Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 16: A Porta que Ele Abriu

Ilustração do episódio 16: A Porta que Ele Abriu

Capítulo 1 — A conta do Shun

Naquela noite, o Shun não conseguiu dormir de novo.

Ele saiu de casa às duas da manhã, atravessou a vila dormindo e foi até a estufa quebrada.

Sentou no chão do canteiro do fundo, entre as flores que não murcham, com as duas correntes partidas enroladas no colo.

E começou a fazer uma conta.

Não de propósito. Esse tipo de conta a gente nunca faz de propósito — ela começa sozinha quando a casa está quieta demais.

O Ikki entrou na frente do golpe por minha causa.

Ele passou oitocentas e quarenta mil socos num lugar sem chão por minha causa.

Ele foi para a ilha do vulcão aos dez anos por minha causa.

A estufa quebrou porque ele veio me procurar.

As minhas correntes estão quebradas e eu não consigo proteger ninguém.

Um deus já morou aqui dentro uma vez.

Ele apertou o metal partido no colo.

E a última linha da conta chegou sozinha, do jeito que essas linhas chegam — não com voz de inimiga, mas com a voz dele mesmo, que é como elas sempre chegam:

Se eu não existisse, eles estariam todos bem.


E a Ker não precisou dizer uma palavra.

Ela estava sentada na mureta havia um tempo, quietinha, de pernas cruzadas, só olhando.

Esperando.

Porque a coisa mais poderosa que aquela deusa sabe fazer na vida é esperar em silêncio enquanto a pessoa fala sozinha.

— Você está aí faz quanto tempo? — perguntou Shun, sem levantar o rosto.

— Um tempinho.

— Por que você não falou nada?

E ela respondeu, com uma gentileza enorme:

— Porque você estava fazendo melhor do que eu faria, meu amor.


Capítulo 2 — Ele pediu

— Eu não vou te oferecer nada hoje — disse Ker. — Já ofereci. Você sabe o que eu sei fazer.

Ela desceu da mureta e ficou de pé a três passos dele.

— Eu só vim sentar aqui um pouco.

Shun não respondeu.

— Mas eu vou falar uma coisa, porque é verdade e porque você merece ouvir a verdade de alguém.

Ela se agachou.

— Você está cansado.

E foi isso que quebrou o Shun. Não a ameaça, não o medo, não a culpa.

Foi alguém dizer que ele estava cansado.

Porque fazia um ano que o Shun cuidava de todo mundo. Fazia um ano que ele era o calmo, o que escuta, o que arruma a estufa quando o mundo aperta, o que nunca pede nada.

E ninguém nunca tinha perguntado como ele estava.

Ele começou a chorar sem fazer barulho.

— Eu estou — ele disse.

— Eu sei.

— Eu estou muito cansado.

— Eu sei, meu amor.

E então o Shun de Andrômeda, sentado no chão de uma estufa quebrada, com duas correntes partidas no colo, fez a coisa que a Ker esperou dez dias para que ele fizesse.

Ele pediu.

— Entra.


Capítulo 3 — A manhã

De manhã, o Seiya acordou com a Seika sacudindo o ombro dele.

— Seiya. Seiya.

— Hm?

— Tem uma coisa errada na praça.

A vila inteira estava na janela.

E, no meio da praça de Rodorio, de pé em cima da fonte de pedra, estava o Shun.

Descalço. De camisa aberta. Com as duas correntes quebradas penduradas nos braços, batendo no vento.

E ele estava sorrindo.

Não o sorriso do Shun.

Um sorriso enorme, aberto, delicioso — o sorriso de quem está em casa nova e gostou do lugar.

— Bom dia! — disse ele, e a voz era a voz do Shun, e isso foi a pior parte. — Nossa, que corpo gostoso de usar. Vocês não fazem ideia. É tudo tão macio aqui dentro.

Ikki saiu correndo de casa descalço.

E parou no meio da praça.

— Shun.

— Oi, bravo. — O Shun inclinou a cabeça e sorriu para ele. — Ele pediu, viu? Antes que você comece. Eu não arrombei nada. Ele me chamou.


Capítulo 4 — O que ela fez com as mãos dele

Os quatro se espalharam pela praça, lentos, como quem cerca um animal que não quer machucar.

A Atena chegou correndo pela estrada do Santuário, ainda prendendo a armadura.

— Ker, sai de dentro desse menino.

— Não.

— Eu estou mandando.

— E eu estou adorando. — O Shun abriu os braços. — Sabe o que é mais engraçado? Esse corpinho aqui é mais forte que o do Saga. Muito mais. Só que ele nunca usou direito, porque ele passa a vida com medo de machucar alguém.

