Volume 14: O Poço do Tártaro

Capa do Volume 14: O Poço do Tártaro
Volume 14 · O Poço do Tártaro

Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.

Capítulo 1 — As Estrelas Fora de Lugar

Muitos anos antes de tudo isso, no alto de Star Hill, o Grande Mestre do Santuário observava o céu com um telescópio antigo — e o que via não fazia sentido nenhum.

— Olhe isto — disse ele a Odisseu, que na época era apenas um Cavaleiro de Prata. — Marte e Saturno alinhados a Gêmeos. Júpiter e Urano a Virgem. Marte e Vênus a Peixes.

Odisseu olhou. E ficou pálido.

— E o Sol e a Lua vão se alinhar a Serpentário.

— Exatamente. — O Grande Mestre baixou o telescópio. — Todas as constelações se curvando diante da décima terceira. Isso nunca aconteceu na história do universo.

Odisseu levou a mão ao peito.

— É ele. É Asclépio. Ele está tentando sair.

— Isso é impossível — respondeu o Grande Mestre, com firmeza. — Asclépio está selado na Prisão do Tártaro desde a era mitológica. Ninguém escapa de lá. Provavelmente é obra da própria Atena.

— E se não for? — Odisseu olhou para as próprias mãos. — E se um dia eu… e se eu me tornar um traidor sem querer?

O Grande Mestre não tinha resposta para aquilo.


Capítulo 2 — A Espada de Khrysos

De volta ao presente, na sala do Grande Mestre, uma batalha estava em curso.

AVE FÊNIX!

Ikki lançou seu golpe mais forte, e a onda de fogo em forma de asas varreu o salão.

E não adiantou nada.

Ikki foi arremessado para trás e bateu com as costas na base da grande estátua de Atena, tossindo sangue.

O Grande Mestre — ferido, exausto, no fim das próprias forças — arrastou-se até ele carregando alguma coisa nas mãos.

Uma adaga dourada.

— Escute, garoto de bronze — disse o velho, com a voz falhando. — Isto aqui é a Espada de Khrysos. A Adaga Dourada. É uma arma antiga, forjada com um único propósito: matar deuses.

Ikki olhou para a lâmina.

E era a mesma.

Era exatamente a mesma adaga que aquele homem tinha erguido sobre um bebê recém-nascido, meses antes, no alto daquele mesmo palácio — a adaga que o Shijima tinha segurado no ar com a própria mão para impedir.

— Por que está me dando isso?

— Porque não sobrou mais ninguém.

O Grande Mestre tossiu, e demorou para conseguir continuar.

— Escute com atenção, porque eu não vou ter forças para repetir. Existem duas Atenas neste mundo agora. A desta era, e a que veio do futuro. E o universo não foi feito para aguentar isso.

Ele apontou com a cabeça para a janela, onde o céu estava errado.

— É por isso que as estrelas estão saindo do lugar. É por isso que o tempo está rachando. Não é obra de Hades, nem de Asclépio. É só a consequência de duas deusas ocupando o mesmo espaço.

Ikki apertou o cabo da adaga.

— E se uma delas morrer?

— Aí para. — A voz do velho saiu num fio. — Aí tudo para, e o mundo continua girando como sempre girou.

Ele colocou a adaga nas mãos do garoto.

— Eu tentei fazer isso sozinho lá atrás, e me chamaram de traidor. Talvez fosse. Não sei mais. — Ele fechou os olhos. — Mas, se tudo der errado, se não houver mais nenhuma saída… é você quem vai ter que matar Atena.

E, dizendo isso, o Grande Mestre do Santuário caiu em sono profundo, como todos os outros.

Ikki ficou sozinho no salão, segurando uma faca capaz de matar deuses, com o peso de uma missão que ele nunca quis.


Capítulo 3 — O Poço do Tártaro

Enquanto isso, dentro dos Quatro Portões de Buda, Odisseu sonhava.

E, no sonho, ele voltou a um tempo em que ainda era apenas um médico do Santuário.

Alguém bateu à porta da sua casa naquela noite. Era um jovem Cavaleiro de Prata, com um garoto muito pálido nos braços.

— Por favor — disse Suikyo. — É meu irmão. O nome dele é Suishō.

Odisseu examinou o menino com cuidado, preparou um remédio e entregou.

— Isso vai segurar por enquanto. Volte hoje à noite; até lá eu preparo um medicamento mais forte.

Suikyo voltou à noite.

E não encontrou ninguém.

A casa estava vazia, a luz apagada, os frascos intocados. Estranhando, ele saiu procurando pelo Santuário. Atravessou o cemitério onde tantos Cavaleiros estavam enterrados. Passou por uma área proibida, onde ninguém deveria pisar.

E, num descuido, o chão cedeu sob seus pés.

Suikyo caiu numa caverna.

E, lá no fundo dela, encontrou Odisseu parado diante de um poço muito antigo, olhando para dentro dele como quem escuta alguém chamar pelo nome.

— Odisseu?

