Episódio 5: Recordação Distante

Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

História adaptada · parte publicada

Episódio 5: Recordação Distante

Fase 5 do mangá.


Capítulo 1 — A Mentira do Andaime

Seiya chegou em casa mancando.

Ele tinha ensaiado a frase a estrada inteira, e mesmo assim ela saiu esquisita quando a Seika abriu a porta e olhou para a perna dele enfaixada com um pedaço de vestido.

— Caí do andaime.

A irmã ficou olhando para ele.

— Do andaime.

— É. Escorreguei na pedra molhada.

— O andaime tem dois metros, Seiya.

— Foi uma queda ruim.

Seika se ajoelhou e afastou o pano com cuidado.

E ficou muito quieta.

Porque aquilo não era ferimento de queda. Era um furo. Redondo, limpo, do tamanho exato de uma coisa pontuda que entra e sai.

Ela conhecia aquele tipo de ferida.

E foi isso, mais do que qualquer outra coisa, que fez o rosto dela perder a cor — não o machucado em si, mas o fato de que ela sabia o que era, e não deveria saber.

— Quem fez isso? — ela perguntou, com a voz muito baixa.

— Ninguém. Eu caí.

— Seiya.

— Eu caí, Seika.

Ela limpou o ferimento em silêncio, trocou a faixa, e só falou de novo quando terminou.

— Se algum dia acontecer alguma coisa com você — ela disse, sem olhar para ele —, eu não sei o que eu faço.

E saiu do cômodo antes que ele pudesse responder.


Capítulo 2 — A Flor que Não Murcha

Naquela mesma noite, muito acima da vila, Shun subiu até as ruínas do Santuário.

Ele não sabia explicar por que ia lá.

Ia porque, uma vez por semana mais ou menos, dava vontade. Subia os degraus quebrados, andava entre as colunas caídas, e sentava um tempo diante de um muro específico que tinha palavras gravadas na pedra — palavras antigas, meio apagadas, que ele não conseguia ler direito.

E, naquela noite, ele levava uma flor na mão.

Era uma flor da estufa dele, e tinha uma coisa esquisita: ela não murchava.

Já fazia meses. Enquanto todas as outras nasciam, abriam e morriam no tempo delas, aquela continuava exatamente igual ao primeiro dia, como se alguém tivesse apertado uma pausa dentro dela.

Shun pousou a flor no chão, diante do muro.

E uma voz falou atrás dele.

— Onde você conseguiu isso?


Capítulo 3 — O Homem de Cabelo Azul

Shun se levantou de um salto.

Havia um homem parado nas sombras entre as colunas. Cabelo azul-escuro, ombros largos, e uma cara de quem não pergunta duas vezes.

— Eu… eu trabalho com flores. Tenho uma estufa na vila.

— Não foi isso que eu perguntei. — O homem deu um passo à frente e apontou a flor no chão. — Eu perguntei onde você conseguiu isso.

— Ela nasceu na minha estufa. De uma semente que veio junto com um lote.

O homem se agachou e olhou a flor de perto, sem tocar.

Ficou assim um tempo.

— Ela não murcha — disse, por fim. Não era pergunta.

Shun sentiu um arrepio.

— Como você sabe disso?

— Porque eu já vi uma flor assim antes.

O homem se levantou.

— Uma vez só. Num lugar que não deveria ter flor nenhuma. — A voz dele ficou mais baixa. — Num lugar onde não crescia absolutamente nada, e no meio daquilo tinha uma flor aberta, sozinha, que também não murchava.

— Onde?

O homem olhou para ele.

E, por um instante muito curto, alguma coisa passou pelo rosto dele — uma coisa que era quase reconhecimento.

Ele franziu a testa, incomodado, como quem tenta lembrar de onde conhece um rosto e não consegue.

— Não importa — disse, virando-se. — Cuida bem dessa flor, garoto.

— Espera! Como é o seu nome?

O homem parou.

— Ikki.

E foi embora pelas ruínas, sem olhar para trás.

Shun ficou parado ali, com o coração batendo de um jeito estranho, sem entender por que a garganta dele tinha apertado ao ouvir aquele nome.


Capítulo 4 — A Voz na Estrada

Na madrugada, Saori acordou.

Não por barulho. Por uma sensação — a mesma que ela vinha tendo havia dias, mas agora muito mais forte: a de que alguém estava chamando por ela em algum lugar.

Ela se levantou, se vestiu no escuro e saiu.

E, na saída da vila, ele estava esperando.

Jean de Órthros. Encostado numa pedra, com o arco nas costas, como quem está ali há horas.

— A senhorita demorou.

Saori parou.

— Você voltou para me matar?

— Não. — Ele descolou-se da pedra. — Eu voltei para te levar a um lugar.

— Por que eu iria a algum lugar com você?

— Porque eu sei o que a senhorita esqueceu.

E Saori sentiu o chão inclinar.

— O quê?

— Eu sei quem a senhorita é. Sei o que a senhorita fez. Sei por que tem essa sensação horrível toda vez que tenta lembrar. — Ele estendeu a mão. — E tem um lugar aqui perto onde tudo isso volta de uma vez.

Ela não se mexeu.

— Isso é uma armadilha.

— É — admitiu Jean, sem pestanejar. — É uma armadilha óbvia, feita por um inimigo, num lugar perigoso.

Ele inclinou a cabeça.

— E a senhorita vai comigo assim mesmo. Porque não aguenta mais não saber.

E o pior de tudo é que ele estava certo.


Capítulo 5 — O Jardim Morto

Eles desceram.

Saori não soube explicar por onde, nem como — só que em algum momento o chão deixou de ser chão, o ar ficou parado, e a luz das estrelas sumiu sem que houvesse nuvem nenhuma.

