Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 7: O Homem que Guarda a Cachoeira

Ilustração do episódio 7: O Homem que Guarda a Cachoeira

Capítulo 1 — O Homem na Pedra

Existe um lugar na China chamado Cinco Picos de Rozan.

São montanhas tão altas que as nuvens passam por baixo delas. E, no meio desse lugar,
existe uma cachoeira enorme — tão poderosa que o barulho dela abafa qualquer voz, e tão
antiga que ninguém da região sabe dizer desde quando está ali.

Ao lado dessa cachoeira, numa pedra plana, tem um homem sentado.

Ele está lá todos os dias. Chuva, sol, neve, verão.

Os moradores das aldeias próximas falam dele com respeito e com um pouco de medo. Dizem
que é um eremita. Dizem que ele não come. Dizem que ninguém nunca o viu levantar.

Mas isso é conversa de aldeia.

A verdade é mais simples e mais estranha: ele se chama Shiryu, tem o desenho de um
dragão tatuado nas costas, e está sentado ali porque é o único lugar do mundo onde ele
consegue pensar.


Capítulo 2 — O Buraco

Shiryu também não lembra.

Como o Seiya, como o Shun, como todos os outros, ele acordou um dia com a vida dividida
em duas partes: a parte que ele sabe, e um buraco enorme onde deveria estar o resto.

Ele sabe que mora em Rozan. Sabe o caminho até a aldeia. Sabe o nome de uma moça chamada
Shunrei, que cuida da casa com ele e faz um chá bom demais.

E só.

Antes disso, nada. Como uma folha arrancada de um caderno.

Mas tem uma coisa que o Shiryu descobriu e que os outros não descobriram.

É que o corpo dele lembra.

Toda manhã, antes do sol nascer, ele desce até a base da cachoeira, entra na água gelada
até a cintura e fica de pé contra a queda d’água.

Ele não decidiu fazer isso. Na primeira vez, as pernas o levaram sozinhas.

E, quando a água bate no peito dele com força suficiente para derrubar um cavalo, ele
não cai.

Nunca caiu.

— Isso não é normal — disse Shunrei, na primeira semana, da margem.

— Eu sei.

— Como é que você aguenta?

E Shiryu olhou para a água, e deu a resposta mais sincera que tinha:

— Porque eu já aguentei antes.


Capítulo 3 — A Visita

Numa tarde de outubro, um homem subiu a trilha de Rozan.

Era um homem grande, de cabelo azul-escuro bagunçado, com uma cara de poucos amigos e
uma sacola velha no ombro. Subiu a montanha inteira sem parar para descansar uma vez
sequer, o que já era esquisito.

Ele parou a uns dez metros da pedra e ficou olhando para o homem sentado.

Shiryu abriu os olhos.

— Você está me encarando faz um tempo.

— Estou.

— Por quê?

O homem demorou a responder.

— Porque eu te conheço de algum lugar — disse Ikki, finalmente — e eu passei dois dias
subindo essa porcaria de montanha para descobrir de onde.


Capítulo 4 — Dois Buracos no Mesmo Lugar

Eles sentaram na pedra, um de cada lado, com a cachoeira estrondando atrás.

— Você também? — perguntou Shiryu.

— Também o quê?

— Buracos. Na memória.

Ikki ficou em silêncio um momento.

— Eu lembro de uma ilha — disse. — Uma ilha feia, de pedra preta, com vulcão. E de fazer
alguma coisa muito difícil lá.

— E antes?

— Nada.

— E depois?

— Também não muito. — Ikki coçou a nuca. — Eu ando. Faz uns meses que eu só ando. Chego
numa cidade, olho em volta, e se nada me puxa, eu saio.

— E alguma coisa te puxou aqui?

— Essa cachoeira. — Ikki apontou com o queixo. — Eu vi ela num sonho. Com um velho
sentado nessa mesma pedra.

Shiryu virou o rosto de uma vez.

— Um velho?

— De barba branca comprida. Baixinho. Com cara de quem não sai do lugar há um século.

E Shiryu ficou pálido.

Porque ele via aquele velho todas as noites.


Capítulo 5 — O Que o Velho Diz

— Todas as noites — contou Shiryu. — Desde que eu acordei sem memória.

— E ele fala?

— Fala. Mas eu nunca escuto direito, porque a cachoeira cobre a voz dele. — Shiryu
apertou os joelhos. — Eu chego perto, ele mexe a boca, e sai só barulho de água.

Ikki ficou pensativo.

— E se não for a cachoeira?

— Como assim?

— E se for você? — Ikki olhou para ele. — Se tiver alguma coisa dentro da sua cabeça
que não quer deixar você ouvir?

Shiryu não respondeu.

Porque a ideia já tinha passado por ele, e ele tinha empurrado para longe todas as vezes.

— Tem uma coisa que eu nunca tentei — ele disse, devagar.

— O quê?

— Entrar embaixo da cachoeira à noite. — Shiryu olhou para a água. — De dia eu
aguento. Mas de noite a montanha é outra coisa.

— E você acha que ia adiantar?

