Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 19: O Homem que Fazia Plantão

Ilustração do episódio 19: O Homem que Fazia Plantão

Capítulo 1 — O homem no fundo

Ele veio vindo do escuro devagar, e o barulho de corrente arrastando veio junto.

Os cinco acenderam o cosmo para enxergar.

E a luz mostrou uma coisa que nenhum deles esperava.

Não era um monstro. Não era um gigante. Não era um deus terrível de armadura.

Era um homem baixinho.

Magro, descalço, com uma barba comprida e muito branca e uma túnica que já tinha sido branca uns três mil anos antes. Tinha um tornozelo preso numa corrente grossa que sumia no escuro atrás dele.

Na mão direita, ele segurava um bastão de madeira gasto.

E, enrolada no bastão, tinha uma cobra.

Uma cobra de verdade, viva, cinzenta, que levantou a cabecinha e olhou para os cinco com um interesse educado.

— Boa noite — disse o homem. — Ou bom dia. Aqui não tem diferença.

Seiya deu um passo para trás.

— O senhor é o Asclépio?

— Sou.

Ele olhou para os cinco, um por um, e aí falou uma coisa esquisita:

— Vocês estão todos machucados.


Capítulo 2 — Ele ouviu a parte do pai

— Senhor — começou Shiryu —, a gente veio aqui porque—

— Eu ouvi.

Shiryu parou.

— Vocês leram em voz alta. — Asclépio apontou o bastão para o escudo no braço dele. — Eu estou há muito tempo num lugar onde não tem som nenhum. Qualquer coisinha eu escuto.

Ele deu mais um passo para a luz.

— Eu ouvi tudo. Ouvi o nome, ouvi a parte do mundo precisando de mim.

A voz dele ficou mais devagar.

— E ouvi a parte do meu pai.

Ninguém soube o que dizer.

— Ele mandou pedir desculpa? — perguntou Asclépio.

— Mandou — disse Hyoga.

— Com essas palavras?

Hyoga hesitou.

— Não exatamente. — Ele foi honesto, porque é o jeito dele. — Ele falou: “diz para ele que eu não desci porque eu tinha vergonha.”

E o homenzinho da corrente no tornozelo ficou muito quieto.

Ele olhou para o chão por um tempo bem longo.

Depois, para a cobra no bastão.

E disse, baixinho:

— Está ouvindo isso? Ele tinha vergonha.

A cobra não respondeu.

— Quatro mil anos — disse Asclépio. — E era vergonha.


Capítulo 3 — O que ele fez

— O senhor pode contar? — perguntou Shun. — O que o senhor fez?

— Posso. É uma história curta. — Asclépio sentou numa pedra e apoiou o bastão no ombro. — Eu era médico.

— Médico?

— Médico. — Ele deu de ombros. — Meu pai é um deus muito importante e a minha mãe era uma moça comum, e eu saí uma mistura esquisita: eu tinha mão de deus e cabeça de gente.

Ele mexeu os dedos.

— E eu descobri que eu era bom em consertar pessoa. Comecei com osso quebrado, com febre, com dente estragado. Depois fui pegando coisa pior.

— E aí?

— E aí, um dia, trouxeram um homem para mim que já tinha morrido.

Ele parou.

— Ele tinha morrido fazia pouco. A família trouxe correndo. E eu olhei para ele e eu soube que dava.

Ele apertou o bastão.

— Eu soube que, se eu fizesse, ia funcionar. E eu fiz.

— Deu certo?

— Deu. — Asclépio sorriu, e era um sorriso bonito. — O homem sentou, olhou em volta, perguntou que horas eram e foi para casa.

Ele olhou para os cinco.

— E, três dias depois, meu pai desceu um raio na minha cabeça.


Capítulo 4 — A porta que não tem tranca

— Isso é injusto — disse Seiya, e a voz dele subiu. — Isso é completamente injusto! O senhor salvou uma pessoa!

— É — concordou Asclépio, calmamente. — E meu pai tinha razão.

— O QUÊ?!

— Não grita, menino, aqui ecoa. — Ele levantou a mão. — Pensa comigo. Se eu posso trazer gente de volta, quem eu trago? O pai de quem? O filho de quem? Quem decide?

Ele apontou o bastão para o próprio peito.

— Eu? Um sujeito? Decidindo quem morre e quem não morre?

Ele balançou a cabeça.

— Meu pai olhou para isso e viu o mundo desmontando. E eu, depois de muito tempo aqui embaixo pensando, cheguei na mesma conclusão.

