Passado Presente Futuro · Saga dos Céus
Episódio 11: A Vitória que Era a Armadilha

Capítulo 1 — A porta é uma flor
O problema era simples e parecia impossível: ninguém sabia onde a Saori estava.
Não era um lugar no mapa. Não dava para ir de barco, de trem ou a pé. Ela tinha sumido no meio da noite e o chão não tinha pegada nenhuma.
Os cinco passaram a manhã inteira discutindo isso nas ruínas do templo, até o Shun levantar a mão como um aluno no fundo da sala.
— Eu acho que eu sei como chegar lá.
— Como?
Ele tirou do bolso a flor que não murcha — a mesma que o irmão não tinha conseguido colher.
— O velho da vila me contou a história dela. Essa flor não é daqui. — Shun olhou para a flor na palma da mão. — Ela veio de um jardim que não existe mais. Um jardim onde nada morria.
Hyoga se aproximou.
— Os Campos Elísios.
— Isso. — Shun fechou a mão com cuidado. — E tem uma coisa que eu descobri sozinho essa semana.
Ele abriu a mão de novo e estendeu o braço na direção do sol.
E a flor virou.
Virou sozinha no caule, devagar, como gira a agulha de uma bússola — e não apontou para o sol.
Apontou para um ponto vazio do céu, um pouco acima do horizonte, onde não tinha absolutamente nada.
— Ela aponta — disse Shun. — Faz meses. Sempre para o mesmo lugar.
Seiya olhou para aquele pedaço de céu vazio e, do jeito Seiya de resolver as coisas, perguntou:
— E como é que a gente entra num lugar que fica no céu?
Ikki deu de ombros.
— A gente acende o cosmo e vai.
— Só isso?
— Já funcionou antes.
Capítulo 2 — O deserto que já foi um jardim
Funcionou.
Os cinco acenderam o cosmo ao mesmo tempo, e a Seika — que estava parada na beira das ruínas, de braços cruzados, com uma cara de quem não ia chorar de jeito nenhum — viu os cinco sumirem do chão da Grécia como fumaça subindo.
E, do outro lado, eles pisaram em cinzas.
Era um lugar imenso e cinzento. Céu branco sem sol. Chão de pó. Pedaços de coluna quebrada espalhados até onde a vista alcançava.
Nenhuma folha. Nenhuma grama. Nenhum cheiro.
— O que aconteceu aqui? — perguntou Seiya, baixinho.
— A gente aconteceu — respondeu Ikki. — Eu lembro desse lugar. A gente lutou aqui.
Shiryu se agachou e passou a mão na cinza.
— Isso aqui era o jardim mais bonito que já existiu em qualquer mundo — ele disse. — E agora é isso.
E o Shun, segurando a flor, falou a coisa que deixou todo mundo quieto:
— Então essa flor aqui é a última coisa viva de um lugar inteiro.
Eles acharam a Saori a uns quinhentos metros dali.
Ela estava sentada no chão de cinzas, descalça, suja, com os braços em volta dos joelhos, olhando para o nada.
E não estava sozinha.
Em volta dela, num círculo perfeito, estavam de pé sete figuras de armadura prateada.
Capítulo 3 — As Guardiãs da Lua
As sete não se mexeram quando os cinco chegaram.
Ficaram ali, em círculo, de costas para a Saori e de frente para o deserto, como uma cerca viva.
A mais alta delas deu um passo à frente. A armadura dela era prateada com reflexo azulado, como lua cheia em noite limpa, e a voz saiu calma:
— Vão embora.
— Solta ela — disse Seiya.
— Ela não está presa.
— Ela está sentada no chão no meio de um deserto, cercada por sete de vocês.
— Ela está protegida — corrigiu a Guardiã. — Eu me chamo Callisto, e eu sirvo à deusa da Lua. Nós não viemos machucar a sua amiga. Nós viemos impedir que ela acorde.
Hyoga franziu a testa.
— Impedir que ela acorde por quê?
E a Callisto respondeu uma coisa que, naquele momento, ninguém entendeu:
— Porque, no segundo em que ela acordar, vocês vão ver uma coisa que ninguém no mundo quer ver.
Ela ergueu a mão.
— Pela última vez: vão embora.
