Passado Presente Futuro · Saga dos Céus
Episódio 8: O Navio Debaixo do Gelo
Capítulo 1 — O menino que mora onde ninguém mora
Existe um lugar na Sibéria onde o mar congela.
Não é como o gelo de geladeira, fininho, que quebra quando você pisa. É um gelo que tem metros de espessura, que range à noite como se fosse um bicho velho se virando na cama, e que aguenta o peso de uma casa inteira em cima.
E, em cima desse mar congelado, tem uma cabana de madeira com uma chaminé soltando fumaça.
Dentro da cabana mora um rapaz de cabelo loiro e olhos muito azuis, que se chama Hyoga.
Ele também não lembra de nada.
Igual ao Seiya, igual ao Shiryu, igual a todos os outros. Um dia ele simplesmente acordou sabendo pouquíssimas coisas: que aquela cabana era dele, que o inverno estava chegando, e que ele sabia pescar no gelo melhor do que qualquer pessoa da aldeia vizinha.
O resto era um branco do tamanho da Sibéria.
Mas tinha uma coisa esquisita.
Todo dia, por volta das quatro da tarde, quando o sol já estava quase indo embora, os pés do Hyoga o levavam para o mesmo lugar.
Ele saía da cabana, andava uns vinte minutos sobre o mar congelado, e parava.
Sempre no mesmo ponto. Sempre olhando para baixo.
E ficava ali, de pé, olhando o gelo.
Ele não sabia por quê.
Capítulo 2 — O que tem lá embaixo
Na terceira semana, ele resolveu descobrir.
Hyoga se ajoelhou no gelo, tirou a luva e encostou a mão na superfície.
E o gelo da Sibéria é tão limpo, tão transparente, que dá para enxergar através dele — não muito, mas um pouco. Como olhar dentro de uma água muito escura.
Ele apertou os olhos.
E, lá no fundo, muito lá no fundo, tinha uma sombra.
Uma sombra grande. Comprida. Com uma forma que não era de pedra nem de monte de areia.
Era um navio.
Um navio inteiro, deitado no fundo do mar, debaixo de metros e metros de gelo.
Hyoga ficou de joelhos ali por muito tempo.
E, pela primeira vez desde que tinha acordado sem memória, sentiu uma coisa apertando o peito que não era frio.
— Eu conheço esse navio — ele falou baixinho, para ninguém. — Eu conheço esse navio.
Capítulo 3 — A mulher que não deixava pegada
Foi nesse dia que ela apareceu.
Hyoga estava voltando para a cabana, de cabeça baixa, quando percebeu que tinha alguém de pé no meio do gelo, no caminho.
Uma mulher.
De vestido comprido e escuro, sem casaco, sem gorro, sem nada — parada numa temperatura em que a respiração de uma pessoa normal vira gelo no ar.
E ela estava sorrindo.
— Que frio bonito — ela disse. — Eu gosto daqui. Aqui as coisas duram.
Hyoga parou a uns dez passos.
— A senhora vai morrer de frio vestida assim.
— Ah, meu querido. — Ela riu, e a risada dela era simpática, o que de alguma forma era pior. — Eu sou muito, muito mais velha que o frio.
Hyoga olhou para o chão atrás dela.
A neve estava lisinha.
Ela não tinha deixado pegada nenhuma.
— Quem é você?
— Alguém que estava passando e viu um menino de joelhos no gelo. — Ela inclinou a cabeça. — Você estava olhando um navio, não estava?
Hyoga não respondeu.
— Tem uma pessoa lá dentro — disse a mulher, com uma doçura terrível. — Você sabe quem é. O seu corpo sabe. É por isso que os seus pés te trazem aqui todo santo dia às quatro da tarde.
— Como é que você…
— Eu sei de muita coisa. — Ela deu um passo, e a neve continuou lisa. — E eu posso te ajudar.
— Me ajudar como?
— Eu posso abrir esse gelo para você.
O vento parou.
Parou de verdade — como se alguém tivesse segurado o mundo inteiro com a mão.
— Eu abro — disse ela. — Você desce. Você vê. Você lembra. Não custa nada.
Hyoga ficou olhando para ela.
E então falou a coisa mais sensata que ele podia falar:
— Tudo que não custa nada custa alguma coisa.
