Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 21: A Flor que Levou Duzentos Anos

Ilustração do episódio 21: A Flor que Levou Duzentos Anos

Capítulo 1 — “Agora eu queria pedir eu”

A linha branca continuou andando no mar.

E, na praça de Rodorio, o imperador dos céus ficou olhando para um homenzinho descalço com um bastão na mão.

— Você não devia estar aqui — disse Zeus.

— Eu sei.

— Eu te tranquei.

— Trancou. — Asclépio deu de ombros. — E escreveu uma saída na sentença. O senhor lembra qual era?

Zeus não respondeu.

— “Ou até que alguém desça e peça por ele.” — Asclépio apontou o bastão para os cinco rapazes sujos de poeira. — Esses cinco desceram dezoito dias de escada e pagaram nove portões com as lembranças deles.

Ele olhou para o Hyoga.

— Esse aqui deu a mãe.

Olhou para o Ikki.

— Esse aqui deu a noite mais importante da vida dele.

Olhou para o Shun.

— E esse aqui deu a única coisa que provava para ele mesmo que ele não é fraco.

Ele voltou os olhos para o avô.

— Eles fizeram isso por um velho que eles nunca tinham visto, que mora num buraco, que não ia poder agradecer direito.

Pausa.

— O senhor escreveu aquela cláusula achando que ninguém nunca ia usar. Eu também achei, vô. Eu achei durante quatro mil anos.

Ele deu um passo à frente.

— A gente dois estava errado sobre eles.


Capítulo 2 — O único que concorda

— Isso não muda o julgamento — disse Zeus.

— Eu sei que não. — Asclépio continuou andando devagar na direção dele. — Eu não vim mudar julgamento. Eu vim dizer uma coisa que só eu no universo inteiro posso dizer.

— E o que é?

E o Asclépio, filho do Apolo, neto do Zeus, preso num poço por quatro mil anos por ter trazido um homem de volta da morte, parou na frente do avô e disse:

— O senhor estava certo.

A praça inteira ficou em silêncio.

A Atena virou o rosto de uma vez.

— …Como? — disse Zeus.

— O senhor estava certo sobre mim. — Asclépio falou com uma calma total. — Eu trouxe um homem de volta num estalo de dedo, vô. Num instante. Sem pensar no depois, sem perguntar a ninguém, sem nenhuma regra, porque eu podia.

Ele bateu o bastão no chão.

— E, se eu tivesse continuado, eu teria virado uma coisa horrível. Eu teria decidido quem vive e quem morre, e eu teria decidido com o coração, que é o pior juiz que existe, e eu teria estragado o mundo achando que estava ajudando.

Ele olhou para o chão.

— Eu levei uns oitocentos anos lá embaixo para entender isso. E eu entendi.

Ele ergueu os olhos.

— O senhor estava certo sobre o perigo, e errado só sobre uma coisinha: o senhor devia ter me chamado para conversar em vez de descer um raio.


Capítulo 3 — A frase

Zeus ficou olhando para o neto.

E, pela primeira vez naquela tarde, alguma coisa no rosto dele mudou.

— Ninguém nunca me disse isso.

— O quê?

— Que eu estava certo. — A voz dele saiu estranha. — Eles me obedecem. Eles me temem. Eles me xingam escondido. Ninguém nunca chegou na minha frente e disse “o senhor estava certo”.

— Porque o senhor nunca deu espaço para ninguém dizer que o senhor está errado — disse Asclépio. — Quando não cabe o “errado”, o “certo” também não vale nada.

Ele apoiou as duas mãos no bastão.

— E agora eu vou usar o espaço que eu acabei de comprar, e o senhor vai me escutar, porque eu sou a única pessoa no universo que concorda com o senhor sobre o motivo de eu estar preso.

Zeus não falou nada.

E o Asclépio disse:

— O senhor me castigou por tentar consertar uma coisa rápido demais.

Ele parou.

— E agora o senhor quer apagar um mundo inteiro porque ele está demorando.


Capítulo 4 — “Mostre”

O silêncio depois daquilo durou muito tempo.

A linha branca continuou andando no mar, longe, sem pressa.

E o Zeus — que é muitas coisas ruins mas que, acima de tudo, é um juiz — fez uma coisa que ninguém esperava.

Ele baixou a mão.

Não desfez a linha. Só baixou a mão.

E disse:

— Fale, Atena.

A Atena deu um passo à frente.

— Não. — Zeus levantou um dedo. — Chega de falar. Você falou a tarde inteira e eu já respondi tudo.

Ele olhou para ela.

— Mostre.

— Mostrar o quê?

