
Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.
Capítulo 1 — Bronca de Cavaleiro de Ouro
De volta ao Santuário, Shion, Dohko e Tenma foram recebidos exatamente como se espera de quem foge para enfrentar um deus sem avisar ninguém.
Aos berros.
— VOCÊS TRÊS!
A voz veio de cima e fez o chão vibrar.
No alto das escadarias estava um homem que parecia ter sido esculpido numa montanha em vez de nascido de gente. Ombros largos como portas, braços do tamanho de troncos, e uma armadura dourada com dois chifres.
Ox de Touro.
— Vocês têm ideia do que fizeram? — ele desceu os degraus, e cada passo dele soava como pedra caindo. — Se enfiaram na boca do lobo! Sozinhos! Sem plano! Contra o exército de Hades!
— A gente tinha uma chance de acabar com tudo antes de começar — respondeu Dohko.
— E não acabou, né? Não acabou.
Tenma, que não tinha o menor senso de perigo, deu um passo à frente.
— Se o senhor quer brigar, então briga comigo primeiro! A gente vai ter que passar por cima do senhor de qualquer jeito!
Ox olhou para baixo, para o garoto.
E, com dois dedos — o polegar e o indicador — pegou Tenma pela roupa como quem pega um gatinho pelo cangote.
E arremessou.
Tenma voou pelo pátio inteiro e bateu de costas numa coluna.
— Fica aí quieto — disse Ox, e virou-se para Shion e Dohko com as mãos já brilhando. — E vocês dois, se preparem. Isso aqui vai doer.
Ele plantou os pés no chão e concentrou o cosmo nos ombros.
— GRANDE CHIFRE!
Capítulo 2 — Excalibur
O golpe nunca chegou a sair.
Um homem apareceu do lado de Ox — ninguém viu de onde — e passou a mão aberta a poucos centímetros do rosto dele.
Ox congelou no meio do movimento.
Porque, se aquela mão tivesse passado dois centímetros mais perto, teria cortado a cara dele ao meio.
— Chega, Ox.
O recém-chegado era mais magro, com um olhar sereno e assustador ao mesmo tempo. Izō de Capricórnio — chamado em todo o Santuário de "aquele que corta o mal".
Ele não usava espada. A mão dele era a espada.
— O Grande Chifre ia matar os três — disse Izō, calmamente. — Você sabe disso.
— Eu ia me segurar.
— Você nunca se segura.
E, sem esperar resposta, Izō virou-se para a saliência de pedra onde Shion, Dohko e Tenma estavam.
— EXCALIBUR.
A mão dele cortou o ar.
E a cornija de rocha inteira — pedra maciça, um pedaço de montanha — foi partida ao meio, limpa como pão cortado com faca boa.
Os três despencaram para o nível de baixo, caíram feio, mas caíram longe do alcance do Grande Chifre.
Lá em cima, Ox soltou o ar e baixou os punhos.
— Você cortou o meu chão.
— Cortei o seu golpe. O chão foi consequência.
Capítulo 3 — O que os Veteranos Sabem
Enquanto os três garotos se levantavam da queda, os dois Cavaleiros de Ouro conversavam lá em cima, e a conversa era bem mais pesada do que a bronca.
— É verdade, então? — perguntou Ox. — Hades reencarnou por completo?
— É.
— E Atena?
Silêncio.
— Nada — disse Izō. — Nenhum sinal. Nenhum cosmo. A deusa ainda não se manifestou nesta era.
Ox olhou para o horizonte por um tempo.
— Sem Atena, não tem Guerra Santa. Tem massacre.
Lá embaixo, os três garotos ouviram tudo.
Tenma limpou a poeira das mãos e olhou para cima, para os dois gigantes conversando.
— Um dia — ele disse — eu vou ser forte igual àqueles dois.
— Você? — Dohko riu. — Você levou um peteleco e voou vinte metros.
— Um dia.
E Shion, do lado, não riu.
Porque ele olhava para o garoto e via alguma coisa que Dohko ainda não tinha visto.
Capítulo 4 — Duzentos e Quarenta Anos Depois
E, agora, vamos pular no tempo.
Muito para a frente. Até um lugar completamente diferente, num ano que aqueles três nem conseguiriam imaginar.
Havia um campo de flores. Amarelas e brancas, balançando no vento de fim de tarde.
