014 Ele bateu a m\u00e3o na parede. \u2014 E mesmo assim eu acordo todo dia com o peito apertado como se eu tivesse perdido algu\u00e9m da fam\u00edlia. <strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Seiya&hellip;<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ela! \u2014 A voz dele subiu. \u2014 \u00c9 tudo! Eu tenho anos inteiros faltando! Eu levantei vinte pessoas do ch\u00e3o numa pra\u00e7a e eu n\u00e3o sei como! Apareceu um desenho de estrela no meu bra\u00e7o e sumiu! E toda vez que eu te pergunto alguma coisa voc\u00ea olha para o ch\u00e3o e muda de assunto!<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u2014 Toda vez, Seika. <strong>Faz um ano.<\/strong><\/p>\n<p>E ent\u00e3o ele disse a frase que estava guardada havia muito tempo:<\/p>\n<p>\u2014 Eu estou come\u00e7ando a achar que voc\u00ea sabe de alguma coisa.<\/p>\n<p>A Seika ficou muito quieta.<\/p>\n<p>E, pela primeira vez em um ano inteiro, n\u00e3o mudou de assunto.<\/p>\n<p>Ela puxou uma cadeira, sentou, pousou as duas m\u00e3os no colo e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Senta.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 2 \u2014 O que a Seika sabe<\/h2>\n<p>\u2014 Eu sei de tudo \u2014 disse ela.<\/p>\n<p>Seiya ficou de p\u00e9 no meio da cozinha, de boca aberta.<\/p>\n<p>\u2014 &hellip;Como assim, tudo?<\/p>\n<p>\u2014 Tudo. \u2014 A voz dela estava firme, mas as m\u00e3os tremiam no colo. \u2014 Eu lembro do orfanato. Eu lembro do dia em que te levaram para a Gr\u00e9cia. Eu lembro do Santu\u00e1rio, das Doze Casas, das armaduras. Eu lembro dos seus amigos, um por um, com nome e tudo.<\/p>\n<p>Ela respirou fundo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu lembro da mo\u00e7a que sumiu. Ela n\u00e3o se chama s\u00f3 Saori.<\/p>\n<p>\u2014 Seika&hellip;<\/p>\n<p>\u2014 <strong>Eu lembro de tudo, Seiya.<\/strong> Desde o primeiro dia. Eu nunca esqueci nada.<\/p>\n<p>Seiya sentou na cadeira porque as pernas n\u00e3o aguentaram.<\/p>\n<p>E a\u00ed veio a pergunta, e ela saiu machucada:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o por que voc\u00ea nunca me contou?<\/p>\n<p>A Seika abaixou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Porque eu j\u00e1 tentei.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 3 \u2014 A primeira vez que ela tentou<\/h2>\n<p>\u2014 Na primeira semana \u2014 ela come\u00e7ou. \u2014 Voc\u00ea acordou aqui sem saber quem era, e eu achei que era s\u00f3 um susto, que ia passar. A\u00ed eu sentei na beira da sua cama e contei tudo.<\/p>\n<p>Ela olhou para as pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Eu falei o nome dos seus amigos. Eu falei das armaduras. Eu falei do seu cavalo alado. Eu falei o nome dela.<\/p>\n<p>\u2014 E o que aconteceu?<\/p>\n<p>A Seika demorou para responder.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea come\u00e7ou a sangrar pelo nariz.<\/p>\n<p>Seiya ficou gelado.<\/p>\n<p>\u2014 Primeiro o nariz. Depois voc\u00ea ficou branco. Depois voc\u00ea caiu da cama, Seiya, com as duas m\u00e3os na cabe\u00e7a, gritando que estava doendo. \u2014 A voz dela falhou. \u2014 E ficou tr\u00eas dias de cama com febre.<\/p>\n<p>Ela levantou o rosto, e os olhos estavam vermelhos.<\/p>\n<p>\u2014 E quando voc\u00ea acordou, voc\u00ea n\u00e3o lembrava nem da conversa.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio na cozinha.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tentei mais duas vezes depois disso \u2014 continuou a Seika. \u2014 Mais devagar. Por pedacinhos. Dando a volta, falando sem falar.<\/p>\n<p>\u2014 E?