Volume 4: O Irmão que Suikyo Não Pôde Salvar

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Volume 04 · O Irmão que Suikyo Não Pôde Salvar

Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.

Capítulo 1 — Fogo na Casa de Áries

Shion estava caído no chão da própria casa.

Ele tinha lutado. Tinha lutado bem, com tudo o que um Cavaleiro de Ouro de Áries tem — e não foi suficiente nem para atrasar o homem parado diante dele.

Suikyo ergueu a mão para terminar.

E uma explosão de fogo atravessou a Casa de Áries de ponta a ponta.

Quando o clarão baixou, havia um rapaz de pé entre os dois, com chamas subindo pelos ombros e um olhar que não combinava com a idade dele.

Ikki de Fênix tinha atravessado o tempo sozinho, sem pedir permissão a Cronos, sem corrente de flores, seguindo apenas o rastro do cosmo do irmão.

E chegou bem na hora.

— Para onde você pensa que vai? — perguntou Suikyo, sem se alterar.

— Para onde Atena estiver.

— E se eu estiver no caminho?

— Aí eu passo por cima. — Ikki cerrou os punhos. — Amigo ou inimigo, tanto faz.

Suikyo olhou para ele de cima a baixo. Uma armadura de bronze. Um garoto.

— Só isso?

— Só isso — respondeu Ikki. — E vai bastar.


Capítulo 2 — Dois Elmos no Chão

Ikki avançou primeiro.

Foi um soco reto, sem firula nenhuma, tão rápido que Suikyo não teve tempo de bloquear direito.

E o elmo do Juiz de Garuda voou dos ombros dele e rolou pelo chão de pedra.

Suikyo virou o rosto devagar, e pela primeira vez havia alguma coisa parecida com surpresa nele.

— Você tirou o meu elmo.

— Tirei.

— Ninguém tira o meu elmo.

Ele revidou.

Foi um movimento que Ikki nem viu começar — só sentiu o impacto atravessando a guarda.

E foi o elmo do Ikki que voou dessa vez, girando pelo ar e batendo numa coluna.

Os dois ficaram assim: dois guerreiros de cabeça descoberta no meio de um templo, encarando-se por cima dos próprios elmos caídos no chão.

E aí a luta começou de verdade.

Ikki entrou com tudo. Socos, cotoveladas, joelhadas, sem recuar um centímetro, apanhando para poder acertar. Suikyo bloqueava com um braço só, quase entediado, e a cada dois ou três golpes devolvia um.

E os que ele devolvia machucavam de um jeito diferente.

Depois de um deles, um estalo seco ecoou no salão: o peitoral da Armadura de Fênix rachou de alto a baixo.

Ikki cambaleou dois passos e cuspiu sangue no chão.

— Está fácil demais lutar contra a Fênix — disse Suikyo.

E Ikki, ofegante, com a armadura quebrada, pensava numa coisa só:

Como é que existe alguém tão forte? Esse cara é mais forte que um Cavaleiro de Ouro.


Capítulo 3 — O Golpe que Não Precisa de Força

Suikyo decidiu terminar.

Ele avançou para o golpe final, e Ikki não tinha mais como bloquear, nem como desviar, nem como correr.

Então ele fez a única coisa que ainda restava.

Ikki tinha um golpe que não precisa de força nenhuma para funcionar. Não machuca o corpo. Não quebra osso, não corta pele, não derruba ninguém.

Ele entra na cabeça.

E vai direto ao lugar mais fundo, onde as pessoas guardam as coisas que passaram a vida inteira evitando lembrar.

GOLPE FANTASMA DE FÊNIX!

A ilusão atravessou Suikyo em silêncio, sem barulho, sem clarão.

O punho dele parou no ar a centímetros do rosto de Ikki.

E o Juiz de Garuda cambaleou para trás, com as mãos na cabeça, sentindo uma dor que não tinha nada a ver com o corpo.

Porque, no fundo da mente dele, uma voz começou a chamar.

Uma voz de menino. Uma voz que ele conhecia melhor do que qualquer voz no mundo.

E que estava calada havia muitos anos.


