Passado Presente Futuro · Saga de Asgard
Episódio 9: A Espada, a Armadura e a Mulher que Rezava

Capítulo 1 — Sete Pedras Azuis
Os cinco Cavaleiros de Bronze saíram do Palácio Valhalla e caminharam até a grande praça de pedra onde ficava a estátua de Odin.
Ela era enorme. Uma figura de guerreiro esculpida em rocha escura, com um elmo antigo e o rosto olhando para o horizonte de neve, parada ali havia mais séculos do que qualquer um sabia contar.
E, no elmo dela, havia sete encaixes vazios.
Sete buracos redondos, do tamanho exato de uma pedra que eles carregavam no bolso.
Seiya abriu a mão.
Sete safiras azuis brilhavam ali.
— Uma para cada um — disse Shun, baixinho.
E eles as colocaram, uma por uma.
A do Thor, o gigante que roubava comida para as aldeias famintas.
A do Fenrir, o menino criado por lobos.
A do Hagen, que treinou num vulcão por amor.
A do Mime, que só descobriu no fim que era amado.
A do Alberich, que sabia de tudo e ficou calado.
A dos gêmeos, que se reencontraram tarde demais.
E, por último, a do Siegfried, entregue por ele mesmo antes de sumir no céu.
Quando a sétima entrou no lugar, a estátua começou a brilhar.
Capítulo 2 — Balmung
A terra tremeu.
Da mão de pedra da estátua, uma coisa se soltou — uma espada gigantesca, presa ali havia séculos, que agora flutuava no ar girando devagar, envolta numa luz azulada.
Balmung. A espada sagrada de Odin.
E, junto com ela, veio outra coisa.
Uma armadura desceu do céu em pedaços de luz. Não era como nenhuma das que os Cavaleiros conheciam — era antiga, dourada e branca, com asas nas costas e a marca de Odin no peito.
Ela girou no ar acima dos cinco garotos e parou diante de Seiya.
— Por quê… eu? — ele murmurou.
“Porque foi você que subiu até aqui.”
A voz veio de todos os lados e de lugar nenhum, funda como uma montanha falando.
“Sete dos meus guerreiros caíram nessa montanha. Cada um deles acreditava estar me servindo. Cada um deles estava errado.”
A armadura se abriu.
“Vá. Quebre o anel. Devolva a minha sacerdotisa.”
E a Armadura de Odin se fechou ao redor do corpo de Seiya de Pégaso.
Ele sentiu uma força entrar nele que não era dele — velha demais, grande demais — e a espada Balmung voou até sua mão.
— Seiya… — Hyoga arregalou os olhos. — Você está brilhando.
— Eu sei. — Seiya olhou para a porta do palácio no alto. — Esperem aqui. Isso aqui eu preciso terminar sozinho.
Capítulo 3 — A Sala Mais Alta
Hilda estava sentada no trono, sozinha, na sala mais alta do Valhalla.
Ela ergueu o rosto quando a porta se abriu, e não pareceu nem um pouco surpresa.
— Então você venceu todos eles.
— Não venci ninguém — respondeu Seiya. — Eles morreram por causa de um anel que não é seu.
— O anel é meu.
— Não é. — Ele deu um passo à frente. — E, no fundo, você sabe disso.
Hilda se levantou do trono.
E aquilo que estava dentro dela se acendeu junto — uma aura escura, pesada, que fez as tochas da sala se apagarem todas de uma vez.
— Eu sou a senhora de Asgard.
— A senhora de Asgard rezava todos os dias para o gelo não derreter — disse Seiya. — Isso aí que você virou não rezou uma vez sequer.
E ela atacou.
Capítulo 4 — A Coisa Dentro do Anel
Não foi uma luta comum, porque Seiya não podia machucá-la.
Ele não estava ali para vencer a Hilda. Estava ali para tirar uma coisa de dentro dela — e essa é a luta mais difícil que existe.
Então ele apanhou.
Hilda ergueu a mão, e o anel no dedo dela brilhou com aquela luz roxa e doentia.
E as sombras da sala obedeceram.
Elas se soltaram do chão e das paredes como panos molhados, se enrolaram nos braços e nas pernas de Seiya e o puxaram para baixo, prendendo-o de joelhos no meio do salão. Não era gelo, não era fogo, não era cosmo de guerreiro — era uma coisa mais velha que isso, que vinha de dentro da joia e não da mulher que a usava.
— Eu sou a senhora de Asgard — repetiu Hilda, e a voz saiu dupla, como se duas pessoas falassem ao mesmo tempo.
Seiya forçou os ombros contra as sombras e conseguiu um braço livre.
A Balmung brilhou na mão dele — e a luz da espada de Odin fez as sombras recuarem, chiando como água caindo em brasa.
