Episódio 20: Quantas Vezes Mais

Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 20: Quantas Vezes Mais

Capítulo 1 — A espera

A Atena esperou três dias na praça de Rodorio.

Não saiu de lá. Não sentou. Ficou de pé no meio da pedra quebrada, com a armadura dourada e a lança na mão, olhando para cima.

No primeiro dia, os moradores ficaram dentro de casa.

No segundo, começaram a aparecer na janela.

E, no terceiro, aconteceu uma coisa que ela não esperava.

O padeiro atravessou a praça e pôs um banquinho de madeira do lado dela.

— Caso a senhora queira sentar.

— Obrigada. Eu prefiro de pé.

— Imaginei. — Ele coçou a cabeça. — Mas fica aí, vai.

E foi embora.

Meia hora depois voltou a mulher do mercado, com um pote de água. Depois o velho que contava histórias de jardim, com um cobertor que ele deixou dobrado em cima do banquinho sem falar nada.

Até o fim da tarde, tinha um banquinho, um pote de água, um cobertor, três pães, uma caneca e um desenho que uma criança de cinco anos tinha feito e entregado correndo, sem olhar na cara dela.

A Atena olhou para aquela pilha de coisas no chão de uma praça quebrada.

E ficou de pé mais firme ainda.


Capítulo 2 — O que vem de cima

Ele não chegou com trovão.

Essa foi a primeira coisa, e foi a pior.

Todo mundo em Rodorio tinha crescido ouvindo que o Zeus é o deus do raio e do trovão, e todo mundo esperava um estrondo.

Não teve nenhum.

O que teve foi isto: o som do mundo diminuiu.

Os passarinhos pararam, mas não voaram. As folhas das oliveiras continuaram balançando no vento sem fazer barulho. A água da fonte continuou caindo em silêncio.

A Seika, na porta de casa, percebeu que não estava mais ouvindo a própria respiração.

E a luz ficou muito branca.

E, no meio da praça, sem descer, sem voar, sem aparecer — simplesmente estando ali, como se sempre tivesse estado —, havia um homem.

Ele era grande. Não gigante: grande do jeito que uma montanha é grande quando você está no pé dela.

Barba branca. Olhos cinzentos e muito calmos. Uma túnica simples, sem brilho nenhum.

Ele não parecia furioso.

Parecia cansado.

E, dois passos atrás dele, de cabeça baixa, estava Apolo.


Capítulo 3 — O filho calado

— Apolo? — chamou a Atena.

Ele não levantou o rosto.

— Apolo, olha para mim.

— Ele não vai responder — disse Zeus.

E a voz dele foi a coisa mais estranha de todas: era uma voz normal. De homem. De alguém falando na mesa do jantar.

— Eu pedi que ele ficasse quieto, e ele é obediente. — Zeus olhou para trás, para o filho. — Sempre foi. É o defeito dele.

— O que você fez com ele?

— Ainda nada.

Zeus voltou a olhar para a frente.

— Ele subiu até mim sozinho, três dias atrás, sem ser chamado. Entrou na sala e disse: “Pai, eu menti para o senhor.”

Ele fez uma pausa.

— Você sabe quanto tempo faz que ninguém fala comigo desse jeito?

A Atena não respondeu.

— Nem eu — disse Zeus.


Capítulo 4 — O inquérito

Ele começou a andar pela praça.

Não ameaçou ninguém. Não olhou para as casas. Andou devagar, com as mãos nas costas, como quem visita um lugar que já conhece.

— Eu vou fazer algumas perguntas — disse. — Responda com a verdade, que é mais rápido.

— Pergunte.

— Você é Atena?

— Sou.

— Você está viva?

— Estou.

— Você foi acordada.

— Fui.

— Por quem?

E a Atena respondeu:

— Por uma deusa mais velha que o senhor, chamada Ker, que passou um ano cochichando nos ouvidos dos meus cavaleiros para que eles me acordassem, porque ela sabia exatamente o que ia acontecer depois.

Zeus parou de andar.

— Isso eu não sabia.

— Agora sabe.

— Hm. — Ele assentiu devagar. — E onde está essa deusa?

— Morta.

— Quem matou?

E a Atena, sem baixar os olhos, respondeu:

— Eu.


Capítulo 5 — A conta dele

Zeus ficou parado um tempo.