<\/p>\n<p>\u2014 Nariz sangrando. Febre. Esquecimento. \u2014 Ela deu de ombros de um jeito cansado. \u2014 Na terceira vez eu desisti. Porque eu percebi que eu estava machucando voc\u00ea para me sentir menos sozinha.<\/p>\n<p>Seiya tentou falar e n\u00e3o conseguiu.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o eu parei de contar \u2014 disse a Seika. \u2014 E comecei a fazer caf\u00e9.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 4 \u2014 Um ano calada<\/h2>\n<p>E a\u00ed o Seiya entendeu o tamanho do que a irm\u00e3 tinha feito.<\/p>\n<p>Um ano.<\/p>\n<p>Um ano inteiro vendo o irm\u00e3o ca\u00e7ula acordar todo dia sem saber quem era. Um ano ouvindo ele perguntar e tendo que olhar para o ch\u00e3o. Um ano vendo ele sair de manh\u00e3 para carregar pedra num templo em ru\u00ednas, ele, que j\u00e1 tinha enfrentado deuses.<\/p>\n<p>Um ano sabendo de tudo e n\u00e3o podendo dizer nada.<\/p>\n<p>\u2014 Seika&hellip;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fala nada, n\u00e3o. \u2014 Ela limpou o rosto r\u00e1pido, com as costas da m\u00e3o, do jeito que quem \u00e9 mais velho faz. \u2014 Eu fiz caf\u00e9, eu cuidei da sua perna, eu paguei as contas. Deu tudo certo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o deu, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Deu sim.<\/p>\n<p>\u2014 Seika, voc\u00ea ficou um ano <strong>sozinha<\/strong> com isso.<\/p>\n<p>E a\u00ed a irm\u00e3 dele, que tinha aguentado calada trezentos e sessenta e cinco dias, encostou a testa na mesa da cozinha e chorou de uma vez s\u00f3, de um jeito feio e cansado e honesto.<\/p>\n<p>E o Seiya, mancando, foi at\u00e9 l\u00e1 e abra\u00e7ou a irm\u00e3 por cima, do jeito desajeitado que irm\u00e3o abra\u00e7a.<\/p>\n<p>A vida inteira tinha sido o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A vida inteira tinha sido o Seiya atravessando o mundo atr\u00e1s de uma irm\u00e3 que n\u00e3o lembrava dele.<\/p>\n<p>Agora era ela.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 5 \u2014 A noite em que o c\u00e9u abriu<\/h2>\n<p>Quando o choro passou, a Seika levantou o rosto e disse a parte que ela nunca tinha contado para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Tem mais uma coisa. E essa aqui eu nunca falei nem para mim mesma em voz alta.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei <strong>por que<\/strong> eu n\u00e3o esqueci.<\/p>\n<p>Seiya se endireitou na cadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Naquela noite, um ano atr\u00e1s, eu estava aqui. Nessa cozinha. \u2014 Ela apontou para a janela. \u2014 E, de repente, o c\u00e9u abriu.<\/p>\n<p>\u2014 Abriu como?<\/p>\n<p>\u2014 Abriu. \u2014 Ela procurou as palavras. \u2014 N\u00e3o era raio, n\u00e3o era nuvem. O c\u00e9u simplesmente se afastou, como uma cortina, e desceu uma luz t\u00e3o branca que as sombras das coisas apontavam para o lado errado.<\/p>\n<p>Seiya n\u00e3o respirava.<\/p>\n<p>\u2014 E eu corri para fora, e voc\u00ea estava ca\u00eddo no meio da estrada. Com os seus amigos, todos ca\u00eddos, e a mo\u00e7a ca\u00edda tamb\u00e9m. E eu fiz a \u00fanica coisa que eu sabia fazer: eu me joguei em cima de voc\u00ea e te abracei.<\/p>\n<p>Ela parou.<\/p>\n<p>\u2014 E <strong>ele<\/strong> olhou para mim.<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o sei o nome. \u2014 A Seika balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. \u2014 Era um homem muito alto, muito bonito, parado no ar dentro daquela luz, e ele n\u00e3o parecia com raiva. Era essa a parte mais assustadora: <strong>ele parecia triste.