
Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.
Capítulo 1 — Uma Lembrança nos Campos Elísios
Antes de tudo, uma lembrança.
Num lugar branco e silencioso chamado Campos Elísios, cinco garotos vestindo armaduras que brilhavam como o próprio sol enfrentavam o Imperador do Mundo dos Mortos.
Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki. Contra Hades.
Era uma luta impossível, e eles estavam perdendo.
Mas, no meio dela, aconteceu uma coisa estranha.
Hades olhou para Seiya — só para ele — e parou.
Não parou de lutar. Parou por dentro. Como quem vê um rosto na rua e demora um segundo para entender por que aquele rosto parece familiar.
E, na cabeça do deus, uma imagem antiga apareceu sozinha: um campo cheio de flores, e um garoto de sorriso fácil correndo por ele, chamando um nome.
Eu já conheci você, pensou Hades. Há muito, muito tempo.
Guarde essa lembrança. Ela é o começo de tudo.
Capítulo 2 — Dois Amigos, Duas Armaduras Douradas
Duzentos e quarenta e três anos antes daquela batalha, no Santuário de Atena.
O Grande Mestre chamou dois jovens ao salão principal.
Eles eram Cavaleiros de Bronze — os degraus mais baixos da hierarquia — e não faziam ideia do porquê de terem sido chamados.
— Shion. Dohko. — A voz do Grande Mestre ecoou nas colunas. — De hoje em diante, vocês vestem ouro.
Diante deles, duas urnas se abriram.
A Armadura de Áries, para Shion. A Armadura de Libra, para Dohko.
— Faltavam dois Cavaleiros de Ouro para completar os doze — continuou o Grande Mestre. — Agora estamos completos. E não é por acaso.
Ele fez uma pausa.
— A alma de Hades vai renascer em breve. Uma nova Guerra Santa está começando.
E, mal ele terminou a frase, um guarda entrou correndo pelo salão.
— Grande Mestre! Encontramos! Localizamos onde a alma de Hades vai renascer!
— Onde?
— Num lugar da Terra chamado… Elísios.
Capítulo 3 — O Combate mais Curto entre Dois Amigos
Dohko saiu correndo antes que qualquer um dissesse mais uma palavra.
— Dohko! — Shion correu atrás. — Aonde você pensa que vai?!
— Buscar a cabeça de Hades.
— Sozinho?!
— Se eu matar ele agora, antes de acordar direito, não tem guerra nenhuma. — Dohko não diminuiu o passo. — Ninguém morre. Nenhum Cavaleiro, nenhuma criança, ninguém.
— Isso é insano! A gente precisa falar com o Grande Mestre, chamar os outros dez, montar um plano…
— Não tem tempo.
— Tem sim!
E Shion se colocou na frente dele.
O que aconteceu em seguida durou pouquíssimo.
Os dois trocaram punhos. Não houve golpe com nome, não houve técnica secreta, não houve explosão de cosmo iluminando o Santuário inteiro. Foram só dois amigos igualmente fortes, com armaduras douradas novas em folha, se batendo por alguns segundos porque nenhum dos dois conseguia convencer o outro com palavras.
E acabou tão rápido quanto começou.
Dohko baixou os punhos, deu um passo para o lado e continuou andando.
Shion ficou parado ali, com a respiração pesada, olhando as costas do amigo se afastarem.
E entendeu duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira: que Dohko não ia parar de jeito nenhum.
A segunda: que ele estava certo. Se desse para matar Hades antes de a guerra começar, valia o risco.
— Espera! — gritou Shion, começando a correr.
Dohko olhou para trás.
— Você não vai me impedir.
— Não vou impedir. — Shion parou ao lado dele. — Vou junto. Se você vai fazer uma loucura dessas, pelo menos não faz sozinho.
E os dois desceram do Santuário juntos.
Capítulo 4 — O Garoto no Campo de Flores
O rastro os levou até a Itália, nos arredores de Florença.
E o que encontraram lá não era o que esperavam.
Não havia castelo, nem exército, nem trevas. Havia um campo enorme coberto de flores brancas e amarelas, um dia bonito de sol — e, sentado no meio daquilo, um rapaz.
Ele tinha os cabelos claros e estava desenhando alguma coisa num caderno apoiado nos joelhos.
Dohko deu um passo na direção dele.
E não conseguiu dar o segundo.
Alguma coisa o segurou. Não uma mão, não uma corrente, não um golpe — foi a presença daquele rapaz. O cosmo que emanava dele, sem que ele fizesse esforço nenhum, sem que ele nem soubesse, era tão imenso e tão pesado que o corpo de um Cavaleiro de Ouro simplesmente travou.
