Episódio 3: A Luz que Saiu de Dentro Dela

Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

História adaptada · parte publicada

Episódio 3: A Luz que Saiu de Dentro Dela

Fase 3 do mangá.


Capítulo 1 — Um Dia Comum

Seiya acordava todo dia antes do sol.

Tomava o café que a irmã deixava pronto, calçava as botas velhas e descia a estrada até o templo em ruínas nos arredores de Rodorio, onde trabalhava carregando e assentando pedra.

Era um trabalho duro e mal pago. O templo estava caindo aos pedaços havia décadas, e um grupo pequeno de homens da vila tentava levantar as paredes de novo, uma por dia, se tanto.

Ele não reclamava.

Fazia aquilo porque a Seika precisava de ajuda com as contas da casa, e porque ele não sabia fazer outra coisa.

Naquela manhã, um dos trabalhadores mais velhos o observou erguer um bloco de pedra sozinho — um bloco que normalmente exigia dois homens — e coçou a cabeça.

— Você é forte pra caramba, garoto.

— Sou?

— Você não percebe?

Seiya olhou para a pedra nos braços e deu de ombros.

— Acho que é costume.

E continuou trabalhando, sem pensar mais nisso.

Mas, à noite, deitado no escuro, a pergunta voltava sempre: de onde é que eu tirei aquilo na estrada?


Capítulo 2 — O que Ninguém Conta

No jantar, ele tentou de novo.

— Seika.

— Hum?

— Como era o meu pai?

A irmã continuou mexendo a panela.

— Você sabe que a gente não tinha pai.

— Tá. E a nossa mãe?

— Também não.

— Então quem cuidou da gente?

Silêncio.

— Eu cuidei — disse Seika, finalmente. — Desde sempre. Você não lembra porque era pequeno.

— E antes disso?

— Antes disso você era bebê, Seiya.

Ele largou o garfo.

— Seika, eu tenho buracos. — A voz dele saiu mais alta do que ele queria. — Tem anos inteiros que eu simplesmente não sei onde estava. Eu pergunto e você muda de assunto. Eu pergunto na vila e as pessoas mudam de assunto.

Ela parou de mexer a panela.

— E se eu te dissesse — ela falou, devagar, sem se virar — que tem coisa que é melhor ficar esquecida?

— Eu diria que eu quero saber assim mesmo.

Seika ficou de costas por um tempo muito longo.

— Come a sua sopa — ela disse, por fim. — Está esfriando.


Capítulo 3 — O Rapaz das Flores Também Não Lembra

No dia seguinte, Seiya passou na floricultura.

Shun estava atrás do balcão, amarrando um buquê com aquela paciência que ele tinha para tudo.

— Shun, posso te fazer uma pergunta esquisita?

— Pode.

— Você lembra da sua infância?

As mãos de Shun pararam no laço.

— Por que você está perguntando isso?

— Porque eu não lembro da minha.

Shun pousou o buquê no balcão e ficou olhando para ele.

— Eu também não — disse, baixinho.

Seiya sentiu um arrepio.

— Como assim?

— Eu lembro de ter chegado aqui. De ter aprendido o ofício. Das flores, dos clientes, do inverno passado. — Ele apontou para a própria têmpora. — Mas, se eu tentar ir mais para trás, tem uma parede. E, quando eu bato nessa parede, eu fico com uma sensação horrível no peito, como se tivesse esquecido alguém muito importante.

— Exatamente isso.

Os dois se olharam.

— Você acha que aconteceu alguma coisa com a gente? — perguntou Seiya.

— Eu acho que aconteceu alguma coisa com muita gente — respondeu Shun. — E que ninguém percebeu, porque quem esquece não sabe que esqueceu.


Capítulo 4 — O Grito

Foi na tarde seguinte que tudo mudou.

Seiya estava voltando do trabalho quando ouviu, vindo da praça da vila, um som que não combinava com o horário: gritos. Muitos.

Ele largou as ferramentas e correu.

E o que viu na praça o fez parar de uma vez só.

Havia umas vinte pessoas ali. Gente da vila. Gente que ele conhecia — o padeiro, o filho do ferreiro, duas mulheres que vendiam no mercado.

E todos eles estavam com aqueles olhos leitosos e vazios.

Todos eles estavam se movendo na mesma direção, devagar, em silêncio, fechando um círculo.

E, no centro do círculo, encurralada contra a parede da fonte, estava a moça das ruínas.

— SAORI!

Ele nem soube de onde tinha vindo aquele nome.

Ela ergueu a cabeça na direção dele, com o rosto branco de pavor.

— Você sabe o meu nome?!

— EU NÃO SEI DE NADA! SAI DAÍ!


Capítulo 5 — Vinte Contra Dois

Seiya entrou no meio da multidão.

E foi muito pior do que a estrada.

Na estrada eram oito homens e ele podia bater. Ali eram vinte pessoas da vila dele — gente que ele conhecia pelo nome, que tinha vendido pão para ele, que tinha consertado a telha da casa dele.

Ele não podia machucar aquelas pessoas.

Então ele empurrou. Bloqueou. Segurou. Se meteu no meio, aparando braços, desviando de mãos, tentando abrir espaço sem derrubar ninguém.

E eles eram muitos demais.

— Seiya! — Shun chegou correndo pelo outro lado, jogando a caixa de flores no chão. — O que está acontecendo?!

— Não bate neles! São da vila!