<\/strong><\/p>\n<p>Ela apertou as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 E ele olhou bem para mim. E eu entendi que ele estava escolhendo. Eu senti aquilo passar por dentro da minha cabe\u00e7a, como uma m\u00e3o procurando uma coisa numa gaveta.<\/p>\n<p>\u2014 E a\u00ed?<\/p>\n<p>\u2014 E a\u00ed ele tirou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>A Seika olhou para o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ele me deixou lembrar, Seiya. <strong>De prop\u00f3sito.<\/strong><\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 6 \u2014 A frase<\/h2>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?! \u2014 Seiya se levantou de um salto, e a perna reclamou. \u2014 Por que ele faria isso?!<\/p>\n<p>\u2014 Ele falou uma coisa antes de ir embora.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>E a Seika repetiu, palavra por palavra, a frase que ela carregava havia um ano:<\/p>\n<p>\u2014 <em>&ldquo;Voc\u00ea pode contar a eles, se quiser. N\u00e3o vai adiantar.&rdquo;<\/em><\/p>\n<p>Seiya engoliu em seco.<\/p>\n<p>\u2014 E depois?<\/p>\n<p>\u2014 E depois ele disse a parte que eu nunca entendi.<\/p>\n<p>Ela olhou para a janela.<\/p>\n<p>\u2014 <em>&ldquo;Mas \u00e9 bom que algu\u00e9m lembre.&rdquo;<\/em><\/p>\n<p>Ela fechou os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 <em>&ldquo;Para o caso de eu ter errado.&rdquo;<\/em><\/p>\n<hr>\n<p>A cozinha ficou em sil\u00eancio por um tempo muito longo.<\/p>\n<p>\u2014 Para o caso de ele ter errado \u2014 repetiu Seiya, devagar.<\/p>\n<p>\u2014 Foi isso que ele disse.<\/p>\n<p>\u2014 Seika, isso n\u00e3o \u00e9 coisa que um carrasco fala.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 coisa que algu\u00e9m fala quando fez uma coisa dif\u00edcil e n\u00e3o tem certeza se fez certo.<\/p>\n<p>E, no meio daquela cozinha pequena de Rodorio, os dois irm\u00e3os olharam um para o outro com a mesma pergunta na cara \u2014 a mesma pergunta que o Shiryu tinha feito na pedra de Rozan, do outro lado do mundo:<\/p>\n<p><strong>E se n\u00e3o foi castigo?<\/strong><\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 7 \u2014 A chuva no templo<\/h2>\n<p>Naquela noite caiu um temporal em Rodorio.<\/p>\n<p>E o Seiya, que deveria estar de cama, saiu de casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o por teimosia. N\u00e3o por raiva.<\/p>\n<p>Ele saiu porque a irm\u00e3 tinha contado tudo \u2014 tudo mesmo, at\u00e9 o fim \u2014 e ele tinha escutado cada palavra, e tinha acreditado em cada palavra.<\/p>\n<p>E n\u00e3o tinha sentido <strong>nada<\/strong>.<\/p>\n<p>Nenhuma lembran\u00e7a. Nenhum rosto. Nenhum nome voltando.<\/p>\n<p>S\u00f3 fatos, entrando por um ouvido e ficando ali, soltos, sem grudar em lugar nenhum.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele subiu a estrada embaixo da chuva, mancando, at\u00e9 o lugar onde ele trabalhava todo santo dia havia um ano: o templo em ru\u00ednas nos arredores da vila.<\/p>\n<p>Um monte de pedra ca\u00edda, coberto de mato, que ele vinha limpando e assentando, pedra por pedra, por um sal\u00e1rio miser\u00e1vel, sem nunca ter perguntado a si mesmo por que diabos ele tinha escolhido justo aquele trabalho.<\/p>\n<p>Ele chegou l\u00e1 encharcado, olhou para aquele monte de escombro e gritou com ele:<\/p>\n<p>\u2014 <strong>POR QUE EU ESTOU AQUI?!<\/strong><\/p>\n<p>A chuva respondeu com chuva.<\/p>\n<p>E o Seiya come\u00e7ou a arrancar pedra.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 8 \u2014 A pedra que n\u00e3o era pedra<\/h2>\n<p>Ele arrancou com raiva. Com as m\u00e3os, sem ferramenta, na chuva, com a perna sangrando de novo por baixo da atadura.