Dohko ficou parado no meio do campo, com o pé no ar, incapaz de se mexer.
— Shion… — ele conseguiu murmurar. — Você está sentindo isso?
Shion estava suando frio.
— Estou.
E o pior de tudo era isto: aquele cosmo esmagador não era mau. Não tinha ódio nenhum. Era só grande demais para caber numa pessoa.
O rapaz ergueu os olhos do caderno.
— Boa tarde — disse ele, sorrindo. — Vocês vieram de longe?
O nome dele era Alone.
Capítulo 5 — Tenma
Shion foi o primeiro a se recuperar.
E entendeu, num raio, o que estava diante dele.
Um cosmo desse tamanho, num rapaz comum, exatamente no lugar onde a alma de Hades vai renascer.
É ele.
Ele ergueu a mão para acabar com aquilo antes que começasse.
E foi interrompido por um grito.
— ALONE, CORRE!
Um garoto atravessou o campo de flores correndo a toda velocidade e se jogou entre Shion e o amigo.
Cabelos castanhos revoltos, roupa simples, e uma cara de quem não pensa duas vezes antes de fazer nada.
— METEORO DE PÉGASO!
Os socos saíram um atrás do outro, dezenas deles, na direção dos dois Cavaleiros de Ouro.
E não aconteceu nada.
Nada mesmo. Nem um arranhão. Nem um passo para trás. As armaduras douradas nem tremeram.
O garoto ficou de boca aberta.
— Como assim…?
— Você conhece o golpe — disse Shion, calmamente. — Mas não conhece o cosmo. Não adianta saber o movimento se não tem força por dentro.
E derrubou o garoto com um único golpe.
Alone correu até o amigo caído.
— TENMA!
E, mesmo tonto, o garoto tentou se levantar de novo.
Capítulo 6 — A Urna que Caiu do Cavalo
Alone puxou Tenma pelo braço e os dois correram até um cavalo branco amarrado numa árvore.
Subiram e fugiram a galope.
E, no sacolejo da corrida, alguma coisa presa ao lombo do animal se soltou e caiu no chão: um barril de madeira que Tenma carregava havia anos sem nunca ter aberto.
Só depois de estarem em segurança é que ele percebeu a falta.
— O barril!
— Deixa isso pra lá!
— Não posso deixar! — Tenma já estava descendo do cavalo. — Me disseram para abrir se acontecesse alguma coisa muito grave. E eu acho que agora é.
Ele voltou correndo pelo campo, achou o barril quebrado no chão — e, dentro dele, uma coisa que ele nunca tinha visto.
Uma urna dourada, coberta de símbolos antigos.
Tenma passou a mão nela, sem entender.
E a urna se abriu sozinha.
Uma luz explodiu do interior, subiu no ar e se desmontou em pedaços que giraram ao redor do garoto — ombreiras, peitoral, braçadeiras, elmo — e se fecharam sobre o corpo dele um por um.
Quando a luz baixou, Tenma estava de pé no meio do campo, vestindo uma armadura que ele não sabia que existia.
A Armadura de Pégaso.
Capítulo 7 — O Que É um Cavaleiro
— Impossível — disse Dohko, chegando.
— Ele é um Saint — completou Shion, atônito. — Um Cavaleiro de Atena. E não sabe.
Tenma olhou para as próprias mãos cobertas de metal.
— Um o quê?
E, então, aconteceu uma conversa muito estranha no meio de um campo de flores.
Os dois Cavaleiros de Ouro explicaram ao garoto o que ele era.
Explicaram sobre Atena, a deusa que protege a Terra. Sobre os oitenta e oito Cavaleiros, um para cada constelação. Sobre as armaduras que só se abrem para quem elas escolhem. E sobre o cosmo — a força que existe dentro de cada pessoa e que, quando acesa, faz um punho valer mais que um exército.
Tenma escutou tudo. E, quando terminaram, ele disse:
— Tá bom. Entendi. — Ele assumiu posição de combate de novo. — METEORO DE PÉGASO!
Os socos voaram outra vez.
E outra vez não fizeram nada.
— Você é teimoso — observou Dohko.
— Sou.
— Escuta, garoto. — Dohko se aproximou, e a voz dele ficou séria. — Aquele seu amigo, o Alone. A alma de Hades vai renascer dentro dele. Se isso acontecer, morre gente demais para você conseguir contar.
— O Alone não faria mal a uma mosca!
— O Alone, não. Hades, sim.
Tenma abriu a boca para responder e não conseguiu.
Porque, no fundo, ele também tinha notado alguma coisa mudando no amigo nos últimos tempos.