Ele se levantou. E não atacou.
— Por que você não luta?! — gritou Hilda.
— Porque eu vim buscar você.
— EU NÃO PRECISO SER BUSCADA!
Ela atacou de novo, e de novo, e de novo — e cada vez que Seiya se recusava a revidar, ele levava mais um golpe e caía mais uma vez.
E foi então que ele percebeu uma coisa.
A voz.
Ela estava gritando com raiva demais para quem estava vencendo. Ninguém grita assim quando está no controle.
Ela está brigando comigo por fora… e brigando com o anel por dentro.
Ele se levantou pela última vez, com a Balmung nas duas mãos.
— Senhorita Hilda! — gritou. — A Freya está aqui!
Hilda hesitou.
Meio segundo. Nada mais que isso.
— A sua irmã atravessou o mundo por você! Ela chorou por você na frente de estranhos! Ela nunca desistiu nem um dia!
— Cala a boca…
— O THOR MORREU ACREDITANDO EM VOCÊ! — Seiya ergueu a espada. — TODOS OS SETE MORRERAM ACREDITANDO EM VOCÊ! E EU VIM AQUI PORQUE ELES NÃO ESTAVAM ERRADOS!
E avançou.
Capítulo 5 — O Anel se Quebra
A Balmung desceu.
Não contra Hilda — contra a coroa escura na cabeça dela e contra a mão onde o anel estava.
Houve um clarão branco que encheu a sala inteira.
E, no meio dele, um som pequeno e nítido, como vidro quebrando.
Clac.
O Anel dos Nibelungos se partiu ao meio.
E aquilo que estava dentro dele saiu gritando — uma sombra que se contorceu no ar, tentou se agarrar em alguma coisa e se desfez.
Hilda caiu de joelhos.
Ficou ali um tempo, respirando fundo, com as mãos no chão.
E, quando ergueu o rosto, os olhos dela eram outros.
Eram cansados, e assustados, e humanos.
— Onde… — a voz saiu fraquinha. — Onde eu estou?
Capítulo 6 — O que Ela Fez
Seiya se ajoelhou ao lado dela e a segurou pelos ombros.
— Está tudo bem. Acabou.
E, então, a memória voltou.
Toda de uma vez.
Hilda arregalou os olhos, e o rosto dela foi ficando cada vez mais branco à medida que ela lembrava do que tinha feito.
As ordens que deu. A guerra que declarou. A irmã que mandou trancar numa masmorra. E os sete guerreiros — os sete meninos e homens que ela conhecia pelo nome, que ela mesma tinha escolhido, que morreram um por um numa montanha achando que estavam protegendo ela.
— Não. — Ela levou as mãos à boca. — Não, não, não…
— Senhorita Hilda…
— O que foi que eu fiz?
Ela chorou de um jeito que dava dó de ver.
— Eu mandei eles. Eu mandei todos eles. O Siegfried… o pequeno Hagen, eu conheço ele desde criança…
Seiya não soltou os ombros dela.
— A senhora não mandou ninguém — ele disse, com firmeza. — Quem mandou foi aquele anel. Eles morreram por uma mentira. Mas eles morreram sendo leais à senhora de verdade — não a essa coisa que estava aqui dentro.
Hilda ergueu os olhos molhados.
— Isso deveria me consolar?
— Não. — Seiya balançou a cabeça. — Mas é a verdade, e eles mereciam que alguém dissesse.
Capítulo 7 — A Oração
Hilda se levantou.
Ela pegou a espada Balmung do chão — e, sem pensar, segurou pela lâmina, cortando a própria mão. Nem percebeu.
Depois caminhou até a sacada, cambaleando, e olhou para fora.
O mundo de Asgard estava terrível. Rios correndo onde deveria haver gelo. Rachaduras enormes nas geleiras. Água por toda parte.
E, lá longe, muito pequena no meio de tudo aquilo, uma luz dourada ainda acesa — Saori, no mesmo lugar onde tinha ficado desde o primeiro dia, segurando o degelo com o próprio corpo, sem sair dali um minuto sequer.
Hilda ficou olhando aquilo por um tempo.
— Aquela menina está fazendo o meu trabalho.
— Ela está esperando a senhora voltar.
Hilda fechou os olhos.
E, ajoelhando-se ali mesmo na sacada, com a mão cortada e o rosto molhado, a sacerdotisa de Asgard fez a única coisa que sempre soube fazer.
Ela rezou.
O cosmo dela subiu — não um cosmo de guerra, mas um cosmo quente e claro, do tipo que não machuca nada — e se espalhou pelas montanhas.
E o mundo obedeceu.
A água parou de correr. As rachaduras se fecharam. O vapor congelou no ar e caiu de volta como neve. As geleiras que estavam desabando pararam no meio do movimento e voltaram a ser montanha.