A mulher soltou uma gargalhada verdadeira, de surpresa.
— Mas que menino inteligente. — Ela recuou, e começou a sumir na neve que nem tinha começado a cair. — Tudo bem. Faz do seu jeito. É até melhor assim.
E, antes de desaparecer de vez:
— Meu nome é Ker, querido. Quando você mudar de ideia, não precisa me chamar. Eu já vou estar aí.
Capítulo 4 — Os dois golpes que não funcionaram
Hyoga voltou para o gelo no dia seguinte, de manhã cedo.
Sem a mulher. Sem ajuda de ninguém.
Ele ia abrir aquele gelo sozinho.
Ficou de pé no ponto exato, abriu as pernas, e fez uma coisa que nunca tinha feito na vida — pelo menos não na parte da vida de que ele lembrava.
Ele fechou os punhos, e sentiu uma coisa acender dentro do peito.
Era como se alguém tivesse ligado uma luz num quarto que ele achava que era um armário.
O ar em volta dele ficou branco.
E as palavras saíram sozinhas da boca dele, como se tivessem sido faladas dez mil vezes antes:
— PÓ DE DIAMANTE!
Do punho do Hyoga saiu uma rajada de cristais de gelo, tão veloz e tão fria que o ar estalou. O chão congelou mais ainda — ficou tão duro e tão liso que virou um espelho.
O navio continuou lá embaixo.
Hyoga ficou olhando para as próprias mãos, de boca aberta.
— …eu sei fazer isso?
Tentou de novo. E de novo. E de novo.
Nada.
No fim da tarde, exausto, ele tentou uma coisa diferente. Juntou as duas mãos acima da cabeça, girou o corpo, e o céu da Sibéria acendeu de verde e de roxo, como acende nas noites de aurora boreal.
— TROVÃO AURORA!
Um raio de luz gelada desabou em cima do gelo com um estrondo que fez a aldeia inteira olhar para a janela.
O gelo rachou.
Rachou muito.
E, em dois segundos, as rachaduras se fecharam sozinhas, como se nada tivesse acontecido.
Hyoga caiu de joelhos, ofegante.
Aquele gelo não era gelo comum.
Alguém tinha feito aquilo de propósito.
Capítulo 5 — A voz do homem de gelo
Foi quando ele encostou a testa no chão, derrotado, que ouviu.
Uma voz. Calma. Fria do jeito que uma noite estrelada é fria — sem maldade nenhuma, só sem pressa.
“Você está batendo com muita força e pensando muito pouco.”
Hyoga levantou a cabeça num susto.
Não tinha ninguém.
“Sempre foi o seu defeito.”
— Quem…?
E, de repente, veio uma imagem na cabeça dele, nítida como uma fotografia: um homem de cabelo azul comprido, de braços cruzados, olhando para ele do alto de um penhasco de neve. Um homem que nunca sorria e que mesmo assim, de alguma forma, você sabia que gostava de você.
E veio um nome junto.
— Camus — Hyoga sussurrou. — Mestre Camus.
“Demorou.”
— Foi o senhor que lacrou esse navio.
“Fui.”
— Por quê?! — Hyoga se levantou de um pulo, e a voz saiu rasgada. — Tem alguém ali dentro! Eu sei que tem! Por que o senhor me impediu de descer?!
A voz demorou a responder.
“Porque, naquela época, você descia e não subia mais.”
Hyoga parou.
“Todo dia. Você mergulhava para olhar, e ficava lá embaixo até o ar acabar, e voltava para a superfície chorando, e no dia seguinte fazia tudo de novo. Você não estava visitando, Hyoga. Você estava se mudando para lá.”
“Um guerreiro que mora no fundo do mar com os mortos não serve para proteger os vivos.”
Hyoga sentiu os olhos arderem no frio.
— Então o senhor nunca quis que eu entrasse.
“Eu não lacrei o navio para você nunca entrar.”
A voz ficou mais perto.
“Eu lacrei para você só entrar no dia em que fosse forte o bastante para sair.”
Capítulo 6 — O gelo que estava esperando
Hyoga ficou um tempão parado.
E então entendeu.
O gelo não era uma parede. Era uma porta com fechadura — e a chave não era força.