— Qualquer coisa. — Ele abriu as mãos. — Uma coisa só. Eu olhei para essa espécie do alto por três mil anos e eu vi tudo que tinha para ver.

Ele apontou para o chão.

— Você mora aqui embaixo faz um ano. Me mostra uma coisa que eu não vi.

E a Atena de Rodorio, com a armadura dourada suja de poeira, virou a cabeça e chamou:

— Shun.

— Oi.

— Vai buscar uma flor.


Capítulo 5 — O menino que colhe

O Shun atravessou a praça correndo.

Foi até a estufa quebrada — sem teto, sem metade dos vidros, com os vasos todos virados desde a briga com o irmão — e foi até o canteiro do fundo.

Ajoelhou.

Estendeu a mão.

E a flor abriu para ele, como sempre abre, porque é a única mão no mundo para a qual elas abrem.

Ele voltou correndo e entregou para a Atena.

E a Atena levou a flor até o imperador dos céus.

— É isso — ela disse.

Zeus olhou para a flor na mão dela.

Depois olhou para ela.

— Uma flor.

— Uma flor.

— Filha, eu estou prestes a encerrar uma espécie, e você está me mostrando uma flor.

— Estou.

— …Por quê?

E a Atena respondeu:

— Porque o senhor nunca ouviu a história dela.


Capítulo 6 — Duzentos anos

— Há duzentos anos — começou a Atena — existia um jardim nos arredores de Florença.

Zeus continuou olhando para a flor.

— Não era um jardim comum. As flores dele não morriam. O povo da região dizia que aquele pedaço de terra não pertencia direito a este mundo.

Ela girou o caule devagar entre os dedos.

— Tinha um rapaz que ia lá todo dia. Um estudante de pintura. Ele colhia aquelas flores porque as cores delas serviam de tinta, e dizem que não existia tinta igual em lugar nenhum da Europa.

Ela fez uma pausa.

— Esse rapaz sumiu. Virou outra coisa, numa guerra que o senhor conhece bem. E, a partir do dia em que ele sumiu, o jardim começou a morrer.

Ela ergueu os olhos.

— Virou deserto. Hoje é um campo de cinzas onde não nasce nada. Os meus cavaleiros estiveram lá na semana passada.

— Eu sei — disse Zeus. — Eu vi daqui de cima.

— Então o senhor viu o deserto.

— Vi.

— Mas o senhor não viu o que sobrou.

Ela segurou a flor um pouco mais alto.

— Sobrou uma. Uma florzinha teimosa, sozinha, no meio de todo aquele nada.

— E?

— E uma menina passou por ali.

A Atena falou mais devagar.

— Ela não era ninguém importante. Era uma menina. Ela viu aquela florzinha sozinha no seco, achou bonita, e colheu.

— E depois?

— E depois ela perdeu. Ou soltou, ou o vento levou — a história muda conforme quem conta. — A Atena deu de ombros. — O que todas as versões dizem é a mesma coisa: o vento carregou aquela flor por cima do mar.

Ela apontou para o chão da praça.

— E ela veio parar aqui.


Capítulo 7 — O que uma flor fez sozinha

— Nesta vila — continuou a Atena. — Duzentos anos atrás. Num pedaço de terra seca, atrás de onde hoje tem uma estufa quebrada.

Ela olhou para a flor.

— Ninguém plantou ela. Ninguém regou. Ninguém sabia que ela existia. Nenhum deus mandou, nenhum cavaleiro protegeu, ninguém escreveu isso em livro nenhum.

Ela ergueu o rosto.

— Ela só ficou lá. E foi trabalhando.

Ela apontou para o fundo da vila.

— Duzentos anos depois, aquele pedaço de chão é o único lugar de Rodorio onde tudo cresce. Nunca dá praga. As flores duram mais que as dos outros. A vila inteira come do que sai dali e ninguém sabe por quê.

Ela baixou a mão.

— Uma flor, vô. Uma só. Levou duzentos anos para transformar um pedaço de nada num lugar bom.

E então a Atena disse a frase pela qual ela tinha esperado a tarde inteira:

— Os deuses julgam num instante. Os humanos consertam em duzentos anos.

Ela olhou nos olhos dele.

— O senhor está olhando para a Terra e vendo o que ela é hoje.

Pausa.

— Eu estou pedindo que o senhor olhe para o que ela está virando.


Capítulo 8 — “Uma flor não é uma espécie”

Zeus ficou muito tempo calado.

E então disse, com honestidade:

— É um argumento bonito. Mas é só isso.

— Como assim?

