Passado Presente Futuro · Saga de Asgard

Episódio 4: Fogo e Gelo

Ilustração simbólica do episódio 4: Fogo e Gelo

Capítulo 1 — O Amigo de Infância

Antes de contar essa luta, preciso te contar uma coisa que aconteceu muitos anos antes dela.

Em Asgard, havia três crianças que brincavam juntas.

Um menino sério e forte, chamado Siegfried. Um menino teimoso e cheio de energia, chamado Hagen. E uma menina de cabelos claros que ria de tudo, chamada Freya — a irmã caçula da sacerdotisa.

Os três cresceram correndo pela neve, subindo em pedras, se escondendo atrás das colunas do palácio.

E, em algum momento dessa história, Hagen olhou para Freya de um jeito diferente.

Ele nunca disse nada. Nem uma vez. Mas decidiu, sozinho, uma coisa muito séria para um menino: que ia se tornar o guerreiro mais forte de Asgard, para poder proteger aquela menina de qualquer coisa.

E foi para uma caverna.


Capítulo 2 — A Caverna de Fogo

Em Asgard, tudo é gelo. Tudo, menos um lugar.

Bem no fundo de uma montanha, existe uma caverna onde a lava corre por baixo das pedras. Lá dentro, o ar queima os pulmões. As paredes brilham de vermelho. É o único lugar quente de toda aquela terra congelada.

Foi ali que Hagen treinou, ano após ano.

Ele passava horas dentro do calor insuportável e depois saía direto para a neve, sem casaco, deixando o corpo passar do fogo para o gelo num segundo.

Fez isso tantas vezes, por tanto tempo, que aconteceu uma coisa que nunca tinha acontecido com ninguém:

Ele aprendeu a usar os dois.

Fogo e gelo. O calor da lava e o frio de Asgard, saindo das mesmas mãos.

Nenhum outro guerreiro daquela terra conseguia isso. E, quando Hilda o chamou para ser um dos sete Guerreiros Deuses, ele aceitou na mesma hora — porque servir a Hilda era, para ele, a mesma coisa que proteger a Freya.


Capítulo 3 — O Cavaleiro do Gelo

E, então, chegou o dia em que Hyoga apareceu em Asgard.

Hagen ficou sabendo de tudo: que a Freya tinha ajudado o rapaz a fugir das masmorras. Que os dois tinham conversado. Que ela tinha atravessado meio mundo para pedir ajuda a Atena, contra a própria irmã.

E, na cabeça de Hagen, aquilo virou uma coisa só.

Aquele estrangeiro roubou a minha amiga.

Quando os Cavaleiros de Bronze subiam a montanha, foi Hyoga que ele foi procurar.

— Você — disse Hagen, cortando o caminho dele. — Cisne.

— Você é um dos sete.

— Hagen de Merak. — Ele já estava com o cosmo aceso. — E eu vou te matar por uma coisa que não tem nada a ver com essa guerra.

Hyoga franziu a testa.

— Do que você está falando?

— Da Freya.

E atacou.


Capítulo 4 — O Lugar Errado para um Cavaleiro do Gelo

Hagen não lutou onde estavam. Ele empurrou a luta montanha adentro, golpe após golpe, forçando Hyoga a recuar por um túnel escuro.

E, quando Hyoga percebeu para onde estava sendo levado, já era tarde.

O ar mudou.

Ficou quente. Depois muito quente. Depois insuportável.

Eles tinham chegado à caverna de lava.

Hyoga caiu de joelhos, arfando. O suor escorria dentro da armadura. Ele era um Cavaleiro do Cisne, treinado na Sibéria, num lugar onde a água vira pedra — o corpo dele simplesmente não sabia funcionar naquele calor.

— Bem-vindo à minha casa — disse Hagen.

E ergueu as mãos.

— RAIO DE FOGO!

Um feixe incandescente cortou a caverna e acertou Hyoga em cheio, jogando-o contra a parede de rocha quente.

— FORÇA CONGELANTE!

E, no instante seguinte, veio o oposto: uma rajada de ar gélido, tão fria que congelou o vapor da lava no meio do ar.

Hyoga rolou pelo chão, atordoado.

Ele não conseguia se defender de nada — porque não dava para adivinhar o que vinha. Fogo, gelo, fogo de novo. Cada vez que o corpo dele se preparava para uma coisa, vinha a outra.

— Como… — ele conseguiu dizer, cuspindo sangue. — Como você faz as duas?

— Treinando aqui dentro desde criança — respondeu Hagen. — Todos os dias. Por anos.

— Por quê?

Hagen parou por um segundo.

— Por ela.


Capítulo 5 — Freya Chega

Foi então que uma voz gritou na entrada da caverna.

— HAGEN! PARA!

Freya tinha corrido montanha acima até ali, sozinha, e estava parada na boca do túnel, ofegante, com as mãos apoiadas na pedra.

Hagen congelou no meio do golpe.

— Freya…?

— Para com isso, por favor! — Ela deu um passo para dentro da caverna. — Ele não é seu inimigo! Ele veio para salvar a minha irmã! Foi eu que pedi!

