Passado Presente Futuro · Saga de Asgard

Episódio 2: O Gigante que Roubava para os Pobres

Ilustração simbólica do episódio 2: O Gigante que Roubava para os Pobres

Capítulo 1 — A Estrada Branca

Subir até o Palácio Valhalla não era como subir as Doze Casas.

Não havia escadaria. Não havia degraus de mármore, nem estátuas, nem tochas acesas mostrando o caminho.

Havia só neve.

Neve até os joelhos, vento cortando o rosto, e uma montanha branca que parecia não terminar nunca. A cada passo, o pé afundava. A cada dez passos, era preciso parar para respirar.

— Isso aqui é o inferno — resmungou Seiya, puxando o ar gelado.

— O inferno é quente — respondeu Shiryu, sem parar de andar.

— Então é pior que o inferno.

Lá atrás, cada vez menor no meio do branco, dava para ver uma pontinha de luz dourada.

Era Saori, parada no gelo, segurando o degelo do mundo inteiro com o próprio cosmo.

Seiya olhou para trás pela quinta vez em dez minutos.

— Ela não vai aguentar muito tempo, vai?

— Não — disse Shiryu. — Por isso a gente não pode parar.

E foi exatamente aí que o chão tremeu.


Capítulo 2 — A Montanha que Andava

Não foi um tremor de terra. Foi um tremor de passo.

Depois outro. E outro.

Alguma coisa estava vindo na direção deles — e essa coisa era grande o bastante para sacudir a neve das árvores a cada vez que pisava.

Ela apareceu no alto da subida, contra o céu branco.

E os cinco garotos pararam de andar ao mesmo tempo.

Era um homem. Ou pelo menos tinha o formato de um homem — mas era enorme. Ombros largos como uma porta de igreja, braços grossos como troncos, e uma armadura escura que refletia a neve.

Nas costas dele, cruzados, havia dois martelos gigantescos.

— Meu nome é Thor — disse o gigante, e a voz dele era grave o suficiente para sentir no peito. — Guerreiro Deus da estrela Phecda.

Ele desceu a montanha em três passos e parou diante deles.

— Vocês não passam daqui.

Seiya deu um passo à frente, mas Shun segurou o braço dele.

— Espera. Olha o peito dele.

Cravada na armadura, logo abaixo do ombro, havia uma pedra azul brilhando devagar.

Uma Safira de Odin.

— É uma das sete — sussurrou Shiryu.

Seiya sorriu, apesar do frio.

— Então a gente veio ao lugar certo.


Capítulo 3 — Os Dois Martelos

Thor puxou os dois martelos das costas, um em cada mão, e os girou no ar como se fossem galhos secos.

— Eu não gosto disso — disse ele. — Vocês são crianças. Mas quem entra em Asgard sem permissão não sai.

E atacou.

O primeiro martelo desceu tão rápido que ninguém viu — só ouviu o estrondo quando ele acertou o chão. A neve explodiu num raio de dez metros, e Seiya foi jogado para trás pela onda de choque.

— Martelo de Mjolnir!

O segundo martelo veio de lado, horizontal, na altura do peito.

Shiryu se jogou no chão e passou por baixo. Hyoga desviou saltando. Shun tentou prender o braço do gigante com as correntes — e as correntes chegaram a se enrolar, mas Thor simplesmente puxou o braço e Shun foi arrastado pela neve como um brinquedo amarrado num caminhão.

— Ele é forte demais! — gritou Shun, se levantando.

— Não é só força — disse Shiryu, limpando o sangue do lábio. — Ele é rápido também. Um homem daquele tamanho não deveria ser tão rápido.

Thor girou os dois martelos ao mesmo tempo, criando um redemoinho de neve ao redor de si.

E, no meio do redemoinho, ele desapareceu de vista.

— Cadê ele?! — gritou Seiya.

A resposta veio de cima.

Thor caiu do céu com os dois martelos apontados para baixo, e o impacto abriu uma cratera no meio da montanha.

Os cinco foram jogados para fora dela, rolando pela neve.

E, antes que qualquer um se levantasse, Thor largou os dois martelos na neve.

— Chega de arma — ele disse, e estalou o pescoço. — Vocês não merecem.

Ele abriu os braços, e o cosmo dele — que até ali estava todo concentrado nas armas — subiu pelo corpo inteiro de uma vez. O ar ficou pesado. A neve ao redor dos pés dele derreteu num círculo.

— HÉRCULES TITÂNICO!

E o gigante avançou sem nada nas mãos.

Foi pior. Muito pior.

Sem os martelos, ele ficou mais rápido — e a força bruta de um corpo daquele tamanho, empurrada pelo cosmo puro, arrancou Hyoga do chão e o arremessou contra uma árvore congelada, que se partiu ao meio.

— Ele é mais forte sem as armas! — gritou Shiryu.

— Não é isso — respondeu Seiya, cuspindo neve. — É que ele estava se segurando pra não matar a gente.


Capítulo 4 — O Turbilhão

Seiya se levantou da neve tossindo.

Ele estava machucado, o ombro doía de um jeito ruim, e ele tinha entendido uma coisa: pela força bruta, aquela luta estava perdida. Thor era mais forte do que os cinco juntos.

Então ele parou de tentar ser mais forte.

— Shiryu — ele chamou, ofegante. — Você lembra do treino do Mestre Ancião? Sobre a água do rio?

Shiryu virou o rosto na hora, entendendo.

— A água não briga com a pedra. Ela contorna.

— É isso.

Thor avançou de novo, e dessa vez Seiya não desviou.

Ele correu para dentro do golpe.

Quando o martelo desceu, Seiya girou o corpo no último instante, encostou as mãos no cabo da arma e usou a própria força do golpe para se lançar no ar, girando junto com ela.

