Passado Presente Futuro · Saga dos Céus
Episódio 10: A Pessoa que Lembrava

Capítulo 1 — A briga na porta de casa
A briga daquela manhã foi a pior de todas.
— Eu vou procurar ela, Seika.
— Você não vai a lugar nenhum com essa perna.
— Ela sumiu faz uma semana!
Seiya estava na porta da casa, apoiado no batente, com a coxa enfaixada e a cara de quem não dormia havia dias.
A Seika estava do lado de dentro, de braços cruzados, e não saía da frente.
— Seika, eu nem conheço direito essa menina. Eu falei com ela umas quatro vezes na vida. — Ele bateu a mão na parede. — E mesmo assim eu acordo todo dia com o peito apertado como se eu tivesse perdido alguém da família. Por quê?
— Seiya…
— E não é só ela! — A voz dele subiu. — É tudo! Eu tenho anos inteiros faltando! Eu levantei vinte pessoas do chão numa praça e eu não sei como! Apareceu um desenho de estrela no meu braço e sumiu! E toda vez que eu te pergunto alguma coisa você olha para o chão e muda de assunto!
Silêncio.
— Toda vez, Seika. Faz um ano.
E então ele disse a frase que estava guardada havia muito tempo:
— Eu estou começando a achar que você sabe de alguma coisa.
A Seika ficou muito quieta.
E, pela primeira vez em um ano inteiro, não mudou de assunto.
Ela puxou uma cadeira, sentou, pousou as duas mãos no colo e disse:
— Senta.
Capítulo 2 — O que a Seika sabe
— Eu sei de tudo — disse ela.
Seiya ficou de pé no meio da cozinha, de boca aberta.
— …Como assim, tudo?
— Tudo. — A voz dela estava firme, mas as mãos tremiam no colo. — Eu lembro do orfanato. Eu lembro do dia em que te levaram para a Grécia. Eu lembro do Santuário, das Doze Casas, das armaduras. Eu lembro dos seus amigos, um por um, com nome e tudo.
Ela respirou fundo.
— Eu lembro da moça que sumiu. Ela não se chama só Saori.
— Seika…
— Eu lembro de tudo, Seiya. Desde o primeiro dia. Eu nunca esqueci nada.
Seiya sentou na cadeira porque as pernas não aguentaram.
E aí veio a pergunta, e ela saiu machucada:
— Então por que você nunca me contou?
A Seika abaixou a cabeça.
— Porque eu já tentei.
Capítulo 3 — A primeira vez que ela tentou
— Na primeira semana — ela começou. — Você acordou aqui sem saber quem era, e eu achei que era só um susto, que ia passar. Aí eu sentei na beira da sua cama e contei tudo.
Ela olhou para as próprias mãos.
— Eu falei o nome dos seus amigos. Eu falei das armaduras. Eu falei do seu cavalo alado. Eu falei o nome dela.
— E o que aconteceu?
A Seika demorou para responder.
— Você começou a sangrar pelo nariz.
Seiya ficou gelado.
— Primeiro o nariz. Depois você ficou branco. Depois você caiu da cama, Seiya, com as duas mãos na cabeça, gritando que estava doendo. — A voz dela falhou. — E ficou três dias de cama com febre.
Ela levantou o rosto, e os olhos estavam vermelhos.
— E quando você acordou, você não lembrava nem da conversa.
Silêncio na cozinha.
— Eu tentei mais duas vezes depois disso — continuou a Seika. — Mais devagar. Por pedacinhos. Dando a volta, falando sem falar.
— E?
— Nariz sangrando. Febre. Esquecimento. — Ela deu de ombros de um jeito cansado. — Na terceira vez eu desisti. Porque eu percebi que eu estava machucando você para me sentir menos sozinha.
Seiya tentou falar e não conseguiu.
— Então eu parei de contar — disse a Seika. — E comecei a fazer café.
Capítulo 4 — Um ano calada
E aí o Seiya entendeu o tamanho do que a irmã tinha feito.