E, sentados no meio dele, dois amigos.
Uma jovem de cabelos longos e escuros, e um rapaz numa cadeira de rodas, com uma manta sobre as pernas.
Saori Kido — Atena — e Seiya de Pégaso.
Fazia um ano desde a batalha nos Campos Elísios. Um ano desde que a espada de Hades atravessou o peito de Seiya e ficou lá, invisível, presa dentro dele, sem que médico nenhum no mundo pudesse tirar.
Ele não conseguia mais andar. Ficava cada dia um pouco mais fraco.
Saori estava trançando alguma coisa com as flores do campo.
— Pronto — ela disse, e amarrou no pulso dele uma pulseirinha de flores. — Ficou torta.
Seiya olhou para aquilo e riu.
— Ficou horrível.
— Ficou linda.
Os dois ficaram em silêncio um tempo, olhando o sol descer.
E Saori, que estava sorrindo, não conseguiu mais.
Porque ela sabia de uma coisa que ele não sabia: que aquela espada ia terminar o serviço em breve, e que não havia nada na medicina, na ciência nem no cosmo capaz de impedir.
Só havia um caminho.
E era um caminho que ninguém tinha tentado antes.
Capítulo 5 — Três Dias
— Shun.
O Cavaleiro de Andrômeda apareceu atrás dela, no campo.
— Saori? O que foi?
— Eu vou voltar no tempo.
Shun demorou a processar aquilo.
— …Como assim?
— Duzentos e quarenta e três anos. Até a Guerra Santa anterior. — Ela se levantou. — A espada que está no Seiya foi cravada nele por Hades. Se eu destruir aquela espada antes — no passado, quando ela ainda estava no mundo antigo — a maldição não existe. E o Seiya vive.
— Isso é… isso é possível?
— Existe um deus que controla o tempo. Chama-se Cronos.
Shun não hesitou nem meio segundo.
— Eu vou com você.
E foram.
Encontraram Cronos. E o deus do Tempo, depois de ouvir o pedido, deu uma resposta curta e cruel:
— Três dias.
— Três dias?
— É tudo que eu concedo. Se vocês não voltarem dentro desse prazo, ficam presos naquele tempo para sempre.
Saori olhou para Shun.
Shun assentiu.
E, antes de atravessarem, ela amarrou uma segunda pulseira de flores — igual à que tinha feito para Seiya — ligando o pulso dela ao dele, para que a travessia não os separasse.
Capítulo 6 — A Bruxa da Lua
Mas o caminho até o passado não era direto.
Primeiro era preciso subir. Até o Olimpo, até o Templo da Lua, para pedir ajuda a alguém que talvez tivesse o poder de ajudar: Ártemis, deusa da Lua, irmã de Atena.
E, no caminho, uma coruja branca pousou num galho diante deles.
E a coruja virou uma velha.
— Humanos não deveriam pisar aqui — disse a anciã, com um sorriso sem dentes. — Eu sou Hécate, a Feiticeira da Lua. E vocês estão perdidos.
— Nós precisamos chegar ao Templo da Lua.
— Todos esses caminhos aí levam a lugar nenhum. Só um é verdadeiro, e só eu sei qual. — Ela cruzou os braços. — Eu levo vocês. Por um preço.
— Qual preço?
Hécate apontou um dedo torto.
— O seu cabelo, deusa.
Shun deu um passo à frente.
— De jeito nenhum.
— Diz a lenda — continuou a bruxa, sem se abalar — que um fio de cabelo de Atena numa poção dá cem anos de vida a quem beber. Imagina uma cabeleira inteira.
— Saori, não aceite!
Mas Saori já tinha pegado a adaga que a velha oferecia.
— Se é isso que custa para salvar o Seiya — ela disse, com a voz firme — então é barato.
E cortou.
Os cabelos longos e escuros caíram no chão da floresta prateada, e a bruxa os recolheu com uma pressa quase indecente.
Shun ficou parado ali, olhando aquilo, sem conseguir dizer nada.
Capítulo 7 — Enquanto Houver Amor
No Templo da Lua, Ártemis os recebeu do jeito que uma deusa recebe humanos que invadiram a casa dela: mal.
— Você abriu mão do seu cabelo por um humano — disse ela, encarando a irmã.
— Por um amigo.