— Está vendo? — ele disse. — É sempre assim.

Ele voltou a andar.

— Você vai me contar uma história comprida agora. Vai ter uma deusa antiga com um plano inteligente, vai ter um menino bom que foi enganado, vai ter uma armadilha montada com carinho.

Ele parou na frente dela.

— E no fim de toda história comprida, filha, tem sempre a mesma frase curta: mais um morto.

— Era uma deusa.

— Da última vez eram cento e oito guerreiros, doze cavaleiros de ouro e um deus. — Ele falou sem nenhuma emoção. — Antes disso, uma guerra no fundo do mar que afundou dois continentes. Antes disso, um lugar que hoje é um deserto de cinzas e já foi o jardim mais bonito que existiu.

Ele olhou em volta, para as colunas quebradas.

— Antes disso, outra. E outra. E outra.

Ele voltou os olhos para ela.

— Eu não estou com raiva de você. Eu quero que você entenda isso.

— Então o quê?

E Zeus fez a pergunta que tinha feito aos doze, um ano antes, sentado numa mesa mais velha que o mundo:

— Quantas vezes mais?


Capítulo 6 — A resposta que ela não tinha

A Atena abriu a boca.

E fechou.

Porque a resposta honesta era “eu não sei”, e ela não ia mentir para aquele homem.

— Eu vou lutar para que não tenha mais nenhuma.

— Você disse isso na última vez.

— E eu estava falando sério.

— Eu sei que estava. — Zeus falou com uma gentileza que era quase pior que grito. — Esse é o problema, filha. Você sempre está falando sério. E sempre tem outra.

Ele juntou as mãos.

— Você não é má. Nenhum de vocês é. Hades não era mau, Poseidon não era mau, Ares não é mau. Vocês são apenas muitos, e vocês existem há muito tempo, e cada um de vocês tem uma ideia muito boa de como as coisas deveriam ser.

Ele deu de ombros.

— E o chão onde vocês brigam é esse aqui.


Capítulo 7 — “Eu sei o nome deles”

— E as pessoas? — disse a Atena, e a voz dela subiu pela primeira vez. — As pessoas que moram nesse chão?

— O que tem elas?

— Elas não fizeram nada!

— Eu sei.

— Então por que elas pagam?!

E o Zeus respondeu, com uma calma terrível:

— Porque não existe jeito de tirar vocês daqui sem tirar o aqui.

Ele apontou para o chão.

— Eu já tentei tudo, filha. Eu já proibi. Eu já separei. Eu já castiguei. Eu já tranquei um de vocês num poço por quatro mil anos para servir de exemplo e nem isso funcionou.

Ele olhou para as casas em volta.

— Eu já reclamei com vocês. Eu já implorei, uma vez, há muito tempo, e eu não gosto de lembrar disso.

Ele voltou a olhar para ela.

— Sobrou uma coisa só.


Foi nesse momento que os cinco chegaram.

Vieram correndo pela estrada do Santuário, sujos de poeira do Inferno, machucados dos dezoito dias de escada — e, quando viram o homem no meio da praça, os cinco pararam de uma vez só, como se tivessem batido numa parede.

O Seiya foi o primeiro a se mexer.

Ele deu três passos à frente, botou-se entre o Zeus e a Atena, e girou o punho.

— METEORO DE PÉGASO!

Os cem socos saíram da mão dele.

E não chegaram.

Não foram bloqueados. Não bateram em escudo nenhum. Eles simplesmente pararam de existir no meio do caminho, como fumaça que acaba.

Zeus nem virou o rosto.

— Seiya de Pégaso — ele disse.

Seiya congelou.

— Shiryu de Dragão. Hyoga de Cisne. Shun de Andrômeda. Ikki de Fênix.

Ele olhou para os cinco, um por um, com uma atenção que ninguém esperava.

— Eu sei o nome de todos vocês. Eu sei o nome de cada um dos cento e oito que vocês enfrentaram. Eu sei o nome dos doze que derrubaram aquela muralha.

Ele fez uma pausa.

— Vocês são a melhor coisa que essa espécie já produziu. Isso não é elogio, é relatório: eu olhei tudo o que tinha para olhar e vocês cinco estão no topo.

E então ele disse a frase mais assustadora do episódio:

— E é exatamente por isso que isso nunca vai acabar sozinho.


