Passado Presente Futuro · Saga dos Céus
Episódio 14: Doze Luzes na Montanha

Capítulo 1 — O homem no alto da escadaria
Ela cumpriu a promessa no dia seguinte.
Era fim de tarde quando o chão de Rodorio tremeu — não de terremoto, mas daquele jeito que o chão treme quando tem cosmo demais acontecendo em algum lugar perto.
Os cinco subiram correndo a estrada do Santuário.
E pararam todos ao mesmo tempo, no primeiro degrau da grande escadaria de pedra.
Lá no alto, muitos lances acima, bem na entrada das Doze Casas em ruínas, tinha um homem de pé.
Armadura dourada. Cabelo azul comprido. Braços caídos ao lado do corpo.
E o Seiya, que já tinha enfrentado deuses no fundo do mar e no fundo do Inferno sem gaguejar, sentiu um arrepio subir pela nuca que ele não sentia havia muitos anos.
— Não — ele falou. — Não, não, não.
— Seiya?
— Saga.
Capítulo 2 — O homem de duas caras
Vale parar um segundo para explicar quem é esse homem, porque ele é o mais complicado de toda essa história.
Saga de Gêmeos foi, durante muito tempo, o cavaleiro mais forte e mais bonito e mais admirado de todo o Santuário. Todo mundo olhava para ele e via o futuro.
E aí, um dia, começou a entrar uma voz na cabeça dele.
Não foi de repente. Foi devagarzinho, do jeito que essas coisas entram. Primeiro uma ideia esquisita. Depois duas. Depois um pensamento que ele achava que era dele e não era.
E essa voz foi crescendo, e crescendo, até virar uma segunda pessoa morando dentro do mesmo homem.
O Saga bom amava a Atena mais do que tudo.
O Saga ruim tentou matar a Atena quando ela era um bebê.
Os dois eram ele. Ao mesmo tempo. Durante anos.
E, no fim de tudo, lá no final da guerra contra o Hades, o Saga bom ganhou — e morreu fazendo a coisa mais corajosa que alguém pode fazer, derrubando uma muralha para abrir caminho para os amigos.
Ele morreu em paz.
Era para ele estar em paz.
Capítulo 3 — “Me desculpa”
— Saga! — gritou Seiya, começando a subir.
O homem lá em cima levantou o rosto.
E os cinco viram a coisa mais triste que viram em muitos anos.
O Saga estava chorando.
— Me desculpa — ele disse, e a voz desceu a escadaria inteira. — Meninos, me desculpa.
— Saga, a gente sabe que não é você!
— Não. — Ele balançou a cabeça devagar. — Vocês não entenderam.
Ele ergueu a mão direita, e o ar em volta dela ficou roxo.
— Dessa vez eu também não consigo ouvir a minha própria voz.
E o céu acima do Santuário se abriu num redemoinho de estrelas.
— EXPLOSÃO GALÁCTICA!
Capítulo 4 — A escadaria
O golpe desceu a escadaria como uma galáxia caindo.
Não existe imagem melhor do que essa, e não é exagero: era um pedaço de universo, com estrelas e tudo, rolando por degraus de pedra.
— ESCUDO DO DRAGÃO!
Shiryu plantou o escudo e os outros quatro se enfiaram atrás dele.
O choque arrancou vinte degraus de pedra do lugar, jogou os cinco quarenta metros para trás e abriu uma cratera na encosta.
Shiryu levantou primeiro, com o braço esquerdo tremendo.
— O escudo não vai aguentar dois desses.
— Ele é tão forte assim? — perguntou Shun.
— Shun — disse Seiya, limpando a boca —, esse homem foi o Grande Mestre do Santuário. Ele enganou o mundo inteiro por treze anos. Ele é mais forte do que qualquer um de nós já foi.
Ikki estalou os dedos.
— Ótimo.
— Ikki, a gente não pode matar ele.
— Eu sei. — Ele começou a subir. — Dá no mesmo. Ele também não pode morrer de novo.
Capítulo 5 — A subida
Os cinco subiram a escadaria lutando.
Seiya ia na frente:
— METEORO DE PÉGASO!