Um ano.
Um ano inteiro vendo o irmão caçula acordar todo dia sem saber quem era. Um ano ouvindo ele perguntar e tendo que olhar para o chão. Um ano vendo ele sair de manhã para carregar pedra num templo em ruínas, ele, que já tinha enfrentado deuses.
Um ano sabendo de tudo e não podendo dizer nada.
— Seika…
— Não fala nada, não. — Ela limpou o rosto rápido, com as costas da mão, do jeito que quem é mais velho faz. — Eu fiz café, eu cuidei da sua perna, eu paguei as contas. Deu tudo certo.
— Não deu, não.
— Deu sim.
— Seika, você ficou um ano sozinha com isso.
E aí a irmã dele, que tinha aguentado calada trezentos e sessenta e cinco dias, encostou a testa na mesa da cozinha e chorou de uma vez só, de um jeito feio e cansado e honesto.
E o Seiya, mancando, foi até lá e abraçou a irmã por cima, do jeito desajeitado que irmão abraça.
A vida inteira tinha sido o contrário.
A vida inteira tinha sido o Seiya atravessando o mundo atrás de uma irmã que não lembrava dele.
Agora era ela.
Capítulo 5 — A noite em que o céu abriu
Quando o choro passou, a Seika levantou o rosto e disse a parte que ela nunca tinha contado para ninguém.
— Tem mais uma coisa. E essa aqui eu nunca falei nem para mim mesma em voz alta.
— O quê?
— Eu sei por que eu não esqueci.
Seiya se endireitou na cadeira.
— Naquela noite, um ano atrás, eu estava aqui. Nessa cozinha. — Ela apontou para a janela. — E, de repente, o céu abriu.
— Abriu como?
— Abriu. — Ela procurou as palavras. — Não era raio, não era nuvem. O céu simplesmente se afastou, como uma cortina, e desceu uma luz tão branca que as sombras das coisas apontavam para o lado errado.
Seiya não respirava.
— E eu corri para fora, e você estava caído no meio da estrada. Com os seus amigos, todos caídos, e a moça caída também. E eu fiz a única coisa que eu sabia fazer: eu me joguei em cima de você e te abracei.
Ela parou.
— E ele olhou para mim.
— Quem?
— Eu não sei o nome. — A Seika balançou a cabeça. — Era um homem muito alto, muito bonito, parado no ar dentro daquela luz, e ele não parecia com raiva. Era essa a parte mais assustadora: ele parecia triste.
Ela apertou as mãos.
— E ele olhou bem para mim. E eu entendi que ele estava escolhendo. Eu senti aquilo passar por dentro da minha cabeça, como uma mão procurando uma coisa numa gaveta.
— E aí?
— E aí ele tirou a mão.
A Seika olhou para o irmão.
— Ele me deixou lembrar, Seiya. De propósito.
Capítulo 6 — A frase
— Por quê?! — Seiya se levantou de um salto, e a perna reclamou. — Por que ele faria isso?!
— Ele falou uma coisa antes de ir embora.
— O quê?
E a Seika repetiu, palavra por palavra, a frase que ela carregava havia um ano:
— “Você pode contar a eles, se quiser. Não vai adiantar.”
Seiya engoliu em seco.
— E depois?
— E depois ele disse a parte que eu nunca entendi.
Ela olhou para a janela.
— “Mas é bom que alguém lembre.”
Ela fechou os olhos.
— “Para o caso de eu ter errado.”
A cozinha ficou em silêncio por um tempo muito longo.
— Para o caso de ele ter errado — repetiu Seiya, devagar.
— Foi isso que ele disse.
— Seika, isso não é coisa que um carrasco fala.
— Eu sei.
— Isso é coisa que alguém fala quando fez uma coisa difícil e não tem certeza se fez certo.
E, no meio daquela cozinha pequena de Rodorio, os dois irmãos olharam um para o outro com a mesma pergunta na cara — a mesma pergunta que o Shiryu tinha feito na pedra de Rozan, do outro lado do mundo:
E se não foi castigo?
