Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

História adaptada · parte publicada

Episódio 4: As Treze Estrelas

Ilustração do episódio 4: As Treze Estrelas

Fase 4 do mangá.


Capítulo 1 — A Pergunta na Praça

A praça de Rodorio estava quase vazia quando o sol começou a baixar.

As vinte pessoas tinham ido embora para casa, confusas, contando umas às outras uma história que não fazia sentido nenhum. O padeiro jurava que tinha passado a tarde amassando pão. A mulher do mercado dizia que só lembrava de ter sentado para descansar.

Sobraram três pessoas sentadas na beira da fonte.

— Preciso que você me conte tudo — disse Seiya. — Do começo.

Saori riu, e foi uma risada sem graça nenhuma.

— Eu não sei o começo.

— Então conta o que sabe.

Ela olhou para as próprias mãos.

— Eu acordei num lugar em ruínas, lá em cima. Não sei como cheguei lá. Não sei o meu sobrenome, não sei onde eu morava, não sei se eu tenho família.

Ela apertou os dedos.

— A única coisa que eu sei é que, de vez em quando, vem um pedaço. Um nome. Um rosto. Uma sensação de que tem uma coisa muito importante que eu prometi fazer.

— E o que você prometeu?

— Eu não sei. — A voz dela falhou. — É isso que está me matando.


Capítulo 2 — O Peito Quente

E foi então que aconteceu.

Seiya estava se levantando da fonte quando sentiu de novo — aquele calor no meio do peito que já tinha acordado ele no meio da noite dias antes.

Só que dessa vez não passou em segundos.

Dessa vez cresceu.

— Ai…

Ele levou a mão ao esterno, e o calor subiu pelos ombros, desceu pelos braços, tomou conta do corpo inteiro como se alguém tivesse aberto um forno dentro dele.

— Seiya? — Shun se levantou de um salto. — O que foi?!

— Eu não sei, eu… está queimando…

E aí a luz saiu.

Pontos de luz azul-branca começaram a brilhar sobre o corpo dele, através da roupa, em posições espalhadas: dois nos ombros, um no peito, outros nos braços, nas costas, nas pernas.

Treze pontos.

Eles pulsavam juntos, no mesmo ritmo — e o ritmo era o do coração dele.

Seiya caiu de joelhos na pedra da praça, com os olhos arregalados, olhando o próprio corpo se acender.

— O QUE É ISSO?!

E Saori se levantou devagar, com a mão na boca.

Porque ela sabia.

Não lembrava de nada — mas sabia.


Capítulo 3 — O Nome Daquilo

— Isso se chama cosmo.

As palavras saíram dela sem que ela decidisse dizer, do mesmo jeito que o nome dele tinha saído nas ruínas.

Seiya ergueu o rosto, ofegante.

— Como é que você sabe?!

— Eu não sei como eu sei! — Ela se ajoelhou na frente dele. — Mas é isso. Chama-se cosmo. Está dentro de todo mundo, mas quase ninguém acende.

Ela apontou para os pontos de luz.

— E esses pontos não são aleatórios. — A voz dela ficou mais baixa. — Olha a posição deles.

Shun se afastou dois passos para enxergar o conjunto.

E o rosto dele mudou.

— É um desenho.

— É uma constelação — corrigiu Saori.

Seiya olhou para o próprio corpo, tentando ver o que eles estavam vendo, e não conseguiu — porque ninguém consegue ver o desenho inteiro estando dentro dele.

Foi Shun quem disse em voz alta:

— São treze estrelas. E elas formam um cavalo.

Ele engoliu em seco.

— Um cavalo com asas.

E Saori sentiu o mundo inclinar — porque era exatamente aquele desenho que ela tinha ficado olhando no céu de Rodorio, chorando, sem saber por quê.

— Pégaso — ela sussurrou.


Capítulo 4 — Você Era Um Guerreiro

A luz foi baixando devagar, até apagar.

Seiya ficou sentado no chão da praça, encharcado de suor, respirando como quem correu quilômetros.

— Me explica — ele pediu. — Por favor.

