Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.
Havia uma coisa acontecendo com Atena que ninguém tinha percebido ainda.
Quando Cronos a mandou para o passado, ele mexeu na idade dela por travessura, e ela chegou ao Santuário como um bebê indefeso. Mas o tempo, dentro dela, não tinha parado.
Ele estava correndo. Rápido demais.
Dia após dia, aquela criança carregada nos braços de Shijima crescia — não no ritmo de uma criança normal, mas no ritmo de alguém cujo relógio interno foi quebrado e agora gira sem freio. Ela aprendeu a sentar. Depois a ficar de pé. Depois a andar.
E, quando finalmente aprendeu a falar, a primeira coisa que ela disse foi um juramento.
— Eu vim aqui para salvar uma vida — sussurrou a menina, olhando para as próprias mãos pequenas. — E eu não vou embora deste tempo sem cumprir o que prometi. Nem que eu tenha que atravessar o Santuário inteiro sozinha. Nem que me custe tudo.
Ela ainda era pequena. Ainda estava fraca. E o prazo de três dias que Cronos tinha concedido continuava correndo, implacável, do outro lado do tempo, onde Seiya dormia numa cama.
Mas havia um problema que ninguém tinha previsto — nem Cronos, nem Atena, nem os Cavaleiros de Ouro.
Duas Atenas não podem existir no mesmo mundo ao mesmo tempo.
E, naquele momento, existiam: a Atena daquela era, e a Atena vinda do futuro. Duas deusas idênticas ocupando o mesmo pedaço de tempo, como duas pessoas tentando pisar no mesmo degrau.
O tempo não aguentou.
Uma rachadura se abriu — uma brecha fina, silenciosa, invisível — bem no meio do espaço e do tempo. E, por essa rachadura, coisas que estavam trancadas havia eras começaram, devagar, a escorrer de volta para o mundo.
Foi por essa brecha que a serpente entrou.
Na Casa de Leão, Ikki encarava Kaiser.
— Você quer passar? — disse o Cavaleiro de Ouro. — Então prove. A prova é simples: chegue até onde eu estou. Só isso.
— Só isso — repetiu Ikki.
— Raio de Luz!
O soco veio na velocidade da luz. Ikki foi arremessado para trás e bateu contra uma coluna com um estrondo.
— Não adianta — disse Kaiser. — Meus golpes viajam na velocidade da luz. Ninguém atravessa isso.
Mas Ikki se levantou.
Cambaleando, sangrando, mas de pé — e sem ferimento mortal nenhum, o que era simplesmente impossível.
Kaiser franziu a testa.
— Como…?
— Porque eu já vi esse golpe antes — respondeu Ikki, cuspindo sangue. — No meu tempo, existe um Cavaleiro de Leão chamado Aiolia. Eu conheço a batida desse punho. Conheço o ritmo dele.
Kaiser sentiu, pela primeira vez, um respeito de verdade por aquele garoto de bronze.
— Então venha com tudo — disse Ikki. — Não se segure. Se você se segurar, eu vou me ofender.
Kaiser acendeu o cosmo até o teto.
— RELÂMPAGO DE PLASMA!
Centenas de socos na velocidade da luz atingiram Ikki de uma vez só, e o corpo dele foi engolido por um clarão branco.
E, no meio daquele clarão, uma voz gritou:
— Kaiser, para! Você vai matar o seu próprio sucessor!
Era o Contador da Morte.
Kaiser congelou no meio do golpe.
— O quê?
— Você ouviu. Esse garoto aí vai herdar a Armadura de Ouro de Leão no futuro. É ele. É esse aí que você está espancando.
Kaiser olhou para Ikki de um jeito completamente diferente.
— Você é amigo daquele garoto de cabelo verde? Do Shun?
— Amigo, não — respondeu Ikki, se erguendo devagar. — Ele é meu irmão.
Kaiser assentiu lentamente, absorvendo aquilo.