<\/p>\n<p>Jogou pedra para tr\u00e1s. Virou bloco. Afundou na lama at\u00e9 os joelhos.<\/p>\n<p>E foi fundo demais para um homem machucado \u2014 fundo demais at\u00e9 para um homem inteiro.<\/p>\n<p>E, l\u00e1 embaixo, uns dois metros abaixo do ch\u00e3o onde ele pisava todo dia, a m\u00e3o dele bateu numa coisa que n\u00e3o era pedra.<\/p>\n<p>Era frio. Era liso. Era <strong>metal<\/strong>.<\/p>\n<p>Seiya parou.<\/p>\n<p>Cavou em volta com as duas m\u00e3os, r\u00e1pido, com o cora\u00e7\u00e3o disparado sem licen\u00e7a.<\/p>\n<p>E apareceu uma caixa.<\/p>\n<p>Uma caixa de metal escuro, grande, com o desenho de um <strong>cavalo com asas<\/strong> gravado na tampa.<\/p>\n<p>O Seiya ficou de joelhos na lama olhando para aquele desenho debaixo do temporal.<\/p>\n<p>E o desenho era exatamente \u2014 exatamente \u2014 o mesmo que tinha se acendido sozinho na pele dele, na pra\u00e7a de Rodorio, semanas antes.<\/p>\n<p>\u2014 Eu estou cavando voc\u00ea faz um ano \u2014 ele sussurrou. \u2014 Todo dia. Eu passei por cima de voc\u00ea todo dia.<\/p>\n<p>Ele p\u00f4s as duas m\u00e3os na tampa.<\/p>\n<p>E abriu.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 9 \u2014 P\u00e9gaso<\/h2>\n<p>A luz que saiu daquela caixa subiu reta no meio da chuva, e dava para ver de Rodorio inteira.<\/p>\n<p>L\u00e1 de dentro saiu uma armadura.<\/p>\n<p>N\u00e3o dourada: branca e prateada, surrada, remendada, com marca de golpe em todo canto \u2014 uma armadura que tinha apanhado muito e nunca tinha sido trocada por outra.<\/p>\n<p>E ela n\u00e3o esperou o Seiya chamar.<\/p>\n<p>Ela se <strong>desmontou no ar<\/strong> e voou em cima dele.<\/p>\n<p>Peito, ombros, bra\u00e7os, pernas, e por \u00faltimo o elmo \u2014 cada pe\u00e7a encontrando o lugar que j\u00e1 conhecia, com um estalo seco, como quem veste uma roupa que estava guardada.<\/p>\n<p>E, no instante em que a \u00faltima pe\u00e7a fechou, veio tudo.<\/p>\n<p>Veio o orfanato. Veio a irm\u00e3 na esta\u00e7\u00e3o. Veio a Ilha de Andr\u00f4meda, o Marin de \u00c1guia, o deserto, o treino, o sangue, a armadura ganha no soco.<\/p>\n<p>Veio um coliseu. Veio uma flecha dourada parada no ar. Veio uma escadaria de doze casas e doze homens de ouro.<\/p>\n<p>Veio um fundo de mar. Veio um inferno. Veio um jardim branco cheio de flores que n\u00e3o morriam.<\/p>\n<p>E veio uma menina de cabelo roxo, de bra\u00e7os abertos na frente dele, levando o golpe que era para ele.<\/p>\n<p>E veio o nome dela.<\/p>\n<p>O verdadeiro.<\/p>\n<p>O Seiya levantou-se no meio da lama, com a armadura de P\u00e9gaso brilhando debaixo do temporal, e disse em voz alta a palavra que estava trancada havia um ano:<\/p>\n<p>\u2014 <strong>ATENA.<\/strong><\/p>\n<p>E ent\u00e3o, porque ele \u00e9 o Seiya e porque o corpo dele nunca soube esperar a cabe\u00e7a, ele girou o punho fechado tr\u00eas vezes no ar e gritou para o c\u00e9u da Gr\u00e9cia:<\/p>\n<p>\u2014 <strong>METEORO DE P\u00c9GASO!<\/strong><\/p>\n<p>Cem socos sa\u00edram ao mesmo tempo da m\u00e3o direita dele.<\/p>\n<p>Cem riscos de luz subiram pela chuva, furaram as nuvens do temporal e abriram um buraco redondo no c\u00e9u \u2014 e, por alguns segundos, no meio da tempestade, deu para ver as estrelas.<\/p>\n<p>Em Rodorio inteira, as pessoas sa\u00edram na porta de casa olhando para cima.<\/p>\n<p>E, na janela da cozinha, a Seika p\u00f4s a m\u00e3o na boca e disse, chorando e rindo ao mesmo tempo:<\/p>\n<p>\u2014 Cinco.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 10 \u2014 Os cinco<\/h2>\n<p>Eles chegaram antes do amanhecer.