— Então vamos atrás dele — ele disse, finalmente. — Os três. Antes que aconteça.
E foram.
E chegaram tarde.
Capítulo 8 — A Espada na Pedra
Alone tinha sido levado por uma mulher de olhar frio chamada Pandora até um pequeno templo antigo, escondido entre as pedras.
No chão daquele templo havia um pentagrama gravado.
E, cravada bem no centro dele, uma espada escura.
— Retire — disse Pandora.
Alone olhou para a arma e sentiu o corpo inteiro gelar.
— Por quê?
— Porque essa espada está aí há eras, e centenas de homens já tentaram tirá-la. Reis. Guerreiros. Nenhum conseguiu nem mexer. — Ela deu um passo à frente. — Só uma pessoa no mundo consegue. E, se você conseguir, não haverá mais dúvida nenhuma sobre quem você é.
Alone recuou.
— Eu não quero saber quem eu sou.
— Ninguém quer. E todo mundo acaba sabendo.
O rapaz ficou olhando para aquela espada por um tempo muito longo.
E depois se aproximou — não porque Pandora mandou, mas porque alguma coisa dentro dele queria aquilo, e essa era a parte mais assustadora de tudo.
Ele fechou as duas mãos no cabo.
E a espada saiu da pedra sem nenhuma resistência. Como se estivesse encostada ali. Como se sempre tivesse sido dele.
Capítulo 9 — O Despertar
Nesse instante, o mundo inteiro sentiu.
Dohko e Shion, correndo pela estrada, pararam de uma vez só.
— O que foi isso? — perguntou Tenma.
Nenhum dos dois respondeu na hora, porque nenhum dos dois conseguia falar.
O cosmo que tinha acabado de explodir no horizonte era diferente de tudo o que existe. Não era luz. Não era escuridão. Era mais antigo que as duas coisas.
— Ele acordou — disse Shion, com o rosto branco. — Hades acordou por completo.
E, quando os três chegaram ao alto da colina, viram uma coisa que não estava lá de manhã.
Um castelo.
Um castelo imenso, negro, de torres impossíveis, erguido do nada no meio das montanhas — e, ao redor dele, o ar tremia como o ar em cima de uma fogueira.
Alone caminhava em direção àquele castelo, ao lado de Pandora, sem olhar para trás.
— ALONE! — gritou Tenma, começando a correr. — ALONE, SOU EU!
— Não entra aí! — Dohko tentou segurá-lo. — GAROTO, NÃO ENTRA!
Tarde demais.
Capítulo 10 — A Barreira
Tenma atravessou o ar que tremia.
E, no segundo em que passou, sentiu como se alguém tivesse desligado alguma coisa dentro dele.
As pernas ficaram pesadas. Os braços, moles. A armadura, que segundos antes parecia leve, virou chumbo.
Aquilo era a barreira de Hades.
Dentro dela, o cosmo dos Cavaleiros de Atena era esmagado. Não roubado, não bloqueado — rebaixado. Ali dentro, um Cavaleiro de Ouro tinha a força de uma criança comum.
E, quando os soldados apareceram, Tenma descobriu isso do jeito difícil.
Eram esqueletos com armaduras escuras — os soldados mais baixos e mais descartáveis do exército de Hades, o tipo de inimigo que um Cavaleiro derruba aos vinte de uma vez.
Ali dentro, eles derrubaram Tenma.
Ele apanhou. Apanhou de verdade, caído no chão de pedra, sem conseguir revidar, enquanto o amigo dele desaparecia atrás dos portões do castelo sem virar o rosto uma única vez.
Foi isso que doeu mais que os golpes.
Os soldados ergueram as armas para acabar com ele.
E dois raios dourados atravessaram o campo.
Dohko e Shion tinham entrado atrás dele — e, mesmo enfraquecidos, mesmo dentro da barreira, ainda eram Cavaleiros de Ouro o bastante para varrer aqueles soldados de uma vez só.
— Levanta, moleque — disse Dohko, puxando Tenma pelo braço. — Isso aqui vai ficar muito pior.
Capítulo 11 — O Homem que Parava Golpes com um Dedo
E ficou.
Uma sombra desceu dos céus e pousou entre eles e o castelo.
Não era um esqueleto. Era um homem — alto, de armadura escura e elegante, com um sorriso educado no rosto e um olhar que não combinava nada com o sorriso.
— Vermeer de Grifo — ele se apresentou, com uma pequena reverência. — Um dos três Juízes do Mundo dos Mortos.
Dohko sentiu o estômago afundar.
Um Juiz. E a gente aqui dentro dessa barreira.