Saori demorou para responder, escolhendo cada palavra.

— Eu acho… — Ela parou. — Eu acho que você era um guerreiro.

— Eu carrego pedra.

— Agora. — Ela ergueu os olhos. — Mas você derrubou oito homens numa estrada sem saber como. Você levantou vinte pessoas de cima de você e do Shun. E agora o seu corpo está desenhando uma constelação inteira.

Seiya ficou em silêncio.

— Tem mais — continuou ela. — Esses pontos têm nome. Eu não sei de onde eu tirei isso, mas eu sei: são os pontos onde a vida de um guerreiro fica guardada. Enquanto eles estiverem acesos, ele continua de pé.

— E se apagarem?

Ela não respondeu.

Não precisou.


Capítulo 5 — O Conselho que Ela Não Queria Dar

E aí Saori fez uma coisa que os dois não esperavam.

Ela se levantou, limpou o vestido e disse:

— Voltem para casa.

Seiya piscou.

— O quê?

— Voltem. Os dois. — Ela não olhava para eles. — Você para o seu templo em ruínas, e você para a sua floricultura. Esqueçam disso aqui. Esqueçam de mim.

— Você está falando sério?

— Estou.

— Por quê?! — Seiya se levantou de um salto. — A gente acabou de descobrir uma coisa enorme! Você viu o que saiu de mim! A gente podia…

— É exatamente por isso.

Ela finalmente se virou, e os olhos dela estavam molhados.

— Escuta. Eu não lembro quase nada. Mas tem uma coisa que eu sinto toda vez que eu chego perto de lembrar, e essa coisa é medo.

Ela apertou as mãos.

— Toda vez que um pedaço da memória vem, vem junto uma sensação horrível. De gente morrendo. De gente morrendo por minha causa. Muita gente. E eu não sei quem, nem quando, nem por quê.

Ela apontou para o peito dele.

— Se isso aí voltar por completo, você vai lembrar também. E se você lembrar, você vai voltar para aquilo, seja lá o que aquilo era.

A voz dela quebrou.

— Você tem uma irmã. Tem uma casa. Tem um trabalho chato e uma vida tranquila. — Ela balançou a cabeça. — Eu não vou tirar isso de você. Não de novo.

E Seiya abriu a boca para responder.

E não conseguiu, porque ela já estava indo embora.


Capítulo 6 — O Homem na Estrada

Saori desceu sozinha pela estrada que levava para fora de Rodorio.

Estava quase escuro.

E, na curva, havia um homem esperando.

Ele não era da vila. A roupa dele era escura e antiga, de um corte que ninguém usa mais, e havia alguma coisa na pele dele — um cinza doentio — que não combinava com gente viva.

Nas costas, carregava um arco.

— Boa noite, senhorita — disse Jean de Órthros, com uma educação que fazia tudo aquilo ficar pior. — Já é tarde para uma moça andar sozinha.

Saori parou.

E, pela primeira vez naquele dia, não sentiu medo.

Sentiu outra coisa. Uma coisa antiga e cansada, que ela também não soube nomear.

— Eu conheço você — ela disse.

O sorriso de Jean vacilou.

— A senhorita não me conhece.

— Não conheço você. — Ela deu um passo à frente. — Conheço o que você é. Já vi isso antes. Muitas vezes.

Jean recuou meio passo, e depois ficou irritado consigo mesmo por ter recuado.

— Isso não vai adiantar — ele disse, sacando uma flecha. — Ordens da minha senhora.

E disparou.


Capítulo 7 — O Corpo Que Se Move Sozinho

Seiya estava a duzentos metros dali quando sentiu.

Não ouviu, não viu — sentiu. Uma pontada no peito, no mesmo lugar onde as treze luzes tinham acendido.

E as pernas dele saíram correndo antes de a cabeça decidir.

Ele cortou caminho pelo mato, saltou um muro de pedra que ele nunca conseguiria saltar num dia normal, e chegou na curva da estrada no exato instante em que a flecha saía do arco.

Não deu tempo de pensar em nada.

Seiya se jogou.

Entrou na frente da moça, e a flecha atravessou a perna dele um pouco acima do joelho.

