Volume 8: Poema de Despedida a um Amigo

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Volume 08 · Poema de Despedida a um Amigo

Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.

Capítulo 1 — A Lenda que Ninguém Deveria Lembrar

No salão do Grande Mestre, Shijima estava encurralado.

Cardinale de Peixes tinha acabado de atacá-lo, e as rosas brancas do Cavaleiro flutuavam no ar como se fossem pétalas inocentes — quando, na verdade, cada uma delas era uma arma capaz de sugar o sangue de um homem até a última gota.

Mas Shijima não estava pensando em se defender. Estava pensando em duas pétalas que tinham pousado em suas mãos, com duas sílabas escritas: JU. SAN. Treze.

— Escute, Cardinale — disse ele. — Você já ouviu a lenda das Treze Casas?

— Isso é conversa de criança.

— Escute mesmo assim.

E Shijima contou.

Contou que, numa era tão antiga que virou mito, o Santuário de Atena não tinha doze casas. Tinha treze. Entre a Casa de Escorpião e a Casa de Sagitário, existia uma décima terceira: a Casa de Serpentário.

Contou que o guardião dela era o mais sábio, o mais heroico e o mais bondoso de todos os treze Cavaleiros de Ouro — um homem capaz de curar qualquer ferida e qualquer doença, só de encostar a mão.

E contou como aquilo terminou: o guardião teve a arrogância de querer ser um deus. Os deuses se enfureceram. Ele foi expulso do Santuário, e todos os vestígios da sua existência foram apagados do mundo — a casa, o nome, a memória. Tudo.

Cardinale ficou pálido.

— Isso não pode voltar. Não na nossa era.

— Todo mundo sabe quem ele é — respondeu Shijima, baixinho. — Todos nós conhecemos esse homem. Só fingimos que esquecemos.


Capítulo 2 — Dois Velhos Amigos

Enquanto isso, na Casa de Libra, Dohko sentiu uma presença chegar e soube na hora quem era, antes mesmo de virar o rosto.

Suikyo estava parado na entrada. Mal se sustentava em pé.

— Você — disse Dohko.

— Eu.

Ficaram assim por um tempo, olhando um para o outro. Dois garotos que treinaram juntos a vida inteira, um de armadura dourada, outro de armadura sombria, separados por uma guerra que nenhum dos dois tinha escolhido.

— Você sabe que eu não posso deixar você passar — disse Dohko.

— Eu sei.

— Mesmo sendo você.

— Principalmente sendo eu.

Suikyo ergueu as mãos, e o ar da Casa de Libra começou a congelar.

— Lanças de Gelo da Lótus Branca!

As lanças de gelo brotaram do nada, girando como pétalas afiadas, e atravessaram o salão em direção a Dohko com força suficiente para perfurar ouro maciço.

Dohko não fugiu. Não bloqueou. Ele avançou dentro da tempestade de gelo, deixando as lanças rasgarem seus braços e seu peito, porque um Cavaleiro de Libra não recua da porta que jurou guardar.

E lutaram.

Lutaram de verdade, com tudo o que tinham — e, no meio da luta, aconteceu a coisa mais estranha e mais humana daquela noite inteira: os dois estavam chorando.

Nenhum dos dois parou por causa disso. Só continuaram, com o rosto molhado, batendo um no outro, como duas pessoas que se amam e não têm outro jeito.


Capítulo 3 — Fale a Verdade, Meu Amigo

Golpe após golpe, Dohko foi percebendo uma coisa.

Suikyo estava fraco. Não fraco de nascença, não fraco de covardia — fraco de tudo o que já tinha atravessado. Ele tinha subido casa por casa, levado a Explosão Galáctica de Gêmeos, atravessado o Yomotsu, escolhido a Porta da Morte, e chegado ali com o corpo em pedaços e a alma ainda pior.

Dohko baixou os punhos.

— Está triste, Suikyo? Triste por eu não conseguir te derrotar? Por não conseguir proteger Atena direito?