Seiya olhou para a Saori sentada no chão, pequena, suja, de cabeça baixa no meio daquele círculo de prata.
— Não.
E as sete Guardiãs acenderam o cosmo ao mesmo tempo.
Capítulo 4 — Cinco contra sete
O deserto de cinzas virou uma tempestade.
As Guardiãs da Lua lutam com luz fria. Delas saíam lâminas prateadas, finas como fio de cabelo e afiadas o bastante para cortar pedra — e elas se moviam rápido, em grupo, cobrindo uma à outra como um bando de pássaros vira no ar.
Mas elas estavam enfrentando os cinco.
— METEORO DE PÉGASO!
Seiya girou e cem socos saíram de uma vez só. Os riscos de luz atravessaram a poeira e empurraram duas Guardiãs vinte metros para trás.
Uma terceira veio por cima dele, e Shun estendeu o braço.
— CORRENTE NEBULOSA!
A corrente de ponta triangular saiu voando, enrolou no tornozelo dela no meio do pulo e puxou — e a Guardiã foi ao chão de costas, levantando uma nuvem de cinza.
Duas vieram pela esquerda. Hyoga nem se virou direito.
— PÓ DE DIAMANTE!
A rajada branca atravessou o campo e as duas pararam no lugar, com os pés presos num bloco de gelo que subiu do chão de cinzas.
Uma quarta tentou chegar na Saori por trás.
Shiryu se colocou no caminho com o escudo erguido, aguentou o golpe sem recuar um centímetro e, de dentro da poeira, juntou as mãos:
— CÓLERA DO DRAGÃO!
O dragão de luz subiu do chão e levou a Guardiã junto, lá para cima, até ela virar um pontinho no céu branco.
E a Callisto, que tinha ficado por último, foi direto no Ikki.
Foi a melhor escolha errada da vida dela.
Ikki nem levantou os braços. Deixou ela chegar, aguentou o primeiro golpe no peito sem piscar e disse:
— Você é rápida.
Depois acendeu o cosmo, e a ave de fogo se abriu atrás dele, enorme, cobrindo metade daquele céu branco.
— AVE FÊNIX!
Capítulo 5 — “A gente estava escondendo”
Quando a poeira baixou, as sete estavam no chão.
Nenhuma morta. Os cinco não matam quem não precisa morrer — e, de qualquer forma, aquelas sete não tinham lutado como quem quer matar. Tinham lutado como quem quer atrasar.
A Callisto se arrastou até ficar sentada, com a armadura rachada no ombro, e olhou para o Seiya, que estava indo na direção da Saori.
— Garoto.
Seiya parou.
— Você ganhou — disse ela, e a voz dela estava estranha. Não tinha raiva. Tinha pena. — Parabéns.
— Por que você está falando assim?
E a Callisto disse a frase que o Shiryu ia lembrar pelo resto da vida:
— A gente não estava prendendo vocês.
Ela tossiu.
— A gente estava escondendo vocês.
E o Shiryu, lá atrás, sentiu o chão sumir debaixo dos pés — porque ele tinha dito exatamente aquela palavra, naquela mesma semana, sentado numa pedra molhada em Rozan.
— Escondendo de quem? — ele perguntou, e a voz saiu fraca.
A Callisto olhou para cima. Para o céu branco e vazio.
— De todos.
Capítulo 6 — Atena acorda
Mas já era tarde.
Porque o Seiya já tinha chegado onde a Saori estava, já tinha se ajoelhado na cinza na frente dela e já tinha feito a única coisa que faltava fazer havia um ano inteiro.
Ele chamou o nome dela.
O verdadeiro.
— Atena.
E ela levantou o rosto.
Durante um segundo, não aconteceu nada.
Durante esse segundo, foi só uma moça suja e cansada olhando para um rapaz de armadura amassada.
E depois os cinco se ajoelharam em volta dela — sem combinar, todos ao mesmo tempo, do jeito que o corpo faz quando a cabeça ainda nem decidiu.
Shiryu de um lado. Hyoga do outro. Shun atrás. Ikki de braços cruzados, dois passos afastado, porque ele é assim, mas de joelho também.
E a luz veio.
Não veio de fora. Veio de dentro dela, do meio do peito, e subiu por tudo: pelos braços, pelo rosto, pelo cabelo, e saiu pelo alto da cabeça como uma coluna de ouro que furou o céu branco daquele mundo morto.
