Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 9: Para de Chorar

Ilustração do episódio 9: Para de Chorar

Capítulo 1 — A conversa na estrada

Shiryu e Ikki levaram onze dias para chegar à Grécia.

Foram de trem, de barco, de carona e, no fim, a pé — e durante esses onze dias Shiryu foi contando tudo o que tinha lembrado embaixo da cachoeira, pedaço por pedaço, do jeito que a memória ia deixando.

Contou do Santuário. Das Doze Casas. Do garoto chamado Seiya que ria alto demais. Do rapaz loiro e calado que lutava com gelo.

E, numa tarde, na beira de uma estrada de terra, Shiryu contou mais uma coisa.

— Ikki.

— Hm.

— Tem uma coisa que eu lembrei ontem à noite e que eu não sabia como te falar.

Ikki continuou andando.

— Fala logo.

Shiryu parou no meio da estrada.

— Você tem um irmão.

Ikki parou também.

— Um irmão caçula — continuou Shiryu. — O nome dele é Shun. Cabelo verde. Mais ou menos dessa altura. Ele era o mais gentil de todos nós, e ele te amava mais do que amava a própria vida.

Silêncio.

Shiryu esperou.

Esperou um grito, uma pergunta, um soco em alguma coisa — qualquer uma das reações que o Ikki costumava ter.

Ikki não teve nenhuma.

Ele ficou parado no meio da estrada com uma cara completamente vazia, e depois de um tempo muito longo falou uma única frase, baixinho:

— Eu não estou sentindo nada.

— Como assim?

— Você falou “você tem um irmão”. — Ikki olhou para as próprias mãos. — Eu entendi. Eu acredito em você. Eu sei que é verdade.

Ele ergueu o rosto, e tinha uma coisa apavorada ali que o Shiryu nunca tinha visto naquele homem.

— Mas eu não estou sentindo nada, Shiryu.


Capítulo 2 — O rapaz das flores

Em Rodorio, aquela tinha sido uma semana ruim.

A Saori tinha sumido. Simplesmente sumido, numa madrugada, sem levar nada. O Seiya estava com a perna machucada e queria sair procurando mesmo mancando, e a Seika não deixava, e os dois brigavam todo dia na porta de casa.

E o Shun fazia a única coisa que sabia fazer quando o mundo apertava: cuidava da estufa.

Ele regava, podava, amarrava buquê, entregava encomenda.

E todo fim de tarde ia até o canteiro do fundo — aquele canteiro esquisito onde a terra era mais escura e tudo crescia melhor — e ficava olhando para as flores que não murchavam.

Ninguém mais conseguia colher aquelas flores. Já tinham tentado. Quando outra pessoa estendia a mão, as pétalas se fechavam, e pronto.

Com o Shun elas abriam.

— Por que só eu? — ele perguntou, para as flores, naquela tarde.

As flores, naturalmente, não responderam.

Foi aí que ele ouviu passos na entrada da estufa.


Capítulo 3 — O reencontro errado

Eram dois homens.

Um deles o Shun nunca tinha visto: cabelo preto comprido, calmo, com um jeito de olhar que media as coisas antes de falar.

O outro ele conhecia.

Era o homem do Santuário. O das ruínas, o da noite da flor, o que tinha perguntado “onde você conseguiu isso” e depois sumido no escuro.

— Você — disse Shun, e sorriu, porque o Shun sorri para quase todo mundo. — Você voltou.

E o Ikki, na porta da estufa, olhou para ele.

Olhou de verdade. Olhou do jeito que a gente olha uma palavra escrita numa língua que a gente deveria falar e não fala mais.

Procurando.

Procurando com uma força desesperada alguma coisa dentro do peito que confirmasse o que o Shiryu tinha dito na estrada.

E não achou nada.

Nada.

Um vazio liso, sem fundo, do tamanho do mundo.

— Está tudo bem? — perguntou Shun, porque percebeu que tinha alguma coisa muito errada naquele rosto.

E o Ikki respondeu com uma voz que não parecia dele:

— Dizem que você é meu irmão.

Shun ficou imóvel.

A tesoura de poda caiu da mão dele e bateu no chão de pedra.

— …O quê?