Ele não precisava quebrar o gelo do mestre.
Ele precisava provar que já não era mais o menino que ficava lá embaixo.
Hyoga respirou fundo, fechou os olhos, e pela primeira vez não tentou bater.
Ele falou com o gelo.
— Eu vou descer. E eu vou subir.
Silêncio.
— Eu prometo que eu vou subir.
E o gelo do mar siberiano, que tinha aguentado um Trovão Aurora sem se mexer, se abriu sozinho — devagar, sem estalo, como uma pessoa que resolve abrir a porta porque reconheceu quem bateu.
Abriu um corredor de água escura, descendo em espiral até o fundo.
“Cinco minutos”, disse a voz do Camus. “Depois disso, eu fecho.”
— Cinco minutos bastam.
“Hyoga.”
— Sim, mestre?
”…Bem-vindo de volta.”
E a voz sumiu.
Capítulo 7 — O que tinha dentro do navio
A água da Sibéria é tão fria que paralisa quase qualquer pessoa em segundos.
Hyoga desceu nela como quem entra em casa.
O navio apareceu aos poucos no escuro: enorme, deitado de lado, coberto de uma camada fininha de gelo que brilhava com a luz que descia lá de cima. Dava para ler o nome na lateral, apagado pelo tempo.
Ele passou pela porta rachada do convés.
E lá dentro, numa sala que o gelo tinha guardado inteirinha por todos aqueles anos, tinha uma mulher.
Ela estava sentada, encostada na parede, e parecia dormindo.
O gelo tinha conservado tudo: o vestido, o cabelo, o rosto. Era um rosto bonito e tranquilo, de alguém que não tinha ido embora com medo.
E Hyoga, que não lembrava do próprio sobrenome, lembrou dela na hora.
— Mamãe.
E, no instante em que ele falou isso, a memória voltou inteira, de uma vez só, do jeito que uma represa estoura.
O navio balançando. As luzes piscando. Gente correndo. A água entrando.
E a mãe dele, de joelhos no chão inclinado, segurando o rosto de um menininho de cinco anos com as duas mãos e falando bem perto, bem rápido, bem firme:
“Você vai no bote. Você não olha para trás. Você cresce.”
E o menino chorando, agarrado no casaco dela, dizendo que não ia sem ela.
E ela sorrindo — sorrindo, no meio daquilo tudo — e dizendo a última frase que Hyoga ouviu da mãe:
“Eu não estou te deixando, meu amor. Eu estou te mandando na frente.”
Debaixo d’água, vinte anos depois, Hyoga encostou a mão no gelo que cobria o ombro dela.
— Eu demorei — ele disse, e as palavras saíram em bolhas. — Desculpa. Eu até esqueci de você por um tempo. Mas eu lembrei.
Ele ficou ali o tempo que tinha.
E, quando faltava pouco, fez a coisa mais difícil da vida dele:
— Eu vou subir agora.
E subiu.
Capítulo 8 — A oferta de verdade
Ker estava esperando em cima do gelo.
Sentada numa pedra, balançando os pés, como uma menina num muro.
— Você subiu — ela disse, e parecia sinceramente impressionada. — Quase ninguém sobe.
Hyoga saiu da água encharcado, tremendo, e o cabelo congelou antes mesmo de ele terminar de se levantar.
— Sai do meu caminho.
— Mas eu nem vim brigar, querido. — Ela abriu as mãos. — Eu vim te fazer uma oferta melhor que a primeira. Essa aqui você vai querer ouvir.
Ela inclinou o corpo para a frente.
— Eu posso trazer ela de volta.
O mundo inteiro ficou muito quieto.
— Eu sou mais velha que os deuses do Olimpo, meu amor. Eu conheço os caminhos de descida e os caminhos de subida. Uma mulher que morreu no mar há vinte anos, sem culpa nenhuma, só por salvar um filho? — Ker deu de ombros. — Isso para mim é fácil. É menos trabalho que acender um fósforo.
Hyoga não falou nada.
As mãos dele tremiam, e não era mais do frio.
— Ela ia acordar hoje — continuou Ker, baixinho, quase com carinho. — Ia subir essa água com você. Ia tomar um chá nessa sua cabana. Ia te ver crescido. Você não quer que ela te veja crescido, Hyoga?
