{"id":4021,"date":"2026-11-01T08:10:12","date_gmt":"2026-11-01T11:10:12","guid":{"rendered":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-21\/"},"modified":"2026-11-01T08:10:12","modified_gmt":"2026-11-01T11:10:12","slug":"episodio-21","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-21\/","title":{"rendered":"Epis\u00f3dio 21: A Flor que Levou Duzentos Anos"},"content":{"rendered":"<style>\n.sdc-wrap{--ink:#18252d;--muted:#5b6570;--gold:#b88730;--green:#116458;--paper:#fbfaf6;color:var(--ink);font:18px\/1.78 Georgia,serif;max-width:820px;margin:0 auto;padding:10px 0 48px}.sdc-wrap *{box-sizing:border-box}.sdc-wrap h1,.sdc-wrap h2,.sdc-wrap h3{line-height:1.23;color:#14222a}.sdc-wrap h1{font-size:clamp(34px,6vw,54px);letter-spacing:-.035em;margin:.25em 0 .55em}.sdc-wrap h2{font-size:clamp(25px,4vw,33px);margin:2.2em 0 .7em}.sdc-wrap h3{font-size:22px;margin:1.8em 0 .55em}.sdc-eyebrow,.sdc-meta,.sdc-nav,.sdc-note,.sdc-card small,.sdc-credits{font-family:system-ui,sans-serif}.sdc-eyebrow{font-size:12px;font-weight:700;letter-spacing:.13em;text-transform:uppercase;color:#80652f}.sdc-hero{width:100%;aspect-ratio:16\/9;object-fit:cover;border-radius:14px;margin:18px 0 24px;background:#0c332f}.sdc-lead{font-size:21px;line-height:1.65}.sdc-note{border-left:5px solid var(--gold);background:#f3ecdc;padding:17px 20px;margin:26px 0;font-size:15px;line-height:1.58}.sdc-note p{margin:.4em 0}.sdc-note-imagined{border-color:var(--green);background:#e8f1ed}.sdc-credits{font-size:14px;line-height:1.6;color:var(--muted);margin:26px 0}.sdc-nav{display:flex;justify-content:space-between;gap:12px;flex-wrap:wrap;border-top:1px solid #d8d3c7;border-bottom:1px solid #d8d3c7;padding:15px 0;margin:28px 0;font-size:15px}.sdc-nav a{font-weight:650}.sdc-grid{display:grid;grid-template-columns:repeat(auto-fit,minmax(235px,1fr));gap:13px;padding:0;list-style:none}.sdc-card{display:block;height:100%;padding:16px 18px;border:1px solid #ddd6c8;border-radius:10px;background:#fff;text-decoration:none!important;box-shadow:0 3px 12px rgba(22,34,42,.04)}.sdc-card:hover{border-color:var(--gold);transform:translateY(-1px)}.sdc-card small{display:block;color:var(--green);font-size:11px;font-weight:800;letter-spacing:.1em;margin-bottom:4px}.sdc-card strong{color:#192b31}.sdc-divider{border:0;border-top:1px solid #d8d3c7;margin:42px auto;width:100px}.sdc-wrap blockquote{border-left:4px solid #c8b17b;margin:1.5em 0;padding:.25em 0 .25em 1.2em;color:#3f4b52}.sdc-wrap hr{border:0;border-top:1px solid #d8d3c7;margin:38px auto;width:90px}.sdc-wrap p{overflow-wrap:break-word}.sdc-kicker{display:inline-block;border:1px solid #bcd1ca;border-radius:999px;padding:5px 11px;color:var(--green);font:700 12px\/1.2 system-ui,sans-serif;letter-spacing:.04em}.sdc-wrap a{color:#165c75;text-underline-offset:3px}@media(max-width:520px){.sdc-wrap{font-size:18px}.sdc-nav a{width:100%}.sdc-hero{border-radius:8px}}\n.sdc-episode-hero{width:100%;aspect-ratio:16\/9;object-fit:cover;border-radius:14px;margin:20px 0 10px;background:#0c332f}.sdc-card{padding:0;overflow:hidden}.sdc-card img{display:block;width:100%;aspect-ratio:16\/9;object-fit:cover}.sdc-card span{display:block;padding:13px 16px 16px}@media(max-width:520px){.sdc-episode-hero{border-radius:8px}}\n<\/style>\n<article class=\"sdc-wrap\">\n<p class=\"sdc-eyebrow\">Passado Presente Futuro \u00b7 Saga dos C\u00e9us<\/p>\n<h1>Epis\u00f3dio 21: A Flor que Levou Duzentos Anos<\/h1>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"sdc-episode-hero\" src=\"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/saga-dos-ceus-episodio-21.webp\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio 21: A Flor que Levou Duzentos Anos\"><\/p>\n<nav class=\"sdc-nav\" aria-label=\"Navega\u00e7\u00e3o entre epis\u00f3dios\"><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-20\/\">\u2190 Epis\u00f3dio 20<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/\">Todos os epis\u00f3dios<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/\">Voltar ao \u00edndice \u2192<\/a><\/nav>\n<h2>Cap\u00edtulo 1 \u2014 &ldquo;Agora eu queria pedir eu&rdquo;<\/h2>\n<p>A linha branca continuou andando no mar.<\/p>\n<p>E, na pra\u00e7a de Rodorio, o imperador dos c\u00e9us ficou olhando para um homenzinho descal\u00e7o com um bast\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o devia estar aqui \u2014 disse Zeus.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Eu te tranquei.<\/p>\n<p>\u2014 Trancou. \u2014 Ascl\u00e9pio deu de ombros. \u2014 E escreveu uma sa\u00edda na senten\u00e7a. O senhor lembra qual era?