Foi então que aquilo saiu do poço.

Uma serpente enorme, feita de escuridão, com olhos que não eram de animal nenhum. Ela se lançou sobre Odisseu, envolvendo-o, tentando entrar nele.

SOLTE ELE!

Suikyo atacou com tudo o que tinha e conseguiu arrancar a criatura de cima do médico.

Os dois ficaram no chão, ofegantes, enquanto a serpente recuava de volta para as profundezas do poço.

— O que era aquilo?! — perguntou Suikyo.

Odisseu demorou a responder.

— Asclépio. O deus da medicina. Ele foi jogado neste poço na era mitológica pela própria Atena, por ter querido ser mais do que devia. — Ele encarou o poço. — E ele quer o meu corpo.

— Então nunca mais volte aqui!

— Não adianta. — Odisseu balançou a cabeça devagar. — Ele já me encontrou. É só uma questão de tempo até que consiga.

E, nesse ponto, Odisseu acordou.

Ele estava atravessando os Quatro Portões de Buda, envelhecido e doente pelo próprio atrevimento — mas atravessou. E seguiu, sem parar, em direção à Casa de Serpentário.


Capítulo 4 — Possessão

O sonho continuou nas lembranças dele enquanto caminhava.

Suikyo o tinha encontrado desmaiado ao lado do poço, mais tarde, e o carregado de volta para casa.

E, quando ele acordou, contou a verdade ao Grande Mestre e a Suikyo.

— A Atena do futuro vai vir para cá — disse Odisseu.

— Do futuro?

— Ela vai atravessar o tempo por um motivo pessoal. Para salvar a vida de um único Cavaleiro de Bronze. — Ele fechou os olhos. — E, por isso, a Atena desta era não vai se manifestar. Não pode haver duas.

Foi então que ele fez o pedido mais terrível da sua vida.

— Suikyo. Escute com atenção. — Ele segurou o braço do amigo. — Se algum dia você perceber qualquer mudança em mim… qualquer coisa estranha… me mate. Sem hesitar. Sem falhar.

— Odisseu…

— Prometa.

E, mais tarde, Odisseu voltou sozinho ao Poço do Tártaro.

A serpente já estava esperando por ele, animada.

— Como você imaginou que conseguiria ressuscitar? — perguntou Odisseu. — Você está selado aqui desde o começo dos tempos.

E Asclépio respondeu:

— Porque a Atena do futuro vai cruzar o espaço-tempo para salvar um Cavaleiro de Bronze. E, quando ela fizer isso, a ordem do universo vai se romper. As deformações vão abrir uma rachadura tão grande que nem os deuses conseguirão fechar. — A serpente sorriu. — Eu apenas apressei as coisas. Vou ressuscitar. E vou substituir Atena.

E completou:

— Quando a minha alma e o corpo dele estiverem fundidos pela metade, o Décimo Terceiro Cavaleiro de Ouro renascerá.

E se lançou sobre Odisseu.

Dessa vez, ninguém o arrancou de lá.


Capítulo 5 — Sasha

Odisseu chegou à Casa de Libra e encontrou Tenma dormindo no chão.

Ele ia passar direto. Mas o garoto, dormindo, sussurrou um nome.

— Suikyo…

Odisseu parou.

E, movido por uma curiosidade que ele não soube explicar, encostou os dedos na testa do menino e espiou o sonho dele.

E o que ele viu foi isto:

Uma cidade chamada Florença, muitos anos antes. Três pessoas chegando pelas ruas de pedra — um homem alto de olhar sério, e dois meninos correndo à frente dele.

Suikyo abriu ali uma loja de ferramentas.

E Tenma e Alone correram até uma casa modesta, onde uma menina estava deitada na cama, cansada, como andava cansada havia tempos.

O nome dela era Sasha.

— Olha! — Tenma entrou esbaforido, com as mãos cheias. — Eu trouxe maçãs pra você!

Sasha virou o rosto, desconfiada.

— Você roubou.

— Não roubei nada!

— Roubou sim. Não quero.

— Ele não roubou — disse Alone, entrando atrás com aquele jeito calmo de sempre. — Eu estava junto. O homem da barraca deu, porque o Tenma ajudou a carregar as caixas dele a manhã inteira.

Sasha olhou para Tenma. Tenma olhou para o chão, vermelho até as orelhas.

E ela pegou a maçã.

Os dias passaram assim, dentro daquele sonho. Tenma ajudava Suikyo na loja de manhã, estudava à tarde e treinava luta ao anoitecer — chuva ou sol, sem falhar um único dia, sem fazer a menor ideia de que estava, na verdade, treinando para se tornar um Cavaleiro.

E Alone começou a estudar pintura.

O menino que sabia desenhar antes de saber escrever encheu a casa de telas. E, quando alguém na rua caçoava dos quadros dele, era Tenma quem partia para a briga na hora, sem pensar duas vezes.

Odisseu retirou os dedos da testa do garoto adormecido.

E ficou parado ali, no silêncio da Casa de Libra, olhando para o menino que Suikyo tinha deixado para trás.