Capítulo 4 — O Irmão Doente

Suikyo…

Ele estava de volta a um quarto pequeno, iluminado por uma vela só.

Numa cama estreita, encolhido debaixo de cobertas grossas, havia um menino muito pálido e muito magro. As mãos dele eram frias. A respiração era curta e trabalhosa.

O nome dele era Suishō, e ele era o irmãozinho de Suikyo.

E ele estava morrendo.

Já fazia semanas. Nenhum remédio funcionava. Nenhum médico do Santuário conseguia explicar o que era. O menino apenas ia ficando mais leve, mais pálido, mais distante, um pouquinho por dia.

Suikyo passava as noites sentado ao lado daquela cama.

Ele era Cavaleiro de Prata de Taça — um dos guerreiros mais promissores da sua geração, mais rápido que Shion, mais firme que Dohko, o melhor dos três amigos de treino.

E ali, naquele quarto, toda essa força não servia absolutamente para nada.

Ele juntou as mãos.

— Atena — sussurrou, olhando para o teto. — Eu nunca pedi nada. Nem uma vez. — A voz falhou. — Salve o meu irmão. Eu dou a minha vida em troca. Pode levar. Só não leva ele.

A vela tremeu.

E, das sombras do canto do quarto, alguma coisa respondeu.


Capítulo 5 — A Escolha Impossível

— Você reza muito alto.

Suikyo se levantou de um salto, com o cosmo já aceso.

Havia uma figura encostada na parede que não estava ali um segundo antes.

— Quem é você?

— Alguém que veio buscar o menino. — A figura apontou a cama com o queixo. — É o trabalho. Não é pessoal.

— Você não encosta nele.

— Eu não preciso encostar. — A voz era quase entediada. — Mas, olha, existe outra possibilidade. Se você quiser ouvir.

Suikyo não respondeu, e o silêncio foi resposta suficiente.

— A senhora Pandora reparou em você. Ficou impressionada com o seu poder. — A figura descolou-se da parede. — Ela oferece o posto de Juiz do Mundo dos Mortos. Um dos três. E, em troca…

Ele apontou para o menino na cama.

— …seu irmão respira amanhã de manhã.

Suikyo recuou até bater na parede.

— Isso é trair Atena.

— É.

— Eu servi a ela a vida inteira. Eu jurei.

— Também é verdade.

— Eu nunca faria isso.

A figura deu de ombros.

— Então ele morre hoje. — Ela já estava se dissolvendo no escuro. — A escolha é sua, Cavaleiro. E, seja qual for, ninguém nunca vai saber por que você escolheu.

E, naquele quarto pequeno, com uma vela quase no fim e um irmão respirando cada vez mais devagar, um homem bom teve que escolher entre duas coisas que não deveriam existir na mesma frase.


Capítulo 6 — A Mão que Não Desceu

Suikyo voltou a si de pé, no meio da Casa de Áries.

Levou alguns segundos para lembrar onde estava.

Diante dele, no chão, estavam Ikki e Shion — os dois vencidos, os dois sem forças, os dois completamente à mercê dele.

Bastava uma mão.

Ele ergueu o braço.

E ficou assim.

O braço no ar, a mão aberta, e o rosto do irmão ainda vivo por dentro dele, colocado ali de volta por aquele golpe que remexe lembranças.

Segundos passaram. Ninguém no salão respirou.

E, então, sem dizer uma palavra, Suikyo baixou o braço, virou-se e continuou subindo as escadarias.

Deixou os dois vivos para trás.

Shion, caído, olhou para as costas dele se afastando e não conseguiu entender.

— Ele nos poupou…

Ikki se apoiou num braço, cuspindo sangue, e balançou a cabeça devagar.

— Eu não venci ele. Nem cheguei perto.

— Então o que foi aquilo?

— O meu golpe abriu uma porta lá dentro. — Ikki olhou para a escadaria vazia. — E, atrás daquela porta, tem alguém que ainda se recusa a matar quando não precisa.


Capítulo 7 — O Muro Chamado Ox

Enquanto isso, mais acima, Tenma e Shun chegavam à Casa de Touro.