E, no meio da luz, apareceu uma armadura.
Dourada, antiga, com uma coroa de três pontas e uma lança — e, no braço esquerdo, o escudo redondo com o rosto que faz qualquer exército parar de andar.
A armadura de Atena.
A luz apagou devagar.
E ela estava de pé.
Não era mais a moça do vestido simples de Rodorio. Era a mesma pessoa — mesmo rosto, mesma voz — mas inteira, finalmente inteira, com um ano de buraco preenchido de uma vez só.
Ela olhou para os cinco ajoelhados em volta dela.
E a primeira coisa que ela disse foi:
— Vocês demoraram.
Seiya riu, com o rosto molhado.
— Todo mundo fala isso.
Capítulo 7 — A deusa que bateu palmas
E foi exatamente nesse momento, nesse momento perfeito, que uma voz feminina soou do meio das ruínas.
E a voz estava aplaudindo.
— Lindo. Lindo, lindo, lindo. Eu chorei um pouquinho, confesso.
Ker saiu de trás de uma coluna quebrada.
Vestido escuro, pés descalços na cinza, uma das mãos enfaixada — a mão que a Saori tinha queimado naquela mesma planície, uma semana antes.
Os cinco se levantaram de um salto e fecharam o círculo em volta de Atena.
— Calma, meus queridos. — Ker ergueu as duas mãos, rindo. — Eu não vim brigar. Eu vim agradecer.
— Agradecer o quê? — rosnou Ikki.
E Ker olhou para ele com um carinho verdadeiro, que era a coisa mais assustadora dela.
— Você — ela disse — lembrou do seu irmãozinho. Que história bonita.
Ikki ficou branco.
— E você — ela virou para o Hyoga — desceu lá no fundo e subiu de volta. Eu ofereci sua mãe de graça e você recusou. Foi de uma dignidade impressionante.
Hyoga apertou os punhos.
— E você — para o Shiryu — perguntou “por quê”. Você foi o único. Eu fiquei orgulhosa.
Ela juntou as mãos na frente do corpo e sorriu para todos ao mesmo tempo.
— Eu passei um ano inteiro esperando por hoje. E vocês foram impecáveis.
Capítulo 8 — A conta
Foi a Atena quem entendeu primeiro.
Ela deu um passo à frente, passando na frente do Seiya, e perguntou com uma voz muito controlada:
— Você nunca quis me matar.
— Nunca, meu amor.
— Você queria que eu acordasse.
E Ker abriu os braços, radiante, como quem vê a aluna finalmente acertar a conta no quadro.
— ISSO.
Ela começou a andar devagar em volta do grupo, falando do jeito que se conta uma história para criança — que era, no fundo, o jeito mais cruel de contar aquilo.
— Vamos por partes, para todo mundo entender.
— Primeiro: enquanto a Atena estava dormindo dentro de uma mocinha de vila, sem saber quem era, não existia Guerra Santa nenhuma. Sem Atena, sem guerra. O mundo ficava quietinho.
Ela levantou um dedo.
— Segundo: Atena acordada significa Guerra Santa. Sempre significou. É assim desde o começo do mundo, e nem ela consegue mudar isso.
Levantou o segundo dedo.
— Terceiro, e esse é o melhor: tem alguém lá em cima que avisou que, se tiver outra Guerra Santa, ele acaba com a Terra inteira. Não com um exército. Não com uma cidade. A Terra.
Ela parou de andar.
— Agora me respondam, meus queridos: o que vocês acabaram de fazer?
Silêncio no deserto de cinzas.
Ker abriu um sorriso enorme.
— Vocês acordaram ela.
Capítulo 9 — A conta de verdade
— Eu não encostei um dedo em ninguém — continuou Ker, e agora a voz dela estava quase doce. — Eu não matei. Eu não destruí nada. Eu não lutei uma única vez.
Ela apontou para cada um deles, um por um.
— Eu só fiquei por perto. Cochichando. Ajudando vocês a lembrar.
E aí ela disse a frase que fecha o primeiro bloco desta história inteira:
— Eu não preciso vencer vocês. Eu só precisava que vocês vencessem.
A Atena fechou os olhos.