Ele caiu na estrada com um grito curto.

— SEIYA!

Jean de Órthros arregalou os olhos.

— Impossível… eu atirei de vinte metros. Nenhum humano cobre essa distância nesse tempo.

Seiya, no chão, apertando a perna com as duas mãos, ergueu o rosto.

E, apesar da dor, sorriu.

— Então acho que eu não sou muito humano.


Capítulo 8 — A Recusa

Jean encaixou outra flecha e apontou para o rosto do garoto caído.

— Saia da frente.

— Não.

— Você não tem armadura, não tem arma, não tem treino, e está com um buraco na perna.

— Também não tenho pressa de sair.

E Jean, para surpresa dele mesmo, hesitou.

Foi meio segundo. Mas foi o suficiente para Saori se colocar entre os dois, de braços abertos, na frente do rapaz caído.

— Se você quer me matar — ela disse —, é comigo. Não é com ele.

— Saori, sai daí!

— Cala a boca, Seiya.

Ele calou.

E Jean de Órthros ficou parado no meio da estrada, com a flecha apontada para uma moça desarmada que se recusava a sair da frente de um trabalhador de vila com a perna furada.

Ele tinha uma ordem clara. Tinha o alvo na mira. Tinha todo o poder do mundo naquele momento.

E não conseguiu soltar a corda.

Porque alguma coisa naquela mulher — alguma coisa que ele não sabia nomear e que o incomodava desde o primeiro instante — fazia o braço dele pesar.

— Outro dia, então — ele rosnou.

E sumiu na escuridão da estrada.


Capítulo 9 — De Volta para Casa, Mancando

Shun chegou correndo poucos minutos depois e encontrou os dois sentados na beira da estrada.

— O que aconteceu?!

— Eu tomei uma flechada — respondeu Seiya, com uma calma ofensiva.

— VOCÊ O QUÊ?!

— Está tudo bem, é rasinho.

— NÃO É RASINHO, TEM UM BURACO NA SUA PERNA!

Saori rasgou uma tira do próprio vestido e amarrou a coxa dele acima do ferimento, com uma habilidade que ela não fazia ideia de ter.

E, enquanto amarrava, ela falou sem levantar os olhos:

— Eu mandei você ir embora.

— Mandou.

— E você veio correndo.

— Vim.

— Por quê? — Ela apertou o nó com força. — Você nem me conhece.

Seiya pensou um pouco.

— Eu não sei — ele disse, finalmente. — Mas, quando eu ouvi, meu corpo foi antes de mim. E eu ando percebendo que o meu corpo sabe umas coisas que eu não sei.

Ele deu de ombros.

— Então eu resolvi confiar nele.

Saori terminou o nó e ficou com a mão parada ali por um instante a mais do que precisava.

Depois se levantou.

— Vamos. Você precisa de gelo nisso.

E os três voltaram para a vila juntos, devagar, com um deles mancando — sem saber que aquela era a primeira vez, em muito tempo, que os três caminhavam lado a lado.


O Fim do Episódio 4

Esse episódio é sobre uma coisa que acontece com todo mundo em algum momento: descobrir uma coisa sobre si mesmo que dá medo.

O Seiya descobriu que tem treze estrelas acesas dentro do corpo e que era alguma coisa muito maior do que carregar pedra. E isso não foi motivo de alegria — foi assustador, porque quem descobre que já foi guerreiro descobre junto que teve guerra.

E a Saori fez a coisa mais generosa e mais errada que ela podia fazer: mandou os dois embora.

Ela mandou por amor. Porque toda vez que a memória chega perto, vem junto a lembrança de gente morrendo por causa dela — e ela não quer isso para ninguém de novo.

Mas repare no que aconteceu quando ela precisou: o corpo dele foi antes da cabeça, atravessou duzentos metros e entrou na frente da flecha.

Tem coisa que a gente não decide. Tem coisa que já está decidida faz muito tempo, num lugar mais fundo do que a memória — e que continua lá mesmo quando a gente esquece tudo.

Fim do Episódio 4. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.