Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

História adaptada · parte publicada

Episódio 2: A Constelação de Pégaso

Ilustração do episódio 2: A Constelação de Pégaso

Fase 2 do mangá.


Capítulo 1 — O Nome que Escapou

Seiya subiu o último degrau com o chapéu na mão.

A mulher estava sentada ali, no meio das ruínas, com o rosto molhado. Quando percebeu que havia alguém, se levantou depressa e limpou os olhos com as costas da mão, do jeito que a gente faz quando não quer ser vista chorando.

— Desculpa — ele disse, meio sem jeito. — Isso aqui caiu lá embaixo na estrada. Achei que fosse seu.

Ela olhou para o chapéu. Depois para ele.

E, então, aconteceu.

— Seiya.

A palavra saiu da boca dela antes de passar pela cabeça. Sem pensar, sem hesitar, como quem chama alguém de casa.

Os dois ficaram parados.

— Como… — Seiya franziu a testa. — Como você sabe meu nome? A gente já se conheceu?

E Saori abriu a boca para responder.

E não veio nada.

Nada mesmo. Ela procurou dentro de si o lugar de onde aquele nome tinha saído, e encontrou um buraco. Sabia o nome. Não sabia por quê. Não sabia quem ele era, nem onde tinha visto aquele rosto, nem por que o coração dela tinha disparado ao ouvir a própria voz dizer aquilo.

— Eu… — A voz dela falhou. — Eu não sei.

— Como assim não sabe?

— Eu não sei!

Ela recuou um passo, levando as mãos à cabeça.

Porque, naquele instante, ela entendeu de verdade, pela primeira vez, o tamanho do que tinha perdido.

Não era um detalhe esquecido. Não era um nome que ia voltar depois. Havia uma vida inteira faltando dentro dela — pessoas, rostos, coisas importantes — e ela estava ali, numa ruína, sem conseguir alcançar nenhuma delas.

— Ei. Ei, calma. — Seiya deu um passo à frente, sem saber o que fazer com as mãos. — Está tudo bem.

— Não está.

Ela pegou o chapéu da mão dele, murmurou um obrigada que mal se ouviu, e desceu as escadarias quase correndo.

Seiya ficou lá em cima, sozinho, olhando ela ir embora.

E não conseguiu explicar nem para si mesmo por que aquilo doeu.


Capítulo 2 — Jantar em Rodorio

Naquela noite, na casa pequena onde morava, Seiya remexia a comida no prato sem comer.

— Você está estranho — disse a irmã, do outro lado da mesa.

Seika era mais velha, cuidava da casa, e conhecia aquele silêncio ali.

— Não é nada.

— É alguma coisa.

Ele largou o garfo.

— Eu conheci uma moça hoje. Lá em cima, nas ruínas.

E a colher de Seika parou no ar.

Foi rápido. Meio segundo, talvez menos. Ela voltou a mexer a sopa como se nada tivesse acontecido — mas o rosto dela tinha mudado de cor.

— Uma moça — ela repetiu, com a voz muito controlada.

— É. Ela sabia o meu nome, Seika. Ela sabia o meu nome e não sabia explicar como.

— Deve ter ouvido de alguém na vila.

— Não foi isso. — Seiya balançou a cabeça. — Eu não sei explicar. Foi como… como quando você acorda de um sonho e sabe que estava sonhando com alguma coisa importante, mas não lembra o quê.

Seika não respondeu na hora.

Ela ficou olhando para a panela, e Seiya não viu — porque estava olhando para o próprio prato — que os olhos dela estavam brilhando de um jeito diferente.

— Seiya.

— Hum?

— Fica longe daquelas ruínas.

Ele ergueu a cabeça.

— Por quê?

— Porque você tem trabalho, tem conta pra pagar, e aquele lugar é perigoso. — Ela se levantou e levou a panela para a pia, de costas para ele. — Só isso.

Mas não era só isso, e os dois sabiam.