— Esse aí — Ikki apontou o polegar para Shiryu, sem tirar os olhos do Shun — lembrou de tudo. E ele disse que eu tenho um irmão caçula, de cabelo verde, chamado Shun. — A voz dele foi ficando mais dura. — E eu estou aqui, olhando para você, e eu não sinto nada.

— Ikki — avisou Shiryu, baixo. — Devagar.

— Eu deveria estar sentindo alguma coisa! — explodiu Ikki. — Qualquer coisa! Um irmão! As pessoas sentem alguma coisa quando encontram um irmão!

Shun deu um passo na direção dele, com a mão estendida.

— Calma, a gente pode…

— Não me manda ter calma.


Capítulo 4 — O que o Ikki queria de verdade

O Shun, que era gentil mas não era bobo, parou com a mão no ar e percebeu uma coisa.

Aquele homem não estava com raiva dele.

Estava com um medo monstruoso.

— Você está com medo — disse Shun.

Ikki travou.

— Você está com medo de que seja mentira. — Shun falou devagar, sem levantar a voz. — Ou pior: de que seja verdade, e de que você seja o tipo de pessoa que esquece um irmão e nem sente falta.

O ar da estufa ficou pesado.

— Cala a boca.

— Eu também tenho esse medo — continuou Shun. — Eu tenho uma parede na cabeça, e quando eu bato nela eu fico com a sensação de que esqueci alguém importante. Eu só não sabia quem.

Ele respirou fundo.

— Agora eu sei.

E o Shun fez a coisa mais perigosa que ele podia fazer naquele momento: deu mais um passo à frente e abriu os braços.

Ikki recuou como se tivesse levado um choque.

— Não.

— Ikki…

— NÃO! — Ele bateu a mão na parede da estufa e três vidros racharam de uma vez. — Eu não vou abraçar uma pessoa que eu não lembro! Isso é mentira! Isso é você me dando um presente que eu não ganhei!

E então ele disse o que estava entalado desde a estrada:

— Se eu sou mesmo seu irmão, me prova.

— Provar como?

Ikki ergueu o punho, e o ar em volta da mão dele ficou quente.

— Do único jeito que eu sei.


Capítulo 5 — Golpe Fantasma de Fênix

— Ikki, não — disse Shiryu, e avançou.

Tarde demais.

— GOLPE FANTASMA DE FÊNIX!

Da mão do Ikki saiu uma onda transparente, como calor subindo do asfalto, e ela atravessou a estufa inteira.

Esse golpe não bate no corpo. Bate na cabeça. Ele entra na memória da pessoa e puxa de lá a lembrança mais dolorida que existe lá dentro, e faz a pessoa viver aquilo de novo, acordada.

Ikki usou aquilo no Shun porque era a única ferramenta que ele tinha para cavar dentro da cabeça de alguém.

E o golpe funcionou.

Só que funcionou nos dois.

Porque, quando o Genma Ken foi procurar a pior lembrança do Shun, encontrou uma lembrança que não era só dele — era uma lembrança compartilhada, dos dois, trancada atrás da mesma parede.

E, no meio da estufa, os dois caíram de joelhos ao mesmo tempo.

Shiryu viu os dois irmãos no chão, tremendo, cada um segurando a própria cabeça, e não soube em qual dos dois socorrer primeiro.


Capítulo 6 — Ave Fênix

O Ikki levantou primeiro.

E levantou errado.

Porque o golpe tinha arrancado um pedaço de alguma coisa de dentro dele e mostrado só a borda — não o suficiente para entender, só o suficiente para doer — e um homem que sente uma dor que não entende costuma querer bater em alguém.

Ele acendeu o cosmo, e o chão da estufa tremeu.

Atrás dele, no ar, abriu-se o desenho de uma ave enorme feita de fogo.

— AVE FÊNIX!

E a Fênix desabou em cima do Shun.

O que aconteceu em seguida levou um segundo e meio e foi a coisa mais bonita que já tinha acontecido naquela estufa.

Primeiro: duas correntes saíram do nada e se enrolaram nos braços do Shun.