— É a mesma coisa, e é igualmente ridículo. — Ártemis se levantou do trono. — Os humanos destroem tudo que tocam. Já passou da hora de acabar com eles.
Encurralada contra a parede daquele templo prateado, com uma deusa muito mais poderosa diante dela, Saori não recuou.
— Os humanos erram — ela disse, e as lágrimas escorriam sem que a voz tremesse. — Erram muito. Mas eles também têm uma coisa que nós, deuses, temos dificuldade de entender.
— E o que seria?
— Amor. E, enquanto existir amor entre eles, eu vou continuar acreditando neles. Não importa quantas vezes eles caiam.
Ártemis ergueu o cajado, irritada, e Saori bloqueou o golpe com o próprio bastão.
O choque das duas armas divinas encheu o templo de luz.
— Me empreste seu poder — pediu Saori. — Eu só preciso voltar no tempo e destruir uma espada.
— Impossível. Nem eu nem Apolo controlamos o tempo. Só Cronos — e ninguém sabe onde ele está, porque ele nem sequer tem forma.
E, com um gesto, expulsou os dois do templo.
Mas, quando ficou sozinha, Ártemis deixou uma lágrima escapar.
— Minha irmã é corajosa demais — ela murmurou. — Ela nunca vai desistir daquela gente. Nunca.
Capítulo 8 — A Flecha que Não Voa Reto
Do lado de fora, algo estava se movendo.
Calisto, a comandante das guardiãs de Ártemis, tinha dado uma ordem que a própria deusa não sabia que ela tinha dado:
Matem Atena.
E, para isso, ela chamou a melhor.
La Scoumoune, chefe do comando das Satélites. Uma arqueira que vestia uma armadura de escamas escuras como uma serpente enrolada no corpo, e que tinha uma fama simples e assustadora em todo o Olimpo:
Ela nunca errava.
Shun ficou para trás sozinho, no meio do caminho, para dar tempo a Saori.
— Podem vir — ele disse, com as correntes acesas.
As Satélites vieram todas de uma vez.
E Shun ergueu o braço.
— ONDA DE TROVÃO!
A ponta da corrente disparou à frente, não em linha reta, mas em ziguezague — como um raio descendo do céu, mudando de direção no ar, carregada de eletricidade.
A rajada varreu o grupo inteiro. As Satélites caíram de uma vez só.
Shun baixou o braço, ofegante.
E, do alto de uma pedra, uma voz aplaudiu bem devagar.
— Bonito.
La Scoumoune já estava com a flecha encaixada na corda.
Capítulo 9 — Víbora Carmesim
Shun girou as correntes na frente do corpo, formando a barreira.
Ele sabia como se defender de flechas. Já tinha feito isso mil vezes. A corrente em ziguezague é uma parede — nada passa por ela em linha reta.
A questão é que aquela flecha não vinha em linha reta.
— VÍBORA CARMESIM!
A flecha saiu do arco envolta numa aura púrpura, e enrolada no corpo dela havia o desenho de uma serpente.
E ela se moveu como uma serpente.
Ondulou no ar. Contornou. Encontrou o espaço entre um ziguezague e outro da corrente de Shun — o único vão possível, o vão que existia por uma fração de segundo — e passou por ele.
Shun nem viu chegar.
Sentiu apenas o impacto, e depois o chão batendo nas costas.
A corrente caiu ao lado dele, e Shun ficou imóvel na terra, com os olhos fechados.
— Eu nunca erro — disse La Scoumoune, descendo da pedra e sacando outra flecha. — E não é por causa da mira. É porque as minhas flechas vão atrás do alvo.
Ela caminhou até o rapaz caído e apontou para o peito dele.
E parou.
Porque alguma coisa estava se aproximando — um cosmo que fazia o ar ficar quente a metros de distância.
Capítulo 10 — A Ave Imortal
Ele apareceu no meio de um turbilhão de fogo.
Cabelo azul, olhar de quem não tem paciência para absolutamente nada, e uma coisa segurada displicentemente entre dois dedos.
Uma flecha púrpura.
— Você deixou cair isso — disse Ikki.
La Scoumoune franziu a testa.
— Quem é você?
— Irmão dele. — Ikki apontou com a cabeça para Shun caído. — E isso, para você, já é problema suficiente.
Ela não perdeu tempo. Disparou três flechas seguidas.