E encontraram uma parede.

Uma parede com dois metros e pouco de altura, ombros do tamanho de uma porta e dois chifres na armadura dourada.

— Vocês não passam — disse Ox.

— Nós precisamos falar com a Atena! — Tenma deu um passo à frente. — O Grande Mestre é traidor! O Cavaleiro de Peixes também! Tem gente do lado de Hades aqui dentro!

Ox nem piscou.

— Prove.

— Não dá pra provar! Só dá pra avisar!

— Então não passa.

E os dois garotos se prepararam para o pior.

Foi aí que Ox virou o rosto de repente, olhando para trás deles — e a expressão dele mudou completamente.

Porque alguém estava subindo as escadarias.

Alguém com armadura escura e asas de ave de rapina.


Capítulo 8 — Passem

Ox mudou de postura na hora.

— Vocês dois. — A voz dele saiu diferente, mais rápida. — Subam.

Tenma piscou.

— O quê?

SUBAM! — Ox apontou a escadaria com o polegar sem tirar os olhos do que vinha vindo. — Aquilo ali não é problema de vocês. É problema meu.

— Mas o senhor disse que…

— Eu mudei de ideia. — Ox plantou os pés no chão e cruzou os braços. — Vão avisar quem vocês precisam avisar. Eu seguro aqui.

Shun puxou Tenma pelo braço.

— Vem!

Os dois subiram correndo, e Tenma olhou para trás uma vez — só uma — a tempo de ver o gigante parado sozinho na entrada da própria casa, de costas para a escadaria, olhando o Juiz do Mundo dos Mortos se aproximar.


Capítulo 9 — O Grande Chifre

Suikyo parou a poucos metros dele.

Os dois se olharam em silêncio por um tempo.

— Eu conheço você — disse Ox, finalmente. — Cavaleiro de Prata de Taça. Você treinou aqui. Você comeu na mesma mesa que eu.

Silêncio.

— O que Hades te deu, Suikyo? — Ox descruzou os braços. — O que é que ele te deu que valeu tudo isso?

Suikyo não respondeu.

Ele avançou.

O punho dele veio carregado com um brilho gelado, e Ox bloqueou com o antebraço — um choque tão forte que a pedra sob os pés do Cavaleiro de Ouro rachou em teia de aranha.

Ox revidou com um soco largo, do tipo que derruba muralha.

Suikyo desviou por dois centímetros.

E os dois se separaram, medindo um ao outro.

— Se você insistir — disse Suikyo, baixinho —, você vai morrer.

— Todo mundo morre.

Ox baixou a cabeça e concentrou todo o cosmo nos ombros e no peito. A armadura de Touro começou a brilhar, e o ar da casa inteira ficou pesado.

GRANDE CHIFRE!

A investida saiu como um touro em disparada, com força suficiente para atravessar uma parede de pedra maciça.

E Suikyo abriu as duas mãos.

O ar em volta dele congelou instantaneamente, e dezenas de lanças de gelo cristalino brotaram do nada, girando ao redor do corpo dele como pétalas de uma flor se abrindo.

LANÇAS DE GELO DA LÓTUS BRANCA!

As lanças partiram todas de uma vez, contra a investida.

Elas atravessaram o Grande Chifre.

E atravessaram Ox.


Capítulo 10 — O Guardião que Não Deu um Passo

O brilho azul-esbranquiçado tomou conta da Casa de Touro inteira.

Quando baixou, Suikyo estava de pé, ofegante, com a armadura arranhada.

E Ox continuava lá.

Não caído. De pé.

Parado exatamente onde estava desde o começo, na entrada da própria casa, com os punhos ainda erguidos na guarda, sem ter recuado um único passo do lugar que jurou defender.

Suikyo ficou olhando para ele por um longo momento.

Depois baixou a cabeça — só um pouco, quase nada, o tipo de gesto que ninguém percebe se não estiver prestando atenção — e passou por dentro da casa, sem tocar nele.


Capítulo 11 — Ninguém Vai Esquecer

Mais tarde, recuperado da própria luta, Ikki subiu pelo mesmo caminho.