<\/p>\n<p>Zeus n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 <em>&ldquo;Ou at\u00e9 que algu\u00e9m des\u00e7a e pe\u00e7a por ele.&rdquo;<\/em> \u2014 Ascl\u00e9pio apontou o bast\u00e3o para os cinco rapazes sujos de poeira. \u2014 Esses cinco desceram dezoito dias de escada e pagaram nove port\u00f5es com as lembran\u00e7as deles.<\/p>\n<p>Ele olhou para o Hyoga.<\/p>\n<p>\u2014 Esse aqui deu a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Olhou para o Ikki.<\/p>\n<p>\u2014 Esse aqui deu a noite mais importante da vida dele.<\/p>\n<p>Olhou para o Shun.<\/p>\n<p>\u2014 E esse aqui deu a \u00fanica coisa que provava para ele mesmo que ele n\u00e3o \u00e9 fraco.<\/p>\n<p>Ele voltou os olhos para o av\u00f4.<\/p>\n<p>\u2014 Eles fizeram isso por um velho que eles nunca tinham visto, que mora num buraco, que n\u00e3o ia poder agradecer direito.<\/p>\n<p>Pausa.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor escreveu aquela cl\u00e1usula achando que ningu\u00e9m nunca ia usar. Eu tamb\u00e9m achei, v\u00f4. Eu achei durante quatro mil anos.<\/p>\n<p>Ele deu um passo \u00e0 frente.<\/p>\n<p>\u2014 A gente dois estava errado sobre eles.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 2 \u2014 O \u00fanico que concorda<\/h2>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o muda o julgamento \u2014 disse Zeus.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei que n\u00e3o. \u2014 Ascl\u00e9pio continuou andando devagar na dire\u00e7\u00e3o dele. \u2014 Eu n\u00e3o vim mudar julgamento. Eu vim dizer uma coisa que s\u00f3 eu no universo inteiro posso dizer.<\/p>\n<p>\u2014 E o que \u00e9?<\/p>\n<p>E o Ascl\u00e9pio, filho do Apolo, neto do Zeus, preso num po\u00e7o por quatro mil anos por ter trazido um homem de volta da morte, parou na frente do av\u00f4 e disse:<\/p>\n<p>\u2014 <strong>O senhor estava certo.<\/strong><\/p>\n<p>A pra\u00e7a inteira ficou em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A Atena virou o rosto de uma vez.<\/p>\n<p>\u2014 &hellip;Como? \u2014 disse Zeus.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor estava certo sobre mim. \u2014 Ascl\u00e9pio falou com uma calma total. \u2014 Eu trouxe um homem de volta num estalo de dedo, v\u00f4. Num instante. Sem pensar no depois, sem perguntar a ningu\u00e9m, sem nenhuma regra, porque eu podia.<\/p>\n<p>Ele bateu o bast\u00e3o no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E, se eu tivesse continuado, eu teria virado uma coisa horr\u00edvel. Eu teria decidido quem vive e quem morre, e eu teria decidido com o cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o pior juiz que existe, e eu teria estragado o mundo achando que estava ajudando.<\/p>\n<p>Ele olhou para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu levei uns oitocentos anos l\u00e1 embaixo para entender isso. E eu entendi.<\/p>\n<p>Ele ergueu os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor estava certo sobre o perigo, e errado s\u00f3 sobre uma coisinha: o senhor devia ter me chamado para conversar em vez de descer um raio.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 3 \u2014 A frase<\/h2>\n<p>Zeus ficou olhando para o neto.<\/p>\n<p>E, pela primeira vez naquela tarde, alguma coisa no rosto dele mudou.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m nunca me disse isso.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Que eu estava certo. \u2014 A voz dele saiu estranha. \u2014 Eles me obedecem. Eles me temem. Eles me xingam escondido. Ningu\u00e9m nunca chegou na minha frente e disse &ldquo;o senhor estava certo&rdquo;.<\/p>\n<p>\u2014 Porque o senhor nunca deu espa\u00e7o para ningu\u00e9m dizer que o senhor est\u00e1 errado \u2014 disse Ascl\u00e9pio. \u2014 Quando n\u00e3o cabe o &ldquo;errado&rdquo;, o &ldquo;certo&rdquo; tamb\u00e9m n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>Ele apoiou as duas m\u00e3os no bast\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E agora eu vou usar o espa\u00e7o que eu acabei de comprar, e o senhor vai me escutar, porque eu sou a \u00fanica pessoa no universo que concorda com o senhor sobre o motivo de eu estar preso.<\/p>\n<p>Zeus n\u00e3o falou nada.<\/p>\n<p>E o Ascl\u00e9pio disse:<\/p>\n<p>\u2014 <strong>O senhor me castigou por tentar consertar uma coisa r\u00e1pido demais.<\/strong><\/p>\n<p>Ele parou.<\/p>\n<p>\u2014 E agora o senhor quer apagar um mundo inteiro porque ele est\u00e1 demorando.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 4 \u2014 &ldquo;Mostre&rdquo;<\/h2>\n<p>O sil\u00eancio depois daquilo durou muito tempo.<\/p>\n<p>A linha branca continuou andando no mar, longe, sem pressa.