Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 12: A Primeira Rachadura

Ilustração do episódio 12: A Primeira Rachadura

Capítulo 1 — O deus que não veio lutar

Seiya deu um passo à frente e levantou o punho na direção do céu rachado.

— Abaixa o braço, garoto.

A voz de Apolo não foi alta. Foi pior que alta: foi perto. Soou como se ele estivesse falando no ouvido de cada um dos cinco ao mesmo tempo, mesmo estando a trezentos metros de altura.

— Eu não vim lutar.

— Você apagou a cabeça de todo mundo que eu conheço — rosnou Seiya.

— Apaguei.

— Você…

— Eu apaguei — repetiu Apolo, sem se defender. — E eu faria de novo hoje, e amanhã, e em todos os dias que viessem depois.

Ele desceu devagar, e os pés dele pararam a um palmo do chão de cinzas, porque deus não pisa em cinza.

De perto, era o rosto mais bonito que qualquer um daqueles cinco já tinha visto — e, ao mesmo tempo, o mais cansado.

Ele olhou só para a Atena.

— Irmã.

— Apolo.

— Volta a dormir.


Capítulo 2 — A oferta

A Atena não respondeu na hora.

— Eu te dou isso de novo — continuou ele, e era quase um pedido. — Eu apago tudo outra vez. Você volta a ser uma moça de vila, com um nome bonito e uma vida pequena. Eles voltam para as casas deles. Ninguém sofre.

— E depois?

— E depois vocês envelhecem. — Apolo abriu as mãos. — Vocês envelhecem, irmã. Vocês ficam velhos, e morrem de velhice, numa cama, cercados de gente. Eu passei um ano inteiro segurando o céu fechado para dar isso a vocês, e ninguém nunca vai saber.

Shiryu, atrás, fechou os olhos.

Porque era verdade. Dava para ouvir que era verdade.

— E se eu não voltar a dormir? — perguntou Atena.

Apolo demorou a responder.

— Então ele vai ver vocês.

— Zeus.

— Nosso pai. — A voz dele ficou menor. — E ele já decidiu, irmã. Ele decidiu antes de você nascer de novo, decidiu na última guerra, e decidiu de novo na anterior. Ele está cansado. Ele disse, na frente dos doze, que se houver mais uma Guerra Santa nesta Terra, ele não vai julgar os culpados.

— Ele vai julgar o quê?

E Apolo disse:

— O chão.


Capítulo 3 — A resposta de Atena

A Atena ficou muito quieta.

Ela olhou para os cinco em volta dela — o Seiya com a armadura amassada, o Shiryu com o escudo rachado, o Hyoga ainda molhado da Sibéria, o Shun segurando uma flor, o Ikki de braços cruzados fingindo não estar escutando.

E depois ela olhou para o irmão parado no ar.

— Me responde uma coisa.

— Pergunta.

— Nesse ano em que eu estava dormindo… o mundo ficou melhor?

Apolo não respondeu.

— Eu estive lá embaixo, Apolo. Eu morei numa vila. — A voz dela foi ficando firme. — E eu vi gente ficando esquisita. Gente de olho vazio empurrando gente na praça. Pessoas brigando sem saber por quê. Uma mulher que cochicha andando entre eles.

Ela apontou para Ker, que assistia a tudo encostada numa coluna, divertindo-se enormemente.

— Enquanto eu dormia, ela trabalhava.

Apolo não olhou para Ker. Nem uma vez.

— Então essa é a escolha que você está me oferecendo — disse Atena. — Ou eu durmo e o mundo apodrece devagar com ela solta lá dentro, ou eu acordo e o nosso pai apaga tudo de uma vez.

— É.

— Que escolha horrível.

— É. — E ele disse, com uma honestidade que machucava: — Eu procurei uma melhor durante um ano inteiro. Não existe.

E a Atena de Rodorio, que tinha passado doze meses sem saber quem era, ergueu o queixo e deu a resposta dela:

— Então eu fico acordada.


Capítulo 4 — A regra

Por um segundo, deu para ver uma coisa passar pelo rosto de Apolo que não era raiva.

Era alívio.

Foi rápido, e sumiu, e ele nunca admitiria — mas o Shiryu viu, e guardou.

— Eu imaginei que você diria isso — ele falou. — Então escuta a única coisa que eu ainda posso fazer por vocês.