— Uma flor não é uma espécie, filha. — Ele balançou a cabeça. — Você me contou a história de um acidente. Uma semente foi parar num lugar bom e deu certo. Isso não prova nada sobre eles.

Ele apontou para a vila.

— Eu continuo vendo guerra, ganância e gente se matando por bobagem. Uma florzinha não apaga isso.

E a Atena respondeu:

— O senhor tem razão.

Zeus franziu a testa.

— Uma flor não prova nada — ela continuou. — Eu nunca disse que provava.

Ela se virou e começou a andar pela praça.

— A flor não é a prova, vô. A flor é só a forma.

— Forma de quê?

Ela parou no meio da praça e apontou para o chão.

— Chega mais perto.


Capítulo 9 — O banquinho

Zeus andou até onde ela estava.

E ela apontou para uma pilha de coisas no chão de pedra, ao lado de onde ela tinha ficado de pé por três dias.

Um banquinho de madeira. Um pote de água. Um cobertor dobrado. Três pães. Uma caneca. E um papel com um desenho.

— O que é isso? — perguntou Zeus.

— Isso apareceu sozinho nos últimos três dias — disse a Atena. — Enquanto eu estava aqui esperando o senhor descer para acabar com o mundo.

Ela ajoelhou e pegou o banquinho.

— Esse aqui é do padeiro. Ele atravessou a praça inteira, pôs isso no chão, disse “caso a senhora queira sentar” e foi embora.

Pegou o pote.

— Esse é da mulher do mercado. Ela nem falou nada.

Pegou o cobertor.

— Esse é do velho que conta histórias. Ele dobrou e deixou aqui.

E, por último, pegou o papel.

— E esse aqui é de uma menina de cinco anos que atravessou a praça correndo, entregou na minha mão e saiu sem olhar para a minha cara, de tanta vergonha.

Ela virou o desenho para o imperador dos céus.

Era um rabisco. Uma moça amarela com uma coisa comprida na mão, que devia ser a lança, de pé ao lado de uma casa. No canto, um sol com óculos escuros.

Zeus olhou para aquilo.

— Eles sabiam o que ia acontecer hoje — disse a Atena. — A vila inteira sabia. O céu está rachado há três dias, vô. Eles não são burros.

Ela segurou o desenho com as duas mãos.

— E, sabendo disso, com o mundo acabando, o que eles fizeram foi trazer um banquinho para uma moça cansada que estava de pé no sol.

Ela olhou para ele.

— É disso que é feita a flor.

Ela apontou para a estufa.

— Duzentos anos daquilo ali, um pote de água por vez, numa terra seca, é o que vira um lugar bom.

E então ela disse a última coisa:

— O senhor vê de muito longe, vô. Daquela altura, a gente parece mesmo um formigueiro que briga.

Ela pôs o desenho na mão dele.

— Dessa altura aqui, a gente é isso.


Capítulo 10 — A mão desce

O imperador dos céus ficou de pé no meio da praça de Rodorio com um desenho de criança na mão.

Ele olhou para o papel por um tempo muito longo.

Depois olhou para o banquinho.

Depois para o filho ajoelhado no chão, tremendo de frio pela primeira vez na existência.

Depois para o neto descalço com uma cobra enrolada num bastão.

Depois para cinco rapazes machucados, em pé, entre ele e uma vila.

E depois — e isso durou só um instante, e só a Seika viu, porque ela estava na porta de casa e porque ela é o tipo de pessoa que repara — o rosto dele ficou velho.

Não antigo. Velho mesmo. Cansado de um jeito que não tem conserto.

Zeus levantou a mão direita.

A Atena prendeu a respiração.

E ele virou a palma para cima e fechou os dedos.

Longe dali, no horizonte, a linha branca parou de andar.

Ficou parada ali, no meio do mar, por uns dez segundos.

E então começou a recuar.

Devagar. Bem devagar. De um jeito que ia levar o resto do dia e a noite inteira para o cinza virar azul de novo.

Porque nesta história nada é instantâneo, e isso é o ponto inteiro dela.


Capítulo 11 — A sentença

— Isso não é perdão — disse Zeus.

— Eu sei.

— Eu não estou dizendo que você me convenceu, filha.

— Eu sei disso também.

— Eu estou dizendo que você me deu uma dúvida. — Ele devolveu o desenho para ela. — E eu não executo sentença com dúvida. Isso eu aprendi do jeito difícil, há quatro mil anos.

Ele olhou para o neto por um instante.

— Vocês têm prazo.

— Quanto?

— Eu não vou dizer.