Capítulo 3 — O Mundo Sem Dona

O que Seiya não sabia — o que ninguém em Rodorio sabia direito — era que o mundo inteiro tinha ficado estranho no último ano.

Não de um jeito espetacular. De um jeito lento e feio.

Roubos onde nunca houve. Brigas que não terminavam. Gente saindo de casa com medo e voltando com mais medo ainda. Vilas que sempre deixaram a porta destrancada agora trancavam.

Era como se alguma coisa que segurava as pessoas por dentro tivesse afrouxado.

E tinha mesmo.

Porque a deusa que protege o amor e a justiça na Terra havia desaparecido — não morrido, não sido derrotada, apenas sumido, virado uma moça comum que não lembra de nada — e, sem ela, o mundo ficou sem quem segurasse a corda.

No dia seguinte, Seiya descobriu isso na prática.


Capítulo 4 — Os Homens na Estrada

Ele estava voltando do trabalho, empoeirado de carregar pedra, quando ouviu um grito na estrada.

E não pensou. Correu.

O que encontrou na curva foi uma moça encurralada contra uma pedra — a mesma das ruínas — e sete ou oito homens fechando o círculo em volta dela.

E havia alguma coisa muito errada com aqueles homens.

Eles se moviam devagar demais e rápido demais ao mesmo tempo. Os olhos estavam vazios, com aquele branco leitoso de quem não está exatamente acordado. Não falavam. Só avançavam, todos juntos, como se estivessem sendo puxados por um fio invisível.

— EI!

Seiya entrou no meio deles.

O primeiro veio por cima, e Seiya desviou e acertou um soco na lateral do corpo dele — um soco de garoto de vila, sem técnica nenhuma, dado com a raiva de quem carrega pedra o dia inteiro.

O sujeito voou dois metros.

Seiya ficou tão surpreso quanto ele.

Eu bati assim tão forte?

Não teve tempo de pensar. Vieram dois pelas costas, e ele girou, e o corpo dele fez uma coisa que ele não tinha decidido fazer — um movimento limpo, econômico, de quem já fez aquilo dez mil vezes.

Os dois caíram.

E foi assim, um atrás do outro, até não sobrar ninguém em pé na estrada.

Seiya ficou parado no meio da poeira, ofegante, olhando as próprias mãos.

— Como é que eu fiz isso?


Capítulo 5 — O Rapaz da Floricultura

— Você não devia ter feito isso sozinho.

A voz veio de trás. Seiya se virou.

Era um rapaz de cabelos verdes, com um jeito calmo de falar, segurando uma caixa de madeira cheia de flores.

— Shun! — Seiya soltou o ar, aliviado. — Cara, cadê você quando eu preciso?

— Trazendo encomenda. — Shun pousou a caixa no chão e olhou para os homens caídos. — Eles estão vivos?

— Acho que sim. — Seiya coçou a cabeça. — Eles estavam esquisitos, Shun. Olha os olhos deles.

Shun se ajoelhou e olhou.

E ficou sério.

— Está acontecendo em toda parte — ele disse, se levantando. — No mês passado foi numa vila vizinha. Antes disso, numa cidade do litoral. Gente comum acordando de um jeito que não é delas e fazendo coisas que nunca fariam.

— Por quê?

Shun olhou para o horizonte, e a resposta dele foi estranhamente adulta para um rapaz de floricultura.

— Meu avô dizia que existe uma coisa segurando o mundo por dentro. Que a gente não vê, não sente, não sabe o nome — mas que está lá, e que enquanto estiver, as pessoas não caem. — Ele deu de ombros. — E que, se um dia isso soltar, a gente vai descobrir do pior jeito possível.

Seiya olhou para ele.

— E você acha que soltou?

— Eu acho que soltou faz mais ou menos um ano.

Nenhum dos dois lembrava, mas os dois tinham razão — e eles se conheciam havia muito, muito mais tempo do que qualquer um dos dois imaginava.