<\/p>\n<p>E o Zeus \u2014 que \u00e9 muitas coisas ruins mas que, acima de tudo, \u00e9 um juiz \u2014 fez uma coisa que ningu\u00e9m esperava.<\/p>\n<p>Ele baixou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o desfez a linha. S\u00f3 baixou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>E disse:<\/p>\n<p>\u2014 Fale, Atena.<\/p>\n<p>A Atena deu um passo \u00e0 frente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. \u2014 Zeus levantou um dedo. \u2014 Chega de falar. Voc\u00ea falou a tarde inteira e eu j\u00e1 respondi tudo.<\/p>\n<p>Ele olhou para ela.<\/p>\n<p>\u2014 <strong>Mostre.<\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Mostrar o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Qualquer coisa. \u2014 Ele abriu as m\u00e3os. \u2014 Uma coisa s\u00f3. Eu olhei para essa esp\u00e9cie do alto por tr\u00eas mil anos e eu vi tudo que tinha para ver.<\/p>\n<p>Ele apontou para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea mora aqui embaixo faz um ano. Me mostra uma coisa que eu n\u00e3o vi.<\/p>\n<p>E a Atena de Rodorio, com a armadura dourada suja de poeira, virou a cabe\u00e7a e chamou:<\/p>\n<p>\u2014 Shun.<\/p>\n<p>\u2014 Oi.<\/p>\n<p>\u2014 Vai buscar uma flor.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 5 \u2014 O menino que colhe<\/h2>\n<p>O Shun atravessou a pra\u00e7a correndo.<\/p>\n<p>Foi at\u00e9 a estufa quebrada \u2014 sem teto, sem metade dos vidros, com os vasos todos virados desde a briga com o irm\u00e3o \u2014 e foi at\u00e9 o canteiro do fundo.<\/p>\n<p>Ajoelhou.<\/p>\n<p>Estendeu a m\u00e3o.<\/p>\n<p>E a flor abriu para ele, como sempre abre, porque \u00e9 a \u00fanica m\u00e3o no mundo para a qual elas abrem.<\/p>\n<p>Ele voltou correndo e entregou para a Atena.<\/p>\n<p>E a Atena levou a flor at\u00e9 o imperador dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isso \u2014 ela disse.<\/p>\n<p>Zeus olhou para a flor na m\u00e3o dela.<\/p>\n<p>Depois olhou para ela.<\/p>\n<p>\u2014 Uma flor.<\/p>\n<p>\u2014 Uma flor.<\/p>\n<p>\u2014 Filha, eu estou prestes a encerrar uma esp\u00e9cie, e voc\u00ea est\u00e1 me mostrando uma flor.<\/p>\n<p>\u2014 Estou.<\/p>\n<p>\u2014 &hellip;Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>E a Atena respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Porque o senhor nunca ouviu a hist\u00f3ria dela.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 6 \u2014 Duzentos anos<\/h2>\n<p>\u2014 H\u00e1 duzentos anos \u2014 come\u00e7ou a Atena \u2014 existia um jardim nos arredores de Floren\u00e7a.<\/p>\n<p>Zeus continuou olhando para a flor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era um jardim comum. As flores dele n\u00e3o morriam. O povo da regi\u00e3o dizia que aquele peda\u00e7o de terra n\u00e3o pertencia direito a este mundo.<\/p>\n<p>Ela girou o caule devagar entre os dedos.<\/p>\n<p>\u2014 Tinha um rapaz que ia l\u00e1 todo dia. Um estudante de pintura. Ele colhia aquelas flores porque as cores delas serviam de tinta, e dizem que n\u00e3o existia tinta igual em lugar nenhum da Europa.<\/p>\n<p>Ela fez uma pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Esse rapaz sumiu. Virou outra coisa, numa guerra que o senhor conhece bem. E, a partir do dia em que ele sumiu, o jardim come\u00e7ou a morrer.<\/p>\n<p>Ela ergueu os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Virou deserto. Hoje \u00e9 um campo de cinzas onde n\u00e3o nasce nada. Os meus cavaleiros estiveram l\u00e1 na semana passada.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei \u2014 disse Zeus. \u2014 Eu vi daqui de cima.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o senhor viu o deserto.<\/p>\n<p>\u2014 Vi.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o senhor n\u00e3o viu o que sobrou.<\/p>\n<p>Ela segurou a flor um pouco mais alto.<\/p>\n<p>\u2014 Sobrou <strong>uma<\/strong>. Uma florzinha teimosa, sozinha, no meio de todo aquele nada.<\/p>\n<p>\u2014 E?<\/p>\n<p>\u2014 E uma menina passou por ali.<\/p>\n<p>A Atena falou mais devagar.<\/p>\n<p>\u2014 Ela n\u00e3o era ningu\u00e9m importante. Era uma menina. Ela viu aquela florzinha sozinha no seco, achou bonita, e colheu.<\/p>\n<p>\u2014 E depois?<\/p>\n<p>\u2014 E depois ela perdeu. Ou soltou, ou o vento levou \u2014 a hist\u00f3ria muda conforme quem conta. \u2014 A Atena deu de ombros. \u2014 O que todas as vers\u00f5es dizem \u00e9 a mesma coisa: o vento carregou aquela flor por cima do mar.<\/p>\n<p>Ela apontou para o ch\u00e3o da pra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 E ela veio parar <strong>aqui<\/strong>.