Suikyo não respondeu.

— Não — disse Dohko, e a voz dele falhou. — Quem me deixa triste é você.

Suikyo desviou o olhar.

— Você está carregando isso sozinho há quanto tempo? — insistiu Dohko. — Desde o Suishō? Desde antes? — Ele deu um passo à frente. — Fala comigo. Pelo amor de Atena, fala. Não sofre sozinho, Suikyo. Não com a gente aqui.

E, pela primeira vez em muitos e muitos anos, o homem de armadura sombria abriu a boca para contar a verdade a alguém.


Capítulo 4 — O Espaço Sem Som

Nas escadarias, Tenma e Shun finalmente chegaram à Casa de Virgem.

— O cosmo do meu mestre sumiu de novo — disse Tenma, apertando o peito.

— Ainda tem um fio dele — respondeu Shun. — Fraquinho. Mas tem. Acredita comigo.

Foi então que a figura de Shijima apareceu diante dos dois.

— Isso não é ele de verdade — sussurrou Shun. — É só um pensamento residual. Ele não está fisicamente aqui.

Tenma arregalou os olhos.

— Espera. Essa é a voz que falou dentro da cabeça do Shion lá em Áries. Foi ele quem avisou sobre os traidores!

— Foi — confirmou Shun. — Shijima de Virgem.

E, no instante seguinte, o mundo dos dois ficou mudo.

Não silencioso. Mudo. Não existia som. Tenma abriu a boca para gritar e não saiu nada. E, no lugar do som, começou a crescer aquele zumbido que não vem de fora, mas de dentro do crânio.

— O que é isso?! — Tenma caiu de joelhos, apertando a cabeça. — A gente vai morrer aqui! A minha cabeça vai explodir!

Shun tentou alcançá-lo, cambaleando.

E foi então que o zumbido parou.

Simplesmente parou, como se alguém tivesse estendido a mão e desligado.

Diante dos dois garotos havia agora um homem de cabelos dourados e olhos fechados, sereno, com uma calma que não parecia deste mundo.

Shun sentiu as lágrimas subirem.

— Não pode ser… Mestre Shaka?


Capítulo 5 — Três Gerações de Virgem

Shaka de Virgem estava morto no tempo de Shun. Todos sabiam disso.

Mas a Armadura de Andrômeda, que Shun vestia, tinha sido ressuscitada uma vez com o sangue derramado por Shaka. E aquele sangue continuava adormecido no metal dourado, esperando.

E, ali, diante do Cavaleiro de Virgem de outra era, ele acordou.

— Foi você que destruiu meu espaço de silêncio? — perguntou Shijima.

— Fui — respondeu Shaka, sem abrir os olhos.

— Por quê? Você carrega a mesma constelação que eu. Você sabe que eu não posso deixar intrusos atravessarem esta casa.

E as Quatro Portas de Buda se ergueram de novo ao redor deles, girando lentamente.

— Escolham uma! — gritou Tenma, avançando na direção da mais próxima.

— Não toque. — Shaka o puxou pelo braço com uma força inesperada. — Não importa qual vocês escolherem. Nenhuma delas leva adiante. Todas levam ao fim.

Shijima ergueu a mão, e sua voz ficou dura.

— Por que você está ajudando invasores?

— Tesouro do Céu!

O golpe de Shijima varreu o salão — a técnica que arranca os cinco sentidos de um homem, uma por uma, até sobrar um corpo vivo e vazio.

E Shaka, sem se mover um centímetro, ergueu a mão e disparou exatamente o mesmo golpe de volta.

— Tesouro do Céu.

As duas técnicas se chocaram no meio do ar.

Shun ficou sem ar.

— Tenma… você está vendo isso? Esses são os dois homens mais próximos de um deus que já existiram. E eles estão usando o mesmo golpe um contra o outro.