— Então o senhor acha que merecia?

— Não.

Asclépio levantou da pedra.

— Eu acho que ele estava certo sobre o perigo e errado sobre mim. — Ele deu de ombros. — Ele podia ter me chamado para conversar. Ele desceu um raio.

Ele arrastou a corrente dois passos.

— E é por isso que eu estou aqui até hoje.

E então ele falou a coisa que deixou os cinco de queixo caído.

— Porque essa porta nunca teve tranca.


Capítulo 5 — A cláusula

— Como assim? — Shiryu se levantou de um salto. — O senhor está preso!

— Estou condenado. É diferente. — Asclépio levantou o tornozelo acorrentado e sacudiu. — Isso aqui não é cadeado. Isso é sentença.

Ele apontou para a parede da caverna.

E lá, gravado na pedra em letras que ninguém conseguia ler mas todo mundo entendeu, estava escrito o que o Zeus tinha decidido naquele dia.

Asclépio leu em voz alta, porque sabia de cor:

— “Que ele fique aqui até dizer que errou.”

Ele baixou o braço.

— Essa é a primeira parte. E eu nunca vou dizer, porque seria mentira, e eu não vou mentir para sair de um buraco.

— E tem segunda parte?

— Tem.

Ele olhou para os cinco.

— ”…ou até que alguém desça e peça por ele.”

Silêncio absoluto no fundo do Tártaro.

— Quatro mil anos — disse Asclépio. — Quatro mil anos, meninos.

A voz dele não tinha mágoa. Era pior: era só constatação.

— Ninguém nunca desceu.


Capítulo 6 — Por que ninguém veio

— Mas isso não faz sentido! — disse Shun. — O seu pai é um deus! Ele podia ter vindo a qualquer momento!

— Podia.

— E os outros! Os doze! Alguém!

E o Shiryu, que estava em silêncio havia um tempo, falou devagar:

— Shun.

— O quê?

— A gente acabou de descer.

Shun virou para ele.

— Lembra do que a gente passou. — A voz do Shiryu estava estranha. — Nove portões. Nove lembranças. O Hyoga deu um navio, o Ikki deu um degrau, você deu a sua prova, e o último portão pediu o motivo.

Ele olhou para o homem acorrentado.

— O poço inteiro é feito para impedir quem vem buscar.

Asclépio assentiu bem devagar.

— Agora o menino entendeu.

— O seu pai escreveu uma saída na sentença — disse Shiryu —, e depois construiu nove andares de armadilha para que ninguém nunca conseguisse usar ela.

— Exatamente.

— Isso é… — Shiryu procurou a palavra. — Isso é cruel de um jeito muito bem pensado.

— É de família — disse Asclépio.


Capítulo 7 — “Então eu peço”

E o Seiya de Pégaso, que nunca na vida entendeu nada de lei, de cláusula ou de sentença, deu um passo à frente.

— Eu peço.

Todo mundo olhou para ele.

— Tem que falar de um jeito certo? Tem palavra especial? Precisa de papel?

— Não.

— Então tá. — Ele abriu os braços. — Eu peço. Eu vim aqui buscar o senhor. A gente desceu dezoito dias de escada, a gente deu as nossas lembranças para nove guardas, a gente escreveu um bilhete num escudo porque a gente sabia que ia esquecer.

Ele apontou para cima.

— E a gente não vai embora sem o senhor.

O Hyoga chegou do lado dele.

— Eu também peço.

— Eu também — disse Shiryu.

— Eu também — disse Shun.

E o Ikki, de braços cruzados, dois passos atrás, resmungou:

— Eu desci dezoito dias de escada. Óbvio que eu peço.


E a corrente no tornozelo do Asclépio caiu.

Simplesmente caiu. Sem barulho de estalo, sem luz, sem explosão.

Ela amoleceu como corda molhada e escorregou no chão.

O homenzinho olhou para o próprio pé descalço, livre, e ficou olhando por um tempo bem longo.

— Ué — ele disse.

E aí começou a chorar.


Capítulo 8 — O plantão

Eles começaram a subir.

E, no terceiro andar da escada, o Asclépio parou.

— Só um instante.

— Senhor, a gente está com pressa de verdade—

— Dois minutos.

E ele saiu do caminho, entrou numa fresta da parede e voltou com um pote de barro.

E foi andando até onde a roda de fogo girava.

— IXION!

A roda deu uma volta.