Capítulo 6 — O Cão do Purgatório

Muito abaixo do mundo, nas ruínas do Inferno, Jean de Órthros estava de joelhos diante da deusa Ker.

— Os corpos que a senhora me emprestou falharam — ele reportou. — Havia um rapaz na estrada. Ele derrubou todos os oito.

Ker ergueu uma sobrancelha.

— Um rapaz derrubou oito homens possuídos.

— Um rapaz comum, minha senhora. Sem armadura. Sem cosmo aceso. Um trabalhador de vila.

E aí Ker se inclinou para a frente, e havia interesse de verdade no rosto dela pela primeira vez.

— Não. — Ela sorriu devagar. — Não existe trabalhador de vila que derrube oito homens.

Ela se levantou do trono de pedra quebrada.

— Existem guerreiros que esqueceram que são guerreiros. E isso é uma coisa bem diferente.

Jean ergueu a cabeça.

— A senhora acha que ele é…

— Eu acho que a deusa não caiu sozinha — disse Ker, caminhando entre os escombros. — Eu acho que eles todos caíram junto com ela. Os Cavaleiros dela. Todos. Vivos, andando por aí, sem lembrar de nada.

Ela parou.

— E, se um deles derrubou oito dos meus, então a memória deles está começando a acordar.

— O que a senhora ordena?

Ker olhou para cima, na direção da superfície.

— Encontre a deusa. — A voz dela ficou fria. — Antes que ela lembre quem é. Porque, no dia em que ela lembrar, os outros lembram junto — e aí nós perdemos de novo.


Capítulo 7 — Treze Estrelas

Naquela noite, Saori não conseguiu dormir.

Ela saiu do pequeno quarto onde estava hospedada, sentou-se na soleira da porta e ficou olhando o céu de Rodorio — que é limpo e cheio de estrelas de um jeito que céu de cidade não é.

E os olhos dela pararam num lugar específico.

Não foi escolha. Foi como quando a gente entra numa sala cheia e o olhar vai direto numa pessoa.

Havia um conjunto de estrelas ali, perto do horizonte, formando um desenho que ela não sabia nomear. Treze pontos de luz, espalhados de um jeito que, se você ligasse com linhas, daria mais ou menos a forma de um cavalo.

Um cavalo com asas.

Saori não conseguia tirar os olhos daquilo.

E, sem entender nada — sem lembrar nada — ela começou a chorar de novo.

— Eu conheço você — sussurrou para o céu. — Eu conheço você de algum lugar.

As estrelas não responderam.

Mas, do outro lado da vila, num quarto pequeno, um rapaz que tinha carregado pedra o dia inteiro acordou de repente no meio da noite — sem motivo nenhum — com o peito quente.

Ele levou a mão ao esterno, confuso.

Estava quente ali. Quente de verdade, como se tivesse alguma coisa acesa por dentro.

Durou uns segundos e passou.

Seiya olhou para a janela, para o céu, franziu a testa, e voltou a deitar.

— Que esquisito — murmurou.

E dormiu.


O Fim do Episódio 2

Repare no que está acontecendo aqui, porque é diferente de tudo o que a gente viu nessas histórias até agora.

Não tem batalha épica. Não tem armadura brilhando. Não tem golpe com nome.

Tem uma moça que chora sem saber por quê. Um rapaz que derruba oito homens e fica assustado com a própria força. E um céu com treze estrelas que alguém reconhece sem conseguir explicar como.

Isso porque a memória não vai embora de vez. Ela fica em algum lugar mais fundo do que as lembranças — num lugar que não usa palavras.

É por isso que a Saori chamou o nome dele antes de pensar. É por isso que o corpo do Seiya sabia lutar antes da cabeça dele lembrar.

E é por isso que uma deusa má, lá no fundo do mundo, ficou preocupada quando soube que um trabalhador de vila derrubou oito homens numa estrada.

Porque ela entendeu na hora o que aquilo significava: eles estão começando a acordar.

Fim do Episódio 2. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.