E aí ela falou a frase que era a arma de verdade:
— Você não acha que ela merece?
Porque Ker nunca cochicha mentira. Ela cochicha a coisa mais verdadeira que existe dentro da pessoa, e depois torce ela devagarinho, como quem torce um pano.
Hyoga ficou um tempo enorme sem responder.
E quando respondeu, a voz saiu rouca.
— Ela merece.
Ker sorriu.
— Ela merece muito mais do que isso — disse Hyoga. — Ela merece um filho que fez o que ela mandou.
O sorriso de Ker travou no meio.
— Ela me disse três coisas naquele navio. Vai no bote. Não olha para trás. Cresce. — Hyoga levantou o rosto. — Se eu aceitar a sua oferta, eu quebro as três de uma vez. Eu volto para o bote, eu olho para trás, e eu volto a ser o menino de cinco anos que não solta o casaco dela.
Ele deu um passo na direção dela.
— Eu não vou desfazer a última coisa que a minha mãe fez na vida.
E, sem levantar a voz:
— Vai embora.
Capítulo 9 — O que ela queria mesmo
Ker ficou olhando para ele.
E aí fez uma coisa que não era para fazer sentido nenhum.
Ela aplaudiu.
Devagar, três palmas, com um sorriso enorme.
— Perfeito — ela disse. — Perfeito, perfeito, perfeito. Era exatamente isso.
Hyoga franziu a testa.
— Exatamente o quê?
— Você lembrou, querido. — Ela já estava sumindo na neve. — Era só isso que eu precisava. Que você lembrasse.
— Lembrar de quê? Da minha mãe?
— De tudo. — A voz dela já vinha de longe, do vento. — Do seu mestre. Do seu golpe. Do seu nome. Do que você é.
E a última coisa que ela falou ficou na cabeça do Hyoga pelo resto da noite, sem ele entender por quê:
— Continua lembrando, meu amor. Lembra bem alto. Vocês estão indo tão bem…
Hyoga ficou sozinho no meio do mar congelado, pingando, com o coração batendo rápido demais.
Ele tinha ganhado.
Ele tinha certeza de que tinha ganhado.
Então por que é que parecia que ele tinha acabado de fazer exatamente o que ela queria?
Capítulo 10 — Dois pontos no mapa
Naquela mesma madrugada, muito longe dali, na China, um rapaz de cabelo preto comprido saiu de uma cachoeira e falou o nome do próprio mestre em voz alta pela primeira vez em meses.
E, na Grécia, numa casinha de vila, uma moça acordou no meio da noite, foi até a janela e olhou para o norte.
— Dois — ela falou baixinho. — Já são dois.
E não voltou a dormir.
O Fim do Episódio 8
A lição desta noite
O Hyoga podia ter aceitado.
Pensa bem: ninguém ia ficar sabendo. Não tinha ninguém olhando no meio daquele gelo. E o que ela estava oferecendo não era uma coisa feia — era a mãe dele de volta, viva, tomando chá na cozinha.
Qualquer um ia querer isso.
Mas tinha um detalhe.
A última coisa que a mãe dele fez na vida foi mandar ele embora para ele poder crescer. Aceitar a oferta era jogar isso fora e dizer “não valeu a pena, vamos voltar tudo para trás”.
Então o Hyoga fez a coisa mais difícil que existe:
Ele desceu, viu, chorou, e subiu.
Tem gente que acha que lembrar de uma pessoa que foi embora é ficar lá embaixo com ela — no quarto fechado, nas fotos, na saudade, parado no mesmo dia para sempre.
Não é.
Lembrar de alguém de verdade é subir, e levar essa pessoa junto na sua maneira de viver.
A mãe do Hyoga não voltou. Mas tudo que o Hyoga virou — a força, o gelo, a teimosia de não desistir — veio daquela mulher que, afundando num navio, ainda achou um jeito de sorrir e dizer “eu não estou te deixando, eu estou te mandando na frente”.
Ela continua com ele.
Só que de pé, em cima do gelo. Não lá embaixo.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a gente continua: dois irmãos que não sabem que são irmãos, e uma flor que não quer murchar de jeito nenhum.
14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.
Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.