<\/p>\n<p>Shiryu, com o escudo nas costas. Shun, com as correntes enroladas nos bra\u00e7os. Ikki, de bra\u00e7os cruzados, dizendo que tinha vindo s\u00f3 porque estava no caminho.<\/p>\n<p>E um rapaz loiro de olhos muito azuis que tinha vindo da Sib\u00e9ria sozinho e chegou por \u00faltimo, encharcado, resmungando que a Gr\u00e9cia era quente demais.<\/p>\n<p>Os cinco se olharam no meio das ru\u00ednas, debaixo da chuva que estava parando.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m disse nada por um tempo, porque n\u00e3o tinha o que dizer.<\/p>\n<p>Foi o Seiya quem quebrou o sil\u00eancio, e ele quebrou do jeito dele:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas demoraram.<\/p>\n<p>\u2014 Eu subi uma montanha \u2014 disse Shiryu.<\/p>\n<p>\u2014 Eu desci num navio afundado \u2014 disse Hyoga.<\/p>\n<p>\u2014 Eu apanhei do meu irm\u00e3o \u2014 disse Shun.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o pedi desculpa e n\u00e3o vou pedir \u2014 disse Ikki.<\/p>\n<p>E o Seiya riu. Riu alto, do jeito que ele ri, que \u00e9 um jeito meio irritante e que naquele momento foi a coisa mais bonita do mundo.<\/p>\n<p>Depois parou de rir.<\/p>\n<p>\u2014 Ela est\u00e1 com algu\u00e9m \u2014 ele disse. \u2014 Eu sei que est\u00e1. Eu sinto daqui.<\/p>\n<p>\u2014 A gente sabe \u2014 respondeu Shiryu. \u2014 E tem mais: a gente sabe <strong>quem<\/strong>.<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>E o Shun, que tinha passado a noite anterior conversando com o velho da vila, respondeu baixinho:<\/p>\n<p>\u2014 Uma deusa mais velha que o Olimpo. Que n\u00e3o luta com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 E luta com o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Shun olhou para os outros quatro.<\/p>\n<p>\u2014 Com cochicho.<\/p>\n<hr>\n<p>E, muito abaixo de tudo, num trono de pedra quebrada, Ker fechou os olhos e sorriu de orelha a orelha.<\/p>\n<p>\u2014 <strong>Cinco.<\/strong><\/p>\n<p>Ela se levantou, esticou os bra\u00e7os como quem acorda de uma soneca gostosa e disse, para o escuro:<\/p>\n<p>\u2014 Agora sim. Agora pode come\u00e7ar.<\/p>\n<hr>\n<h2>O Fim do Epis\u00f3dio 10<\/h2>\n<h3>A li\u00e7\u00e3o desta noite<\/h3>\n<p>Essa noite tem uma hero\u00edna, e ela nunca deu um soco.<\/p>\n<p>Pensa no que a Seika fez.<\/p>\n<p>Ela foi a \u00fanica pessoa do mundo que n\u00e3o esqueceu. Podia ter sido a vantagem dela \u2014 e virou a pior solid\u00e3o que existe: ela sabia tudo e n\u00e3o podia contar para ningu\u00e9m, porque, quando contava, o irm\u00e3o dela adoecia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela escolheu ficar calada.<\/p>\n<p>Um ano inteiro.<\/p>\n<p>Fazendo caf\u00e9, pagando conta, trocando curativo, ouvindo o irm\u00e3o perguntar &ldquo;por que voc\u00ea nunca me conta nada?&rdquo; \u2014 e engolindo a resposta toda vez, porque dizer a verdade ia machucar ele.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m aplaudiu. Ningu\u00e9m viu. Ningu\u00e9m soube.<\/p>\n<p>Nas hist\u00f3rias, a gente costuma achar que her\u00f3i \u00e9 quem brilha: quem veste armadura, quem grita o nome do golpe, quem aparece na hora boa.<\/p>\n<p>Mas tem um outro tipo de her\u00f3i, e esse tipo quase nunca aparece na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 quem segura a barra em sil\u00eancio para que a pessoa amada n\u00e3o sofra.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a m\u00e3e que n\u00e3o conta que est\u00e1 cansada. \u00c9 o pai que resolve o problema sozinho para n\u00e3o assustar ningu\u00e9m. \u00c9 o irm\u00e3o mais velho que diz &ldquo;est\u00e1 tudo bem&rdquo; quando n\u00e3o est\u00e1.