— Pai—

— Se eu disser o número, vocês passam o prazo inteiro contando os dias e fazendo as coisas no último mês. — Ele deu de ombros. — Eu já lidei com gente antes.

Ele começou a subir.

— Eu volto. Não digo quando. E, quando eu voltar, eu quero ver o chão.

E, antes de sumir, ele fez a última coisa daquele dia.

Olhou para o filho, ainda de joelhos na pedra.

— Apolo.

— Senhor.

— Você gosta tanto deles.

Apolo não respondeu.

— Então fica.

Zeus subiu mais.

— Você não volta a ser deus. Você fica aí embaixo, desse tamanho, com esse corpo, sentindo frio e sentindo fome e tendo que dormir todo dia.

Ele parou.

— E você olha.

A luz começou a diminuir.

— Quando eu voltar, eu não vou olhar de cima. Eu vou perguntar para você.


E o céu se fechou.

Devagar, como quem fecha a porta de um quarto onde alguém está dormindo.


Capítulo 12 — O que não volta

Eles levaram semanas para arrumar as coisas.

E tem uma parte dessa história que não teve final feliz, e é importante contar essa parte também.

As lembranças não voltaram.

O Asclépio avisou logo no primeiro dia, para ninguém ficar esperando:

— Eu conserto corpo. Lembrança não é ferida.

O Hyoga continuou sem saber o que ele entregou no primeiro portão. Ele só sabe que tem um buraco, e que o buraco tem formato de alguma coisa importante.

Mas ele arrumou uma mala e foi para a Sibéria.

— Para quê? — perguntou o Seiya.

— Eu não sei o que eu esqueci — disse Hyoga, no portão. — Mas o que quer que seja, continua lá embaixo.

Ele pôs a mala no ombro.

— Eu vou lá olhar de novo.


E o Ikki continuou sem saber por que ele sente uma coisa esquisita quando olha para o irmão caçula sentado num degrau.

Então o Shun resolveu isso do jeito dele.

Toda noite, antes de dormir, ele conta a história para o irmão.

O orfanato. O sorteio. O papelzinho com o nome da pior ilha de todas. O menino de dez anos indo até a mesa dos adultos e dizendo “eu vou no lugar dele”. O degrau. O “para de chorar”. O “promete nada, eu só volto”.

E, toda noite, o Ikki escuta tudo e não sente nada, porque saber e sentir não são a mesma coisa, e isso a gente aprendeu no episódio nove.

E, toda noite, quando acaba, o Ikki diz a mesma coisa:

— Conta de novo amanhã.


Capítulo 13 — O que fica

O Apolo ficou morando em Rodorio.

Ele é péssimo em ser humano. Ele queima a comida, ele não sabe calçar sandália direito e ele ficou três dias com dor nas costas porque ninguém explicou para ele que pessoa precisa de travesseiro.

Na primeira semana, ele foi até a casa da Seika, parou na porta e ficou sem jeito.

— Eu vim pedir desculpa direito.

— Já era hora.

— Eu te deixei sozinha com aquilo por um ano.

— Deixou.

— E eu não tinha o direito.

E a Seika olhou para aquele homem alto e desajeitado parado na porta da cozinha dela e disse:

— Não tinha mesmo. — Ela se afastou da porta. — Quer café?


E o Asclépio ficou também.

Ele abriu uma sala no fundo da casa da Seika e começou a atender gente da vila. Dor de dente, osso quebrado, febre de criança, tosse de velho.

Nada de ressuscitar ninguém. Nunca mais.

— Por quê? — perguntou o Seiya, uma vez.

— Porque meu avô estava certo — disse Asclépio, moendo erva no pilão. — E porque isso aqui é mais útil.

Ele e o pai moram na mesma casa agora.

Depois de quatro mil anos, um médico e um homem comum que já foi deus, dividindo cozinha.

Eles brigam bastante.

É ótimo.


Capítulo 14 — As Doze Casas

E o Santuário começou a ser reconstruído.

Não por exército, não por magia, não por deus nenhum.

Por gente de Rodorio, com carrinho de mão.

O Seiya trabalha lá todo dia carregando pedra — só que agora ele sabe por quê, e isso muda tudo. O Shiryu desenha onde cada coluna vai. O Ikki carrega o que três homens carregariam e reclama o tempo todo.

A Casa de Áries levou quatro meses.

A de Touro, cinco.

Vai demorar anos. Talvez décadas. Talvez eles não vejam a última ficar pronta.

Tudo bem.

A Casa de Sagitário foi a primeira a ser terminada, e foi a única em que ninguém encostou numa parede específica: aquela com quatro linhas tortas riscadas na pedra, com pressa, por um homem que tinha segundos de vida e gastou esses segundos defendendo o homem que ia matá-lo.