Capítulo 7 — A chuva no templo
Naquela noite caiu um temporal em Rodorio.
E o Seiya, que deveria estar de cama, saiu de casa.
Não por teimosia. Não por raiva.
Ele saiu porque a irmã tinha contado tudo — tudo mesmo, até o fim — e ele tinha escutado cada palavra, e tinha acreditado em cada palavra.
E não tinha sentido nada.
Nenhuma lembrança. Nenhum rosto. Nenhum nome voltando.
Só fatos, entrando por um ouvido e ficando ali, soltos, sem grudar em lugar nenhum.
Então ele subiu a estrada embaixo da chuva, mancando, até o lugar onde ele trabalhava todo santo dia havia um ano: o templo em ruínas nos arredores da vila.
Um monte de pedra caída, coberto de mato, que ele vinha limpando e assentando, pedra por pedra, por um salário miserável, sem nunca ter perguntado a si mesmo por que diabos ele tinha escolhido justo aquele trabalho.
Ele chegou lá encharcado, olhou para aquele monte de escombro e gritou com ele:
— POR QUE EU ESTOU AQUI?!
A chuva respondeu com chuva.
E o Seiya começou a arrancar pedra.
Capítulo 8 — A pedra que não era pedra
Ele arrancou com raiva. Com as mãos, sem ferramenta, na chuva, com a perna sangrando de novo por baixo da atadura.
Jogou pedra para trás. Virou bloco. Afundou na lama até os joelhos.
E foi fundo demais para um homem machucado — fundo demais até para um homem inteiro.
E, lá embaixo, uns dois metros abaixo do chão onde ele pisava todo dia, a mão dele bateu numa coisa que não era pedra.
Era frio. Era liso. Era metal.
Seiya parou.
Cavou em volta com as duas mãos, rápido, com o coração disparado sem licença.
E apareceu uma caixa.
Uma caixa de metal escuro, grande, com o desenho de um cavalo com asas gravado na tampa.
O Seiya ficou de joelhos na lama olhando para aquele desenho debaixo do temporal.
E o desenho era exatamente — exatamente — o mesmo que tinha se acendido sozinho na pele dele, na praça de Rodorio, semanas antes.
— Eu estou cavando você faz um ano — ele sussurrou. — Todo dia. Eu passei por cima de você todo dia.
Ele pôs as duas mãos na tampa.
E abriu.
Capítulo 9 — Pégaso
A luz que saiu daquela caixa subiu reta no meio da chuva, e dava para ver de Rodorio inteira.
Lá de dentro saiu uma armadura.
Não dourada: branca e prateada, surrada, remendada, com marca de golpe em todo canto — uma armadura que tinha apanhado muito e nunca tinha sido trocada por outra.
E ela não esperou o Seiya chamar.
Ela se desmontou no ar e voou em cima dele.
Peito, ombros, braços, pernas, e por último o elmo — cada peça encontrando o lugar que já conhecia, com um estalo seco, como quem veste uma roupa que estava guardada.
E, no instante em que a última peça fechou, veio tudo.
Veio o orfanato. Veio a irmã na estação. Veio a Ilha de Andrômeda, o Marin de Águia, o deserto, o treino, o sangue, a armadura ganha no soco.
Veio um coliseu. Veio uma flecha dourada parada no ar. Veio uma escadaria de doze casas e doze homens de ouro.
Veio um fundo de mar. Veio um inferno. Veio um jardim branco cheio de flores que não morriam.
E veio uma menina de cabelo roxo, de braços abertos na frente dele, levando o golpe que era para ele.
E veio o nome dela.
O verdadeiro.
O Seiya levantou-se no meio da lama, com a armadura de Pégaso brilhando debaixo do temporal, e disse em voz alta a palavra que estava trancada havia um ano:
— ATENA.
E então, porque ele é o Seiya e porque o corpo dele nunca soube esperar a cabeça, ele girou o punho fechado três vezes no ar e gritou para o céu da Grécia:
— METEORO DE PÉGASO!