Ele ergueu a mão, e a rachadura no céu começou a se fechar sozinha, como uma ferida ao contrário.

— Eu vou segurar o céu fechado o máximo que eu conseguir. Mas tem um limite, e o limite não sou eu.

— Qual é?

— Guerra Santa — disse Apolo. — Não é briga. Não é soco. Não é vocês se defenderem de bandido na estrada. Guerra Santa é outra coisa: é quando sangue é derramado no nome de um deus.

Ele olhou para cada um dos cinco.

— No dia em que um de vocês matar alguém em nome dela, o céu abre sozinho, e nem eu nem ninguém consegue fechar de novo.

Seiya engoliu em seco.

— Então a gente…

— Vocês não podem lutar uma Guerra Santa. — Apolo já estava subindo. — Podem viver. Podem se defender. Podem até apanhar.

A última coisa que ele disse ficou pairando no deserto de cinzas depois que a luz já tinha apagado:

— Mas não podem vencer.


Capítulo 5 — O caminho de casa é mais difícil

Eles voltaram para Rodorio em silêncio.

Um silêncio pesado, daqueles que ninguém quebra porque todo mundo está fazendo a mesma conta por dentro e chegando no mesmo resultado ruim.

Foi o Hyoga quem falou primeiro, já na estrada da vila.

— Vamos deixar claro o que a gente acabou de combinar.

— Fala.

— Tem uma deusa antiga solta no mundo, mexendo na cabeça das pessoas. — Ele contou nos dedos. — A gente sabe quem é. A gente sabe onde ela está. A gente é capaz de enfrentar ela.

— É.

— E a gente não pode.

— É.

Ikki chutou uma pedra para fora da estrada.

— Eu odeio isso.

— Todo mundo odeia — disse Shiryu.

E o Seiya, que é o mais barulhento dos cinco, não falou nada o caminho inteiro. Nem uma piada.

Só o Shun olhou para trás uma vez, lá no alto da estrada, antes de a vila aparecer.

E ficou olhando para o nada por tempo demais.


Capítulo 6 — A estufa quebrada

Naquela noite, o Shun não conseguiu dormir e foi para a estufa.

Ou para o que tinha sobrado dela.

O teto estava no chão. Metade dos vidros, estilhaçada. Os vasos todos virados. Era o estrago da briga com o irmão, e fazia três dias que ninguém tinha tido cabeça para arrumar.

Shun começou a juntar caco de vidro com as mãos, no escuro, porque ele é o tipo de pessoa que arruma as coisas quando está nervoso.

E, no canteiro do fundo, as flores que não murcham continuavam abertas, como se nada tivesse acontecido.

— Você estraga tudo — ele disse para si mesmo, baixinho.

Ninguém respondeu.

Então ele ouviu uma voz atrás dele dizer, com uma doçura enorme:

— Que coisa feia de se falar sobre você mesmo, meu amor.


Capítulo 7 — O cochicho

Shun se virou num pulo.

Ker estava sentada na mureta da estufa, descalça, balançando os pés, com a mão enfaixada no colo.

As duas correntes apareceram nos braços dele instantaneamente — do nada, com um chocalhar metálico — e se levantaram no ar como duas cobras prontas.

Elas tinham sentido um deus.

— Nossa. — Ker olhou para as correntes com admiração sincera. — Que bichinhos espertos. Eles sabem o que eu sou mesmo sem você saber.

— Sai da minha casa.

— Eu não encostei em nada. — Ela ergueu as mãos. — Eu vim conversar. Só isso. Você pode mandar as correntes em mim, se quiser. Não vai adiantar, mas pode.

Shun não mandou.

E esse foi o primeiro erro da noite — não por covardia, mas por educação, que no caso dele dá no mesmo.

— O que você quer?

— Quero te fazer uma pergunta que ninguém nunca te fez. — Ker inclinou a cabeça. — Você já parou para pensar por que foi você?

— Por que foi eu o quê?

E ela disse, bem devagar, saboreando:

— Por que foi o seu corpo que o deus dos mortos escolheu para morar.

A estufa ficou gelada.


Capítulo 8 — A rachadura

Shun não respondeu.

Porque ele já tinha pensado nisso. Muitas vezes. Sozinho. À noite. E nunca tinha falado com ninguém.

— Todo mundo te disse que foi azar, não foi? — continuou Ker, com pena verdadeira na voz. — Ou que foi o destino. Ou que foi porque você tinha a alma mais pura.