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 7 \u2014 O que uma flor fez sozinha<\/h2>\n<p>\u2014 Nesta vila \u2014 continuou a Atena. \u2014 Duzentos anos atr\u00e1s. Num peda\u00e7o de terra seca, atr\u00e1s de onde hoje tem uma estufa quebrada.<\/p>\n<p>Ela olhou para a flor.<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m plantou ela. Ningu\u00e9m regou. Ningu\u00e9m sabia que ela existia. Nenhum deus mandou, nenhum cavaleiro protegeu, ningu\u00e9m escreveu isso em livro nenhum.<\/p>\n<p>Ela ergueu o rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Ela s\u00f3 ficou l\u00e1. E foi trabalhando.<\/p>\n<p>Ela apontou para o fundo da vila.<\/p>\n<p>\u2014 Duzentos anos depois, aquele peda\u00e7o de ch\u00e3o \u00e9 o \u00fanico lugar de Rodorio onde tudo cresce. Nunca d\u00e1 praga. As flores duram mais que as dos outros. A vila inteira come do que sai dali e ningu\u00e9m sabe por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Ela baixou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Uma flor, v\u00f4. Uma s\u00f3. Levou duzentos anos para transformar um peda\u00e7o de nada num lugar bom.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o a Atena disse a frase pela qual ela tinha esperado a tarde inteira:<\/p>\n<p>\u2014 <strong>Os deuses julgam num instante. Os humanos consertam em duzentos anos.<\/strong><\/p>\n<p>Ela olhou nos olhos dele.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor est\u00e1 olhando para a Terra e vendo o que ela \u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu estou pedindo que o senhor olhe para o que ela est\u00e1 virando.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 8 \u2014 &ldquo;Uma flor n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie&rdquo;<\/h2>\n<p>Zeus ficou muito tempo calado.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o disse, com honestidade:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um argumento bonito. Mas \u00e9 s\u00f3 isso.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim?<\/p>\n<p>\u2014 Uma flor n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie, filha. \u2014 Ele balan\u00e7ou a cabe\u00e7a. \u2014 Voc\u00ea me contou a hist\u00f3ria de um acidente. Uma semente foi parar num lugar bom e deu certo. Isso n\u00e3o prova nada sobre eles.<\/p>\n<p>Ele apontou para a vila.<\/p>\n<p>\u2014 Eu continuo vendo guerra, gan\u00e2ncia e gente se matando por bobagem. Uma florzinha n\u00e3o apaga isso.<\/p>\n<p>E a Atena respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Zeus franziu a testa.<\/p>\n<p>\u2014 Uma flor n\u00e3o prova nada \u2014 ela continuou. \u2014 Eu nunca disse que provava.<\/p>\n<p>Ela se virou e come\u00e7ou a andar pela pra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 A flor n\u00e3o \u00e9 a prova, v\u00f4. A flor \u00e9 s\u00f3 a <strong>forma<\/strong>.<\/p>\n<p>\u2014 Forma de qu\u00ea?<\/p>\n<p>Ela parou no meio da pra\u00e7a e apontou para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Chega mais perto.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 9 \u2014 O banquinho<\/h2>\n<p>Zeus andou at\u00e9 onde ela estava.<\/p>\n<p>E ela apontou para uma pilha de coisas no ch\u00e3o de pedra, ao lado de onde ela tinha ficado de p\u00e9 por tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Um banquinho de madeira. Um pote de \u00e1gua. Um cobertor dobrado. Tr\u00eas p\u00e3es. Uma caneca. E um papel com um desenho.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 isso? \u2014 perguntou Zeus.<\/p>\n<p>\u2014 Isso apareceu sozinho nos \u00faltimos tr\u00eas dias \u2014 disse a Atena. \u2014 Enquanto eu estava aqui esperando o senhor descer para acabar com o mundo.<\/p>\n<p>Ela ajoelhou e pegou o banquinho.<\/p>\n<p>\u2014 Esse aqui \u00e9 do padeiro. Ele atravessou a pra\u00e7a inteira, p\u00f4s isso no ch\u00e3o, disse &ldquo;caso a senhora queira sentar&rdquo; e foi embora.<\/p>\n<p>Pegou o pote.<\/p>\n<p>\u2014 Esse \u00e9 da mulher do mercado. Ela nem falou nada.<\/p>\n<p>Pegou o cobertor.<\/p>\n<p>\u2014 Esse \u00e9 do velho que conta hist\u00f3rias. Ele dobrou e deixou aqui.<\/p>\n<p>E, por \u00faltimo, pegou o papel.<\/p>\n<p>\u2014 E esse aqui \u00e9 de uma menina de cinco anos que atravessou a pra\u00e7a correndo, entregou na minha m\u00e3o e saiu sem olhar para a minha cara, de tanta vergonha.<\/p>\n<p>Ela virou o desenho para o imperador dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>Era um rabisco. Uma mo\u00e7a amarela com uma coisa comprida na m\u00e3o, que devia ser a lan\u00e7a, de p\u00e9 ao lado de uma casa. No canto, um sol com \u00f3culos escuros.