— Ué! — gritou o homem em chamas. — Já é hora?

— Já é hora.

A roda continuou girando, e o Asclépio começou a andar ao lado dela, acompanhando o ritmo, e — toda vez que o Íxion passava por perto — ele esticava a mão e passava alguma coisa do pote nos braços e nas costas do homem.

E, onde ele passava, a pele parava de queimar por alguns instantes.

— Melhorou? — perguntou Asclépio.

— Melhorou!

— Até amanhã, então.

— Até amanhã, doutor!

E o Asclépio voltou para o grupo, limpando a mão na túnica.

Os cinco estavam parados na escada olhando para ele.

— O que foi? — perguntou ele.

— O senhor… — Seiya engoliu em seco. — O senhor faz isso todo dia?

— Faço.

— Há quanto tempo?

Asclépio pensou um pouco.

— Desde que eu cheguei.


Capítulo 9 — O que não tem cura

Mais acima, ele parou de novo. Dessa vez no laguinho do Tântalo.

O velho magro estava lá, se abaixando, e a água fugindo.

O Asclépio não tentou dar água para ele. Não tentou pegar a fruta. Sentou na beirada, tirou um paninho molhado do bolso e passou nos lábios rachados do velho.

Só isso.

Durou uns quinze segundos.

— Obrigado — disse Tântalo.

— Amanhã eu passo de novo.

E eles seguiram subindo.

Dessa vez foi o Shun quem perguntou, e perguntou baixinho:

— Senhor. O senhor consegue curar eles?

— Não.

— Nem um pouquinho?

— Nem um pouquinho. — Asclépio subiu mais dois degraus. — Aquilo ali não é doença, menino. É sentença de deus. Eu não tenho remédio para isso e nunca vou ter.

— Então por que o senhor vai lá todo dia?

E o homem que estava preso há quatro mil anos parou na escada, virou para trás e disse a frase mais importante deste episódio:

— Porque curar e cuidar não são a mesma coisa, menino.

Ele continuou subindo.

— Tem muita coisa que não tem cura. Tem pouquíssima coisa que não tem cuidado.


Capítulo 10 — As mãos do Ikki

No meio da subida, eles pararam para descansar.

E o Asclépio sentou na frente do Ikki sem pedir licença, pegou as duas mãos dele e virou com as palmas para cima.

— Ei—

— Quieto.

As mãos do Ikki estavam destruídas.

Os nós dos dedos não eram mais nós de dedo. Tinha osso que tinha quebrado e colado torto, e colado torto de novo em cima, e de novo, oitocentas e quarenta mil vezes num lugar sem chão.

Ele não conseguia mais fechar a mão esquerda até o fim.

— O que você fez com isso? — perguntou Asclépio.

— Nada.

— Menino.

Ikki olhou para o lado.

— Eu fiquei preso num lugar sem chão e eu não podia parar de bater.

— Por quê?

— Porque, se eu parasse, eu não levantava mais.

E o Asclépio, que tinha passado quatro mil anos preso num lugar sem chão sem poder parar, olhou para aquele rapaz e falou uma coisa que ele não falava fazia muito tempo:

— Eu sei exatamente do que você está falando.

Ele segurou as duas mãos do Ikki entre as dele.

Não teve luz dourada. Não teve explosão. Teve um calorzinho, e um barulho baixo e esquisito de coisa se ajeitando por dentro.

Durou uns vinte segundos.

E aí ele soltou.

— Fecha.

Ikki fechou a mão esquerda.

Fechou inteira, até o fim, pela primeira vez em três semanas.

Ele abriu e fechou umas cinco vezes, olhando para a própria mão, sem falar nada.

— Obrigado — ele disse, por fim.

— De nada. — Asclépio se levantou. — E para de bater em parede.


Capítulo 11 — A coisa que ele não pode devolver

Já perto do topo, o Hyoga reuniu coragem e perguntou.

— Senhor. O senhor cura o impossível.

— Dizem.

— Então o senhor pode devolver uma lembrança?

Asclépio parou.

E, pela única vez naquela subida inteira, ele demorou muito para responder.

— Não.

— Mas o senhor—

— Eu conserto corpo, menino. — Ele bateu com o bastão no próprio peito. — Osso, carne, sangue, febre, veneno, até morte, naquele dia em que eu fiz besteira.

Ele olhou para o Hyoga.

— Lembrança não é ferida. Lembrança é o que você é. Ninguém consegue devolver para uma pessoa um pedaço de quem ela é, porque não está mais em lugar nenhum para ser pego de volta.