<\/p>\n<p>Essa gente n\u00e3o tem armadura, n\u00e3o tem golpe e n\u00e3o tem nome de constela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, sem ela, nenhum dos cinco cavaleiros teria chegado vivo at\u00e9 o epis\u00f3dio de hoje.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se voc\u00ea conhece algu\u00e9m assim \u2014 e voc\u00ea conhece \u2014, hoje \u00e9 um bom dia para agradecer.<\/p>\n<p><em>Fim do Epis\u00f3dio 10. A aventura continua.<\/em><\/p>\n<hr>\n<p><em>Boa noite, pequeno guerreiro. Amanh\u00e3: a Atena acorda. E, no segundo em que ela acordar, o c\u00e9u inteiro vai olhar para baixo.<\/em><\/p>\n<aside class=\"sdc-note sdc-note-imagined\"><strong>Nota ao final do epis\u00f3dio<\/strong><\/p>\n<p>Na organiza\u00e7\u00e3o desta cole\u00e7\u00e3o de f\u00e3, os epis\u00f3dios 1 a 6 s\u00e3o apresentados como adapta\u00e7\u00e3o das fases publicadas. Este epis\u00f3dio faz parte de uma continua\u00e7\u00e3o imaginada de f\u00e3, preparada por Rafael com aux\u00edlio de IA.<\/p>\n<\/aside>\n<p class=\"sdc-credits\"><strong>14+ \u00b7 Indica\u00e7\u00e3o editorial deste site.<\/strong> Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, viol\u00eancia e morte em contexto ficcional. N\u00e3o \u00e9 classifica\u00e7\u00e3o oficial.<\/p>\n<p class=\"sdc-credits\">Obra original: <cite>Saint Seiya<\/cite>, de Masami Kurumada. Adapta\u00e7\u00e3o e continua\u00e7\u00e3o narrativa de f\u00e3 preparadas por Rafael com aux\u00edlio de intelig\u00eancia artificial. Projeto independente, sem v\u00ednculo oficial com os titulares da obra.<\/p>\n<nav class=\"sdc-nav\" aria-label=\"Navega\u00e7\u00e3o entre epis\u00f3dios\"><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-09\/\">\u2190 Epis\u00f3dio 9<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/\">Todos os epis\u00f3dios<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-11\/\">Epis\u00f3dio 11 \u2192<\/a><\/nav>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passado Presente Futuro \u00b7 Saga dos C\u00e9us Epis\u00f3dio 10: A Pessoa que Lembrava \u2190 Epis\u00f3dio 9Todos os epis\u00f3diosEpis\u00f3dio 11 \u2192 Cap\u00edtulo 1 \u2014 A briga na porta de casa A briga daquela manh\u00e3 foi a pior de todas. \u2014 Eu vou procurar ela, Seika. \u2014 Voc\u00ea n\u00e3o vai a lugar nenhum com essa perna. \u2014&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":4000,"menu_order":10,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_kad_blocks_custom_css":"","_kad_blocks_head_custom_js":"","_kad_blocks_body_custom_js":"","_kad_blocks_footer_custom_js":"","_kadence_starter_templates_imported_post":false,"_kad_post_transparent":"","_kad_post_title":"hide","_kad_post_layout":"fullwidth","_kad_post_sidebar_id":"","_kad_post_content_style":"unboxed","_kad_post_vertical_padding":"","_kad_post_feature":"","_kad_post_feature_position":"","_kad_post_header":false,"_kad_post_footer":false,"_kad_post_classname":"","footnotes":""},"class_list":["post-4010","page","type-page","status-publish","hentry"],"taxonomy_info":[],"featured_image_src_large":false,"author_info":{"display_name":"Rafael Vinicius Otsuzi","author_link":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/author\/dr-rafael-otsuzi\/"},"comment_info":0,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4010"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4032,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4010\/revisions\/4032"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}