<\/p>\n<p>Zeus olhou para aquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Eles sabiam o que ia acontecer hoje \u2014 disse a Atena. \u2014 A vila inteira sabia. O c\u00e9u est\u00e1 rachado h\u00e1 tr\u00eas dias, v\u00f4. Eles n\u00e3o s\u00e3o burros.<\/p>\n<p>Ela segurou o desenho com as duas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 E, sabendo disso, com o mundo acabando, o que eles fizeram foi trazer um banquinho para uma mo\u00e7a cansada que estava de p\u00e9 no sol.<\/p>\n<p>Ela olhou para ele.<\/p>\n<p>\u2014 <strong>\u00c9 disso que \u00e9 feita a flor.<\/strong><\/p>\n<p>Ela apontou para a estufa.<\/p>\n<p>\u2014 Duzentos anos daquilo ali, um pote de \u00e1gua por vez, numa terra seca, \u00e9 o que vira um lugar bom.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o ela disse a \u00faltima coisa:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor v\u00ea de muito longe, v\u00f4. Daquela altura, a gente parece mesmo um formigueiro que briga.<\/p>\n<p>Ela p\u00f4s o desenho na m\u00e3o dele.<\/p>\n<p>\u2014 Dessa altura aqui, a gente \u00e9 isso.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 10 \u2014 A m\u00e3o desce<\/h2>\n<p>O imperador dos c\u00e9us ficou de p\u00e9 no meio da pra\u00e7a de Rodorio com um desenho de crian\u00e7a na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele olhou para o papel por um tempo muito longo.<\/p>\n<p>Depois olhou para o banquinho.<\/p>\n<p>Depois para o filho ajoelhado no ch\u00e3o, tremendo de frio pela primeira vez na exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois para o neto descal\u00e7o com uma cobra enrolada num bast\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois para cinco rapazes machucados, em p\u00e9, entre ele e uma vila.<\/p>\n<p>E depois \u2014 e isso durou s\u00f3 um instante, e s\u00f3 a Seika viu, porque ela estava na porta de casa e porque ela \u00e9 o tipo de pessoa que repara \u2014 o rosto dele ficou <strong>velho<\/strong>.<\/p>\n<p>N\u00e3o antigo. Velho mesmo. Cansado de um jeito que n\u00e3o tem conserto.<\/p>\n<p>Zeus levantou a m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>A Atena prendeu a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ele virou a palma para cima e <strong>fechou os dedos<\/strong>.<\/p>\n<p>Longe dali, no horizonte, a linha branca parou de andar.<\/p>\n<p>Ficou parada ali, no meio do mar, por uns dez segundos.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o come\u00e7ou a recuar.<\/p>\n<p>Devagar. Bem devagar. De um jeito que ia levar o resto do dia e a noite inteira para o cinza virar azul de novo.<\/p>\n<p>Porque nesta hist\u00f3ria nada \u00e9 instant\u00e2neo, e isso \u00e9 o ponto inteiro dela.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 11 \u2014 A senten\u00e7a<\/h2>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o \u00e9 perd\u00e3o \u2014 disse Zeus.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o estou dizendo que voc\u00ea me convenceu, filha.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei disso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Eu estou dizendo que voc\u00ea me deu uma d\u00favida. \u2014 Ele devolveu o desenho para ela. \u2014 E eu n\u00e3o executo senten\u00e7a com d\u00favida. Isso eu aprendi do jeito dif\u00edcil, h\u00e1 quatro mil anos.<\/p>\n<p>Ele olhou para o neto por um instante.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas t\u00eam <strong>prazo<\/strong>.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto?<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o vou dizer.<\/p>\n<p>\u2014 Pai\u2014<\/p>\n<p>\u2014 Se eu disser o n\u00famero, voc\u00eas passam o prazo inteiro contando os dias e fazendo as coisas no \u00faltimo m\u00eas. \u2014 Ele deu de ombros. \u2014 Eu j\u00e1 lidei com gente antes.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a subir.<\/p>\n<p>\u2014 Eu volto. N\u00e3o digo quando. E, quando eu voltar, eu quero ver o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>E, antes de sumir, ele fez a \u00faltima coisa daquele dia.<\/p>\n<p>Olhou para o filho, ainda de joelhos na pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Apolo.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea gosta tanto deles.<\/p>\n<p>Apolo n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o fica.<\/p>\n<p>Zeus subiu mais.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o volta a ser deus. Voc\u00ea fica a\u00ed embaixo, desse tamanho, com esse corpo, sentindo frio e sentindo fome e tendo que dormir todo dia.<\/p>\n<p>Ele parou.<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea olha.