Tenma, claro, atacou primeiro.
— METEORO DE PÉGASO!
Vermeer ergueu um dedo.
Um só. O indicador da mão direita.
E a rajada inteira parou nele.
Todos aqueles socos, toda aquela velocidade, contidos por um dedo levantado no ar como quem pede silêncio numa sala.
— Que fofo — disse Vermeer.
Shion e Dohko avançaram juntos, um por cada lado.
Vermeer agarrou os punhos dos dois no ar, um em cada mão, sem esforço aparente.
E os arremessou.
Os dois Cavaleiros de Ouro voaram longe e caíram como bonecos jogados por uma criança entediada.
— Vocês são Cavaleiros de Ouro — comentou Vermeer, ajeitando a luva. — Deveriam estar no meu nível. É uma pena que a barreira do meu senhor tenha transformado vocês nisso.
Capítulo 12 — Marionete Cósmica
Os três se levantaram, cambaleando.
E Vermeer sorriu de um jeito novo.
— Vocês estão tendo dificuldade para ficar de pé. Deixem que eu ajudo.
Ele ergueu as duas mãos e moveu os dedos no ar, como quem dedilha um instrumento.
— MARIONETE CÓSMICA.
Fios finíssimos de cosmo — invisíveis, mas ali — se prenderam aos braços, às pernas e ao pescoço dos três.
E os corpos deles se levantaram sozinhos.
Não porque quiseram. Porque foram levantados.
Tenma sentiu o próprio braço subir sem que ele mandasse. Shion viu as próprias pernas darem um passo à frente contra a sua vontade. Dohko tentou fechar a mão e a mão se abriu.
— Vejam só — disse Vermeer, girando o pulso. — Uma dancinha.
E os três dançaram, no meio daquele campo, contra a vontade, como bonecos de pano pendurados no ar.
Depois o sorriso de Vermeer sumiu.
— Chega de brincadeira.
Ele fechou o dedo médio.
E o braço direito de Dohko se torceu para o lado errado com um estalo horrível.
— DOHKO!
— Não grita, Shion. Você é o próximo.
Vermeer virou a mão devagar, e a cabeça de Shion começou a girar sozinha para o lado, um pouquinho de cada vez, na direção em que um pescoço não vira.
Tenma, preso pelos fios, com o corpo travado, fez a única coisa que ainda podia fazer.
Ele gritou. Gritou com toda a força que tinha, e acendeu o pouco de cosmo que ainda restava dentro dele, e conseguiu — por meio segundo — mover o braço.
Um único soco. Fraco. Ridículo.
Mas foi o bastante para Vermeer parar e olhar.
— Você é irritante — ele disse, e ajustou os fios para prender o garoto por completo.
Capítulo 13 — O Cosmo que Todos Reconheceram
E foi então, quando os três estavam pendurados no ar prestes a serem quebrados um a um, que outro cosmo se aproximou.
E aconteceu uma coisa esquisita.
Shion e Dohko, mesmo pendurados, mesmo com o braço quebrado, ergueram a cabeça ao mesmo tempo — porque conheciam aquele cosmo.
Conheciam bem demais.
Quando eram meninos, no Santuário, eles treinavam num grupo de três. Shion, Dohko e mais um. E esse terceiro era o melhor dos três: mais generoso, mais sábio, mais corajoso. Virou Cavaleiro de Prata muito antes deles. Depois foi enviado numa missão pelo Grande Mestre e nunca mais voltou.
O nome dele era Suikyo. Cavaleiro de Prata de Taça.
E era ele quem estava chegando agora.
— Suikyo! — gritou Shion, e por um segundo houve alívio na voz dele. — Suikyo, é você!
O homem parou diante deles.
E o alívio morreu.
Porque a armadura que ele vestia não era de prata.
Era escura, com asas de ave de rapina, e o nome do posto dele agora era outro:
Garuda. Um dos três Juízes do Mundo dos Mortos.
Do outro lado do campo, ainda preso nos fios, Tenma sentiu o chão sumir de um jeito que não tinha nada a ver com a batalha.
— Mestre…?
Capítulo 14 — O Soco Mais Gentil do Mundo
Vermeer olhou o recém-chegado com desconfiança.
— Garuda. Você já foi Cavaleiro de Atena, não já?
— Já.
— E como é que eu sei que você não vai me trair aqui?
Suikyo não respondeu com palavras.
Ele caminhou até Tenma — o garoto que ele mesmo tinha treinado, a criança que ele tinha resgatado de uma nevasca anos antes — pegou-o pelo colarinho e ergueu a mão para acabar com ele ali mesmo, na frente de todos.