Cem socos subiram os degraus de uma vez — e o Saga abriu a mão, e os cem riscos de luz pararam no ar, parados mesmo, como mosquitos presos em geleia, e caíram no chão como faíscas apagadas.
— Impossível — sussurrou Hyoga.
— PÓ DE DIAMANTE!
A rajada branca subiu e congelou cinco degraus. O Saga passou por cima do gelo sem escorregar.
— CÓLERA DO DRAGÃO!
O dragão de luz subiu rugindo, e o Saga atravessou o dragão com o ombro.
Atravessou. Como quem passa por uma cortina.
— CORRENTE NEBULOSA!
As duas correntes enrolaram nos braços dele — e o Saga simplesmente levantou os dois braços, e as correntes do Shun, que já tinham segurado um deus, arrebentaram no meio com um estalo horrível.
Shun caiu de joelhos, com as mãos sangrando.
E o Saga, subindo os degraus na direção dele, chorando o tempo todo, disse:
— Sai da frente, menino. Por favor. Eu não quero.
E ergueu a mão.
Capítulo 6 — O preço
O que aconteceu em seguida levou menos de dois segundos.
O Saga abriu a mão na direção do Shun, e o ar entre os dois rachou — abriu uma fenda escura, girando, do tamanho de uma porta, com nada do outro lado.
— OUTRA DIMENSÃO!
Esse golpe não bate na pessoa. Ele abre um buraco no mundo e manda a pessoa para longe — para um lugar sem chão, sem céu, sem tempo. Ninguém sabe o que tem lá. Ninguém nunca voltou para contar.
A fenda começou a puxar o Shun.
E, meio segundo antes de ela fechar nele, um vulto atravessou o ar em diagonal, bateu no irmão com o ombro e jogou o Shun para fora do caminho.
Ikki.
O Shun rolou pelos degraus.
E a fenda se fechou em cima do irmão mais velho.
Não teve grito. Não teve explosão. Não teve despedida.
Teve um som pequeno, de ar voltando ao lugar.
E o Ikki não estava mais ali.
— IKKI!
Shun subiu os degraus de quatro, arranhando as mãos, e começou a bater com os punhos no lugar exato onde o irmão tinha sumido.
Não tinha nada. Só ar.
— IKKI! — Ele bateu de novo. — IKKI, VOLTA!
Seiya chegou e segurou ele por trás.
— Shun…
— ME SOLTA!
— Shun, para!
— ELE ENTROU NA FRENTE DE MIM OUTRA VEZ! — O Shun estava gritando com uma voz que ninguém tinha ouvido antes. — Ele fez de novo, Seiya! Ele foi para a ilha do vulcão no meu lugar e agora ele foi para esse buraco no meu lugar e eu não pedi!
E o Saga, três degraus acima, com o rosto molhado, sussurrou:
— Me desculpa.
Capítulo 7 — A Casa de Sagitário
Enquanto isso, no alto da montanha, a Atena estava sozinha.
Ela tinha subido por fora, pela trilha velha, enquanto eles lutavam — porque ela sabia que não ia adiantar lutar, e porque tinha uma coisa puxando ela para cima desde o primeiro tremor.
Ela chegou numa casa de pedra meio caída, com duas colunas de pé e o resto no chão.
A Casa de Sagitário.
Foi ali que ela tinha chorado, um ano antes, sem saber quem era e sem saber por quê.
Ela se ajoelhou na frente de um muro de pedra.
E leu de novo as palavras gravadas ali — as mesmas que ela tinha lido naquele dia e não tinha entendido.
Só que agora ela lembrava de tudo.
E agora ela entendia.
A gravação era tosca. Feita com a ponta de alguma coisa, depressa, por alguém com muita pressa e pouco tempo.
Dizia assim:
SE ALGUÉM LER ISTO E EU ESTIVER MORTO:
A menina é verdadeira.
Não foi o Saga.
Foi uma voz.
A Atena pôs as duas mãos no muro.
— Aiolos — ela sussurrou.
Treze anos antes de ela nascer de novo, um homem tinha fugido daquele Santuário no meio da noite carregando um bebê, sabendo que ia morrer, sabendo que o mundo inteiro ia chamar ele de traidor.
E, antes de sair, ele tinha parado — com o bebê num braço — para arranhar quatro linhas numa parede.