Ela levantou a mão esquerda.

— Vamos ver no que dá.

E o cosmo do Shun explodiu na praça.

Rosa, denso, girando — e tão grande que os telhados das casas em volta chacoalharam e a água da fonte subiu em espiral.

— TEMPESTADE NEBULOSA!

O golpe varreu a praça inteira num círculo.

Seiya cruzou os braços e foi arremessado contra o muro do mercado. Hyoga voou e caiu três ruas adiante. Shiryu plantou o escudo, aguentou dois segundos e foi empurrado para trás com os calcanhares cavando sulcos na terra.

E, quando a poeira baixou, o Shun ainda estava de pé na fonte, rindo.

— Ai, que delícia.


Capítulo 5 — O golpe que o Ikki não deu

— Vocês não vão bater nele, né? — disse a Ker, com a voz do Shun, limpando o nariz com as costas da mão.

Ninguém respondeu.

— Claro que não vão. — Ela desceu da fonte, descalça na pedra. — É esse o problema de vocês. Vocês amam demais e isso deixa vocês muito lentos.

Ela foi andando na direção do Ikki.

— Levanta a mão, bravo.

Ikki não levantou.

— Levanta. — Ela parou na frente dele, a um palmo, com o rosto do irmão caçula dele, olhando para cima. — Você é o mais forte daqui. Dois golpes seus e esse corpinho não aguenta. Sou eu quem sai machucada.

Ela sorriu.

— E ele também, claro. Mas aí já é detalhe.

E o Ikki de Fênix, que tinha enfrentado deuses, que tinha sobrevivido a um vulcão aos dez anos, que tinha aguentado dez dias sozinho num lugar sem chão socando o ar — ficou parado no meio da praça de Rodorio com os punhos fechados ao lado do corpo e não conseguiu levantar o braço.

— Que pena — disse Ker.

E bateu nele.

O soco do Shun pegou o Ikki no peito e jogou ele contra a parede da padaria, que desabou em cima.

E o Ikki levantou de novo, cuspindo pó.

E não levantou a mão.


Capítulo 6 — O que ela veio fazer

— Ker! — gritou a Atena. — Para com isso! O que é que você quer?!

E a Ker parou.

Virou devagar.

E, com o rosto do Shun, com a voz do Shun, ela disse a verdade — porque ela nunca mentiu uma vez sequer nesta história:

— Eu quero que você faça alguma coisa.

Silêncio na praça.

— Eu testei o resto, meu amor. — Ela abriu os braços. — Eu mandei um amigo morto e eles congelaram ele. Eu mandei um homem de ouro e um morto perdoou ele. Eu te ofereci a conta mais triste do mundo e você conferiu a minha matemática.

Ela deu um passo na direção da Atena.

— Vocês são bons demais. Eu não consigo fazer nenhum desses quatro matar ninguém. Eles preferem morrer, e isso não me serve.

Mais um passo.

— Então eu vim pela única porta que sobrou.

E ela apontou para o próprio peito — o peito do Shun.

— Eu vou gastar esse menino. Devagarinho. Na frente de vocês. — O sorriso dela ficou gentil. — Um corpo humano não aguenta um deus morando dentro por muito tempo, e esse aqui é delicado. Uma semana? Duas?

Ela inclinou a cabeça.

— E só existe uma coisa no mundo capaz de me arrancar daqui de dentro.

Ela olhou nos olhos da Atena.

— Você.


Capítulo 7 — A armadilha inteira

Foi o Shiryu, ajoelhado no chão com o escudo rachado, quem entendeu primeiro — porque é sempre ele.

— Não. — Ele levantou o rosto. — Atena, não.

— Shiryu…

— É isso que ela quer! — Ele apontou. — Ela não veio matar o Shun! Ela veio obrigar a senhora a matar ela!

A praça inteira ficou gelada.

Porque a regra era clara. O Apolo tinha falado ela com todas as letras, de pé no ar sobre um deserto de cinzas:

No dia em que sangue for derramado em nome de um deus, o céu abre sozinho.

E, se a Atena matasse a Ker com as próprias mãos, não tinha brecha, não tinha jeito, não tinha interpretação possível.

A deusa matando em nome dela mesma.

O céu abriria na mesma hora.

— Agora você entendeu — disse Ker, satisfeita. — Demorou, mas chegou.

Ela voltou a andar pela praça, de braços abertos, feliz da vida.

— Então vamos lá, meu amor. A escolha é sua, e eu fiz questão de deixar ela bem simples:

Ela parou.

— Ou você salva o menino, ou você salva o mundo.


Capítulo 8 — “Você está contando errado”

A Atena ficou parada no meio da praça de Rodorio.

