Passado Presente Futuro · Saga de Asgard

Episódio 5: A Música do Homem que Não Chorava

Ilustração simbólica do episódio 5: A Música do Homem que Não Chorava

Capítulo 1 — Uma Melodia no Meio da Neve

Shun ouviu antes de ver.

Estava subindo sozinho por um trecho de montanha quando o som chegou até ele, carregado pelo vento: uma melodia.

Não era uma música alegre. Era o tipo de música que parece que está chorando — lenta, bonita e triste de um jeito que dá vontade de sentar no chão e ficar escutando.

Shun parou de andar.

— Que música é essa?

Ele deveria ter ido embora. Deveria ter subido, procurado os outros, seguido o plano.

Mas ninguém consegue ir embora de uma música assim.

Ele seguiu o som.

E, numa clareira de neve, encontrou um rapaz sentado numa pedra, de cabelos ruivos compridos, tocando uma lira dourada com os olhos fechados.

Ele não parecia um guerreiro. Parecia um músico que tinha se perdido no lugar errado do mundo.

Só que, cravada na armadura dele, brilhava uma Safira de Odin.


Capítulo 2 — As Correntes que Não Reagiram

— Você é um dos sete — disse Shun.

O rapaz terminou a nota que estava tocando antes de responder.

— Mime de Benetnasch.

Ele se levantou devagar, com a lira na mão.

E aí aconteceu uma coisa muito estranha.

As correntes de Shun não se moveram.

Aquelas correntes eram vivas. Elas sentiam o perigo sozinhas — sempre que alguém com intenção de matar se aproximava, elas se erguiam por conta própria, antes mesmo de Shun pensar em levantar o braço.

Diante de Mime, elas ficaram paradas. Penduradas. Mortas.

Shun olhou para o próprio braço, confuso.

Elas não estão sentindo maldade nenhuma nesse homem.

— Eu não quero brigar com você — disse Shun.

— Ninguém quer — respondeu Mime. — E, mesmo assim, todo mundo briga o tempo todo.

E as cordas da lira soaram.


Capítulo 3 — O Réquiem

A princípio, Shun nem entendeu que tinha sido atacado.

A música ficou mais rápida. O ar ao redor dele começou a vibrar. E, de repente, havia dez Mimes na clareira — depois vinte — todos tocando, todos idênticos, girando ao redor dele.

— Ilusões! — Shun girou, tentando achar o verdadeiro.

Ele tirou a parte de cima da armadura para concentrar todo o cosmo e disparou.

— TEMPESTADE NEBULOSA!

A onda de energia varreu a clareira inteira.

E as ilusões apenas ondularam e voltaram ao lugar.

— Você é bom — disse a voz de Mime, vindo de todos os lados. — Mas está tentando acertar o que não está lá.

E os dedos dele correram pelas cordas numa escala rápida e aguda.

Shun não viu nada sair.

Só sentiu — três furos abrindo no ombro, no braço e na coxa, no mesmo instante, como se tivesse sido atravessado por agulhas de luz.

Ele caiu de joelhos na neve.

— O que foi isso?!

— Feixes de luz — respondeu Mime, sem parar de tocar. — Eles saem das minhas mãos na velocidade da luz. Você não desvia do que você não consegue ver chegando.

Ele tocou outra escala, e vieram mais quatro.

Shun rolou de lado, e dois passaram raspando pela neve ao lado dele, abrindo buracos fumegantes no chão branco.

— Você é rápido — comentou Mime. — Mas cansa.

E, então, as cordas apertaram.

— RÉQUIEM DE CORDAS.

Shun sentiu fios finíssimos se enrolando nos braços, nas pernas, no pescoço. Eram as cordas da lira, esticadas pelo cosmo, invisíveis até tocarem a pele.

Elas apertaram.

E, o pior de tudo: continuaram tocando enquanto apertavam. A música não parou nem por um segundo.

— Quando a última nota terminar — disse Mime, calmamente —, você para de respirar.


Capítulo 4 — Por Que Vocês Lutam?

Shun, preso nas cordas, mal conseguindo puxar ar, fez a única coisa que ainda podia fazer: falou.

— Por que… você faz isso?

— Porque me mandaram.

— Não. — Shun engasgou. — Você não é assim. Suas correntes… as minhas correntes não reagiram a você. Elas sentem maldade. Elas não sentiram nada em você.

Mime parou de tocar.