— Mesmo assim — disse ele — a prova continua de pé. Se você é mesmo meu sucessor, então chegue até aqui. Por conta própria. Sem que ninguém peça por você.
E disparou.
— RAIO DE LUZ!
Ikki não desviou. Ele plantou os pés no chão, ergueu os braços, e queimou tudo o que ainda restava dentro dele.
— AVE FÊNIX!
Fogo contra luz. As duas técnicas se encontraram no meio do salão e se anularam exatamente na metade, num empate perfeito, e a onda de choque sacudiu as colunas da Casa de Leão.
Kaiser arregalou os olhos.
— Você tinha esse poder o tempo todo. Por que não usou antes?
— Porque o inimigo de verdade ainda está por vir — respondeu Ikki, ofegante. — E, quando ele chegar, eu quero ter o que sobrou.
Kaiser ficou olhando para ele por um longo momento.
E, então, atravessou a distância entre os dois num piscar de olhos, encostou o dedo num ponto exato no corpo de Ikki — um dos pontos vitais estelares — e o pressionou.
O ferimento de Ikki fechou.
— Passe — disse Kaiser de Leão. — E, quando chegar a sua hora, cuide bem da minha armadura.
Enquanto isso, do outro lado do Santuário, Shijima caminhava com a pequena Atena ao lado, subindo em direção à Casa de Peixes.
E o caminho inteiro estava coberto de rosas vermelhas.
— Não pise nelas — avisou Shijima. — São Rosas Demoníacas. O perfume delas mata.
— Elas não estão aqui por causa do Cardinale — disse Atena, calmamente. — Estão aqui porque o próprio Santuário me considera uma inimiga agora. As rosas estão me atacando sozinhas.
E, então, ela deu um passo à frente.
— Atena, não!
Mas algo extraordinário aconteceu.
A rosa que ela pisou perdeu a cor. O vermelho escorreu dela como tinta na chuva, e ela ficou branca — completamente branca, inofensiva, limpa.
Atena deu outro passo. Outra rosa embranqueceu. E outra. E outra.
Ela atravessou o caminho de veneno a pé, descalça, e cada flor que tocava perdia sua maldade só de encostar nela.
Shijima assistiu àquilo em silêncio, e entendeu, com o coração apertado, exatamente que tipo de criatura estava caminhando ao seu lado.
E foi bem no fim do caminho, quando o pior já parecia ter passado, que uma serpente saiu de baixo das folhas e mordeu a perna dela.
— ATENA!
Shijima a pegou no colo. A menina estava pálida, e o lugar da mordida já escurecia.
A serpente ergueu a cabeça e falou — porque aquela serpente falava.
— Meu nome é Samael. Significa "veneno de deus". — Ela deslizou pelo chão de pedra sem pressa nenhuma. — Essa criança vai morrer. E não existe remédio no mundo capaz de salvá-la.
— Mentira! — rugiu Shijima.
— Não é mentira. Existe uma pessoa capaz de curar esse veneno. Uma só. — A serpente parou e virou a cabeça. — O nome dele é Odisseu. E ele está voltando.
Shijima ficou gelado.
— Odisseu… o Cavaleiro de Serpentário?
— A Décima Terceira Casa vai reaparecer no Santuário — sibilou Samael. — E o Cavaleiro dela vai estar lá dentro, esperando. Se vocês quiserem que essa criança viva… vão ter que levá-la até ele. E aceitar as condições dele.
E, dizendo isso, a serpente sumiu — deixando para trás uma menina envenenada, um Cavaleiro desesperado, e uma armadilha perfeita.
Porque o único homem capaz de salvar Atena era exatamente o homem que queria a cabeça dela.
Em outro ponto do Santuário, o emissário da serpente sussurrava a mesma história a Shion de Áries:
— Odisseu é a reencarnação de Asclépio, o deus da cura. O mais poderoso dos oitenta e oito Cavaleiros de Atena. E ele nunca lutou, nem uma vez na vida. Ele só curou. — A serpente sorriu. — Não existe um único Cavaleiro neste Santuário que não deva a vida a ele. Nem você, Áries. Nem você.