<\/p>\n<p>A luz come\u00e7ou a diminuir.<\/p>\n<p>\u2014 Quando eu voltar, eu n\u00e3o vou olhar de cima. Eu vou perguntar para voc\u00ea.<\/p>\n<hr>\n<p>E o c\u00e9u se fechou.<\/p>\n<p>Devagar, como quem fecha a porta de um quarto onde algu\u00e9m est\u00e1 dormindo.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 12 \u2014 O que n\u00e3o volta<\/h2>\n<p>Eles levaram semanas para arrumar as coisas.<\/p>\n<p>E tem uma parte dessa hist\u00f3ria que n\u00e3o teve final feliz, e \u00e9 importante contar essa parte tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>As lembran\u00e7as n\u00e3o voltaram.<\/strong><\/p>\n<p>O Ascl\u00e9pio avisou logo no primeiro dia, para ningu\u00e9m ficar esperando:<\/p>\n<p>\u2014 Eu conserto corpo. Lembran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 ferida.<\/p>\n<p>O Hyoga continuou sem saber o que ele entregou no primeiro port\u00e3o. Ele s\u00f3 sabe que tem um buraco, e que o buraco tem formato de alguma coisa importante.<\/p>\n<p>Mas ele arrumou uma mala e foi para a Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea? \u2014 perguntou o Seiya.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o sei o que eu esqueci \u2014 disse Hyoga, no port\u00e3o. \u2014 Mas o que quer que seja, continua l\u00e1 embaixo.<\/p>\n<p>Ele p\u00f4s a mala no ombro.<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou l\u00e1 olhar de novo.<\/p>\n<hr>\n<p>E o Ikki continuou sem saber por que ele sente uma coisa esquisita quando olha para o irm\u00e3o ca\u00e7ula sentado num degrau.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Shun resolveu isso do jeito dele.<\/p>\n<p>Toda noite, antes de dormir, ele conta a hist\u00f3ria para o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>O orfanato. O sorteio. O papelzinho com o nome da pior ilha de todas. O menino de dez anos indo at\u00e9 a mesa dos adultos e dizendo &ldquo;eu vou no lugar dele&rdquo;. O degrau. O &ldquo;para de chorar&rdquo;. O &ldquo;promete nada, eu s\u00f3 volto&rdquo;.<\/p>\n<p>E, toda noite, o Ikki escuta tudo e n\u00e3o sente nada, porque saber e sentir n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa, e isso a gente aprendeu no epis\u00f3dio nove.<\/p>\n<p>E, toda noite, quando acaba, o Ikki diz a mesma coisa:<\/p>\n<p>\u2014 Conta de novo amanh\u00e3.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 13 \u2014 O que fica<\/h2>\n<p>O Apolo ficou morando em Rodorio.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 p\u00e9ssimo em ser humano. Ele queima a comida, ele n\u00e3o sabe cal\u00e7ar sand\u00e1lia direito e ele ficou tr\u00eas dias com dor nas costas porque ningu\u00e9m explicou para ele que pessoa precisa de travesseiro.<\/p>\n<p>Na primeira semana, ele foi at\u00e9 a casa da Seika, parou na porta e ficou sem jeito.<\/p>\n<p>\u2014 Eu vim pedir desculpa direito.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 era hora.<\/p>\n<p>\u2014 Eu te deixei sozinha com aquilo por um ano.<\/p>\n<p>\u2014 Deixou.<\/p>\n<p>\u2014 E eu n\u00e3o tinha o direito.<\/p>\n<p>E a Seika olhou para aquele homem alto e desajeitado parado na porta da cozinha dela e disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tinha mesmo. \u2014 Ela se afastou da porta. \u2014 Quer caf\u00e9?<\/p>\n<hr>\n<p>E o Ascl\u00e9pio ficou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ele abriu uma sala no fundo da casa da Seika e come\u00e7ou a atender gente da vila. Dor de dente, osso quebrado, febre de crian\u00e7a, tosse de velho.<\/p>\n<p>Nada de ressuscitar ningu\u00e9m. Nunca mais.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? \u2014 perguntou o Seiya, uma vez.<\/p>\n<p>\u2014 Porque meu av\u00f4 estava certo \u2014 disse Ascl\u00e9pio, moendo erva no pil\u00e3o. \u2014 E porque isso aqui \u00e9 mais \u00fatil.<\/p>\n<p>Ele e o pai moram na mesma casa agora.<\/p>\n<p>Depois de quatro mil anos, um m\u00e9dico e um homem comum que j\u00e1 foi deus, dividindo cozinha.<\/p>\n<p>Eles brigam bastante.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3timo.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 14 \u2014 As Doze Casas<\/h2>\n<p>E o Santu\u00e1rio come\u00e7ou a ser reconstru\u00eddo.<\/p>\n<p>N\u00e3o por ex\u00e9rcito, n\u00e3o por magia, n\u00e3o por deus nenhum.<\/p>\n<p>Por gente de Rodorio, com carrinho de m\u00e3o.<\/p>\n<p>O Seiya trabalha l\u00e1 todo dia carregando pedra \u2014 s\u00f3 que agora ele sabe por qu\u00ea, e isso muda tudo. O Shiryu desenha onde cada coluna vai. O Ikki carrega o que tr\u00eas homens carregariam e reclama o tempo todo.<\/p>\n<p>A Casa de \u00c1ries levou quatro meses.