Capítulo 8 — A ordem

Zeus se virou para o filho.

— Apolo.

Apolo levantou o rosto.

— Você comprou um ano para eles.

— Comprei.

— Agora devolve.

Silêncio absoluto na praça.

— …Senhor?

— O julgamento é hoje — disse Zeus, calmamente. — E quem vai executar é você.

Apolo ficou branco.

— Pai—

— Você é o mais justo dos doze. Todos dizem isso. — Zeus abriu as mãos. — Então seja justo. Você segurou o céu fechado por um ano com uma mentira. Hoje você abre a mão.

— Eu não vou fazer isso.

— Você vai.

— EU NÃO VOU FAZER ISSO!

E, pela primeira e única vez em toda aquela tarde, o deus do sol gritou com o pai no meio de uma praça grega.

— O senhor quer que eu apague bilhões de pessoas com as minhas próprias mãos para me ensinar a não mentir! — A voz dele rachou. — Eu já aprendi essa lição, pai! O senhor me ensinou essa lição há quatro mil anos com um raio na cabeça do meu filho!

Zeus não se mexeu.

— E eu fiquei calado desde então. Eu obedeci. Eu fui o mais justo dos doze porque eu tinha medo. — Apolo estava tremendo. — Mas eu não vou apagar um mundo inteiro para o senhor provar um ponto.

— É a sua palavra final?

E Apolo respondeu:

— É.


Capítulo 9 — O peso

Zeus estendeu a mão e encostou dois dedos no peito do filho.

Não teve raio. Não teve explosão.

Teve um som pequeno, como quando alguém apaga uma lâmpada.

E a luz que saía de dentro do Apolo — aquela luz que fazia as sombras apontarem para o lado errado, que tinha enchido um deserto de cinzas inteiro, que tinha aberto o céu de ponta a ponta — simplesmente apagou.

A armadura branca virou pó e caiu.

A lira dourada sumiu.

E o homem que sobrou ali no meio da praça era alto e bonito e completamente comum.

Ele deu meio passo.

E caiu de joelhos na pedra.

— Ah — ele disse, com uma voz de gente. — Ah, isso… isso é pesado.

Ninguém entendeu.

— O corpo — disse Apolo, ofegante, com as duas mãos no chão. — Eu nunca tinha sentido o meu próprio peso.

Ele tentou levantar e não conseguiu.

E então ele sentiu o vento da tarde na pele e estremeceu, porque era a primeira vez na existência dele que ele sentia frio.

— Você vai ficar assim — disse Zeus, sem olhar para baixo — pelo tempo que a espécie durar.

Ele voltou a olhar para a Atena.

— O que, hoje, não é muito.


Capítulo 10 — A linha

Zeus levantou a mão direita, devagar, com a palma para baixo.

— Espera — disse a Atena.

— Eu esperei três mil anos, filha.

— ESPERA!

E ele abaixou a mão.

Longe dali, muito longe, no horizonte onde o mar encosta no céu, apareceu uma linha branca.

Fina. Reta. Calma.

Ela começou num ponto do oceano e começou a andar — devagar, sem pressa nenhuma, sem barulho — e, por onde ela passava, o azul do mar virava cinza.

Não teve fogo. Não teve onda. Não teve grito.

Só o azul virando cinza, de um lado para o outro, como quem passa a borracha num desenho.

Toda a vila de Rodorio saiu de casa para olhar.

— Eu comecei pelo mar — disse Zeus. — Não tem ninguém lá. Vai levar o resto do dia para chegar na costa.

Ele olhou para a Atena.

— Eu não sou cruel. Eu dou o dia a vocês.


Capítulo 11 — A argumentação

E a Atena fez o que ela sabia fazer.

Ela argumentou.

— Eles melhoraram — ela disse. — O senhor está julgando a humanidade pelo que ela era.

— Eu estou julgando pelo que ela é.

— Eles construíram—

— Eu vi o que eles construíram. Também vi o que eles derrubaram.

— Eles cuidam uns dos outros!

— Às vezes.

— Eles aprendem!

— Devagar demais.

— Então dê mais tempo!

E o Zeus respondeu, e cada palavra caiu como pedra:

— Eu dei o Egito. Eu dei a Grécia. Eu dei Roma. Eu dei mil anos, e depois mais mil, e depois mais mil.