Não para se defender. Ele nem escreveu o próprio nome.
Ele escreveu para defender o Saga.
O homem que ia matá-lo.
— Você sabia — disse a Atena para a pedra. — Você sabia desde aquela noite que tinha uma voz.
E lá embaixo, na escadaria, uma galáxia explodiu de novo.
A Atena se levantou.
E fez a única coisa que uma deusa pode fazer num momento desses: ela acendeu o cosmo dela, encostou a testa no muro de pedra e chamou.
Capítulo 8 — Doze luzes
Começou na casa mais baixa.
Uma luz dourada se acendeu no meio das ruínas de Áries — devagarzinho, como uma brasa soprada.
Depois Touro.
Depois Gêmeos — e essa demorou mais, e tremeu antes de acender.
Câncer. Leão. Virgem.
Libra. Escorpião. Sagitário.
Capricórnio. Aquário. Peixes.
Doze luzes se acendendo uma depois da outra, subindo a montanha na ordem, como se alguém estivesse percorrendo a escadaria acendendo lampião.
E, de Rodorio lá embaixo, a vila inteira saiu na porta de casa para olhar — e viu, pela primeira vez em um ano, as Doze Casas iluminadas.
As armaduras de ouro tinham acordado.
Aqui vale explicar uma coisa para quem não lembra.
Os doze homens que usavam aquelas armaduras morreram. Todos. No fim da guerra contra o Hades, eles entraram juntos num lugar de onde ninguém volta, e derrubaram uma muralha que não podia ser derrubada, e abriram caminho para os cinco meninos passarem.
Nenhum deles voltou.
Mas as armaduras ficaram.
E uma armadura de ouro não é uma roupa de metal. Ela guarda alguma coisa de quem a vestiu — um resto, um eco, uma teimosia.
E, naquela tarde, doze ecos acordaram ao mesmo tempo porque a deusa deles chamou.
Capítulo 9 — O homem que não lutou
Saga estava com a mão erguida sobre o Seiya caído quando sentiu uma coisa atrás dele.
Ele se virou devagar.
Na curva da escadaria, descendo, vinha um homem de armadura dourada com asas nas costas e um arco no ombro.
E o Saga, que tinha aguentado a escadaria inteira sem recuar um passo, recuou.
— Não.
— Oi, Saga.
— Não.
— Faz tempo.
Aiolos de Sagitário parou a cinco degraus dele.
Não puxou o arco. Não levantou a mão. Não acendeu o cosmo.
Ficou parado, com os braços caídos, olhando para o homem que o tinha matado.
— Levanta a mão, Aiolos.
— Não vou.
— Levanta a mão! — O Saga estava tremendo. — Eu te matei! Eu te matei naquela noite e eu menti para o mundo inteiro e eu deixei todo mundo achar que você era um traidor por treze anos!
— Eu sei.
— Então luta comigo!
E o Aiolos respondeu a coisa que desmontou tudo:
— Não foi você.
Capítulo 10 — As quatro linhas
— Foi, sim! — gritou o Saga. — Foi a minha mão! Foi o meu cosmo! Eu lembro de cada segundo daquela noite!
— Eu também lembro — disse Aiolos, calmo. — E eu lembro de uma coisa que você não viu.
— O quê?
— Eu vi o seu rosto.
O Saga ficou imóvel.
— Naquela noite, por um segundo, bem no meio, o seu rosto mudou. — Aiolos deu um passo para baixo. — Você olhou para mim e você estava com medo. E você tentou falar alguma coisa e não conseguiu.
Ele desceu mais um degrau.
— E, naquele segundo, eu entendi que tinha mais alguém ali.
Saga abriu a boca e não saiu nada.
— Eu peguei a menina e fugi. — Aiolos continuou descendo. — E eu parei na minha casa, com ela no braço e com você vindo atrás, e eu gastei o tempo que eu tinha fazendo uma coisa.
— Que coisa?
E lá de cima, da Casa de Sagitário, a voz da Atena desceu a montanha inteira, lendo em voz alta:
— “A menina é verdadeira. Não foi o Saga. Foi uma voz.”
O silêncio que veio depois disso foi o mais pesado daquela escadaria em treze anos.