Elas não foram chamadas. O Shun nem tinha percebido que elas existiam. Elas simplesmente apareceram — uma com a ponta redonda, outra com a ponta triangular — e se moveram sozinhas, do jeito que um cachorro se joga na frente do dono sem ninguém mandar.

— CORRENTE NEBULOSA!

A corrente de ponta redonda girou no ar e formou um círculo de luz na frente do Shun.

E a Ave Fênix bateu nele.

A estufa inteira explodiu de luz. Os vidros voaram. As flores do canteiro se deitaram todas para o mesmo lado, e um barulho enorme subiu pela estrada de Rodorio.

Quando a poeira baixou, o Shun estava de pé.

Rasgado, queimado, com sangue no canto da boca — mas de pé.

E a corrente dele, aquela que tinha acabado de aparecer do nada, continuava girando devagar na frente dele, sem avançar.

— Revida — rosnou Ikki.

— Não.

— REVIDA!

— Eu não vou bater em você — disse Shun, cuspindo de lado. — Nem que eu morra aqui.

E Ikki, com os olhos cheios de uma coisa horrível, ergueu o punho de novo.


Capítulo 7 — O escudo

Dessa vez o Shiryu entrou no meio.

Ele atravessou a estufa num salto e se plantou na frente do Shun com o braço esquerdo levantado — e, no braço dele, apareceu um escudo redondo com a cara de um dragão esculpida.

— ESCUDO DO DRAGÃO!

A segunda Ave Fênix bateu no escudo.

E não passou.

Nenhum golpe do mundo atravessa o Escudo do Dragão. É a defesa mais dura que existe entre a terra e o céu, e naquele dia ela serviu para a função mais estranha da história dela: impedir um irmão mais velho de machucar o caçula.

O fogo se abriu em dois para os lados, derrubou o teto da estufa e sumiu.

Shiryu arriou o braço, ofegante.

— Chega, Ikki.

— Sai da frente.

— CHEGA. — Shiryu gritou, e o Shiryu quase nunca grita. — Você está tentando arrancar no soco uma coisa que não sai no soco!

Ikki ficou de pé no meio dos escombros, respirando como um bicho.

E o Shun, atrás do escudo, começou a chorar.

Não chorou alto. Não foi drama. Foi aquele choro quieto de quem está com dor demais e cansado demais e não aguenta mais segurar.

Ele levou as duas mãos ao rosto, com as correntes ainda penduradas nos braços, e chorou.

E o Ikki olhou para aquilo, e perdeu completamente a paciência, e gritou de lá a primeira coisa que veio à cabeça:

— PARA DE CHORAR!

E o mundo parou.


Capítulo 8 — O orfanato

Os dois congelaram.

Porque aquelas três palavras não tinham saído do Ikki adulto, de pé numa estufa quebrada na Grécia.

Tinham saído de um garoto de dez anos, num corredor de orfanato no Japão, com uma mochila velha no ombro e um sorteio perdido na mão.

E, de uma vez só, como uma represa estourando, veio tudo.

Veio o orfanato. Veio o pátio de cimento. Veio o dia em que sortearam para qual ilha cada criança ia ser mandada, e o papelzinho que o Shun abriu tinha escrito o nome da pior de todas — a Ilha da Rainha da Morte, uma ilha de vulcão onde as crianças iam e quase nenhuma voltava.

Veio o Shun de seis anos chorando no pátio.

E veio o Ikki, dez anos, indo até a mesa dos adultos e dizendo, sem pedir licença:

“Eu vou no lugar dele.”

Veio a noite antes de ele ir embora. Os dois sentados no degrau. O caçula agarrado na manga da camisa do irmão, chorando sem fazer barulho, e o mais velho sem saber o que fazer com aquilo, porque o Ikki nunca soube o que fazer com choro.

E o Ikki falando, meio bravo, meio partido:

“Para de chorar, Shun.”

“Eu volto. Eu sempre volto.”

E o caçula dizendo, baixinho:

“Promete?”

E o irmão mais velho, dez anos de idade, indo para um vulcão no lugar dele, respondendo:

“Promete nada. Eu só volto.”


Na estufa destruída de Rodorio, o Ikki caiu de joelhos.

E ele, que não tinha sentido absolutamente nada na estrada, sentiu tudo de uma vez — e foi tanta coisa junta que ele não aguentou de pé.