Capítulo 6 — Debaixo das Estrelas

Tenma acordou de repente.

E, ao ver o homem de armadura dourada parado diante dele, se levantou de um salto.

— Quem é você?

— Odisseu de Serpentário.

— Você é aliado ou inimigo da Atena?

— Eu vim matá-la.

Tenma não hesitou nem meio segundo.

METEORO DE PÉGASO!

Centenas de socos cortaram o ar de uma vez só, cada um deles carregado com toda a raiva e todo o cansaço acumulados desde que ele tinha começado a subir aquelas escadarias.

Odisseu não desviou de nenhum. Ele simplesmente ficou onde estava, e os meteoros se apagaram ao tocá-lo, como fagulhas caindo na água.

— Você é forte, garoto. De verdade.

— Então luta!

— Não. — Odisseu olhou para ele com uma expressão estranha. — Eu não vou lutar com você.

— Por quê?!

— Porque você é o homem que Suikyo deixou para trás.

Tenma parou no meio do golpe seguinte, o punho tremendo no ar.

— Você… conheceu meu mestre?

— Conheci. — Odisseu ergueu os olhos para o céu quebrado do Santuário, onde as estrelas continuavam saindo de suas órbitas, uma a uma. — Ele foi a última pessoa neste mundo em quem eu confiei.


Capítulo 7 — Aquele em Quem Confiei

E, então, Odisseu contou a Tenma o que ninguém mais sabia.

Contou do menino doente que ele não conseguiu salvar. Do pedido que fez ao amigo — se eu mudar, me mate — e de como o amigo não conseguiu cumprir.

Contou que, depois de possuído por Asclépio, ele passou anos lutando por dentro, tentando não deixar aquilo tomar conta, enquanto ninguém à sua volta percebia nada.

E contou do dia em que soube que Suikyo tinha se tornado Espectro de Hades.

— Todos disseram que ele era um traidor. — A voz de Odisseu ficou dura. — Eu sabia que não era. Eu sabia exatamente o preço que ele tinha pagado, e por quê. Mas eu não pude dizer nada a ninguém.

Ele olhou para Tenma.

— Nós dois passamos a vida sendo chamados de traidores por gente que devia a vida a nós.

Tenma sentiu as lágrimas subirem e não fez nada para contê-las.

— Ele morreu — disse o garoto. — Meu mestre morreu na Casa de Libra. Aqui mesmo. Nesse chão.

Odisseu olhou para as pedras sob seus pés e ficou em silêncio por um longo, longo tempo.

E, quando falou de novo, foi para dizer:

— Ele foi para o Mundo dos Mortos. E ainda está a caminho.


Capítulo 8 — A Princesa Adormecida

No coração da Décima Terceira Casa, dentro de um casulo translúcido, a menina continuava dormindo.

O veneno de Samael não avançava mais — mas também não recuava. Ela não morria, e não acordava. Ficava ali, parada no meio do caminho entre uma coisa e outra, como uma princesa de história antiga esperando alguém que talvez nunca chegasse.

Hyoga estava sentado ao lado do casulo, sem sair dali havia horas.

Shiryu chegou pelo outro lado, ferido, com sete marcas de agulha no corpo.

— E ela?

— Igual. — Hyoga não tirou os olhos do casulo. — Só existe uma pessoa capaz de curar isso.

— E essa pessoa está subindo as escadarias agora mesmo — completou Shiryu — para matá-la.

Os dois ficaram em silêncio.

Lá fora, o céu continuava se desmanchando. As estrelas saíam de lugar. O Sol e a Lua se aproximavam, lentamente, do alinhamento com a décima terceira constelação — aquele alinhamento que nunca deveria acontecer.

E, do lado de fora da casa, os passos de Odisseu se aproximavam, um a um, subindo o último trecho da escadaria.

Ikki apertou a Espada de Khrysos na mão, no salão vazio do Grande Mestre.

Tenma começou a correr atrás de Odisseu.

E, muito abaixo de tudo, na fronteira cinzenta entre os vivos e os mortos, algo se moveu — algo que tinha morrido na Casa de Libra e que, mesmo morto, ainda não tinha terminado de caminhar.


O Fim do Volume 14

Neste volume, a história finalmente conta o que estava escondido desde o começo.

Odisseu não ressuscitou querendo matar Atena. Odisseu foi tomado. Um deus antigo, jogado num poço pela própria Atena na era mitológica, esperou milhares de anos por uma brecha — e a brecha se abriu exatamente quando uma garota do futuro atravessou o tempo por amor a um amigo.

E repare no detalhe mais cruel de todos: o homem sabia. Ele sentiu chegando. Ele chegou a pedir ao melhor amigo que o matasse antes que fosse tarde.

O amigo não conseguiu.

E os dois, cada um do seu jeito, passaram o resto da vida sendo chamados de traidores por gente que devia a vida a eles.

Fim do Volume 14. Faltam dois volumes para o fim desta história.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.