— Você… — A voz do Saga saiu num fio. — Você estava fugindo para salvar a vida dela. Você tinha segundos.
— Tinha.
— E você gastou os seus segundos escrevendo que eu era inocente?
Aiolos chegou no mesmo degrau que ele.
— Gastei.
— Por quê?!
E o Aiolos de Sagitário, o homem mais justo que aquele Santuário já teve, respondeu:
— Porque eu ia morrer sabendo de uma coisa que ninguém mais sabia. E seria muito feio levar isso comigo.
Capítulo 11 — O que a Ker não aguenta
E foi aí que aconteceu.
O cosmo roxo em volta do Saga começou a vacilar.
Como chama de vela com vento.
Porque aquela deusa que cochicha tem uma única ferramenta no mundo inteiro, e a ferramenta dela é a rachadura. Ela entra em quem está quebrado. Ela mora na culpa. Ela se alimenta de alguém repetindo “a culpa é minha” para si mesmo todas as noites durante anos.
E a culpa do Saga era a maior que existia.
Treze anos de mentira. Um Grande Mestre morto. Um amigo morto. Uma menina quase morta.
Era uma rachadura do tamanho de um homem, e a Ker tinha morado ali dentro à vontade.
Mas tem uma coisa que a culpa não aguenta.
E é alguém chegando perto, olhando nos seus olhos e dizendo: eu sei o que você fez, e eu não te odeio.
— Me perdoa — disse o Saga, e as pernas dele cederam.
— Já faz muito tempo.
— ME PERDOA, AIOLOS.
E o Aiolos de Sagitário segurou o Saga de Gêmeos pelos ombros, como quem segura um irmão, e disse:
— Perdoado.
E a luz roxa apagou de uma vez, como quando alguém sopra a vela de aniversário.
Capítulo 12 — O que o Saga sabia
Saga ficou de joelhos nos degraus, ofegante, e levou um tempo para conseguir falar.
Quando falou, foi uma coisa urgente.
— Meninos. Escutem. Eu não tenho muito tempo acordado.
Os quatro subiram mancando.
— Eu morei com ela dentro de mim por treze anos — disse Saga. — Eu sou a única pessoa viva que conhece a voz dela por dentro. Então escutem bem.
Ele agarrou o braço do Seiya.
— Ela não consegue entrar em quem está inteiro. Não é que seja difícil: é impossível. Ela não tem força para abrir ninguém.
— Então como…
— Ela não abre. Ela entra pelo que já está aberto. — Os olhos dele estavam arregalados. — Ela procura a parte de você que já está rachada e senta ali dentro.
Ele olhou de um para o outro.
— E ela sabe a rachadura de cada um de vocês. De cada um. Ela passou o ano inteiro estudando.
Seiya engoliu em seco.
— E qual é a minha?
— Você acha que todo mundo que te ajuda se machuca por sua causa.
Seiya ficou branco.
Saga virou para o Hyoga.
— A sua é a sua mãe.
Para o Shiryu:
— A sua é achar que você tem que entender tudo sozinho antes de pedir ajuda.
E aí ele parou.
Porque ele olhou para o Shun, e o Shun estava sentado num degrau, com as mãos arrebentadas no colo, olhando para o lugar no ar onde o irmão tinha sumido.
Saga ficou em silêncio.
— Fala — disse Shun, sem levantar o rosto.
— Shun…
— Fala a minha.
E o Saga disse, muito baixinho:
— A sua é achar que, se você não existisse, todo mundo que você ama estaria vivo.
Capítulo 13 — A despedida curta
A luz dourada da armadura do Saga começou a ficar fraca.
— Já? — perguntou Seiya.
— Eu não deveria nem estar aqui. — Ele sorriu, e foi um sorriso bonito, de um homem bonito que passou a vida sem poder ser ele mesmo. — Eu só fiquei acordado porque alguém me perdoou. Isso dá uma sobrevida, mas não dá vida.
Ele olhou para cima, para onde a Atena estava.
— Diga a ela que eu pedi desculpas direito dessa vez.
— Diz você.
— Eu não tenho coragem.
E o Aiolos, do lado dele, riu baixinho.
— Você nunca teve coragem para as coisas fáceis.
Saga riu também.