Ela desceu da mureta.

— Mentira, meu amor. Eu vou te contar a verdade, porque eu gosto de você.

Deu um passo.

— Hades não escolheu você por você ser puro. Ele escolheu você porque você é fácil de entrar.

— Para.

— Você nunca empurra ninguém para fora, Shun. Essa é a sua coisa mais bonita e é o seu buraco. — A voz dela ficou mais baixa, mais carinhosa. — Você deixa todo mundo entrar. Você sempre deixou. Um deus olhou para uma fila de gente e escolheu a porta que estava destrancada.

Shun deu um passo para trás e bateu nos escombros.

— E, se a porta é destrancada — disse Ker —, é só questão de tempo até alguém entrar de novo.

As correntes tremeram no ar.

— Agora pensa comigo, com calma, que é o jeito de pensar que você gosta. — Ela juntou as mãos. — Tem uma regra nova no mundo: ninguém pode matar em nome da sua deusa, ou o céu abre.

— Eu sei.

— E você sabe quem é o perigo de verdade nessa história?

Ela sorriu.

— Não é o Seiya. Ele é barulhento, mas ele só bate em quem bate primeiro. Não é o de gelo, nem o do dragão.

E ela apontou para o peito do Shun.

— É você. Porque você é o único deles em quem alguma coisa pode entrar e fazer a matança no lugar dele.

Shun ficou branco.

— Imagina a cena, querido: um dia qualquer, daqui a um mês. Você está regando as suas flores. E alguma coisa entra por essa portinha que você nunca trancou, usa as suas mãos, mata alguém em nome da Atena — e o céu abre, e o mundo acaba.

Ela abriu os braços.

— E a culpa vai ser de quem?


Capítulo 9 — A oferta

Shun estava de joelhos no meio dos cacos sem ter percebido que tinha caído.

— Eu posso resolver isso — disse Ker, agachando na frente dele.

— Como?

— Deixa eu entrar.

Silêncio.

— Eu entro, eu tranco a porta por dentro, e ninguém mais usa você. — Ela falava com a maior naturalidade do mundo. — E aí quem luta sou eu. Quem mata, se precisar matar, sou eu. E ninguém vai poder dizer que foi em nome da Atena, porque eu não sirvo a ela.

Ela estendeu a mão enfaixada.

— Os seus amigos ficam limpos. O céu fica fechado. E você nunca mais precisa ter medo de si mesmo.

E a coisa mais assustadora dessa cena é que o Shun pensou.

Não por meio segundo. Pensou mesmo, com o coração batendo devagar, porque aquilo parecia a coisa mais generosa que ele podia fazer pelas pessoas que ele amava.

Que é exatamente como esse tipo de ideia sempre chega.

Ele levantou a mão alguns centímetros.

E as duas correntes, no ar acima dele, giraram.

Giraram e apontaram as pontas para baixo.

Para ele.


Capítulo 10 — “Olha para mim”

— SHUN!

A voz veio da porta da estufa e foi acompanhada de uma onda de calor que fez os cacos de vidro do chão tremerem.

Ikki.

Ele atravessou a estufa em três passos e ficou entre o irmão e a deusa, com o punho aceso.

— Ah — disse Ker, levantando-se sem pressa. — O bravo.

— Sai de perto dele.

— Já estou indo. — Ela sacudiu a poeira do vestido. — A gente estava só conversando. Ele ainda nem me respondeu.

E ela foi embora andando, normal, como quem sai de uma visita — e sumiu no escuro antes de chegar na estrada.

Ikki se virou.

O Shun estava de joelhos no chão, com as mãos abertas no colo, olhando para as próprias correntes — que ainda apontavam para ele.

E elas só baixaram quando o Shun começou a chorar.

— Ikki.

— Estou aqui.

— As correntes apontaram para mim.

— Eu vi.

— Elas sentiram alguma coisa dentro de mim, Ikki.

E o Ikki — que não é bom com palavra nenhuma, que nunca soube consolar ninguém, que a vida inteira resolveu tudo no soco — se ajoelhou na frente do irmão caçula no meio dos cacos de vidro e fez a única coisa certa que tinha para fazer.

Segurou o rosto dele com as duas mãos.

— Olha para mim.

— Ikki…

— Olha para mim.

Shun olhou.

