Passado Presente Futuro · Saga de Asgard
Episódio 3: O Menino que Foi Criado por Lobos

Capítulo 1 — Olhos na Neve
O caminho para o Palácio Valhalla passava por uma floresta.
Não uma floresta verde, dessas de árvores altas e passarinhos. Era uma floresta do norte: árvores secas e retorcidas, todas cobertas de gelo, tão juntas que o céu quase não aparecia entre elas.
E, dentro dela, havia silêncio.
Silêncio de verdade. Nenhum bicho. Nenhum vento. Nenhum barulho a não ser o dos passos dos cinco garotos afundando na neve.
Shiryu parou.
— Esperem.
— O que foi? — perguntou Shun.
— Nós estamos sendo observados.
Ele apontou para as sombras entre as árvores.
E, uma a uma, elas se acenderam.
Olhos. Dezenas de pares de olhos amarelos brilhando no escuro, todos parados, todos virados na direção deles.
Lobos.
Não dois ou três — uma alcateia inteira, grande demais para contar, cercando os cinco em silêncio absoluto.
— Continuem andando — disse Shiryu, baixinho. — Não corram.
Foi então que uma voz falou lá de cima:
— Tarde demais para isso.
Capítulo 2 — Fenrir
Ele estava em cima de um galho, agachado como um bicho, sem fazer o galho balançar nem um pouco.
Um rapaz de cabelos claros e compridos, vestindo uma armadura escura com uma Safira de Odin cravada no ombro. Os olhos dele eram amarelos como os dos lobos.
— Meu nome é Fenrir — disse ele. — Guerreiro Deus da estrela Alioth.
Ele desceu do galho num salto silencioso e caiu de pé na neve, sem afundar.
— E esta floresta é minha.
Shiryu deu um passo à frente.
— Não queremos brigar com você. Estamos indo até Hilda.
— Todo mundo que entra aqui diz que não quer brigar.
Fenrir ergueu a mão.
E a alcateia inteira avançou de uma vez só.
Capítulo 3 — A Alcateia
Foi o caos.
Os lobos vieram de todos os lados ao mesmo tempo, rápidos, coordenados, atacando não como animais famintos, mas como um exército que já tinha feito aquilo mil vezes.
Shun estendeu as correntes num círculo e conseguiu segurar uma parte deles. Hyoga congelou o chão para fazê-los escorregar. Seiya afastou dois com o braço e levou uma mordida no outro.
— Eles são organizados demais! — gritou Hyoga.
— Porque eles não são só lobos — respondeu Shiryu. — Olha para eles. Olha como eles esperam o sinal dele.
E, no meio da confusão, Fenrir atacou.
— Garra do Lobo Assassino!
Ele se moveu tão rápido que pareceu um borrão. Não era um golpe de punho — eram os dedos abertos, cortando o ar como garras de verdade, e Shiryu sentiu quatro linhas de fogo rasgarem o peito da armadura.
Ele foi jogado contra uma árvore e caiu de joelhos.
— Shiryu! — gritou Seiya.
— Vão em frente! — Shiryu se levantou, cambaleando. — Eu seguro ele aqui! Vocês têm que chegar até o palácio!
— De jeito nenhum!
— VÃO!
E a voz dele saiu com tanta força que os outros quatro obedeceram.
Fenrir os deixou passar. Ele nem olhou para eles indo embora — porque tinha escolhido o adversário que queria.
— Corajoso — disse ele, virando-se para Shiryu. — Ficar sozinho comigo e com quarenta lobos.
— Não é coragem — respondeu Shiryu, limpando o sangue. — É a única coisa que faz sentido.
Capítulo 4 — A Escuridão que Volta
A luta que veio depois foi das mais duras que Shiryu já tinha travado.
Fenrir não lutava como uma pessoa. Ele lutava como um animal — atacava de lado, recuava, circulava, mordia o ponto ferido e sumia antes do contra-ataque. E, quando Shiryu conseguia acompanhá-lo, os lobos entravam para atrapalhar.
— Cólera do Dragão!
O golpe subiu do chão como uma coluna de luz, e Fenrir saltou para o lado no último instante. Metade da floresta ficou coberta de neve levantada.
— Você é forte — admitiu Fenrir, aterrissando num galho sem fazê-lo balançar. — Mas eu conheço cada pedra deste lugar. E você não enxerga metade do que acontece aqui.
E sumiu de novo.