Ikki nem desviou. Aparou as três com o braço, deixando-as quicarem na armadura, andando na direção dela o tempo inteiro.
— Isso não funciona comigo.
— VÍBORA CARMESIM!
A flecha-serpente saiu, ondulou no ar, contornou o braço erguido de Ikki e mergulhou na direção do peito dele.
E Ikki, no instante exato, arremessou a flecha que segurava na mão.
As duas se encontraram no meio do ar.
E a Víbora Carmesim se estilhaçou.
La Scoumoune arregalou os olhos — e não teve tempo de mais nada, porque a flecha de Ikki continuou o caminho e a acertou em cheio no peito.
Ela caiu de costas.
Capítulo 11 — O Golpe que Já Tinha Sido Dado
Ikki caminhou até a arqueira caída e ficou olhando para ela.
Ela ainda respirava.
— Por quê? — ela conseguiu perguntar. — Por que não me matou?
— Porque eu não precisei.
Ikki apontou para a flecha.
— Essas flechas já estavam danificadas. O meu irmão fez isso antes de cair. A Onda de Trovão dele não parou a sua flecha, mas estragou ela por dentro — e você continuou usando sem perceber.
Ele deu de ombros.
— Quem venceu essa luta foi ele. Eu só cheguei no fim.
E se afastou.
Quando Shun acordou, um tempo depois, não havia mais ninguém no campo — só uma pena incandescente flutuando no ar, se apagando devagar.
Ele sorriu, cansado.
— Foi você de novo, né?
Capítulo 12 — As Portas do Espaço-Tempo
E, enquanto isso, Saori chegava ao único lugar da Terra onde era possível encontrar Cronos.
Não era um templo, nem uma montanha, nem uma caverna.
Era uma superfície que parecia água — e não era.
Era um redemoinho lento de nebulosas, estrelas e poeira cósmica, girando devagar no meio do nada, como um lago feito do próprio universo.
Uma voz falou dali de dentro.
Uma voz tão grande que não entrava pelos ouvidos — sacudia o peito de dentro para fora.
Hécate, que tinha guiado Saori até ali, deu um passo para trás com o rosto branco.
— Isso foi longe demais…
E ela se desfez.
Simplesmente se desmanchou em pequenas luzes que subiram no ar e se apagaram uma a uma, como faíscas que sobem de uma fogueira.
Saori foi arremessada para trás, girando entre as estrelas, sem chão, sem cima nem baixo.
— SAORI!
Shun a alcançou no último instante e segurou a mão dela com as duas mãos, puxando-a de volta.
Os dois caíram, ofegantes, na beira daquele lago de galáxias.
E Saori ergueu o rosto e falou com o deus do Tempo.
— Por favor. — A voz dela tremia, mas ela não baixou os olhos. — Eu preciso voltar ao passado. Não para mudar a história. Não para tomar nada de ninguém. Só para salvar a vida de uma pessoa.
Silêncio.
Um silêncio tão longo que pareceu durar anos.
E, então:
— Três dias.
O portal de nebulosas começou a se abrir.
— Eu concedo exatamente isso, pequena deusa. Se você não voltar dentro do prazo, ficará presa lá para sempre.
Saori olhou para Shun.
Shun apertou a corrente de flores no pulso.
— Três dias bastam — ela disse.
E os dois atravessaram.
O Fim do Volume 2
Esse volume é sobre o que as pessoas estão dispostas a dar.
A Saori deu o cabelo dela para uma bruxa, sem pestanejar, porque era o preço do caminho.
Depois enfrentou a própria irmã, uma deusa muito mais poderosa que ela, e disse na cara dela a coisa mais corajosa da história inteira: que os humanos erram, sim, mas que têm amor — e que, enquanto existir amor entre eles, ela vai continuar acreditando.
E o Shun perdeu a luta contra a arqueira. Perdeu mesmo, caiu no chão e apagou.
Mas repare no que o Ikki descobriu: ele tinha estragado as flechas dela sem nem saber. A vitória do irmão mais velho só existiu porque o irmão mais novo caiu tentando.
Nem toda ajuda é visível. Às vezes a gente ajuda alguém sem nunca ficar sabendo.
Fim do Volume 2. No próximo volume, uma deusa atravessa o tempo — e chega do outro lado como um bebê.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.