Ele atravessou a Casa de Áries vazia, subiu os degraus, e chegou à entrada da Casa de Touro.

E parou.

Porque havia um gigante ali, de pé, em posição de combate, guardando a passagem.

Ikki demorou alguns segundos para entender o que estava vendo.

Ele se aproximou devagar, com respeito, e ficou parado diante daquela figura enorme e imóvel.

— Você ficou até o fim, guardião — disse baixinho.

Ele olhou para cima, para as escadarias que continuavam subindo.

— Ninguém vai esquecer isso. Eu não vou.

E passou.


Capítulo 12 — O Anjo Acorrentado na Lua

Enquanto tudo isso acontecia no passado, muito longe dali — no tempo presente, duzentos e quarenta e três anos à frente —, outra coisa começava a se mexer.

Na Lua, dentro de uma caverna de gelo azul que servia de prisão, um guerreiro estava acorrentado a uma parede de cristal havia muito tempo.

Ele tinha cabelos claros e uma única asa branca nas costas.

Calisto, a serva de Ártemis, entrou na prisão com uma chave luminosa na mão.

— Ártemis autorizou a sua soltura — ela disse. — Com uma condição.

O guerreiro nem levantou a cabeça.

— Qual?

— Você desce à Terra e mata o Cavaleiro de Pégaso.

E aí Tohma ergueu o rosto.

— Eu sou um Anjo — respondeu, com um desprezo tranquilo. — Eu não me rebaixo matando um Cavaleiro de Bronze.

— Você vai mudar de ideia.

— Eu não vou.

E, no mesmo instante, na Terra, no quarto onde Seiya dormia havia quase um ano, uma guerreira de armadura verde entrou em silêncio.

— Pode ir — disse Shina a Hyoga, que montava guarda ao lado da cama. — Eu cuido dele daqui em diante.

Hyoga hesitou.

— Você tem certeza?

— Vai. Você é mais útil lá fora.

Ele foi.

E o perigo não foi embora. Só ficou esperando, guardado, do jeito que as tempestades esperam.


Capítulo 13 — Rumo à Casa de Gêmeos

De volta ao passado, Tenma e Shun subiam.

Eles tinham deixado um gigante para trás e não sabiam ainda o que tinha acontecido com ele — só sentiram, em algum momento da subida, um cosmo enorme se apagar lá embaixo.

Nenhum dos dois falou sobre isso.

E, quando chegaram ao pé da escadaria seguinte, os dois pararam ao mesmo tempo.

Porque a Casa de Gêmeos estava logo ali em cima. E tinha alguma coisa muito errada com o ar em volta dela.

— Você sente? — perguntou Tenma.

— Sinto. — Shun estava pálido. — Parece que tem duas pessoas ali. Mas o cosmo é de uma só.

— Como assim?

— Eu não sei explicar melhor.

Os dois se olharam, respiraram fundo e continuaram subindo — sem saber que estavam prestes a entrar na casa mais estranha de todo o Santuário.


O Fim do Volume 4

Este volume é sobre o preço de uma escolha impossível.

O mestre Suikyo não virou inimigo por ambição, nem por maldade, nem por medo. Ele virou inimigo numa noite, dentro de um quarto pequeno, ao lado da cama de um irmãozinho que estava morrendo — e alguém apareceu e ofereceu a única coisa no mundo que ele não conseguia recusar.

E repare no detalhe mais cruel de tudo: quem fez a oferta avisou que ninguém jamais saberia o motivo.

Foi exatamente o que aconteceu. O Santuário inteiro passou a chamá-lo de traidor. Os melhores amigos dele passaram a chamá-lo de traidor. Até o aluno que ele criou passou a duvidar.

E ele nunca explicou para ninguém.

Do outro lado, o Ox fez o oposto: ficou parado num único lugar e não saiu de lá nem depois de morto.

Duas formas de lealdade. Uma que ninguém entendeu, e outra que ninguém precisou entender.

Fim do Volume 4. No próximo volume, a Casa de Gêmeos — e um homem que tem dois irmãos dentro de um corpo só.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.