Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

História adaptada · parte publicada

Episódio 6: A Lenda dos Elíseos

Ilustração do episódio 6: A Lenda dos Elíseos

Fase 6 do mangá — o último capítulo publicado até agora.


Capítulo 1 — A Deusa que Parou

Ker avançou pelo campo de cinzas com a mão erguida.

E parou.

Parou a três passos de Saori, com o braço no ar, olhando para ela com uma expressão que não combinava nada com o que estava prestes a fazer.

— Você é uma menina.

Saori ergueu o rosto, ainda de joelhos.

— O quê?

— Olha só você. — Ker inclinou a cabeça, quase curiosa. — Sem armadura. Sem cajado. Sem exército. Sem memória. Chorando no meio de um jardim morto.

Ela baixou a mão.

— Eu esperei séculos por esse momento. Séculos. Imaginei mil vezes como ia ser. — Havia quase decepção na voz dela. — E o que eu encontro é uma menina assustada que nem sabe o próprio sobrenome.

Saori se levantou devagar, tremendo.

— Se você quer me matar, mata.

— Ah, eu quero.

Ker deu de ombros e ergueu a mão de novo.

— Eu só fiquei um pouquinho decepcionada. Mas passa.


Capítulo 2 — A Casa do Velho

Enquanto isso, na vila de Rodorio, Shun bateu na porta de uma casinha nos fundos da estufa.

Quem abriu foi um homem muito velho, de costas curvadas, que tinha acolhido o rapaz anos antes, quando ele apareceu na vila sem nada e sem lembrança de nada.

— Já é tarde, menino.

— Eu preciso te perguntar uma coisa.

Shun entrou e pôs a flor sobre a mesa.

— Essa flor não murcha. Já faz meses. E hoje um homem me disse que já viu uma igual num lugar onde não crescia absolutamente nada.

O velho olhou para a flor por um tempo muito longo.

Depois puxou uma cadeira e se sentou com dificuldade.

— Senta, menino. Vou te contar uma história que a minha avó me contou, e que a avó dela contou pra ela.


Capítulo 3 — O Jardim de Florença

— Faz mais de duzentos anos — começou o velho —, dizem que existia um jardim nos arredores de Florença.

— Florença?

— Na Itália. — Ele acomodou-se na cadeira. — E não era um jardim comum. As flores dele não morriam. Nasciam e ficavam. O povo dizia que aquele pedaço de terra não pertencia direito a este mundo.

Shun se inclinou para a frente.

— E o que aconteceu?

— Tinha um rapaz que ia lá todo dia. Um estudante de pintura, moço ainda. Ele colhia as flores porque as cores delas serviam de tinta — e dizem que não existia tinta igual em lugar nenhum da Europa.

O velho fez uma pausa.

— Um dia esse rapaz não voltou.

— Ele morreu?

— Ninguém sabe. Sumiu. E, a partir daquele dia, as flores do jardim começaram a murchar.

Ele esfregou as mãos, como quem sente frio.

— Uma por uma. Levou pouco tempo. E, quando a última murchou, aquele pedaço de terra virou um descampado seco onde não nasce nada até hoje.


Capítulo 4 — A Flor que Viajou

— E a minha? — perguntou Shun.

O velho sorriu, e faltavam alguns dentes no sorriso dele.

— Aí é que está a parte bonita.

Ele apontou para a flor em cima da mesa.

— Dizem que restou uma. Uma só, no meio de todo aquele deserto. E que uma menina passou por ali, viu aquela florzinha teimosa sozinha no seco, e colheu.

— E aí?

— E aí ela perdeu. Ou soltou. Ou o vento levou — a história muda conforme quem conta. — O velho deu de ombros. — O que todas as versões dizem é que o vento carregou aquela flor por cima do mar, e que ela veio parar aqui. Nesta vila.

Shun sentiu um arrepio subir pela nuca.

— Aqui?

— Aqui. Duzentos anos atrás. — O velho apontou com o queixo para a janela, na direção da estufa. — E aquela terra ali, menino, onde você planta hoje… Você nunca se perguntou por que tudo cresce tão bem ali? Por que nunca dá praga? Por que as suas flores duram mais que as dos outros?

Shun não conseguiu responder.

— Porque uma flor levou duzentos anos — disse o velho, batendo de leve na mesa — para transformar um pedaço de nada num lugar bom.

Ele olhou para o rapaz.

— E só você consegue colher as daquele canteiro. Você já reparou nisso? Os outros tentam e as flores fecham.