Lá embaixo, a luz dourada no meio do gelo piscou, ficou fraquinha — e se apagou devagar, aliviada.
Saori tinha aguentado até o fim.
Capítulo 8 — Duas Irmãs
Freya subiu correndo as escadas do palácio e parou na porta da sacada.
As duas se olharam.
— Irmã?
Hilda não conseguiu dizer nada. Só abriu os braços.
E Freya atravessou a sala correndo e se jogou nela, e as duas ficaram ali abraçadas por muito tempo, na sacada de um palácio vazio, com a neve caindo de novo do lado de fora.
Do outro lado, Seiya se afastou em silêncio para deixá-las em paz.
Capítulo 9 — Os Sete
Antes de irem embora, os Cavaleiros ficaram parados no alto da montanha, olhando Asgard branca de novo.
— Está bonito — disse Shun.
— Está — concordou Shiryu.
Hilda apareceu atrás deles, com o manto simples de sacerdotisa que ela usava antes de tudo aquilo começar.
— Cavaleiros de Atena.
Eles se viraram.
— Eu não tenho como pagar o que vocês fizeram. E não tenho como me perdoar pelo que eu fiz. — Ela olhou para o horizonte. — Mas eu prometo uma coisa: Asgard nunca mais vai ficar sem oração. Nem um dia. Enquanto eu viver.
Ela ergueu os olhos para o céu.
Estava anoitecendo, e a Ursa Maior começava a aparecer — as sete estrelas em fila, exatamente como sempre estiveram.
— Sete — disse Hilda, baixinho. — Um para cada estrela.
E os Cavaleiros ficaram olhando junto com ela.
Alfa, a estrela do Siegfried. Beta, a do Hagen. Gama, a do Thor. Delta, a do Alberich. Épsilon, a do Fenrir. Zeta, a dos gêmeos — e, coladinha nela, a estrelinha do Bud, que quase ninguém percebe. E Eta, a do Mime, no fim do cabo.
Todas lá. Todas as noites. Para sempre.
Capítulo 10 — A Água
E, então, quando tudo parecia ter terminado bem, alguma coisa aconteceu.
Uma sombra passou pelo céu.
Saori — que tinha acabado de se levantar do gelo, exausta, apoiada em Seiya — ergueu o rosto de repente.
— Seiya.
— O quê?
— Tem alguma coisa vindo.
O chão sob os pés dela virou água.
Não neve derretida — água do mar, subindo do nada, girando ao redor dela numa espiral que ninguém conseguiu quebrar.
— SAORI!
Seiya se jogou na direção dela e agarrou o ar.
A espiral se fechou, brilhou, e sumiu — levando Atena com ela.
Os cinco ficaram parados na neve, olhando para o lugar vazio.
E, muito longe dali, no fundo do oceano, uma voz que ninguém ouviu disse com calma:
“Enfim.”
O Fim da Saga de Asgard
Chegamos ao fim. E é bom pensar um pouco no que aconteceu aqui.
Sete guerreiros lutaram contra os nossos amigos, e nenhum deles era mau.
O Thor roubava para dar comida a quem tinha fome. O Fenrir foi abandonado quando tinha a sua idade e criado por lobos. O Hagen amava demais e escutou de menos. O Mime achava que ninguém nunca tinha gostado dele. Os gêmeos passaram a vida separados por uma superstição boba. E o Siegfried, quando enfim descobriu a verdade, usou o último minuto de vida para entregar uma pedra azul ao inimigo e pedir que ele terminasse o trabalho.
Só um deles, o Alberich, escolheu o lado errado sabendo o que fazia. E foi o único que morreu sozinho.
A pessoa que causou tudo isso nunca pisou em Asgard. Estava no fundo do mar, escolhendo a mulher mais boa daquela terra para enganar.
Então guarde esta ideia: quase ninguém neste mundo é vilão de si mesmo. Quando alguém faz uma coisa muito ruim, quase sempre tem uma história por trás — uma mágoa antiga, um medo, uma mentira em que a pessoa acreditou.
Isso não faz o errado virar certo. O Fenrir continuou errado. O Hagen continuou errado.
Mas ajuda a gente a fazer a pergunta certa quando encontra alguém difícil pela frente. Em vez de “quem é o mau aqui?”, a pergunta boa é: “o que aconteceu com essa pessoa?”
Foi essa pergunta que salvou a Hilda.
Fim da Saga de Asgard. E, no fundo do mar, uma nova história já está começando.
Boa noite, pequeno guerreiro. Essa saga acabou — mas sempre tem outra.
Adaptação do desfecho da Saga de Asgard. Último episódio.
Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Saga de Asgard do anime Os Cavaleiros do Zodíaco, da Toei Animation. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.