E, por alguns segundos, não teve nada.

Nem resposta, nem plano, nem terceira porta. O Seiya caído, o Ikki caído, o Shiryu de joelhos, o Hyoga chegando mancando de três ruas, a vila inteira olhando pela janela.

E o Shun — o Shun de verdade, lá dentro, em algum lugar — gastando.

E aí ela lembrou de uma coisa.

Lembrou de uma conversa num lugar sem chão, três dias antes. Lembrou de ter dado a resposta certa para a pergunta errada.

Porque ela tinha respondido para a Ker.

E não era para a Ker que aquilo precisava ser dito.

A Atena deu um passo à frente e gritou.

Gritou de um jeito que ninguém, em nenhuma era, tinha ouvido aquela deusa gritar.

— SHUN!

O corpo na praça parou de andar.

— SHUN, VOCÊ ESTÁ CONTANDO ERRADO!


Capítulo 9 — A lista

E a Atena começou a listar.

Rápido, alto, atropelado, sem respirar direito, do jeito que a gente fala quando é a última coisa que dá para fazer.

— O Seiya levantou vinte pessoas de cima de você naquela praça, e ele só chegou lá porque você o puxou da multidão primeiro!

O corpo do Shun deu um passo para trás.

— Você plantou um canteiro em cima de um chão morto e fez ele virar um jardim que alimenta a vila inteira!

Outro passo para trás.

— Você foi o único que percebeu que o Orfeu estava falando por baixo da música! Os outros quatro estavam ouvindo e você foi o único que escutou!

As duas correntes quebradas nos braços dele começaram a tremer.

— Você entrou no meio dos fios com as mãos abertas quando ninguém mais entrava!

A Atena já estava chorando e continuou gritando.

— Você é a única criatura viva, em toda a história deste mundo, que botou um deus para fora de dentro de si mesma!

E então ela gritou a parte que o Shun tinha perdido — a metade do remédio que ele não tinha ouvido porque estava segurando o irmão para não cair:

— ELES NÃO SE MACHUCAM POR SUA CAUSA, SHUN!

A praça inteira ficou em silêncio.

— Eles se machucam porque te amam!

Ela apertou os punhos.

— E você está fazendo a conta de todas as vezes que eles sangraram, e não está contando nenhuma das vezes que eles sorriram!


Capítulo 10 — Lá de dentro

O corpo do Shun ficou parado no meio da praça.

E o rosto dele fez uma coisa esquisita.

A boca continuou sorrindo. Os olhos não.

— Para — disse a voz, e era a voz da Ker, e pela primeira vez ela não estava carinhosa.

A mão esquerda dele subiu sozinha e agarrou o próprio pulso direito.

— Ei. Para com isso.

O joelho esquerdo dobrou e bateu no chão de pedra.

— MENINO!

E então o rosto do Shun se contraiu inteiro, e a voz que saiu foi a dele — a de verdade, a baixinha, a que pede desculpa por tudo:

— Ikki.

Ikki levantou do meio dos escombros da padaria num salto.

— SHUN!

— Ikki, eu não consigo expulsar ela.

— Então aguenta!

— Eu estou aguentando. — Ele estava de quatro no chão, tremendo, com as duas mãos abertas na pedra. — Eu estou segurando ela na superfície.

Ele levantou o rosto, e tinha sangue no canto da boca e os olhos mais firmes de toda a temporada.

— Eu consigo segurar ela aqui em cima por uns segundos.

E ele olhou para a Atena.

— Agora.


Capítulo 11 — A escolha

A Atena entendeu na hora.

E ela também entendeu o resto — tudo, inteiro, de uma vez: que a Ker tinha previsto aquilo; que aquilo era exatamente a armadilha; que ela estava prestes a fazer a única coisa que o inimigo queria desde o primeiro dia.

E ela olhou para o menino de joelhos na praça segurando uma deusa antiga com a força de vontade.

E não levou nem um segundo para decidir.

A lança de Atena apareceu na mão dela.

— ATENA, NÃO! — gritou Shiryu.

— Eu sei o preço, Shiryu.

— A senhora vai abrir o céu!

— Eu sei.

— O mundo inteiro!

E a Atena respondeu, andando na direção do Shun:

— Eu não sei salvar um mundo inteiro, Shiryu. Nunca soube.

Ela ergueu a lança.

— Eu só sei salvar a pessoa que está na minha frente.


E a Ker, de joelhos, segurada por dentro por um rapaz de dezoito anos, levantou o rosto e sorriu.

Um sorriso grande, verdadeiro, feliz.

— Obrigada, meu amor.

E a luz dourada desceu.


Capítulo 12 — O que ela disse no fim

Não teve sangue. Não teve grito.