E, quando abriu, tinha uma coisa nova neles — uma coisa que o Seiya nunca tinha visto na cara dela em toda a vida, nem no inferno, nem no fundo do mar.
Medo.
— O apagamento — ela sussurrou.
— Hm?
— O apagamento da memória. — Atena ergueu o rosto. — Não foi castigo.
Ker bateu palmas de novo, encantada.
— Ah, ela é rápida.
— Ele não estava nos punindo. — A voz de Atena falhou. — Ele estava nos escondendo. De Zeus.
— Exatamente. — Ker suspirou, satisfeita. — O deus mais justo de todos. Ele não conseguiu salvar vocês desobedecendo ao pai, então fez a única coisa que dava: apagou vocês do mapa e torceu para que o pai esquecesse que vocês existiam.
Ela deu de ombros.
— Comprou um ano. Foi bonito, até.
E, lá atrás, caída na cinza com a armadura rachada, a Callisto fechou os olhos e disse baixinho, para ninguém:
— A gente avisou.
Capítulo 10 — O céu abre
Foi quando o chão tremeu.
Não foi terremoto. Não veio de baixo.
Veio de cima.
O céu branco daquele mundo morto começou a rachar de uma ponta à outra, como gelo fino quando alguém pisa — e, pela racha, desceu uma luz que não tinha cor nenhuma e que fazia as sombras de todo mundo apontarem para o lado errado.
A Seika tinha descrito exatamente aquilo, numa cozinha em Rodorio, dois dias antes.
Os cinco levantaram os braços para proteger os olhos.
E, no meio daquela luz, parado no ar, apareceu um homem altíssimo, de cabelo claro e armadura branca, com uma lira de ouro pendurada no ombro.
Ele não gritou. Ele não atacou.
Ele olhou para baixo — para os cinco cavaleiros, para a deusa de armadura dourada no meio deles, para a mulher de vestido escuro rindo entre as ruínas — e o rosto dele estava exatamente do jeito que a Seika tinha contado.
Triste.
E Apolo, o mais justo dos doze deuses, falou uma única frase. Sem raiva nenhuma. Com um cansaço de mil anos:
— Irmã.
A luz desceu mais.
— Eu te dei um ano.
E Ker, no meio das ruínas, descalça na cinza, com a mão queimada, olhou para o céu aberto e sussurrou, feliz como uma criança na véspera do aniversário:
— Começou.
O Fim do Episódio 11
(fim do primeiro bloco da temporada)
A lição desta noite
Essa noite é diferente das outras, e vale explicar por quê.
Hoje os heróis ganharam.
Eles acharam a amiga. Derrotaram sete guerreiras. Fizeram a Atena acordar. Foi uma vitória completa, do jeito que a gente torce para acontecer.
E foi exatamente isso que a vilã queria.
Repara no que aconteceu durante cinco episódios inteiros. Cada vez que um deles lembrou de quem era, a gente comemorou junto. O dragão no céu. O mergulho no navio. Os dois irmãos se abraçando. A armadura saindo da lama.
Tudo lindo. Tudo verdadeiro. Tudo errado.
Porque ninguém parou para perguntar uma coisa muito simples: por que será que essas lembranças estavam escondidas?
O Shiryu chegou a perguntar, lá no episódio 7, sentado numa pedra molhada. E aí veio a emoção de encontrar os amigos, e a pergunta ficou para trás.
Isso acontece na vida de verdade, e não é só com herói.
Às vezes a gente quer tanto uma coisa — abrir um armário, ver um filme, mexer num aparelho, saber de um assunto de adulto — que a gente não para para perguntar por que aquilo estava longe da gente.
Nem todo mundo que te impede está contra você.
Tem gente que está te escondendo de uma coisa que você ainda não precisa enfrentar.
As sete Guardiãs da Lua pareciam inimigas. Lutaram, bateram, machucaram.
E, no chão, derrotada, a última coisa que a líder delas disse foi:
“A gente não estava prendendo vocês. A gente estava escondendo vocês.”
Guarda essa frase.
Porque agora o céu abriu, e não dá mais para fechar.
Fim do Episódio 11, e fim do primeiro bloco. A aventura continua.
Boa noite, pequeno guerreiro. A partir de amanhã a história muda de tamanho.
14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.
Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.