Só por um instante — mas parou.

— Não existe maldade nem bondade — ele disse. — Existe só barulho. Os homens brigam há milhares de anos e vão brigar por mais milhares. Uma guerra acaba e começa outra. Alguém salva o mundo, e cem anos depois o mundo precisa ser salvo de novo.

Ele voltou a tocar.

— Então me diga, Cavaleiro: para que lutar? Se nunca vai haver paz de verdade, qual é o sentido de qualquer coisa?

E Shun, com as cordas apertando o pescoço, não conseguiu responder.

Porque não era uma pergunta feita para vencer uma briga.

Era uma pergunta que aquele homem fazia para si mesmo todos os dias havia muitos anos.


Capítulo 5 — O Irmão Mais Velho

As cordas se romperam.

Todas de uma vez, cortadas de fora para dentro, e Shun caiu de joelhos na neve tossindo e puxando o ar.

No meio da clareira, com fogo subindo pelos braços, estava Ikki.

— Irmão!

— Você fala demais e luta de menos — resmungou Ikki, sem olhar para trás. — Sai daí.

Mime observou o recém-chegado com curiosidade.

— Outro.

— Fênix. — Ikki cerrou os punhos. — E eu não vou perder tempo com essa sua conversa de que nada faz sentido.

— É a verdade.

— É uma desculpa.

Mime tocou uma nota aguda, e feixes de luz saíram dos dedos dele, rápidos demais para se ver — Ikki foi atingido três vezes antes de conseguir se mover.

Mas ele não caiu.

— Você é forte, Fênix.

— Eu sou teimoso — corrigiu Ikki, cuspindo sangue. — É diferente. E muito pior para você.


Capítulo 6 — O Golpe que Abre Portas

Ikki avançou dentro da chuva de luz, apanhando o caminho inteiro, e chegou perto o bastante.

— GOLPE FANTASMA DE FÊNIX!

Aquele golpe não machuca o corpo. Ele entra na cabeça — e vai direto ao lugar mais fundo, onde as pessoas guardam as coisas que não querem lembrar.

Mime arregalou os olhos.

A lira caiu na neve.

E a clareira ao redor dele sumiu.


Capítulo 7 — Folken

Ele estava de volta a uma casa de madeira, muitos e muitos anos antes.

Era pequeno. E havia um homem grande na porta, com um casaco de guerra e um olhar duro.

O nome dele era Folken.

Folken tinha trazido aquele menino órfão da guerra e o criado como filho. Deu comida, deu teto, cuidou dele quando ficou doente, ensinou a caçar, ensinou a lutar.

E queria que ele fosse guerreiro.

Só que o menino não queria ser guerreiro.

O menino queria tocar.

— Isso não serve para nada — disse Folken, um dia, arrancando a harpa das mãos dele. — Música não protege ninguém. Música não te mantém vivo.

E quebrou o instrumento.

Mime não chorou. Ele fez uma outra harpa escondido, e continuou tocando quando o pai não estava em casa.

Os anos passaram assim: um pai que não sabia dizer que amava, e um filho que não sabia perguntar.

Até o dia do pingente.


Capítulo 8 — A Verdade Pela Metade

Mime encontrou por acaso, no fundo de uma gaveta, um pingente antigo.

Dentro dele, o retrato de duas pessoas que ele nunca tinha visto: um homem e uma mulher.

Ele levou o pingente até Folken e perguntou quem eram.

E Folken, com o rosto fechado, respondeu a verdade.

— São seus pais.

— Meus… pais?

— Eu os matei. Numa guerra. — A voz dele saiu dura, quase agressiva. — Eram fracos. Fracos morrem. É assim que funciona.

O mundo caiu.

Tudo o que Mime tinha — o pai, a casa, a vida inteira — virou uma mentira em cima de um crime, em um único segundo.

Ele não pensou. Não perguntou mais nada. Não deu tempo para mais nada.

Num acesso de raiva, ele avançou contra Folken.

E, caído, o homem que o criou tentou dizer alguma coisa.

Mime não escutou.

Estava gritando alto demais por dentro para ouvir qualquer coisa.


Capítulo 9 — A Outra Metade

E foi exatamente aí que o Golpe Fantasma da Fênix fez o que faz: mostrou o resto.

O resto que Mime nunca tinha visto, porque tinha fugido da sala antes.