Tenma não se defendeu. Nem tentou.
— Mestre — ele disse. — Por quê?
E, nesse exato instante, um soldado se materializou ao lado deles com uma mensagem de Pandora: os Juízes deviam voltar ao castelo imediatamente.
Vermeer resmungou e partiu.
Suikyo ficou.
E, quando ficaram sozinhos, ele fez uma coisa que só Tenma entendeu muitos anos depois.
Ele socou o garoto no estômago.
Não foi um golpe forte. Foi só o suficiente para tirar o ar dele e derrubá-lo — só o suficiente para que qualquer um que estivesse olhando de longe visse um Espectro maltratando um inimigo.
E, enquanto Tenma caía, ele viu o rosto do mestre bem de perto.
Havia uma tristeza ali que ele não sabia explicar.
Depois Suikyo se virou e desapareceu.
Capítulo 15 — A Água da Taça
Os três ficaram caídos no campo, do lado de fora da barreira, feridos demais para andar.
E foi o cavalo de Tenma quem os salvou.
Pégaso apareceu trotando entre as pedras, arrastando ainda o outro barril preso à sela — e, quando o barril bateu numa rocha e se quebrou, o que rolou para fora dele foi uma armadura prateada.
— Essa é… — Dohko arregalou os olhos. — Essa é a Armadura de Taça.
— A armadura do meu mestre — sussurrou Tenma.
Havia água dentro dela.
E Shion explicou por quê.
— Conta a lenda que, na Era Mitológica, no meio de uma guerra, Atena bebeu desta taça. E que, desde aquele dia, qualquer água colocada dentro desta armadura fica sagrada.
Ele mergulhou a mão e bebeu.
E os ferimentos começaram a fechar.
Os três beberam, e o cansaço foi saindo do corpo, e o braço quebrado de Dohko voltou ao lugar.
— Tem mais uma coisa sobre essa água — disse Shion, olhando a superfície. — Dizem que ela mostra o futuro de quem se debruça sobre ela.
— Sério?! — Dohko empurrou os outros e enfiou a cara na taça. — Deixa eu ver!
Ele ficou olhando por alguns segundos.
E o rosto dele foi murchando devagar.
— O que foi? — perguntou Tenma.
— Nada.
— O que você viu?
— Nada.
Dohko se afastou emburrado, resmungando. No reflexo, ele tinha visto um velhinho minúsculo de barba branca enorme, com cara de quem não sai do lugar há décadas.
— Que futuro horrível — ele murmurou. — Eu era pra ficar bonito.
Capítulo 16 — O Rapaz na Cadeira
Depois foi a vez de Tenma.
Ele se aproximou da taça sem muita expectativa, esperando ver ele mesmo mais velho, com barba, talvez com uma armadura melhor.
Debruçou-se sobre a água.
E ficou paralisado.
Porque o rapaz refletido ali era parecido com ele. Muito parecido. Mesmo cabelo bagunçado, mesmo formato de rosto, mesmo jeito de olhar.
Mas não era ele.
Era outra pessoa. Uma pessoa que ele nunca tinha visto na vida.
E essa pessoa estava sentada numa cadeira com rodas, com um cobertor sobre as pernas, olhando para longe com o rosto muito pálido.
— Quem é você? — sussurrou Tenma para a água.
A água não respondeu.
Ele ficou olhando aquele reflexo por um tempo muito longo, com uma sensação estranha e triste no peito, sem entender de onde ela vinha.
Ninguém ali naquele campo sabia, mas aquele rapaz na cadeira de rodas se chamava Seiya, e ele ainda ia nascer dali a duzentos e quarenta e três anos.
E o destino dos dois já estava amarrado num nó que nem o tempo conseguiria desfazer.
O Fim do Volume 1
Repare no que aconteceu aqui, porque é bem diferente do que costuma acontecer nas histórias.
Não houve um vilão que apareceu do nada querendo destruir o mundo.
Houve um rapaz gentil, sentado num campo de flores desenhando, que puxou uma espada porque alguma coisa dentro dele quis puxar. E um amigo que correu atrás dele e apanhou de todo mundo tentando trazê-lo de volta.
E houve uma traição — a pior de todas, porque foi de alguém que amava.
O mestre Suikyo virou Espectro de Hades. Todo mundo que ouviu a notícia achou que ele era um traidor covarde.
Guarde o último gesto dele: aquele soco fraquinho no estômago do Tenma, na frente de um Juiz que estava avaliando se ele era confiável.
Às vezes o que parece um ataque é a única forma que alguém encontrou de proteger você.
Fim do Volume 1.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.