<\/p>\n<p>A de Touro, cinco.<\/p>\n<p>Vai demorar anos. Talvez d\u00e9cadas. Talvez eles n\u00e3o vejam a \u00faltima ficar pronta.<\/p>\n<p>Tudo bem.<\/p>\n<p>A Casa de Sagit\u00e1rio foi a primeira a ser terminada, e foi a \u00fanica em que ningu\u00e9m encostou numa parede espec\u00edfica: aquela com quatro linhas tortas riscadas na pedra, com pressa, por um homem que tinha segundos de vida e gastou esses segundos defendendo o homem que ia mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Puseram um teto por cima para a chuva n\u00e3o apagar.<\/p>\n<hr>\n<h2>Cap\u00edtulo 15 \u2014 A \u00faltima cena<\/h2>\n<p>E, numa tarde de primavera, quase um ano depois de tudo isso, o Shun subiu a escadaria do Santu\u00e1rio com uma caixa de madeira nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>As correntes dele continuam quebradas. Ele guardou as duas, penduradas na parede da estufa nova.<\/p>\n<p>\u2014 Um dia eu conserto \u2014 ele disse, quando o irm\u00e3o perguntou.<\/p>\n<p>Mas naquela tarde ele n\u00e3o precisava delas.<\/p>\n<p>Ele parou no meio das ru\u00ednas da Casa de G\u00eameos, que ainda era um monte de pedra ca\u00edda, e p\u00f4s a caixa no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro tinha mudas.<\/p>\n<p>Mudinhas pequenas, de nada, com tr\u00eas folhinhas cada uma, tiradas do canteiro do fundo.<\/p>\n<p>E o Shun de Andr\u00f4meda se ajoelhou no meio dos escombros, abriu um buraquinho na terra com as m\u00e3os e plantou a primeira.<\/p>\n<p>Depois a segunda.<\/p>\n<p>Depois a terceira.<\/p>\n<p>L\u00e1 de baixo, da estrada, o Seiya gritou alguma coisa sobre o jantar.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00c1 VOU! \u2014 respondeu Shun.<\/p>\n<p>E continuou plantando.<\/p>\n<p>Porque em algum lugar l\u00e1 em cima tem um senhor de barba branca que um dia vai voltar, e ningu\u00e9m sabe quando, e quando ele voltar ele vai olhar para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>E, quando ele olhar, o Shun quer que tenha flor.<\/p>\n<hr>\n<h2>O Fim<\/h2>\n<hr>\n<h2>A li\u00e7\u00e3o desta noite \u2014 e de todas as outras<\/h2>\n<p>Essa hist\u00f3ria durou quinze noites, e ela tinha uma ideia s\u00f3 do come\u00e7o ao fim. Agora d\u00e1 para falar ela inteira.<\/p>\n<p>Pensa em tudo que ganhou no final:<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o golpe mais forte. O Meteoro de P\u00e9gaso parou de existir no meio do ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o argumento mais inteligente. A Atena discutiu a tarde inteira com o Zeus e perdeu todas.<\/p>\n<p>Foi uma flor que ningu\u00e9m plantou, um banquinho de madeira e um desenho de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>E foram quatro linhas tortas riscadas numa parede por um homem que ia morrer em cinco minutos e que n\u00e3o assinou o pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p><strong>Tudo que venceu nessa hist\u00f3ria foi uma coisa pequena que algu\u00e9m fez sem saber que ia importar.<\/strong><\/p>\n<p>O Aiolos n\u00e3o ia estar vivo para ver ningu\u00e9m ler. O padeiro s\u00f3 achou que a mo\u00e7a devia estar cansada. A menina de duzentos anos atr\u00e1s s\u00f3 achou a florzinha bonita. A crian\u00e7a de cinco anos fez um desenho e saiu correndo de vergonha.<\/p>\n<p>Nenhum deles estava tentando salvar o mundo.<\/p>\n<p>E foi exatamente isso que salvou.<\/p>\n<hr>\n<p>Voc\u00ea vai crescer ouvindo que, para fazer diferen\u00e7a, voc\u00ea tem que fazer uma coisa enorme. Ser o melhor, ficar famoso, ganhar alguma coisa grande.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria est\u00e1 dizendo outra coisa, e \u00e9 a coisa mais verdadeira que eu sei:<\/p>\n<p><strong>As coisas boas que voc\u00ea faz continuam trabalhando depois que voc\u00ea vai embora.<\/strong><\/p>\n<p>Elas s\u00e3o pequenas e parecem in\u00fateis na hora. Levar \u00e1gua para algu\u00e9m. Ficar do lado de quem est\u00e1 triste. Falar a verdade quando \u00e9 mais f\u00e1cil n\u00e3o falar. Defender quem n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 para se defender.<\/p>\n<p>Elas somem de vista. Ningu\u00e9m agradece. Parece que n\u00e3o deu em nada.<\/p>\n<p>E a\u00ed, duzentos anos depois, aquele peda\u00e7o de ch\u00e3o seco virou o \u00fanico lugar onde tudo cresce \u2014 e ningu\u00e9m da vila sabe por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Os deuses julgam num instante.<\/p>\n<p>Os humanos consertam em duzentos anos.<\/p>\n<p>E vale a pena.