Teve uma luz dourada tão forte que a praça inteira virou branco por três segundos, e um som parecido com vento entrando por uma janela.

E, quando a luz baixou, o Shun estava deitado de lado no chão, respirando, vivo, dormindo como criança.

E, de pé na frente dele, meio transparente, estava uma mulher de vestido escuro.

Ela já estava indo embora. Dava para ver através dela.

E ela não parecia nem um pouco triste.

— Eu procurei a sua rachadura por um ano — disse Ker para a Atena. — Eu testei medo. Testei culpa. Testei orgulho. Testei a conta dos mortos.

Ela riu baixinho.

— E eu quase desisti. Eu falei para você, lá embaixo: você não tem rachadura nenhuma.

Ela já estava quase sumindo.

— E eu estava errada, meu amor. Você tem. Você sempre teve. É a maior de todas e é a mais fácil de achar.

A Atena não respondeu.

E a Ker, se apagando no ar da praça de Rodorio, disse a última coisa:

— Você sempre escolhe quem está na sua frente.

Ela sorriu.

— Eu só precisei pôr alguém ali.

E sumiu.


Capítulo 13 — O céu

Durou três segundos.

Três segundos de silêncio na praça. Tempo de o Ikki chegar correndo e ajoelhar ao lado do irmão. Tempo de o Seiya se arrastar até eles. Tempo de a Seika sair de casa.

E então o céu de Rodorio rachou de ponta a ponta.

Não teve trovão. Não teve nuvem.

O azul simplesmente abriu, como uma cortina puxada por alguém muito grande, e atrás dele não tinha estrela nem espaço nem escuro.

Tinha luz.

E a luz era tanta, e era tão branca, que todas as sombras da vila apontaram para o lado errado ao mesmo tempo.

A vila inteira caiu de joelhos. Não por respeito: porque as pernas não aguentaram.

E, no meio daquela abertura, muito alto, apareceu um homem de armadura branca com uma lira dourada no ombro.

Apolo olhou para baixo.

Para a praça quebrada, para a padaria desabada, para os quatro rapazes machucados, para o rapaz dormindo no chão, para a irmã de pé no meio de tudo com uma lança na mão.

E o rosto dele não tinha raiva.

Tinha a mesma coisa de sempre, e era pior que raiva.

— Acabou — ele disse.

E, bem devagar, bem calmo, ele desceu.


O Fim do Episódio 16

(fim do segundo bloco da temporada)

A lição desta noite

Lembra do que a gente falou ontem? Que vale repetir as coisas boas em voz alta, mais de uma vez, porque não dá para saber qual delas a pessoa perdeu?

Hoje foi isso que salvou o Shun.

A Atena já tinha dito aquelas palavras uma vez, num lugar sem chão, três dias antes. Ela achou que tinha resolvido. Mas ela disse para a pessoa errada — ela respondeu para a inimiga, quando quem precisava ouvir era o amigo.

E o amigo, naquela hora, estava de costas, segurando o irmão para ele não cair.

Então ela teve que dizer de novo. Gritando, no meio de uma praça, na frente da vila inteira, chorando, com a voz feia.

E dessa vez chegou.

Quem você ama precisa ouvir as coisas boas mais de uma vez. Não porque a pessoa é burra. Porque a vida é barulhenta, e porque a conta ruim que a gente faz sozinho às duas da manhã é muito mais alta do que qualquer elogio que alguém fez de passagem.

Fala de novo. Fala hoje. Fala mesmo que já tenha falado.

E tem a segunda parte, que é mais difícil e mais bonita.

A Atena sabia que era armadilha. O Shiryu gritou para ela. Ela sabia que ia abrir o céu, e sabia o tamanho do que vinha depois.

E ela escolheu o menino.

Tem gente que vai dizer que ela errou, e tem argumento bom desse lado — um mundo inteiro é muita gente.

Mas presta atenção no que ela respondeu:

“Eu não sei salvar um mundo inteiro. Eu só sei salvar a pessoa que está na minha frente.”

É assim que o bem funciona de verdade, fora das histórias.

Ninguém salva o mundo. O mundo é grande demais e a gente é pequeno.

O que dá para fazer — todo dia, todo mundo, inclusive você — é cuidar de quem está na sua frente.

A Ker achou que isso era uma fraqueza. Ela chamou de rachadura. Ela passou um ano procurando esse defeito na Atena para usar contra ela.

Amanhã a gente vai descobrir se ela estava certa.

Fim do Episódio 16, e fim do segundo bloco. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã o deus mais justo do céu vai explicar por que fez o que fez. E você vai ter dificuldade de odiar ele.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.