Capítulo 5 — Guardiãs da Lua

De volta ao jardim morto, a mão de Ker já estava descendo.

E o céu sem cor se abriu.

Luzes desceram do alto — sete ou oito vultos de armadura prateada que pousaram no campo de cinzas em círculo, entre Ker e Saori.

Eram mulheres. Guerreiras. E não eram daquele mundo nem do de baixo.

— Guardiãs da Lua — sussurrou Saori, e mais uma vez não soube de onde tinha tirado aquele nome.

Ker olhou em volta com as sobrancelhas erguidas.

— As meninas da Ártemis. Que surpresa desagradável.

— Afaste-se da deusa — disse uma voz.

E, do alto de uma pedra, desceu uma arqueira.

Ela vestia uma armadura de escamas escuras, enroladas no corpo como uma serpente, e já estava com a flecha na corda.

La Scoumoune.

— Você — disse Ker, e pela primeira vez naquela noite ela pareceu genuinamente entretida. — A que nunca erra.

— Eu mesma.

— E por que a irmãzinha da Ártemis está protegendo a Atena? Vocês não se odeiam?

La Scoumoune não respondeu.

Ela apenas puxou a corda até a orelha.


Capítulo 6 — Um Segundo

— VÍBORA CARMESIM!

A flecha saiu envolta numa aura púrpura, com a serpente desenhada enrolada no corpo — e não voou reto. Ondulou no ar, contornou, mergulhou, indo atrás do ponto vital de Ker por um caminho que não existia.

E as Guardiãs atacaram todas juntas no mesmo instante, de sete direções diferentes.

Foi um ataque coordenado, bonito, perfeitamente executado.

Durou menos de um segundo.

Ker ergueu a mão — só a mão — e o campo inteiro de cinzas se levantou do chão numa onda.

Quando a poeira baixou, as sete Guardiãs não estavam mais lá.

Nenhum grito. Nenhum corpo caindo. Apenas sumiram, e as armaduras prateadas vazias tilintaram no chão de cinzas.

La Scoumoune ficou sozinha no meio do campo, com o arco ainda erguido, a flecha já disparada e inútil.

E Ker caminhou até ela.

— Nunca erra — disse a deusa, segurando a arqueira pelo pescoço e erguendo-a do chão com uma mão só. — Que pena que acertar não era o problema.


Capítulo 7 — A Mão na Frente

La Scoumoune se debateu e não adiantou nada.

Ker apertou.

— Vou te desfazer bem devagar, para a menina assistir. Acho que vai ser educativo para ela.

E uma mão fechou-se no pulso de Ker.

Ker olhou para baixo, incrédula.

Saori estava de pé ao lado dela. Descalça, suja de cinzas, com o rosto molhado — e segurando o braço de uma deusa antiga com as duas mãos.

— Solta ela.

— Você está falando comigo?

— Solta ela.

— Menina. — Ker quase riu. — Essa mulher veio aqui te usar. A Ártemis não te ama. Ela veio porque tem medo do que acontece com o mundo se você acordar. Você entende isso?

— Não me interessa.

— Você não conhece essa pessoa.

— Não conheço mesmo. — Saori apertou mais. — E daí?

E aconteceu.

Uma luz dourada se acendeu no peito de Saori — a mesma da praça de Rodorio, a mesma que tinha limpado vinte pessoas de uma vez — e subiu pelos braços dela até a mão que segurava o pulso da deusa.

Ker sentiu.

E soltou La Scoumoune como quem larga uma panela quente.


Capítulo 8 — Então É Você Mesmo

A arqueira caiu de joelhos, tossindo.

E Ker recuou dois passos, olhando a própria mão.

Havia uma marca de queimadura ali — pequena, do tamanho de dedos, mas uma queimadura de verdade na pele de uma deusa que ninguém tocava havia séculos.

Ela ergueu os olhos para Saori.

E, pela primeira vez desde que tinha acordado nas ruínas do Inferno, a expressão dela mudou de verdade.

— Ali está — disse Ker, baixinho. — Ali está você.

Saori estava ofegante, com a luz já se apagando no peito.

— O quê?

— Eu passei essa conversa inteira olhando para uma menina sem memória e achando que tinha vindo à toa. — Ker fechou a mão queimada. — Mas você acabou de me queimar por causa de uma estranha. Uma inimiga. Uma mulher que veio aqui te usar.

Ela deu mais um passo para trás.

— Você não lembra que é Atena.

O sorriso dela voltou — e era pior que antes.

— Mas você continua sendo.