— TURBILHÃO DE PÉGASO!

Ele voou por cima do ombro do gigante, girando como um pião, e desceu com toda a força acumulada do próprio ataque de Thor bem no ponto onde a armadura era mais fina.

Thor cambaleou.

Pela primeira vez na luta, o gigante cambaleou.

— Você usou a minha força contra mim…

— METEORO DE PÉGASO!

Seiya não deu tempo. Enquanto Thor ainda estava desequilibrado, a rajada de socos veio em cheio, dezenas deles, um atrás do outro, todos no mesmo ponto.

Os martelos caíram na neve.

E o gigante caiu de joelhos.


Capítulo 5 — O Caçador

Seiya ficou de pé, ofegante, esperando o contra-ataque que não veio.

Thor estava ajoelhado, respirando pesado, com a cabeça baixa.

E, então, ele riu. Uma risada curta, cansada, sem raiva nenhuma.

— Faz muito tempo que ninguém me derrubava.

Seiya baixou os punhos, sem entender.

— Por que você luta por ela? — perguntou. — Você viu o que está acontecendo. O gelo derretendo, o mundo alagando. Você não é burro. Você sabe que tem alguma coisa errada com a Hilda.

Thor ficou em silêncio por um tempo.

E, quando falou, foi olhando para as próprias mãos.

— Você sabe o que eu era antes de virar Guerreiro Deus?

— Não.

— Um ladrão.

Seiya piscou.

— Como assim?

— Asgard é uma terra dura, garoto. O gelo não deixa plantar. Tem inverno em que as aldeias simplesmente não têm o que comer. — Ele ergueu os olhos. — E, do outro lado da montanha, existem as terras de caça reais. Cheias de bicho. Proibidas para o povo comum, sob pena de prisão.

— Você caçava lá.

— Todo inverno. — Thor deu de ombros. — Eu entrava, caçava, e dividia com quem estava passando fome. Fiz isso por anos. Sabia que um dia seria pego.

— E foi?

— Fui. — Ele sorriu, e havia alguma coisa quase infantil naquele sorriso enorme. — Me levaram acorrentado até o palácio. Eu já sabia o que ia acontecer comigo. Aí a senhorita Hilda desceu do trono, olhou pra mim, e perguntou por que eu tinha feito aquilo.

Ele parou. A voz falhou um pouquinho.

— Eu contei a verdade. E ela me perdoou. Não só me perdoou: mandou abrir os celeiros do palácio para as aldeias naquele mesmo inverno.

Thor olhou para Seiya.

— Ninguém nunca tinha feito nada por aquela gente. Ninguém. E aquela mulher fez.


Capítulo 6 — Lealdade

Seiya sentiu o peito apertar de um jeito estranho.

— Então é por isso.

— É por isso — confirmou Thor. — Eu devo a minha vida a ela. E devo a vida de muita gente que teria morrido de fome naquele inverno.

Ele tentou se levantar e não conseguiu.

— Você tem razão numa coisa, garoto. Eu vi a senhorita Hilda mudar. Vi os olhos dela ficarem frios. — Sua mão foi até o peito, onde a Safira brilhava. — E, mesmo assim, eu não consigo abandoná-la. Porque, quando o mundo inteiro me abandonou, ela não abandonou.

Seiya ficou parado na neve, sem saber o que responder.

Porque, do jeito errado, aquilo estava certo.

Thor tirou a Safira do peito com os próprios dedos e a estendeu na direção do garoto.

— Peguem. — Ele empurrou a pedra na neve, na direção deles. — Se essas sete pedras podem trazer a senhorita Hilda de volta ao que ela era… então leve a minha.

Seiya se aproximou devagar e recolheu a Safira.

Ela estava quente.

— Uma coisa, garoto de Atena. — Thor ergueu o rosto uma última vez. — Os que vêm depois de mim são mais fortes que eu. Muito mais. E cada um deles tem um motivo tão bom quanto o meu.

Ele fechou os olhos.

— Não julguem meus irmãos rápido demais.

E o gigante que roubava comida para alimentar aldeias inteiras não disse mais nada.


Capítulo 7 — Uma de Sete

Os cinco ficaram parados na neve, em silêncio, olhando para o corpo enorme caído ali.

Nenhum deles comemorou.

— Uma safira — disse Shiryu, finalmente. — Faltam seis.

Hyoga olhou para o alto da montanha, onde o Palácio Valhalla continuava lá, escuro e distante.

— Ele avisou. Os próximos são mais fortes.

Seiya apertou a pedra azul na mão fechada.

Lá embaixo, muito longe, a pontinha de luz dourada que era Saori continuava acesa no meio do gelo — um pouco mais fraca do que de manhã.

— Então a gente anda mais rápido — disse Seiya.

E os cinco continuaram subindo.


O Fim do Episódio 2

Guarde o Thor, porque ele é a chave para entender essa história inteira.

Ele era um ladrão. Roubava, sim — e roubava para dar comida a quem estava morrendo de fome no inverno mais duro do mundo. Quando foi pego, esperava a prisão, e recebeu perdão. E, a partir daquele dia, ele decidiu que devia tudo àquela mulher.

Agora ele está lutando pelo lado errado. Sabe disso. Viu a Hilda mudar com os próprios olhos.

E mesmo assim ficou.

Não porque é burro, nem porque é mau — mas porque, quando alguém te salva no seu pior dia, você não abandona essa pessoa quando é ela que precisa de salvação.

Isso se chama lealdade. E, às vezes, a lealdade nos coloca do lado errado de uma briga.

Fim do Episódio 2. No próximo episódio, um garoto que foi criado por lobos.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

Adaptação do arco de Thor de Phecda.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Saga de Asgard do anime Os Cavaleiros do Zodíaco, da Toei Animation. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.