Shiryu girou, procurando — e o ataque veio de baixo, rente ao chão, saindo de entre as raízes.
— Golpe do Lobo Imortal!
Não foi um golpe só. Foram muitos, em sequência, vindos de direções diferentes — um corte no ombro, outro nas costas, outro atrás do joelho — e Fenrir já estava em outro lugar antes de o anterior terminar de doer.
Era exatamente assim que um lobo caça. Não de frente, não de peito aberto. Circulando, mordendo, recuando, cansando a presa até ela não conseguir mais virar o pescoço a tempo.
Shiryu caiu apoiado num joelho, ofegante.
Ele não está lutando comigo. Ele está me caçando.
E aquilo doeu mais do que os cortes.
Porque era verdade.
Shiryu piscou, e o mundo estava mais escuro do que devia estar.
Não. Agora não.
Ele já tinha perdido a visão uma vez, muito tempo antes, numa batalha em que apostou os próprios olhos para salvar um amigo. A visão tinha voltado, mas nunca voltou inteira — e sempre que ele forçava demais, o escuro voltava rondando.
Estava voltando agora.
— Você está ficando cego — disse Fenrir, percebendo na hora. Os bichos percebem essas coisas. — Eu sinto o cheiro do seu medo.
— Não é medo — respondeu Shiryu, e fechou os olhos de propósito.
— O quê?
— Se eu não posso confiar nos meus olhos… então eu paro de usá-los.
E ficou parado no meio da clareira, de olhos fechados, ouvindo.
Capítulo 5 — O Menino de Seis Anos
Fenrir atacou de novo e, dessa vez, Shiryu bloqueou.
Bloqueou de olhos fechados, no escuro, guiado só pelo som da neve sendo pisada.
Fenrir recuou, e havia alguma coisa nova no rosto dele. Não era raiva. Era quase respeito.
— Por que você faz isso? — perguntou Shiryu, ainda de olhos fechados. — Por que um homem escolhe viver no meio de lobos?
— Porque lobos não abandonam ninguém.
A resposta saiu rápido demais, e Fenrir percebeu que tinha falado mais do que queria.
Shiryu abriu os olhos.
— O que aconteceu com você?
E, por algum motivo que nem ele entendeu direito, Fenrir contou.
— Eu tinha seis anos.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Meus pais me levaram para passear na floresta. Eu adorava aquela floresta. — Sua voz ficou estranhamente monótona, do jeito que a gente fala de coisas que doem demais. — E apareceu um urso.
Shiryu não disse nada.
— Eu fiquei escondido atrás de uma pedra. Eu era pequeno. Não pude fazer nada. — Ele deu de ombros, um gesto que não combinava nada com o que estava contando. — Quando acabou, eu não tinha mais pai nem mãe.
— Sinto muito.
— Não sinta. Isso não foi o pior.
Fenrir ergueu os olhos amarelos.
— O pior foi depois. Eu voltei para a aldeia. Sozinho, com seis anos, sem pai nem mãe. E os meus amigos — os meus amigos, entende? — as famílias deles não quiseram ficar comigo. Diziam que dava azar. Que era criança de desgraça.
Ele deu um sorriso que não era sorriso nenhum.
— Fecharam as portas. Todas elas. Numa aldeia inteira, nenhuma porta abriu.
Capítulo 6 — Quem Abriu a Porta
— Então eu voltei para a floresta — continuou Fenrir. — Para o mesmo lugar onde tinha perdido tudo. Porque, pensando bem, o urso me tratou melhor do que os humanos: pelo menos o urso não fingiu que gostava de mim antes.
Ele apontou para os lobos ao redor, que tinham parado de atacar e agora estavam sentados na neve, atentos.
— Eu ia morrer congelado naquela primeira noite. E eles vieram.
Um lobo enorme, de pelo cinzento e uma cicatriz na cara, se aproximou e encostou a cabeça na perna dele.
— Este aqui é o Guing — disse Fenrir, e a voz dele mudou completamente ao falar o nome. — Ele me deitou no meio da alcateia para eu não morrer de frio. Eu tinha seis anos e eram os lobos que me esquentavam à noite.
Ele coçou a cabeça do bicho.
— Eles me criaram, cavaleiro. Me ensinaram a caçar, a correr, a escutar. Nunca me chamaram de azarado. Nunca fecharam nenhuma porta. — Fenrir encarou Shiryu. — Agora me diga: por que eu deveria lutar pelos humanos?