E as duas armaduras douradas começaram a se desmontar no ar, peça por peça, subindo devagar de volta para as casas de onde tinham vindo.
A última coisa que o Saga de Gêmeos disse, antes de a luz apagar de tudo, foi para o Shun:
— Menino.
— …
— A sua rachadura é mentira. — A voz dele já estava sumindo. — Eu passei treze anos acreditando na minha, e ela também era.
Capítulo 14 — Uma luz que ficou acesa
As doze casas apagaram uma por uma, de cima para baixo, até a montanha ficar escura de novo.
Os quatro ficaram sentados na escadaria quebrada, no escuro, sem falar nada por um tempo muito longo.
Foi o Shiryu quem percebeu primeiro.
— Olha.
— O quê?
Ele apontou para o alto.
A Casa de Sagitário tinha apagado como as outras.
E acendido de novo.
Fraquinha. Firme. Acesa.
— Ele ficou — disse Shiryu.
E, lá de cima, veio a voz da Atena, descendo os degraus:
— Ele ficou porque eu pedi.
Ela apareceu na curva da escadaria, com a armadura dourada suja de poeira e o rosto cansado.
— Ninguém mais nessa montanha vai chamar aquele homem de traidor.
Ela parou na frente dos quatro.
E aí ela olhou em volta, e contou, e a cara dela mudou.
— Cadê o Ikki?
Ninguém respondeu.
E o Shun começou a chorar de novo.
Capítulo 15 — Ela não estava sorrindo
Muito longe dali, no escuro de sempre, Ker estava de pé no meio do trono de pedra quebrada.
Não estava sentada. Não estava assoviando.
Estava de pé, muito quieta, olhando para o nada.
— Ele me expulsou — ela disse.
Ninguém respondeu, porque não tinha ninguém.
— Treze anos. Treze anos eu morei naquele homem. — Ela apertou a mão enfaixada. — E um morto desceu cinco degraus e disse uma palavra e eu fui embora como poeira.
Ela ficou quieta mais um tempo.
E então disse, para si mesma, baixinho:
— Perdão.
E, pela primeira vez em toda essa história, a voz dela não tinha carinho nenhum.
— Que coisa nojenta.
O Fim do Episódio 14
A lição desta noite
Essa noite tem duas lições, e elas são as duas maiores da temporada inteira.
A primeira é sobre a culpa.
A culpa serve para alguma coisa. Ela é o aviso que o seu coração dá quando você faz uma coisa errada, e é ela que faz a gente pedir desculpa e consertar. Sem culpa nenhuma, a gente seria horrível.
Mas a culpa tem um prazo.
Ela serve até você consertar. Depois disso, ela não serve para mais nada — e, se ela continuar ali, repetindo todo dia “você é uma pessoa ruim, você é uma pessoa ruim”, ela parou de ser culpa e virou outra coisa.
Virou uma porta aberta.
Foi por essa porta que a Ker entrou no Saga. Não por ele ser mau — ele nunca foi mau. Foi porque ele passava as noites repetindo para si mesmo que a culpa era dele.
Quem fica te lembrando dos seus erros para sempre, muito depois de você ter pedido desculpa, não está te ajudando a melhorar.
A segunda lição é sobre o Aiolos.
Ele tinha poucos segundos de vida. Estava fugindo no meio da noite com um bebê no braço, com um assassino vindo atrás.
E ele gastou os segundos que tinha escrevendo numa parede que o homem que ia matá-lo era inocente.
Pensa no tamanho disso.
Ninguém ia ler. Ele não ia estar vivo para contar. Ele nem assinou o próprio nome — ele morreu com fama de traidor por treze anos e não escreveu uma linha se defendendo.
Ele usou o último tempo da vida dele para defender o outro.
E essas quatro linhas riscadas numa pedra, treze anos antes, foram o que derrotou uma deusa hoje.
Essa é a verdade que essa história está contando desde o começo:
As coisas boas que a gente faz não somem. Elas ficam. Às vezes elas ficam quietinhas numa parede por treze anos, e ninguém entende, e ninguém agradece.
E aí, um dia, alguém lê.
Fim do Episódio 14. A aventura continua.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã: a Atena vai encontrar a Ker cara a cara. E tem um irmão perdido num lugar que não tem chão.
14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.
Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.