— Shun.

O caçula já estava correndo.

— Shun.

— Eu estou aqui, irmão.

E o Ikki de Fênix, o homem mais duro do mundo, o que atravessou um vulcão, o que nunca pediu ajuda para ninguém em toda a vida, agarrou a camisa do irmão caçula com as duas mãos e chorou igual a uma criança no meio dos cacos de vidro.


Capítulo 9 — A flor que não se pega

Mais tarde, com o sol quase sumindo, os três estavam sentados no que tinha sobrado da estufa.

O Shiryu tinha achado uma lata de chá no meio dos escombros e estava fazendo chá num fogareiro, porque é o que o Shiryu faz quando não sabe o que dizer.

O Ikki estava sentado no chão, de costas para uma parede, olhando o canteiro do fundo — o único canto que não tinha sido destruído.

Ele se levantou, foi até lá e estendeu a mão para uma das flores que não murcham.

A flor se fechou.

Ele tentou outra. Fechou também.

Tentou uma terceira, com cuidado, quase com delicadeza — coisa rara nele.

Fechou.

— Por que elas não deixam? — ele perguntou, irritado.

Shun se levantou, foi até o canteiro, estendeu a mão e colheu uma, assim, sem esforço nenhum. A flor nem piscou.

E entregou ao irmão.

— Toma.

Ikki olhou para a flor na mão aberta do caçula e não pegou na hora.

— Pega, Ikki.

— …

— Pega.

E ele pegou.

E, na mão dele, a flor continuou aberta.

Shun sentou do lado, encostou o ombro no ombro do irmão e falou uma coisa que ficou na cabeça dos três pelo resto da noite:

— Tem coisa que não dá para arrancar, irmão. Só dá para receber.


Capítulo 10 — Quatro

Naquela mesma noite, numa casinha do outro lado de Rodorio, uma moça estava de pé na janela da cozinha, olhando a luz estranha que tinha subido do lado da estufa horas antes.

Lá dentro, no quarto, o irmão dela dormia com a perna enfaixada.

Ela ficou um tempão quieta, apertando um pano de prato nas mãos.

E depois falou, baixinho, para ninguém:

— Quatro.

Ela fechou os olhos.

— Já são quatro. — A voz dela tremeu um pouquinho. — Falta um, Seiya. Falta você.

E, no escuro, muito longe dali, abaixo de tudo, uma deusa antiga sorriu no seu trono de pedra quebrada e disse, satisfeita como quem vê um bolo crescendo no forno:

— Quase.


O Fim do Episódio 9

A lição desta noite

O Shiryu contou para o Ikki que ele tinha um irmão.

Contou direitinho: o nome, a cor do cabelo, o jeito dele, até que esse irmão o amava mais do que a própria vida.

Era tudo verdade. O Ikki acreditou em cada palavra.

E não sentiu nada.

Porque saber e sentir não são a mesma coisa.

Dá para alguém te contar um fato. Ninguém consegue te contar um sentimento. Sentimento não se transmite por informação — ele volta sozinho, do jeito dele, na hora dele, e às vezes o que faz ele voltar é uma bobagem minúscula: um cheiro, uma música, uma frase antiga.

No caso do Ikki, foi uma frase que ele dizia quando tinha dez anos e não sabia consolar o irmãozinho de outro jeito.

E tem a segunda parte, que é o que o Shun falou no canteiro.

O Ikki passou a vida inteira dando. Ele foi para a ilha do vulcão no lugar do irmão. Ele aguentou tudo sozinho. Ele nunca pediu nada para ninguém.

E foi exatamente por isso que ele não conseguia colher a flor: ele não sabia receber.

Tem gente assim, e normalmente é gente boa. Gente que ajuda todo mundo e que fica sem jeito na hora que alguém quer ajudar de volta.

Mas receber também é uma coisa generosa. Quando você deixa alguém cuidar de você, você está dando a essa pessoa a alegria de cuidar.

O Ikki levou vinte anos para aprender isso.

E aprendeu de uma flor.

Fim do Episódio 9. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã: por que será que tem uma pessoa em Rodorio que lembra de tudo?

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.