— E mesmo assim — respondeu Shion, sem hesitar — ele quer a cabeça de Atena. Então minha resposta é não.
— Que pena — disse a serpente, se afastando. — Nós vamos matá-la de qualquer jeito.
Shijima carregou Atena até a Casa de Aquário e desabou na entrada.
Lá dentro, encontrou uma cena estranha: um Cavaleiro de Ouro de cabelos claros, e um rapaz completamente congelado, preso num bloco de gelo.
O rapaz congelado era Hyoga de Cisne.
— Ele entrou aqui dizendo que veio do futuro — explicou Mystoria de Aquário, sem emoção. — Eu não acreditei.
Shijima estendeu os braços.
— Esta criança é Atena. A verdadeira. Ela está envenenada. Leve-a até a Décima Terceira Casa, até Odisseu, ou ela morre.
Mystoria estendeu a mão para pegar a menina — e o braço dele congelou no meio do caminho.
Ele se virou, atônito.
Hyoga tinha se libertado do próprio bloco de gelo.
— Me entregue a Atena — disse o Cavaleiro de Cisne.
— Ela me foi confiada.
— Então eu vou levá-la à força.
— PÓ DE DIAMANTE!
Mystoria deteve o golpe com uma mão, quase entediado.
— Que frio fraquinho. Você usa técnicas de ar congelado? Curioso. Mas ainda é uma brincadeira de criança perto do que eu faço.
Ele ergueu os braços, unindo-os na forma de um cântaro.
— EXECUÇÃO AURORA!
Uma aurora de gelo, capaz de congelar até os átomos, varreu o salão em direção a Hyoga.
E Hyoga a bloqueou.
Mystoria ficou paralisado de espanto.
— Impossível…
— A mesma técnica não funciona duas vezes contra um Cavaleiro — disse Hyoga, ofegando. — E eu já vi essa. Muitas vezes. Foi o meu mestre quem me ensinou.
— Seu mestre?!
— O nome dele é Camus. — Hyoga ergueu os olhos. — E ele é o seu sucessor. O Cavaleiro de Ouro de Aquário do meu tempo. Ele me ensinou essa técnica… e morreu para me ensinar.
O rosto de Mystoria mudou. A arrogância sumiu, e no lugar dela veio outra coisa: curiosidade. Talvez esperança.
— Você já ouviu falar do zero absoluto, garoto?
— Já.
— É a temperatura mais baixa que pode existir no universo. O ponto em que tudo para de se mover. — Ele apontou para a própria armadura dourada. — Só alcançando o zero absoluto é possível congelar a Armadura de Aquário. Ninguém nunca conseguiu.
Ele encarou Hyoga nos olhos.
— Congele a minha armadura. Se conseguir, eu entrego Atena a você e acredito em cada palavra que você disse.
Hyoga assumiu a posição.
Os dois ergueram os braços exatamente do mesmo jeito, na mesma pose, com dois séculos de distância entre eles.
— EXECUÇÃO AURORA!
— EXECUÇÃO AURORA!
As duas auroras se encontraram no meio da Casa de Aquário, e o mundo ficou branco.
O frio daquele choque foi tão absoluto, tão além de qualquer coisa humana, que o Cavaleiro de Capricórnio sentiu o arrepio de dentro da própria casa, casas de distância dali.
Quando a luz baixou, Hyoga estava caído no chão, sem uma gota de força sobrando.
E a Armadura de Aquário estava coberta de gelo.
Mystoria olhou para a própria armadura congelada por um bom tempo, em silêncio.
Depois se ajoelhou ao lado do garoto caído, encostou o dedo num ponto do corpo dele e o pressionou. Hyoga voltou a respirar direito.
— Por que você não usou todo o seu poder? — perguntou Mystoria.
— Porque, se eu usasse tudo, eu podia matar o senhor — respondeu Hyoga. — E o senhor não é meu inimigo.