Capítulo 6 — O Fim e o Começo do Universo

— Usar o Tesouro do Céu contra mim — disse Shijima, e havia um brilho novo no olhar dele — é um desaforo que eu não vou tolerar.

E, então, ele fez a única coisa que ninguém esperava do homem chamado "o silencioso".

Ele abriu a boca.

— UNNNNN…

O som que saiu dali não era humano. Era grave, imenso, e encheu cada centímetro da Casa de Virgem. Era o Ungyo — a sílaba que representa o fim de todas as coisas, o último instante do universo, o momento em que tudo se apaga.

A escuridão começou a engolir o salão.

— A Casa de Virgem está sendo tragada pelas trevas! — gritou Shun.

Shaka sorriu.

— É uma técnica magnífica. De verdade.

E abriu os olhos.

Quando Shaka de Virgem abre os olhos, o mundo muda. Uma luz branca, absoluta, explodiu para fora dele e atravessou a escuridão de ponta a ponta.

— AAAAA…

Era o Agyo — a sílaba do nascimento do universo, o primeiro instante de tudo, o começo de toda a existência.

Fim contra Começo. Trevas contra Luz. As duas metades de uma mesma palavra sagrada, batendo uma na outra dentro de um templo de mármore.

Shijima entendeu primeiro o que aquilo significava.

— Isso não vai durar mil dias. Isso vai durar para sempre. Nós dois vamos ficar presos num ciclo eterno de morte e renascimento, um cancelando o outro, sem fim.


Capítulo 7 — O Menino que Rezou

E foi um garoto de armadura de bronze quem interrompeu a batalha dos dois homens mais próximos de deus.

Shun não gritou. Não atacou. Não tentou separá-los.

Ele juntou as mãos, fechou os olhos, e começou a rezar.

Rezou para que aquilo parasse. Rezou pelos dois. Rezou daquele jeito silencioso e teimoso que era o jeito dele de ser corajoso desde sempre.

E o universo, por algum motivo, escutou.

A luz baixou. A escuridão recuou. E os dois Cavaleiros de Virgem se olharam em silêncio.

— Me perdoe — disse Shijima, curvando a cabeça.

— Deixe-os passar — pediu Shaka.

— Por que você confia tanto nesses garotos de bronze?

Shaka virou o rosto na direção de Shun.

— Porque aquele ali — disse — vai herdar a Armadura de Virgem um dia.

Shijima ficou muito quieto.

E então entendeu o tamanho do que estava acontecendo naquela sala: ali, naquele exato instante, estavam reunidas três gerações de Cavaleiros de Virgem — o passado, o presente e o futuro da mesma constelação, se olhando através de dois séculos.

— Foi uma honra — disse Shijima.

— A honra foi minha — respondeu Shaka.

E a alma de Shaka de Virgem se desfez em luz, voltando ao Nirvana de onde tinha vindo, deixando os dois garotos livres para seguir.


Capítulo 8 — Cosmo de um Deus

De volta à Casa de Libra, a batalha estava chegando ao fim.

Suikyo tinha contado a verdade a Dohko. Toda ela. E, tendo contado, não sobrou mais nada dentro dele além de uma última coisa a fazer.

— Termine, Dohko.

— Não.

— Termine. — A voz dele quase não saía. — Eu não consigo mais parar sozinho. Você é o único que pode.

Dohko olhou para o amigo por um longo, longo tempo.

E, então, acendeu seu cosmo até o limite do que um ser humano suporta — até o ponto em que o cosmo de um homem começa a parecer o de um deus.

Suikyo fez o mesmo. Não sobrou nada dele que não estivesse queimando naquele último golpe.

— TEMPESTADE DAS CEM LANÇAS DE GELO!

— CÓLERA DOS CEM DRAGÕES!

Cem lanças de gelo contra cem dragões de luz. Os dois golpes se encontraram exatamente no meio da Casa de Libra, e a explosão sacudiu o Santuário inteiro, de Áries até o topo.