— Repete o que ela te disse.

— Ela disse que eu sou uma porta destrancada. Que é por isso que me escolheram. Que o perigo sou eu. — A voz dele quebrou. — E, Ikki… é verdade. Tudo que ela falou é verdade.

— É.

Shun piscou.

— …O quê?

— É verdade — disse Ikki. — Você é fácil de entrar. Você deixa todo mundo entrar. Isso é verdade e sempre foi.

Ele apertou mais o rosto do irmão.

— Agora escuta a parte que ela não te contou.


Capítulo 11 — A parte que ela não contou

— Eu entrei por essa porta — disse Ikki.

Shun ficou imóvel.

— Faz três dias. Eu cheguei aqui sem lembrar quem eu era, eu te ataquei dentro da sua própria casa, eu queimei a sua estufa e eu quase te matei. — A voz dele estava dura, mas não com o irmão. — E você não trancou a porta. Você abriu mais.

— Ikki…

— O Seiya entrou. A Atena entrou. Aquele velho da vila entrou. Um monte de gente entra em você todo dia, Shun, e sai melhor do que entrou.

Ele soltou o rosto do irmão e sentou nos calcanhares.

— Uma vez, uma única vez, entrou uma coisa ruim. E o que aconteceu?

— …

— Você expulsou. — Ikki apontou para ele. — Você, sozinho, por dentro, enquanto todo mundo estava achando que tinha acabado. Você é a única pessoa na história do mundo que botou um deus para fora de dentro de si mesmo.

Shun começou a chorar de novo, de outro jeito.

— E aí vem essa mulher — Ikki levantou — e pega a coisa mais corajosa que você já fez na vida e te conta ela ao contrário, como se fosse defeito.

Ele estendeu a mão para o irmão.

— É isso que ela faz, Shun. Ela não inventa mentira. Ela pega uma verdade e vira do avesso.

E, pela primeira vez na vida, o Shun aceitou uma mão sem pensar duas vezes e se levantou.


Capítulo 12 — Ela não ficou chateada

Longe dali, na estrada escura que desce de Rodorio, Ker caminhava sozinha, assoviando.

E estava de ótimo humor.

Porque ela não tinha ido até lá para ouvir um sim.

Ela tinha ido plantar.

— Ele vai pensar nisso hoje à noite — disse ela, para o escuro. — E amanhã. E depois de amanhã.

Ela parou e olhou para a vila lá embaixo, com as luzinhas acesas.

— E, quando chegar o dia em que ele estiver muito cansado, e com muito medo, e achando que é culpa dele…

Ela voltou a andar.

— …ele vai lembrar que tem uma porta, e que eu fui educada o bastante para bater antes de entrar.


O Fim do Episódio 12

A lição desta noite

Tem um jeito de mentir que é o mais perigoso de todos, e hoje a gente viu ele funcionando.

Repara: a Ker não mentiu uma única vez.

Tudo o que ela falou para o Shun era verdade. Ele é mesmo a pessoa que deixa todo mundo entrar. Um deus ruim já usou o corpo dele mesmo. Ele é mesmo o mais fácil de alcançar dos cinco.

Verdade, verdade e verdade.

Só que ela pegou essas três verdades e montou com elas uma frase falsa: “o problema é você”.

Isso existe na vida de verdade, e é bom saber reconhecer cedo.

Às vezes alguém pega uma coisa boa que você tem — você é calmo, você é bonzinho, você não gosta de brigar, você chora fácil — e te conta essa coisa ao contrário, como se fosse um defeito, como se fosse o motivo de tudo estar dando errado.

Quando isso acontecer, lembra do que o Ikki fez.

Ele não disse “não é verdade”. Ele disse: “é verdade, e não é defeito”.

Porque a mesma porta destrancada que deixou um deus ruim entrar uma vez é a porta por onde entram, todos os dias, as pessoas que amam o Shun.

Você não conserta uma coisa boa trancando ela.

E tem a última lição, que é a mais importante de todas.

Quando alguém te convence de que o problema do mundo é você, e de que todo mundo ficaria melhor sem você por perto — essa pessoa não está te ajudando. Nunca está.

Quem gosta de você de verdade segura o seu rosto com as duas mãos, manda você olhar, e conta a história inteira.

Fim do Episódio 12. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã: alguém que já morreu uma vez volta, e não queria ter voltado.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.