Mystoria balançou a cabeça devagar.
— Essa gentileza um dia vai te matar, garoto. — Ele fez uma pausa. — Mas eu entendo agora por que o meu sucessor escolheu você.
Ele pegou a pequena Atena com cuidado e a colocou nos braços de Hyoga.
— Leve-a. Eu confio em você, futuro Cavaleiro de Aquário.
Hyoga se levantou com a menina no colo.
— Uma última coisa — disse Mystoria. — Eu acreditei em você. Mas o próximo é Izô, de Capricórnio. E convencer aquele homem vai ser bem mais difícil do que congelar uma armadura.
Serpentes começaram a surgir das frestas do chão, deslizando na direção dos dois.
Mystoria nem se virou.
— KHOLODNYI SMERCH!
Um vórtice de ar congelante varreu o salão e transformou todas elas em pó de gelo.
E o Cavaleiro de Aquário ficou ali sozinho, olhando para a própria armadura coberta de neve, com uma pergunta que ele não conseguia responder:
A quem nós devemos lealdade, agora? A Atena? Ou a Odisseu de Serpentário?
E foi então que o céu começou a se mexer.
Não as nuvens. As estrelas.
Mystoria saiu para fora e olhou para cima, e o que viu o deixou sem ar. Não era só a Terra que estava desalinhada. Era o Sol. Eram as outras estrelas. Era o movimento inteiro da Via Láctea, todos os corpos celestes da galáxia, saindo lentamente de suas órbitas, como um relógio gigantesco cujas engrenagens começaram a escorregar.
Porque duas Atenas no mesmo tempo é uma coisa que o universo não perdoa.
Na Casa de Gêmeos, Abel sentiu aquilo e sorriu.
— Uma catástrofe cósmica. Que providência divina maravilhosa. — Ele olhou para o alto do Santuário. — Vai ser a oportunidade perfeita para eu tomar este lugar para mim.
Na Casa de Libra, Dohko continuou subindo, com o rosto duro.
— Então era isso. Era isso que o Suikyo tinha visto. — Ele apertou os punhos. — Se Atena morrer, a catástrofe para. É por isso que ela precisa morrer. Não tem outro jeito.
E, na Casa de Capricórnio, a serpente Samael tentava a mesma conversa de sempre.
— Jure lealdade a Odisseu, Izô. Ele salvou a sua vida. Ele salvou a vida de todos vocês.
Izô de Capricórnio nem olhou para ela.
— Eu não devo nada a Odisseu. Eu treinei no Japão. Eu sigo o bushidô. E, no bushidô, um homem tem um único soberano na vida inteira.
Ele ergueu a mão, e o braço dele brilhou como uma lâmina.
— O meu é Atena. — EXCALIBUR!
O corte partiu a serpente ao meio.
E foi exatamente nesse instante que Hyoga entrou na Casa de Capricórnio, com uma menina envenenada nos braços e o céu desmoronando lá fora.
— Cavaleiro de Capricórnio — ele disse. — O tempo está ficando estranho. Muito estranho. E nós precisamos chegar à Décima Terceira Casa antes que seja tarde demais.
Este volume é sobre reconhecimento.
Kaiser reconheceu Ikki. Mystoria reconheceu Hyoga. Dois Cavaleiros de Ouro de duzentos e quarenta anos atrás olharam para dois garotos de bronze vindos do futuro e enxergaram, dentro deles, os herdeiros das próprias armaduras. Nenhum dos dois precisou ser derrotado para acreditar — os dois precisaram apenas ver.
E é sobre uma armadilha perfeita: o único homem no mundo capaz de salvar Atena do veneno é justamente o homem que quer matá-la.
Guarde essa pergunta para os próximos volumes, porque ela é o coração de tudo o que vem por aí: o que você faz quando a única pessoa que pode te salvar é a mesma que quer te destruir?
Fim do Volume 10. No próximo volume, a Décima Terceira Casa finalmente reaparece no Santuário.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.
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