Puseram um teto por cima para a chuva não apagar.


Capítulo 15 — A última cena

E, numa tarde de primavera, quase um ano depois de tudo isso, o Shun subiu a escadaria do Santuário com uma caixa de madeira nos braços.

As correntes dele continuam quebradas. Ele guardou as duas, penduradas na parede da estufa nova.

— Um dia eu conserto — ele disse, quando o irmão perguntou.

Mas naquela tarde ele não precisava delas.

Ele parou no meio das ruínas da Casa de Gêmeos, que ainda era um monte de pedra caída, e pôs a caixa no chão.

Dentro tinha mudas.

Mudinhas pequenas, de nada, com três folhinhas cada uma, tiradas do canteiro do fundo.

E o Shun de Andrômeda se ajoelhou no meio dos escombros, abriu um buraquinho na terra com as mãos e plantou a primeira.

Depois a segunda.

Depois a terceira.

Lá de baixo, da estrada, o Seiya gritou alguma coisa sobre o jantar.

— JÁ VOU! — respondeu Shun.

E continuou plantando.

Porque em algum lugar lá em cima tem um senhor de barba branca que um dia vai voltar, e ninguém sabe quando, e quando ele voltar ele vai olhar para o chão.

E, quando ele olhar, o Shun quer que tenha flor.


O Fim


A lição desta noite — e de todas as outras

Essa história durou quinze noites, e ela tinha uma ideia só do começo ao fim. Agora dá para falar ela inteira.

Pensa em tudo que ganhou no final:

Não foi o golpe mais forte. O Meteoro de Pégaso parou de existir no meio do ar.

Não foi o argumento mais inteligente. A Atena discutiu a tarde inteira com o Zeus e perdeu todas.

Foi uma flor que ninguém plantou, um banquinho de madeira e um desenho de criança.

E foram quatro linhas tortas riscadas numa parede por um homem que ia morrer em cinco minutos e que não assinou o próprio nome.

Tudo que venceu nessa história foi uma coisa pequena que alguém fez sem saber que ia importar.

O Aiolos não ia estar vivo para ver ninguém ler. O padeiro só achou que a moça devia estar cansada. A menina de duzentos anos atrás só achou a florzinha bonita. A criança de cinco anos fez um desenho e saiu correndo de vergonha.

Nenhum deles estava tentando salvar o mundo.

E foi exatamente isso que salvou.


Você vai crescer ouvindo que, para fazer diferença, você tem que fazer uma coisa enorme. Ser o melhor, ficar famoso, ganhar alguma coisa grande.

Essa história está dizendo outra coisa, e é a coisa mais verdadeira que eu sei:

As coisas boas que você faz continuam trabalhando depois que você vai embora.

Elas são pequenas e parecem inúteis na hora. Levar água para alguém. Ficar do lado de quem está triste. Falar a verdade quando é mais fácil não falar. Defender quem não está lá para se defender.

Elas somem de vista. Ninguém agradece. Parece que não deu em nada.

E aí, duzentos anos depois, aquele pedaço de chão seco virou o único lugar onde tudo cresce — e ninguém da vila sabe por quê.

Os deuses julgam num instante.

Os humanos consertam em duzentos anos.

E vale a pena.


Uma última conversa, agora de verdade

Matheus, essa parte aqui não é da história. É para você mesmo.

Os episódios 1 a 6 eram de verdade. O senhor japonês que escreve Cavaleiros do Zodíaco, o Masami Kurumada, desenhou aqueles com a mão dele, e a gente leu exatamente o que ele escreveu.

Do 7 até hoje foi nosso.

A gente inventou porque ele ainda não terminou de escrever a continuação. A gente não inventou do nada: a gente pegou todas as pistas que ele deixou espalhadas — o Asclépio preso no poço, a deusa que cochicha, o medo da Ártemis, a flor que veio de Florença — e tentou adivinhar para onde ele estava indo.

Pode ser que a gente tenha acertado algumas coisas. Pode ser que a gente tenha errado tudo.

Quando ele publicar a de verdade, a gente lê junto.

E aí a gente compara, e vai ser muito divertido descobrir onde a gente chegou perto e onde a gente passou longe.

Até lá, essa é a nossa.

E, se a nossa estiver errada, tudo bem: a flor de Rodorio continua sendo verdade do mesmo jeito.


Fim da Saga dos Céus — temporada imaginada.

Boa noite, pequeno guerreiro. Dessa vez de verdade.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.