Hyoga assentiu devagar.

— Tudo bem.

— O que foi que você deu?

— Eu não sei. — E o Hyoga de Cisne deu de ombros, com a cara mais triste daquele dia inteiro. — Essa é a questão, né? Eu não sei.

E o Asclépio pôs a mão no ombro dele.

— Então eu vou te dizer uma coisa que eu aprendi aqui embaixo, e você pode aceitar ou não.

— Fala.

— O que te fez virar quem você é continua em você mesmo quando a lembrança some.

Ele apontou para o rapaz inteiro.

— Olha o seu jeito de falar. Olha o jeito como você entrou na frente dos seus amigos lá embaixo sem pensar. Isso foi alguém que te ensinou.

Hyoga ficou parado.

— Você não lembra quem foi — disse Asclépio. — Mas essa pessoa continua fazendo você andar.


Capítulo 12 — Luz vinda de cima

Eles chegaram na boca do poço no que deveria ser o fim da subida.

E pararam todos ao mesmo tempo.

Porque o Inferno estava claro.

Aquele lugar que não tem sol, que nunca teve sol, que é escuro desde antes de existir qualquer coisa — estava iluminado.

Uma luz branca e fria descia de cima, atravessando o teto do mundo dos mortos como se pedra fosse vidro, e caía nas ruínas, nas muralhas quebradas, nos rios secos.

E todas as sombras daquele lugar apontavam para o lado errado.

Os cinco não falaram nada.

E o Asclépio saiu do poço, pisou na pedra do Inferno com os dois pés descalços, levantou o rosto e olhou aquela luz por um tempo muito longo.

Ele ficou tanto tempo olhando que o Seiya chegou perto.

— Senhor?

E o homem que estava preso havia quatro mil anos disse, bem baixinho:

— Faz quatro mil anos que eu não vejo luz vindo de cima.

Ele apertou o bastão.

— Que pena que é essa.


E, lá em cima, muito acima, na praça quebrada de uma vila grega chamada Rodorio, uma moça de armadura dourada estava de pé sozinha no meio da luz, com uma lança na mão e o queixo erguido.

Esperando.


O Fim do Episódio 19

A lição desta noite

Essa noite tem uma frase só, e eu quero que você guarde ela para a vida inteira:

Curar e cuidar não são a mesma coisa.

Tem muita coisa que não tem cura. Tem pouquíssima coisa que não tem cuidado.

Pensa no que o Asclépio estava fazendo lá embaixo.

Ele é o melhor médico que já existiu. Ele é tão bom que o pai dele desceu um raio nele.

E ele passou quatro mil anos preso numa escada escura fazendo plantão.

Todo dia ele subia com um pote de pomada e caminhava ao lado de uma roda de fogo passando remédio num homem que ia continuar queimando no dia seguinte.

Todo dia ele sentava na beira de um lago e molhava os lábios de um velho que nunca ia conseguir beber.

Ele sabia que não ia adiantar. Sabia que não tinha cura. Sabia que ninguém ia agradecer e que aquilo não ia terminar nunca.

E ele ia assim mesmo.

Quando o Shun perguntou por quê, ele respondeu aquela frase.

Isso vale para muito mais coisa do que história de cavaleiro.

Vai ter gente na sua vida com um problema que você não consegue resolver. Um amigo triste. Alguém doente. Alguém com uma saudade que não passa.

E você vai ficar sem saber o que fazer, e vai pensar: eu não consigo consertar isso, então não adianta eu fazer nada.

Adianta.

Sentar do lado adianta. Levar água adianta. Ficar quieto junto adianta. Voltar amanhã adianta muito.

Você não precisa ter o remédio para ter o cuidado.


Uma curiosidade de verdade, para contar depois da história:

Aquele bastão com a cobra enrolada que o Asclépio carrega não é invenção nossa.

Ele existe de verdade, há milhares de anos, e se chama Bastão de Asclépio.

E, até hoje, em hospital, em ambulância, em crachá de médico, em placa de consultório no mundo inteiro, o desenho que diz “aqui dentro tem gente que cuida” é exatamente esse: um bastão com uma cobra enrolada.

Da próxima vez que você vir esse símbolo em algum lugar, você vai saber de onde ele veio.

Veio de um homem baixinho e descalço que fazia plantão no fundo de um buraco.

Fim do Episódio 19. Faltam dois.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã o imperador dos céus desce.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.