Cem socos saíram ao mesmo tempo da mão direita dele.
Cem riscos de luz subiram pela chuva, furaram as nuvens do temporal e abriram um buraco redondo no céu — e, por alguns segundos, no meio da tempestade, deu para ver as estrelas.
Em Rodorio inteira, as pessoas saíram na porta de casa olhando para cima.
E, na janela da cozinha, a Seika pôs a mão na boca e disse, chorando e rindo ao mesmo tempo:
— Cinco.
Capítulo 10 — Os cinco
Eles chegaram antes do amanhecer.
Shiryu, com o escudo nas costas. Shun, com as correntes enroladas nos braços. Ikki, de braços cruzados, dizendo que tinha vindo só porque estava no caminho.
E um rapaz loiro de olhos muito azuis que tinha vindo da Sibéria sozinho e chegou por último, encharcado, resmungando que a Grécia era quente demais.
Os cinco se olharam no meio das ruínas, debaixo da chuva que estava parando.
Ninguém disse nada por um tempo, porque não tinha o que dizer.
Foi o Seiya quem quebrou o silêncio, e ele quebrou do jeito dele:
— Vocês demoraram.
— Eu subi uma montanha — disse Shiryu.
— Eu desci num navio afundado — disse Hyoga.
— Eu apanhei do meu irmão — disse Shun.
— Eu não pedi desculpa e não vou pedir — disse Ikki.
E o Seiya riu. Riu alto, do jeito que ele ri, que é um jeito meio irritante e que naquele momento foi a coisa mais bonita do mundo.
Depois parou de rir.
— Ela está com alguém — ele disse. — Eu sei que está. Eu sinto daqui.
— A gente sabe — respondeu Shiryu. — E tem mais: a gente sabe quem.
— Quem?
E o Shun, que tinha passado a noite anterior conversando com o velho da vila, respondeu baixinho:
— Uma deusa mais velha que o Olimpo. Que não luta com as mãos.
— E luta com o quê?
Shun olhou para os outros quatro.
— Com cochicho.
E, muito abaixo de tudo, num trono de pedra quebrada, Ker fechou os olhos e sorriu de orelha a orelha.
— Cinco.
Ela se levantou, esticou os braços como quem acorda de uma soneca gostosa e disse, para o escuro:
— Agora sim. Agora pode começar.
O Fim do Episódio 10
A lição desta noite
Essa noite tem uma heroína, e ela nunca deu um soco.
Pensa no que a Seika fez.
Ela foi a única pessoa do mundo que não esqueceu. Podia ter sido a vantagem dela — e virou a pior solidão que existe: ela sabia tudo e não podia contar para ninguém, porque, quando contava, o irmão dela adoecia.
Então ela escolheu ficar calada.
Um ano inteiro.
Fazendo café, pagando conta, trocando curativo, ouvindo o irmão perguntar “por que você nunca me conta nada?” — e engolindo a resposta toda vez, porque dizer a verdade ia machucar ele.
Ninguém aplaudiu. Ninguém viu. Ninguém soube.
Nas histórias, a gente costuma achar que herói é quem brilha: quem veste armadura, quem grita o nome do golpe, quem aparece na hora boa.
Mas tem um outro tipo de herói, e esse tipo quase nunca aparece na história.
É quem segura a barra em silêncio para que a pessoa amada não sofra.
É a mãe que não conta que está cansada. É o pai que resolve o problema sozinho para não assustar ninguém. É o irmão mais velho que diz “está tudo bem” quando não está.
Essa gente não tem armadura, não tem golpe e não tem nome de constelação.
Mas, sem ela, nenhum dos cinco cavaleiros teria chegado vivo até o episódio de hoje.
Então, se você conhece alguém assim — e você conhece —, hoje é um bom dia para agradecer.
Fim do Episódio 10. A aventura continua.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã: a Atena acorda. E, no segundo em que ela acordar, o céu inteiro vai olhar para baixo.
14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.
Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.