E, quando pararam, ela estava num lugar que não existe no mundo dos vivos.

Era um campo imenso.

E estava morto.

Havia sinais de que aquilo tinha sido lindo um dia: os canteiros ainda estavam desenhados no chão, as trilhas de pedra ainda seguiam em curvas suaves, e restos de árvores enormes se erguiam como esqueletos brancos contra um céu sem cor.

Mas não havia uma única folha. Nem uma flor. Nem grama.

Só cinza, até onde a vista alcançava.

— O que é isso? — sussurrou Saori.

— Isto — disse Jean — eram os Campos Elísios. O jardim dos deuses. O lugar mais bonito que já existiu em qualquer mundo.

Ele chutou uma pedra.

— A senhorita destruiu.

Saori virou-se para ele de uma vez.

— Eu?!

— A senhorita e os seus.

E, nesse instante, a memória bateu.


Capítulo 6 — O Pedaço que Voltou

Não foi um pedaço. Foi uma enxurrada.

Saori caiu de joelhos no chão de cinzas com as duas mãos na cabeça.

Ela viu.

Viu uma luz enorme abrindo o céu daquele jardim. Viu figuras de armadura caindo. Viu fogo onde havia flores. Viu uma espada — uma espada escura, terrível — descendo na direção dela.

E viu alguém entrar na frente.

Não conseguiu ver o rosto. Só as costas, e a armadura, e o corpo daquela pessoa recebendo o golpe que era para ela.

— Não… — ela gemeu. — Não, não, não…

— Está vindo, não está? — perguntou Jean, com uma satisfação horrível na voz.

— PARA!

— Eu não estou fazendo nada. Este lugar é que faz.

Saori encolheu-se no chão, e as imagens continuaram vindo, uma por cima da outra, rápido demais para processar: rostos, nomes quase alcançados, gente caindo, gente gritando o nome dela.

E, por baixo de tudo, a mesma sensação de sempre — agora com um nome:

Culpa.

— Todos eles morreram por mim — ela sussurrou.

— Agora a senhorita entende.


Capítulo 7 — Ela Está Aqui

E foi então que o ar do jardim morto mudou.

Jean de Órthros parou de sorrir e se virou depressa, caindo de joelhos na mesma hora.

— Minha senhora!

Ker caminhava pelo campo de cinzas na direção deles, sem pressa nenhuma.

— Você trouxe — ela disse.

— Trouxe, minha senhora. Exatamente como a senhora ordenou. Ela está…

— Você demorou.

Jean ergueu a cabeça.

— Perdão?

— Eu mandei você matá-la. — A voz de Ker era quase gentil. — Faz dias. E você trouxe ela até aqui para conversar.

— Eu pensei que…

— Você pensou.

E aconteceu tão rápido que Saori nem viu direito.

Um movimento. Um som seco.

E Jean de Órthros não estava mais ali.

Só a surplice dele, vazia, caída no chão de cinzas.

Saori ficou paralisada, ainda de joelhos, olhando aquilo.

— Você matou o seu próprio…

— Eu ressuscitei ele — corrigiu Ker, ajeitando o cabelo. — Coisas que eu ressuscito, eu desfaço. É bem simples.

E, então, ela finalmente olhou para Saori.


Capítulo 8 — A Verdade Sobre os Irmãos

— Então é você.

Ker se aproximou e se agachou na frente dela, estudando o rosto da moça ajoelhada nas cinzas.

— Sabe, eu esperei muito tempo para ter essa conversa.

— Quem é você?

— Meu nome é Ker. Eu sou uma deusa — dessas antigas, das que existiam antes dos deuses de que vocês gostam. — Ela sorriu. — E eu conheço você desde antes de você nascer nesse corpo.

Saori não respondeu.

— Quer saber uma coisa engraçada? — continuou Ker. — Tem uma história antiga aí, de dois irmãos que eram Cavaleiros de Ouro do seu Santuário. Gêmeos. Um deles ficou com a cabeça ruim, matou muita gente e quase assassinou você quando você era bebê.

Ela inclinou a cabeça.

— Todo mundo diz que ele enlouqueceu sozinho.

O sorriso dela abriu.

— Não enlouqueceu. Fui eu.

Saori ergueu o rosto de uma vez.

— O quê?

— Eu cochichei. — Ker deu de ombros. — É o que eu faço. Eu não luto, não invado, não declaro guerra. Eu chego pertinho de alguém que já está com uma rachadura por dentro e eu sopro naquela rachadura.

Ela se levantou.

— E aí a pessoa faz o resto sozinha, e todo mundo culpa a pessoa.

Saori se colocou de pé, cambaleando.

— Por que você está me contando isso?

— Porque é melhor você saber de quem está apanhando. — Ker abriu as mãos. — E porque eu vim aqui hoje terminar um assunto muito antigo.

E avançou.


O Fim do Episódio 5

Esse episódio tem duas coisas que vale a pena olhar com atenção.

A primeira é como a Saori foi pega. Ninguém a arrastou. Ela foi por vontade própria, sabendo que era armadilha, porque o inimigo ofereceu a única coisa que ela não conseguia recusar: a memória dela de volta.

Guarde isso, porque é assim que funciona de verdade. A isca boa nunca é um presente. A isca boa é aquilo que a pessoa já queria muito antes de o inimigo aparecer.

E a segunda é o que a Ker faz.

Ela não é uma deusa de exército, nem de espada, nem de trovão. Ela é a deusa que cochicha. Ela acha alguém que já está rachado por dentro — magoado, com medo, com raiva — e sopra bem ali.

Depois fica assistindo de longe enquanto todo mundo culpa a pessoa.

É por isso que ela é mais perigosa que qualquer espada desta história inteira: porque a espada a gente vê chegando.

Fim do Episódio 5. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.

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