— Você pediu.

— Pedi. Porque a Hilda não é ela mesma, Hagen. Você viu. Você viu os olhos dela mudarem, eu sei que viu.

E Hagen viu, sim. Ele tinha visto.

Mas havia outra coisa muito mais alta gritando dentro dele naquele momento, e essa coisa não era lealdade. Era ciúme.

— Você atravessou o mundo por ele — disse Hagen, e a voz saiu estranha. — Você me conhece desde criança. Eu treinei nessa caverna por anos por sua causa. E você atravessou o mundo por um estrangeiro que conheceu semana passada.

— Não é isso!

— É exatamente isso.

— HAGEN, ESCUTA!

Mas ele não escutou.

Cego de raiva e de ciúme, ele disparou — e Freya estava exatamente na trajetória.

Hyoga viu tudo acontecer e não teve tempo de chegar lá.

Quando o clarão passou, Freya estava caída no chão de pedra da caverna.

E Hagen ficou parado, com a mão ainda erguida, olhando para o que tinha acabado de fazer.


Capítulo 6 — O Sétimo Sentido

Alguma coisa se quebrou dentro de Hyoga naquele instante.

Não foi a dor. Não foi o calor. Foi ver uma menina desarmada, que só tinha vindo pedir para pararem de brigar, caída no chão por causa de uma briga que não era dela.

Ele se levantou.

E, de repente, o calor da caverna já não importava mais.

— Mestre Camus — ele sussurrou, e a voz dele estava firme. — Agora eu entendi.

O cosmo de Hyoga começou a subir. Primeiro devagar, depois todo de uma vez, e a temperatura da caverna caiu tão rápido que a lava nas paredes começou a criar uma crosta escura.

Hagen deu um passo para trás.

— Isso é impossível. Aqui dentro ninguém consegue…

— Existe uma coisa chamada sétimo sentido — disse Hyoga, e um vento branco começou a girar ao redor dele. — Eu não sabia direito o que era. Achei que fosse uma questão de força.

Ele ergueu os braços.

— Não é. É a hora em que você decide que não vai perder.

O ar da caverna virou cristal.

— EXECUÇÃO AURORA!

A aurora saiu das mãos dele como um rio de luz congelada, atravessou a caverna inteira e engoliu Hagen por completo.

O fogo se apagou.


Capítulo 7 — O que Ele Viu no Fim

Quando a luz baixou, Hagen estava de joelhos no meio de um chão coberto de gelo, dentro de uma caverna que era feita de lava dez segundos antes.

Freya se arrastou até ele.

— Hagen…

E ele olhou para ela.

Só então — tarde demais, como acontece com quase todo mundo — o ciúme saiu da frente dos olhos dele, e ele conseguiu enxergar direito.

Enxergou a menina que ele conhecia desde criança, machucada, no chão, chorando por causa dele.

— Freya… — ele disse baixinho. — Eu machuquei você.

— Está tudo bem.

— Não está. — Ele tentou levantar a mão para o rosto dela e não conseguiu. — Eu treinei tanto para te proteger. Passei a vida inteira nessa caverna por isso.

Ele riu, e foi uma risada muito triste.

— E, no fim, quem te machucou fui eu.

Freya segurou a mão dele com as duas.

— Você era meu amigo. Sempre foi.

Hagen fechou os olhos.

— Salva a Hilda — ele pediu. — Salva a sua irmã. Alguém tem que fazer o que eu deveria ter feito.

E não falou mais nada.

Hyoga se aproximou devagar e recolheu a Safira de Odin caída no gelo.

Ele não sentiu vitória nenhuma. Só um vazio esquisito no peito.

— Ele era forte — disse Hyoga. — Se tivesse usado essa força para salvar a Hilda em vez de brigar comigo, talvez a gente nem precisasse estar aqui.


O Fim do Episódio 4

O Hagen é o mais difícil de explicar de todos os Guerreiros Deuses, e é por isso que vale a pena falar dele.

Ele não era mau. Ele passou a infância inteira sendo amigo de uma menina e a vida adulta inteira treinando num vulcão para poder protegê-la.

Só que, quando chegou a hora, ele não escutou.

A Freya foi até lá, no meio do fogo, para falar com ele. Ela disse a verdade. Disse exatamente o que ele precisava ouvir. E ele estava com tanto ciúme, com tanta raiva de perder o lugar dele, que não conseguiu ouvir uma palavra.

E acabou machucando justamente a pessoa que ele passou a vida querendo proteger.

Fica a lição, e é uma lição difícil até para gente grande: quando alguém que você ama vem falar com você, escute até o fim. Principalmente quando você está com raiva. Principalmente quando parece que você já sabe o que a pessoa vai dizer.

Porque quase sempre você não sabe.

Fim do Episódio 4. No próximo episódio, um guerreiro que luta tocando música — e a história mais triste de todas.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

Adaptação do arco de Hagen de Merak.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Saga de Asgard do anime Os Cavaleiros do Zodíaco, da Toei Animation. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.