<\/p>\n<hr>\n<h2>Uma \u00faltima conversa, agora de verdade<\/h2>\n<p>Matheus, essa parte aqui n\u00e3o \u00e9 da hist\u00f3ria. \u00c9 para voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p>Os epis\u00f3dios 1 a 6 eram de verdade. O senhor japon\u00eas que escreve Cavaleiros do Zod\u00edaco, o Masami Kurumada, desenhou aqueles com a m\u00e3o dele, e a gente leu exatamente o que ele escreveu.<\/p>\n<p>Do 7 at\u00e9 hoje foi nosso.<\/p>\n<p>A gente inventou porque ele ainda n\u00e3o terminou de escrever a continua\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o inventou do nada: a gente pegou todas as pistas que ele deixou espalhadas \u2014 o Ascl\u00e9pio preso no po\u00e7o, a deusa que cochicha, o medo da \u00c1rtemis, a flor que veio de Floren\u00e7a \u2014 e tentou adivinhar para onde ele estava indo.<\/p>\n<p>Pode ser que a gente tenha acertado algumas coisas. Pode ser que a gente tenha errado tudo.<\/p>\n<p>Quando ele publicar a de verdade, a gente l\u00ea junto.<\/p>\n<p>E a\u00ed a gente compara, e vai ser muito divertido descobrir onde a gente chegou perto e onde a gente passou longe.<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1, essa \u00e9 a nossa.<\/p>\n<p>E, se a nossa estiver errada, tudo bem: a flor de Rodorio continua sendo verdade do mesmo jeito.<\/p>\n<hr>\n<p><em>Fim da Saga dos C\u00e9us \u2014 temporada imaginada.<\/em><\/p>\n<p><em>Boa noite, pequeno guerreiro. Dessa vez de verdade.<\/em><\/p>\n<aside class=\"sdc-note sdc-note-imagined\"><strong>Nota ao final do epis\u00f3dio<\/strong><\/p>\n<p>Os epis\u00f3dios 1 a 6 acompanham a hist\u00f3ria publicada. Este epis\u00f3dio faz parte da nossa continua\u00e7\u00e3o imaginada, criada enquanto o autor japon\u00eas n\u00e3o conclui a vers\u00e3o oficial, usando as pistas deixadas na obra. Este \u00e9 o encerramento da nossa temporada. Quando a continua\u00e7\u00e3o oficial sair, poderemos ler e comparar.<\/p>\n<\/aside>\n<p class=\"sdc-credits\"><strong>14+ \u00b7 Indica\u00e7\u00e3o editorial deste site.<\/strong> Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, viol\u00eancia e morte em contexto ficcional. N\u00e3o \u00e9 classifica\u00e7\u00e3o oficial.<\/p>\n<p class=\"sdc-credits\">Obra original: <cite>Saint Seiya<\/cite>, de Masami Kurumada. Adapta\u00e7\u00e3o e continua\u00e7\u00e3o narrativa de f\u00e3 preparadas por Rafael com aux\u00edlio de intelig\u00eancia artificial. Projeto independente, sem v\u00ednculo oficial com os titulares da obra.<\/p>\n<nav class=\"sdc-nav\" aria-label=\"Navega\u00e7\u00e3o entre epis\u00f3dios\"><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/episodio-20\/\">\u2190 Epis\u00f3dio 20<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/\">Todos os epis\u00f3dios<\/a><a href=\"\/index.php\/saga-dos-ceus\/\">Voltar ao \u00edndice \u2192<\/a><\/nav>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passado Presente Futuro \u00b7 Saga dos C\u00e9us Epis\u00f3dio 21: A Flor que Levou Duzentos Anos \u2190 Epis\u00f3dio 20Todos os epis\u00f3diosVoltar ao \u00edndice \u2192 Cap\u00edtulo 1 \u2014 &ldquo;Agora eu queria pedir eu&rdquo; A linha branca continuou andando no mar. E, na pra\u00e7a de Rodorio, o imperador dos c\u00e9us ficou olhando para um homenzinho descal\u00e7o com um&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":4000,"menu_order":21,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_kad_blocks_custom_css":"","_kad_blocks_head_custom_js":"","_kad_blocks_body_custom_js":"","_kad_blocks_footer_custom_js":"","_kadence_starter_templates_imported_post":false,"_kad_post_transparent":"","_kad_post_title":"hide","_kad_post_layout":"fullwidth","_kad_post_sidebar_id":"","_kad_post_content_style":"unboxed","_kad_post_vertical_padding":"","_kad_post_feature":"","_kad_post_feature_position":"","_kad_post_header":false,"_kad_post_footer":false,"_kad_post_classname":"","footnotes":""},"class_list":["post-4021","page","type-page","status-publish","hentry"],"taxonomy_info":[],"featured_image_src_large":false,"author_info":{"display_name":"Rafael Vinicius Otsuzi","author_link":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/author\/dr-rafael-otsuzi\/"},"comment_info":0,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4021","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4021"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4021\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4043,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4021\/revisions\/4043"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/4000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/passadopresentefuturo.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4021"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}