— Eu acho que o velho está lá dentro.


Capítulo 6 — A Água à Noite

Eles esperaram escurecer.

E Shiryu desceu.

A água de Rozan é gelada de dia e é pior de noite. Quando ele entrou, a respiração travou
no peito, e cada passo contra a correnteza custava mais que o anterior.

Ikki ficou na margem, de braços cruzados.

— Se você começar a ir embora na água, eu vou te buscar.

— Não vou.

— Você vai, sim. Todo mundo vai.

Shiryu chegou embaixo da queda.

E a água desabou em cima dele.

Foram toneladas batendo no alto da cabeça, nos ombros, nas costas — e o barulho era tão
absurdo que não era mais barulho, era uma coisa sólida, como estar dentro de um trovão
que não acaba.

Ele cravou os pés nas pedras do fundo.

E ficou.

Um minuto. Dois. Cinco.

Os braços começaram a tremer. As pernas começaram a ceder.

E, no instante em que ele ia desistir, o barulho parou.

Não parou de verdade — a cachoeira continuava caindo em cima dele. Mas, dentro da cabeça
dele, fez-se um silêncio absoluto.

E uma voz falou.


Capítulo 7 — Duzentos e Quarenta e Três Anos

“Você demorou, meu discípulo.”

Shiryu abriu os olhos dentro da água.

“Eu estou sentado nessa pedra desde antes do seu bisavô nascer. Você acha que eu não
sei esperar?”

— Quem é você? — ele quis gritar, e a voz saiu só por dentro.

“Eu sou o homem que ensinou você a não cair.”

E, aí, o velho disse a coisa mais estranha de todas:

“Eu fiquei sentado nessa pedra por duzentos e quarenta e três anos, garoto. Sem
levantar. Sem dormir. Vigiando uma coisa que ninguém no mundo sabia que existia,
enquanto o mundo inteiro passava do lado e ninguém nunca soube o meu nome.”

A água continuava caindo.

“E você vai me perguntar por que eu aguentei.”

— Por quê?

“Porque o dia ia chegar.”

A voz ficou mais perto.

“Você quer lembrar. Eu sei. Está doendo em você como dói uma farpa debaixo da unha.”

“Então escute com muita atenção, porque eu só vou dizer uma vez:”

“Lembrar vai doer. Não um pouco. Muito. Vai vir tudo junto, e vai ter coisa boa e
coisa horrível misturadas, e você não vai poder escolher só as boas.”

— Eu não ligo.

“Eu sei que você não liga. É por isso que é você.”

E a voz disse a última coisa:

“Levanta os punhos, Shiryu. Do jeito que eu te ensinei.”


Capítulo 8 — O Dragão Acorda

Debaixo de toneladas de água, com as pernas tremendo e os pulmões queimando, Shiryu
ergueu os dois punhos.

Ele não sabia por quê. As mãos subiram sozinhas, encontraram uma posição que elas
conheciam, e pararam ali.

E ele sentiu uma coisa acender no meio do peito.

Não foi dor. Foi calor — como se alguém tivesse soprado numa brasa que estava apagando
havia um ano inteiro.

O calor subiu pelos ombros, desceu pelos braços, chegou às mãos.

E Shiryu gritou.

Não de dor: de reconhecimento. Do jeito que a gente grita quando encontra uma coisa que
procurava fazia tempo demais.

Da margem, Ikki se levantou de um salto.

Porque a água da cachoeira tinha ficado dourada.

Uma luz subia de dentro da queda d’água, tão forte que as pedras do fundo apareciam, e
no meio daquilo havia um rapaz de pé com as mãos juntas.

— CÓLERA DO DRAGÃO!

O golpe subiu do fundo do rio como um dragão de luz.

Ele atravessou a cachoeira de baixo para cima, rasgou a queda d’água ao meio, subiu pelo
paredão de pedra e se abriu no céu noturno de Rozan — e, por três segundos inteiros, o
dragão ficou lá em cima, enorme, brilhando sobre as cinco montanhas, antes de se desfazer
em faíscas que caíram como chuva.

As aldeias todas viram.

E Ikki, na margem, com a boca aberta, disse a única coisa que dava para dizer:

— …Então era isso.


Capítulo 9 — Tudo de Uma Vez

Shiryu saiu da água de joelhos, e as lembranças vieram em cima dele como uma segunda
cachoeira.

Veio o Mestre Ancião, pequenininho de chapéu de palha, mandando ele socar a água de novo.
Veio a Shunrei criança, trazendo chá na beira do rio. Veio uma armadura verde com forma
de dragão. Veio um escudo que nenhum golpe atravessa.

Veio um garoto de cabelo revolto, chamado Seiya, que ria alto demais.

Veio um rapaz loiro e calado de olhos muito azuis.

Veio um menino de cabelo verde que não gostava de brigar.

Veio o próprio homem sentado ali na pedra ao lado — e Shiryu virou o rosto e disse,
com a voz rouca:

— Ikki.

Ikki ficou muito quieto.

— É esse o meu nome?