Ele abriu os braços.

— Quanto tempo é “mais tempo”, filha? Me dá um número. Eu aceito um número. Diga quantos anos e eu volto nesse dia.

E a Atena não tinha número nenhum.

Ela olhou para o chão.

E o Zeus, sem nenhum prazer, com uma tristeza enorme e antiga, disse:

— Você está discutindo comigo com as minhas próprias ferramentas, e eu sou muito melhor nelas do que você.

Ele levantou a mão de novo.

— E você perdeu.


Capítulo 12 — “Oi, vô”

E foi nesse exato instante que uma voz falou atrás de todo mundo.

Uma voz rouca, baixa, usada.

— Oi, vô.

Zeus parou.

E parou de um jeito que ninguém naquela praça tinha visto ele parar.

Ele virou o corpo inteiro, devagar.

Na beirada da praça, saindo da estrada do Santuário, com os pés descalços na pedra quente, tinha um homem baixinho e magro de barba branca comprida e uma túnica velha.

Ele segurava um bastão de madeira.

E, enrolada no bastão, uma cobra cinzenta levantou a cabecinha e olhou em volta.

A linha branca continuou andando no mar lá longe.

E o imperador dos céus, o pai dos deuses, o dono do raio, olhou para aquele homenzinho e não conseguiu falar nada por três segundos inteiros.

Depois falou uma única palavra, e a voz dele não estava calma:

— Como?

E o Asclépio, filho do Apolo, neto do Zeus, preso no fundo do Tártaro havia quatro mil anos, deu de ombros.

— Alguém desceu.

Ele apontou o bastão para os cinco rapazes sujos de poeira.

— Estava escrito na sentença, vô. O senhor mesmo escreveu.

Ele deu um passo à frente.

— Eu não vim brigar. Eu nunca briguei na vida. — Ele olhou para o pai caído de joelhos, e o rosto dele mudou um pouco. — Eu vim porque foi a primeira vez em quatro mil anos que alguém me pediu uma coisa, e eu não ia dizer não.

Ele olhou para o avô.

— Agora eu queria pedir eu.


O Fim do Episódio 20

A lição desta noite

Hoje o vilão da história é um senhor de barba branca que fala baixo, não grita com ninguém, chama a filha de “filha” e avisa com antecedência.

E essa é a parte mais importante, então vale repetir: o Zeus não é maluco.

Quase tudo que ele falou é verdade. As guerras aconteceram mesmo. Os mortos existiram mesmo. Ele já tentou outras coisas antes e não funcionaram mesmo.

Ele não quer destruir a Terra por maldade. Ele quer porque, na conta dele, não sobrou outro jeito.

Então por que ele está errado?

Repara em uma coisa, e é a chave de tudo que vai acontecer amanhã:

Ele está olhando de muito longe.

Lá de cima, o Zeus vê continentes, séculos, guerras, impérios subindo e caindo. Ele vê a humanidade do jeito que a gente vê um formigueiro: um negócio que se mexe muito e às vezes faz bagunça.

E, de muito longe, ele tem razão.

Só que ele não está vendo o padeiro que atravessou uma praça para levar um banquinho para uma moça cansada.

Nem a mulher do mercado com o pote de água.

Nem a criança de cinco anos que entregou um desenho correndo e saiu sem olhar na cara.

Essas coisas não aparecem de longe. Elas são pequenas demais.

Isso acontece muito, e não é só com deus.

É muito fácil ser duro com uma coisa que a gente vê de longe.

É fácil achar que todo mundo de uma escola é chato, que todo mundo de um time é mal-educado, que uma pessoa inteira é ruim porque fez uma coisa ruim.

De longe, cabe tudo numa frase só.

De perto, quase nunca cabe.

E tem uma segunda coisa, pequena, que eu quero que você guarde:

O Apolo foi obediente a vida inteira. Milhares de anos obedecendo, com medo, sem discutir uma vez.

E, hoje, ele disse “não” uma vez só.

Ele perdeu tudo que tinha por causa disso — virou um homem comum, ajoelhado no chão, com frio, sem conseguir levantar.

E foi o melhor momento da existência dele.

Fim do Episódio 20. Falta um.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã acaba. E quem vai vencer o imperador dos céus é uma flor.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.

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