Quando a luz se apagou, os dois estavam caídos no chão de mármore, lado a lado, como quando eram crianças e caíam exaustos depois de treinar demais.


Capítulo 9 — Poema de Despedida a um Amigo

Suikyo não se levantou.

Dohko se arrastou até ele, o pegou nos braços, e o acomodou contra o próprio peito, como se ainda desse tempo de fazer alguma coisa.

Não dava.

E, ali, no meio das ruínas da própria casa, o Cavaleiro de Libra fez a única coisa que ainda podia fazer pelo amigo: começou a recitar um poema de despedida, baixinho, só para os dois.

A voz dele ecoou pelas escadarias do Santuário.

Subindo em direção à Casa de Escorpião, Shiryu parou de andar ao ouvir aquilo, sem entender ao certo o que era, mas sentindo o peso de cada palavra.

E, correndo escada acima, Tenma e Shun chegaram na Casa de Libra bem a tempo.

Bem a tempo de ver.

Tenma parou na porta.

— Mestre…?

Dohko ergueu os olhos molhados para o garoto.

— Ele foi um grande homem, moleque. Um dos maiores que eu já conheci. Nunca deixe ninguém dizer o contrário.

E, naquele instante, aconteceu.

A armadura sombria de Garuda se soltou do corpo de Suikyo por conta própria, peça por peça, e se afastou dele — como se, finalmente, tivesse entendido que aquele homem nunca tinha pertencido a ela.

— Acabou — sussurrou Dohko. — A maldição soltou ele. Ele está livre.

Ele olhou para o corpo do amigo, agora sem armadura nenhuma, e disse a coisa mais importante da noite inteira:

— Esta não é a armadura que ele deveria estar usando. A armadura dele é a de Taça. Ele sempre foi um Cavaleiro de Atena. Do primeiro dia até o último.

Tenma se ajoelhou. Ele tinha trazido consigo, desde o campo de luz onde o mestre tinha estado, a Armadura de Prata de Taça.

E, com as mãos tremendo, com as lágrimas caindo no metal prateado, o menino vestiu o mestre com a armadura que era dele por direito.

— Pronto, mestre — ele disse, com a voz quebrada. — Agora sim.


Capítulo 10 — O Estandarte que se Ergue

Longe dali, no Castelo de Hades, Pandora recebeu a notícia da forma mais fria possível: a Sapuris de Garuda tinha voltado sozinha para o castelo.

Isso significava apenas uma coisa.

— Suikyo está morto — disse ela, sem emoção alguma. — Então acabou a paciência. Vermeer: reúna o exército. Destruam o Santuário de Atena.

E, na Casa de Libra, Dohko se levantou devagar, ainda ferido, ainda com o rosto molhado.

Ele tinha entendido, ouvindo a confissão do amigo, qual era o dever que Suikyo tinha carregado sozinho durante todo aquele tempo. E tinha entendido, também, que agora esse dever era dele.

— Não tem outro jeito — disse Dohko, olhando para o alto do Santuário. — Para terminar o que ele começou… eu vou ter que trair Atena.


O Fim do Volume 8

Este foi o volume da despedida.

Suikyo morreu como viveu: sem contar a ninguém o peso que carregava, até que um velho amigo o obrigasse a falar. Ele trocou a própria honra pela vida do irmão, atravessou uma guerra inteira sendo chamado de traidor, escolheu a Porta da Morte para poder avisar o Santuário do perigo que vinha — e só no último instante, morto, é que a armadura das trevas finalmente o soltou.

E o menino que ele treinou estava lá para vesti-lo com a armadura certa.

Se você lembrar de uma coisa só deste volume, que seja esta: às vezes, a pessoa mais leal de todas é justamente aquela que todo mundo passou a vida inteira chamando de traidora.

Fim do Volume 8. No próximo volume, o exército de Hades marcha sobre o Santuário — e Dohko toma uma decisão que ninguém vai entender.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.