— Eu sei!

Os dois formaram uma parede na frente de Saori, de costas para ela, empurrando a multidão com os ombros e os antebraços.

Mas o círculo apertava.

Uma mão agarrou o braço de Seiya. Depois outra. Depois quatro. Ele foi puxado para o lado, perdeu o pé, e no chão viu Shun também sendo engolido pela massa de gente.

E, encostada na fonte, sozinha, Saori viu aquilo acontecer.

Viu dois rapazes que ela mal conhecia sendo derrubados por tentarem protegê-la.

E alguma coisa dentro dela quebrou.


Capítulo 6 — A Luz

Ela não decidiu. Ela nem soube o que estava fazendo.

Saori apertou as mãos contra o peito, fechou os olhos com força e desejou, com tudo o que tinha dentro de si, que aquilo parasse.

Não. Não eles. Não por minha causa.

E o peito dela se acendeu.

Não é força de expressão: acendeu mesmo.

Uma luz dourada e quente irradiou de dentro dela, atravessou o tecido da roupa, encheu a praça inteira de ponta a ponta e subiu pelas paredes das casas.

Não fez barulho. Não derrubou ninguém. Não quebrou nada.

Ela apenas tocou cada uma daquelas vinte pessoas.

E, uma a uma, elas pararam.

O padeiro piscou. A mulher do mercado levou a mão à cabeça, confusa. O filho do ferreiro soltou o braço de Shun e olhou para a própria mão, sem entender por que estava segurando alguém.

Os olhos leitosos foram voltando ao normal, um por um, como quem acorda de um sonho pesado no meio da tarde.

E todos eles ficaram parados na praça, olhando em volta, perguntando uns aos outros o que tinha acontecido.

A luz apagou.

E Saori caiu de joelhos.


Capítulo 7 — O que Foi Aquilo

Seiya se arrastou até ela.

— Ei. Ei, você está bem?

Ela estava tremendo dos pés à cabeça.

— O que foi que eu fiz?

— Eu não sei.

— O que foi que eu fiz?!

Shun se ajoelhou do outro lado, e a voz dele saiu muito calma para alguém que tinha acabado de ver aquilo.

— Você curou eles.

— Eu não sei curar ninguém! Eu não sei fazer nada! Eu não sei nem quem eu sou!

E ela chorou — daquele jeito feio e sem controle de quem está com medo de si mesma.

Seiya não sabia o que fazer com as mãos, então fez a única coisa que ocorreu a ele: sentou no chão de pedra ao lado dela e ficou ali.

— Olha — ele disse, depois de um tempo. — Eu também não sei quem eu sou.

Ela ergueu o rosto.

— O quê?

— Eu tenho buracos na memória do tamanho de anos. O Shun também. — Ele deu de ombros. — A gente descobriu isso ontem e ficou com medo igual.

Shun assentiu.

— Parece que somos três.

Saori olhou de um para o outro.

E, pela primeira vez desde que tinha descido daquelas ruínas, ela não se sentiu completamente sozinha.


Capítulo 8 — No Fundo do Mundo

Muito abaixo de tudo, Ker sentiu.

Ela estava caminhando entre os escombros do Inferno quando parou de repente, ergueu o rosto na direção da superfície e ficou muito, muito quieta.

Jean de Órthros percebeu na hora.

— Minha senhora?

Ela não respondeu de imediato.

— Você sentiu isso? — perguntou, e a voz dela estava diferente.

— Senti alguma coisa. Um cosmo. Fraco.

— Fraco. — Ker riu, e não foi uma risada boa. — Aquilo não foi fraco, Jean. Aquilo foi contido. Tem uma diferença enorme.

Ela virou-se para ele.

— Aquilo despossuiu vinte pessoas ao mesmo tempo sem machucar nenhuma delas. Você faz ideia do que é preciso para isso?

Jean baixou a cabeça.

— Não, minha senhora.

— Precisa ser uma deusa.

Ker apertou os punhos, e as ruínas ao redor dela tremeram.

— Ela está acordando. Mais rápido do que eu contava. — Ela começou a caminhar de volta ao trono de pedra quebrada. — Prepare tudo. Nós não temos mais o luxo de esperar.

— Prepare o quê?

Ker se sentou.

— A armadilha. — O sorriso voltou. — Se ela está acordando, então ela vai começar a procurar. E, quando alguém procura, é muito fácil fazer essa pessoa encontrar exatamente o que a gente quer.


O Fim do Episódio 3

Este episódio tem uma cena que vale guardar.

Vinte pessoas possuídas, fechando um círculo. Dois rapazes se colocando na frente sem poder revidar, porque eram vizinhos, conhecidos, gente da vila. E uma moça encostada numa fonte, sem armadura, sem golpe, sem lembrar de nada — que fecha os olhos e simplesmente deseja que aquilo pare.

E para.

Ela não venceu ninguém. Não derrubou ninguém. Não machucou ninguém.

Ela só acendeu uma luz que tirou a coisa ruim de dentro de vinte pessoas de uma vez, e depois caiu de joelhos chorando de medo do que tinha acabado de fazer.

Repare nisso: na hora do aperto, a primeira coisa que ela fez — sem lembrar quem era, sem saber que era uma deusa — foi proteger os outros.

Você pode esquecer o seu nome, a sua casa e a sua história inteira.

Mas quem você é de verdade fica.

Fim do Episódio 3. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.

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