Shiryu ficou em silêncio por um bom tempo.
— Você não deveria — ele disse, por fim.
Fenrir piscou, surpreso.
— O quê?
— Você não deve nada a eles. Eles te trataram muito mal. — Shiryu deu um passo à frente. — Mas os humanos que fecharam aquelas portas não são todos os humanos que existem. E as pessoas que vão morrer se o mar subir também não são elas.
— Não me interessa.
— Interessa sim. Senão você não teria me contado.
Fenrir cerrou os punhos.
— Chega.
Capítulo 7 — A Cachoeira Congelada
A última investida foi a mais feroz de todas.
Fenrir avançou com tudo o que tinha, e a alcateia inteira veio junto com ele.
— Golpe do Lobo Imortal!
Shiryu foi atingido, jogado para trás, e rolou pela neve até parar de costas.
Ele olhou para cima, ofegante, e viu.
Bem acima da clareira, cravada na encosta da montanha, havia uma cachoeira congelada — uma parede imensa de gelo, presa ali havia anos, pesando toneladas.
E ele entendeu que era a única saída.
— Fenrir! — ele gritou, se levantando. — SAIA DAÍ! LEVE OS LOBOS E SAIA!
— Você acha que eu vou fugir?
— NÃO É FUGA! ESCUTA!
Mas Fenrir já estava avançando de novo.
Shiryu reuniu tudo o que restava de cosmo dentro do peito, virou-se para a montanha e disparou.
— CÓLERA DO DRAGÃO!
O golpe subiu, atravessou o ar e acertou a base da cachoeira congelada.
Houve um estalo. Depois outro. Depois um som grave e horrível, como o mundo rachando.
E a montanha de gelo desabou.
Capítulo 8 — Juntos
Shiryu conseguiu se jogar atrás de uma formação de pedra a tempo.
Fenrir não.
Ele estava no meio da clareira, com os lobos ao redor, quando a avalanche desceu.
E, no último segundo — Shiryu viu isso, e nunca esqueceu —, Fenrir não tentou correr.
Ele se virou para a alcateia e abriu os braços, como quem tenta abraçar quarenta bichos ao mesmo tempo.
Depois a neve cobriu tudo.
Quando o barulho parou e a poeira branca baixou, a floresta estava diferente. Metade das árvores tinha sumido. O chão era um mar de gelo quebrado.
Shiryu saiu de trás da pedra, mancando, e caminhou até onde a clareira tinha estado.
Encontrou a Safira de Odin caída na neve, ainda brilhando.
E, ao lado dela, meio enterrada, a mão do lobo cinzento com a cicatriz na cara, encostada na de Fenrir.
Shiryu se ajoelhou e ficou ali um tempo.
— Você não estava sozinho — ele disse baixinho. — Nem no começo, nem agora.
Ele pegou a safira, guardou-a com cuidado, e se levantou.
E percebeu, com um aperto no peito, que estava enxergando tudo aquilo através de uma névoa cinzenta que não ia embora.
A escuridão tinha voltado a rondar seus olhos.
Mas ele tinha uma safira na mão, e faltavam cinco.
Então ele continuou andando.
O Fim do Episódio 3
Essa é uma história triste, e é bom dizer isso em voz alta.
O Fenrir tinha seis anos quando perdeu os pais. E, logo depois, descobriu uma coisa horrível: que as pessoas que ele achava que eram seus amigos fecharam as portas para ele quando ele mais precisava.
Quem abriu a porta foram os lobos.
Por isso ele passou a vida inteira do lado deles, e nunca mais confiou em ninguém que andasse de pé. Não porque ele fosse mau — mas porque ele aprendeu, muito cedo, que doía menos ficar longe.
E repare no último gesto dele: quando a avalanche veio, ele não correu. Ele abriu os braços para a família dele.
Fenrir estava errado sobre uma coisa só. Ele achava que “os humanos” eram todos iguais àqueles vizinhos que fecharam as portas. E não são.
Se um dia alguém fechar uma porta na sua cara, lembre do Fenrir — e lembre que sempre existe outra porta, em outro lugar, com alguém do outro lado esperando você chegar.
Fim do Episódio 3. No próximo episódio, fogo e gelo no caminho dos cavaleiros.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.
Adaptação do arco de Fenrir de Alioth.
Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Saga de Asgard do anime Os Cavaleiros do Zodíaco, da Toei Animation. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.