Capítulo 9 — Os Doze

Ker olhou para o céu sem cor do jardim morto.

— Deixa eu te explicar uma coisa antes de eu ir embora, menina.

— Você vai embora?

— Por hoje. — Ela flexionou a mão queimada. — Eu preciso pensar num jeito melhor de fazer isso.

Ela apontou para cima.

— Lá em cima existem doze deuses que mandam em tudo. Você conhece os nomes deles, mesmo que não lembre. Zeus. Apolo, do sol. Ártemis, da lua, que é sua irmã e mandou essas meninas aqui. Poseidon, dos mares. Hades, dos mortos. E os outros sete.

Ela olhou de volta para Saori.

— E todos eles concordam numa coisa só: que a humanidade está passando da conta. Que já deu. Que é hora de limpar a mesa e começar de novo.

— E você?

— Eu? — Ker riu. — Eu não sou dos doze, querida. Eu sou mais velha que eles. Eu estava aqui antes de existir Olimpo.

Ela começou a se dissolver na cinza.

— E, quando eles vierem — e eles vêm —, você vai estar sozinha de novo. Sem armadura, sem cajado, sem memória e sem os seus guerreiros.

A voz dela ficou distante.

— Aí a gente termina essa conversa.

E sumiu.


Capítulo 10 — Duas Mulheres nas Cinzas

Ficaram só as duas no jardim morto.

Saori caiu sentada no chão, sem forças. La Scoumoune continuava de joelhos, esfregando o pescoço.

Um silêncio comprido.

— Por que você fez aquilo? — perguntou a arqueira, sem olhar para ela.

— Fiz o quê?

— Segurou o braço dela. Por mim.

Saori pensou na resposta e não achou nenhuma.

— Eu não sei.

— Você não me conhece. Eu vim aqui por ordem, não por gosto. Se a minha senhora mandasse, eu te mataria hoje.

— Eu sei.

— Então por quê?

E Saori deu de ombros, e a resposta saiu simples demais para o tamanho da pergunta:

— Porque ela ia te machucar, e eu estava do lado.

La Scoumoune ficou olhando para ela.

Depois se levantou, apanhou o arco do chão e sacudiu as cinzas da armadura.

— A minha senhora tem medo de você — disse, já de costas. — Agora eu entendo por quê.

E foi embora.


Capítulo 11 — Lá em Cima

Muito acima de tudo, num lugar onde nunca é noite, alguém observava.

O deus do sol estava sentado no próprio trono, olhando para baixo, na direção de um jardim morto onde uma mulher sem memória tinha acabado de queimar a mão de uma deusa antiga por causa de uma desconhecida.

Apolo não disse nada por um tempo.

— Ela está acordando — comentou Calisto, ao lado dele.

— Está.

— O senhor a puniu. Tirou a divindade dela. Apagou a memória dela e a dos guerreiros. — Calisto hesitou. — E, mesmo assim, ela…

— Mesmo assim ela continua fazendo exatamente a mesma coisa — completou Apolo.

Ele se levantou.

— Pois é esse o problema com Atena. Você pode tirar tudo dela. O poder, o nome, a lembrança, os Cavaleiros.

Ele olhou para baixo mais uma vez.

— E ela continua se colocando na frente.


O Fim do Episódio 6

(E, por enquanto, o fim do que já foi contado.)

Esta história está no meio. O restante ainda nem foi escrito — o autor está desenhando os próximos capítulos agora mesmo, do outro lado do mundo. Então vamos parar aqui, e vamos parar bem.

Repare no que aconteceu no fim.

A Ker esperou séculos por aquele momento. Encontrou a inimiga dela sem armadura, sem memória, sem exército, chorando ajoelhada num jardim morto — e ficou decepcionada.

E aí a menina sem memória segurou o braço dela para proteger uma mulher que tinha acabado de conhecer, que era inimiga, e que teria a matado se recebesse ordem.

E queimou a mão de uma deusa.

Quando perguntaram por que ela fez aquilo, ela não soube explicar. A única resposta que ela deu foi: “porque ela ia te machucar, e eu estava do lado”.

É essa a coisa mais importante desta história inteira, e serve para você também.

Você pode esquecer o seu nome, a sua casa, a sua história e todo mundo que você amou.

Mas quem você é de verdade não está na memória. Está num lugar mais fundo — e esse lugar ninguém consegue apagar.

Fim do Episódio 6. A história continua quando o autor terminar de escrevê-la.


Boa noite, pequeno guerreiro. Essa parte acabou — mas essa ainda nem começou direito.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.