— É. Ikki de Fênix. — Shiryu riu, e era um riso meio chorado. — E você é insuportável.

— …Parece bater.

E veio a última coisa.

Veio uma luta enorme num lugar branco cheio de flores, e um garoto de armadura caindo, e
uma espada escura, e uma mulher chorando.

E veio uma palavra que Shiryu não ouvia havia um ano e que, quando chegou, trouxe junto
um aperto no peito tão grande que ele teve que se segurar na pedra.

— Atena — ele sussurrou. — A gente serve a Atena.


Capítulo 10 — A Coisa que Não Fecha

Eles ficaram até o sol nascer.

Shiryu contou tudo o que conseguiu, e o que ele contava ia acendendo pedacinhos na
memória de Ikki — não tudo, mas o bastante para o rosto dele mudar.

E, quando o céu começou a clarear atrás das montanhas, Shiryu parou de falar de repente.

— Tem uma coisa errada.

— Tem várias coisas erradas.

— Não. Uma coisa específica. — Shiryu olhou para as próprias mãos. — Por que a gente
esqueceu?

Ikki deu de ombros.

— Castigo. Você mesmo acabou de dizer que teve um julgamento.

— Foi isso que eu lembrei. — Shiryu balançou a cabeça devagar. — Mas me responde: por que
castigo?

— Como assim por quê?

— Se um deus quer castigar alguém, ele machuca. Ele prende. Ele mata. — Shiryu ergueu os
olhos. — Esse deus pegou cinco guerreiros que tinham desafiado o céu inteiro, e fez o
quê? Mandou todo mundo para casa.

Ikki abriu a boca. E fechou.

— Eu virei trabalhador numa aldeia — continuou Shiryu. — Você virou um cara que anda por
aí. O Seiya, pelo que você contou, mora com a irmã. A Atena está viva e passeando. —
Ele apontou para o próprio peito. — Ninguém morreu, Ikki. Ninguém apanhou. Ninguém ficou
preso. A gente só… esqueceu.

— E daí?

— E daí que isso não é castigo de deus.

Shiryu se levantou, e a frase que ele disse em seguida é a frase mais importante desta
temporada inteira:

— Isso parece mais alguém tentando esconder a gente de alguma coisa.


Capítulo 11 — O Caminho de Volta

Eles desceram a montanha naquela mesma manhã.

Shunrei fez um embrulho de comida para os dois e não perguntou por quê, porque ela tinha
visto o dragão no céu à noite e já sabia.

— Volta — ela disse, na porta.

— Volto.

— Você fala isso de um jeito que parece que já disse antes.

Shiryu parou. E percebeu que sim: já tinha dito aquilo, naquela mesma porta, muitos anos
antes.

— Eu já disse — ele respondeu. — E eu voltei.

Lá na trilha, Ikki esperava, com a sacola no ombro.

— Para onde?

— Grécia. — Shiryu ajustou o embrulho. — Tem um garoto lá que precisa lembrar quem ele é,
e ele é o mais teimoso de todos nós. Vai dar trabalho.

Os dois começaram a descer.

E, no alto da montanha, a cachoeira de Rozan continuou caindo do jeito que cai há
milhares de anos — só que, naquela manhã, sem ninguém sentado na pedra.


Capítulo 12 — Alguém Estava Escutando

E, muito abaixo do mundo, numa ruína onde não entra luz nenhuma, uma mulher abriu os
olhos no escuro.

Ker estava sentada no trono de pedra quebrada havia dias, sem se mover, com a mão
queimada apoiada no colo.

E, de repente, ela sorriu.

— Ah — disse ela, para ninguém. — Um deles lembrou.

Ela se levantou devagar.

— Já estava demorando.

E, caminhando entre os escombros do Inferno, a deusa que cochicha disse em voz alta uma
coisa que ninguém no mundo escutou — e que, se alguém tivesse escutado, teria mudado tudo:

— Lembrem, meus queridos. Lembrem todos. Lembrem bem alto.

Ela parou e ergueu o rosto na direção da superfície.

— Porque, quando vocês lembrarem… lá em cima também vão lembrar de vocês.


O Fim do Episódio 7

Esse episódio é sobre uma pergunta que vale muito mais do que parece.

O Shiryu conseguiu o que todo mundo queria: ele lembrou. Foi lindo, o dragão subiu no
céu e as aldeias inteiras viram.

Mas repare no que ele faz depois, e é isso que faz dele o mais inteligente dos cinco.

Em vez de só comemorar, ele senta na pedra e pergunta: por que será que foi assim?

Um deus com poder de destruir o mundo pegou cinco guerreiros que o desafiaram e… mandou
todo mundo para casa. Ninguém morreu. Ninguém ficou preso. Só esqueceram.

Isso é castigo? Ou é outra coisa com cara de castigo?

Guarde essa pergunta, porque ela vai voltar.

E guarde também o que o velho da cachoeira avisou antes: lembrar ia doer. O Shiryu
achou que a dor seria das lembranças ruins.

Não é. A dor vai ser outra, e ninguém ainda desconfia qual.

Fim do Episódio 7. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.