Ele viu Folken naquela guerra, anos antes. Viu o homem hesitando, tentando não matar aquele casal, sendo empurrado por uma guerra que ele não tinha começado e não podia parar.

Viu Folken depois, ajoelhado, com um bebê chorando no meio dos escombros.

Viu Folken carregando aquele bebê para casa, sem contar a ninguém o que tinha feito, decidindo criar o filho das pessoas que ele tinha matado — porque era a única coisa no mundo que ele ainda podia fazer.

E viu, mais dolorido que tudo, aquele homem duro parado do lado de fora da porta do quarto, à noite, escutando escondido o filho tocar a harpa que ele mesmo tinha proibido.

Escutando. Todas as noites. Sem entrar.

E, por último, Mime viu o final que ele não tinha ficado para ver.

Folken caído no chão, esticando a mão na direção dele.

“Me perdoa.”

Ele tinha dito. Naquele dia. E Mime tinha ido embora antes de ouvir.


Capítulo 10 — A Última Música

Mime voltou para a clareira de joelhos na neve, com o rosto molhado.

— Ele pediu perdão — sussurrou. — Ele pediu perdão e eu não escutei.

Ikki estava de pé diante dele, ofegante, sem dizer nada.

— Por que você me mostrou isso? — A voz de Mime saiu rouca. — Eu vivi tantos anos sem saber. Eu poderia ter morrido sem saber.

— Porque você merecia saber — respondeu Ikki. — Mesmo que doa.

Mime pegou a lira caída na neve e a segurou contra o peito, do jeito que a gente segura uma coisa que não pode perder duas vezes.

— Ele me amava — disse. — Do jeito errado, sem saber falar, quebrando as minhas coisas… mas me amava. E eu passei a vida inteira achando que ninguém tinha me amado nunca.

Ele olhou para Ikki.

— É por isso que eu dizia que nada faz sentido, sabe? Se nem o meu pai me amava, o que é que ia fazer sentido?

— E agora?

Mime sorriu — e foi a primeira vez em toda aquela noite que ele sorriu de verdade.

— Agora faz.

Ele tocou uma última nota na lira. Uma só, longa, que ficou vibrando no ar da montanha.

— Fênix. Eu não vou conseguir ver a paz que eu queria. Já perdi tempo demais.

Ele estendeu a Safira de Odin.

— Leve. E, se um dia esse mundo ficar em paz de verdade… lembre que teve um cara aqui que passou a vida inteira achando que era impossível.

E, com a lira nos braços, Mime de Benetnasch fechou os olhos.

Do lado de fora da neve, muito longe no tempo, um homem duro que nunca soube dizer as palavras certas talvez tenha finalmente sido perdoado.


Capítulo 11 — Duas Safiras

Shun se aproximou devagar do irmão.

— Ele não era mau, né?

— Não. — Ikki guardou a safira. — Ele só nunca soube que era amado. Isso estraga uma pessoa mais do que qualquer maldade.

Os dois olharam para o alto da montanha, onde o Palácio Valhalla esperava.

Quatro safiras. Faltavam três.

E, lá embaixo, muito longe, a luz dourada de Saori no meio do gelo continuava um pouco mais fraca do que no dia anterior.


O Fim do Episódio 5

Essa é a história mais bonita e mais triste dessa saga inteira, e ela é sobre uma coisa muito simples: as pessoas às vezes amam do jeito errado.

O Folken amava o Mime. Amava de verdade. Mas quebrou a harpa dele, gritou com ele, e falou uma frase horrível na pior hora possível. E o Mime, magoado, foi embora antes de ouvir o pedido de perdão.

Os dois se perderam por causa de uma conversa que não aconteceu.

Então repare em duas coisas antes de dormir.

A primeira: quando alguém que você ama estiver falando com você, escute até o fim. Mesmo com raiva. Principalmente com raiva.

A segunda: se alguém que gosta de você às vezes fala de um jeito duro ou faz alguma coisa errada, isso não quer dizer que não gosta. Quer dizer que essa pessoa também está aprendendo — e que talvez ela esteja ali, do lado de fora da porta, escutando você em silêncio, sem saber como entrar.

Fim do Episódio 5. No próximo episódio, o Guerreiro Deus mais inteligente de Asgard — e o único que sabia de tudo desde o começo.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

Adaptação do arco de Mime de Benetnasch — o mais emocionante da saga.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Saga de Asgard do anime Os Cavaleiros do Zodíaco, da Toei Animation. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.