Passado Presente Futuro · Saga dos Céus
Episódio 13: A Música na Madrugada
Capítulo 1 — Quem é que toca música às três da manhã?
Começou na quinta-feira, pouco depois das três da manhã.
A Seika foi a primeira a acordar. Depois o Seiya. Depois a vila inteira, uma casa de cada vez, como quando uma luz acende num prédio e vai acendendo nos andares de cima.
Era música.
Vinha das ruínas do velho anfiteatro, nos arredores de Rodorio — aquele teatro de pedra meio desabado onde ninguém vai, de tão antigo.
E era bonita.
Essa é a parte que ninguém esperava: era a coisa mais bonita que qualquer um daqueles moradores já tinha escutado na vida.
Tão bonita que o padeiro saiu de casa descalço e ficou parado no meio da rua. Tão bonita que a mulher do mercado sentou na soleira e começou a chorar sem saber por quê.
Os cinco chegaram correndo.
E o Seiya parou de correr no meio do caminho, de uma vez, como se tivesse batido numa parede.
— Eu conheço essa música.
— O quê?
Ele ficou branco.
— Eu conheço essa música, Shun. Você conhece essa música.
E o Shun, parado ao lado dele na estrada escura, levou a mão à boca.
Capítulo 2 — O homem no anfiteatro
Ele estava sentado no meio do palco quebrado, nas pedras do centro, com uma lira dourada apoiada no joelho.
Cabelo comprido e escuro. Armadura prateada velha, amassada, com o desenho de uma lira no peito.
E tocava de olhos fechados.
— Orfeu — sussurrou Shun.
Os cinco pararam na beirada da arquibancada.
Porque aquele homem estava morto.
Morto fazia muito tempo. Morto no Inferno, embaixo de tudo, salvando a vida do Seiya e do Shun enquanto os dois corriam para a frente sem olhar para trás.
Orfeu de Lira. O cavaleiro que, muitos séculos antes, tinha descido vivo no mundo dos mortos atrás da mulher que ele amava — e que, quando chegou a hora, tinha ficado lá embaixo por vontade própria.
E agora ele estava ali, tocando numa ruína grega às três da manhã.
Seiya desceu dois degraus.
— Orfeu?
A música parou.
E o homem no palco levantou o rosto.
Ele estava chorando.
— Vão embora — ele disse. — Pelo amor de todos os deuses, meninos. Vão embora agora.
Capítulo 3 — “Eu não estou tocando”
— Orfeu, o que aconteceu com você?
— Não tem tempo. — A voz dele estava desesperada. — Escuta: eu não estou tocando.
— Como assim? Você está com a lira na…
— Eu não estou tocando, Seiya! — ele gritou, e os dedos dele continuavam se movendo nas cordas enquanto ele gritava. — Olha a minha mão! Eu estou mandando ela parar faz duas horas!
E os cinco olharam.
E era verdade.
O rosto dele dizia uma coisa e as mãos faziam outra. Os dedos corriam nas cordas sozinhos, rápidos, perfeitos — como se a mão fosse de outra pessoa.
— Ela me acordou — disse Orfeu, e a voz saiu rasgada. — Eu estava em paz. Eu estava em paz, vocês entendem? Depois de tudo. Eu tinha encontrado a Eurídice. A gente estava junto, e estava quieto, e estava bom.
Uma corda vibrou sozinha, alta.
— E aí uma mulher de vestido escuro apareceu lá embaixo e disse que tinha um favor para me pedir.
— E você aceitou?
— Eu disse não.
Ele apertou os dentes.
— Eu disse não três vezes. E ela sorriu, e disse: “Tudo bem, meu amor. Eu não precisava da sua resposta.”
Capítulo 4 — O Noturno
E então as mãos de Orfeu subiram sozinhas, e ele gritou:
— CORRAM!
— NOTURNO DAS CORDAS!
A música mudou.
Deixou de ser bonita e virou outra coisa: ficou aguda, fina, insistente — e, de dentro da lira, saíram fios de luz prateada que se espalharam pelo anfiteatro inteiro como uma teia.
Os fios eram finíssimos. Quase invisíveis. E cortavam pedra.
Seiya puxou o Shun pelo braço e os dois rolaram para trás de uma coluna meio segundo antes de três fios passarem exatamente onde eles estavam — e a coluna atrás deles foi cortada em quatro pedaços, limpinhos, como se fosse manteiga.
— Ele é rápido! — gritou Hyoga.
— Ele não quer ser rápido! — respondeu Shiryu. — É pior!
E era pior mesmo.
Porque um inimigo que quer te matar tem padrão, tem hesitação, tem raiva — coisas que dá para ler.
Um homem cujas mãos obedecem outra pessoa não tem nada disso. Ele é só preciso.
Capítulo 5 — A regra pesa
Ikki saltou primeiro, com o punho em chamas.
— AVE FÊNIX!
A ave de fogo atravessou o anfiteatro — e, no meio do caminho, os fios da lira se cruzaram na frente dela, vibraram todos ao mesmo tempo, e o som desmanchou o fogo no ar como vento desmancha fumaça.
Ikki caiu de pé, rosnando.
— Ele parou o meu golpe com música.
— Ele é um dos mais fortes que já existiram — disse Shiryu, de trás de uma pedra. — Ele atravessou o Inferno inteiro sozinho tocando essa lira.
Hyoga ergueu o braço.
— PÓ DE DIAMANTE!
A rajada branca voou e congelou o palco inteiro — mas os fios já tinham saído antes, e dois deles bateram no peito do Hyoga e o jogaram contra a arquibancada.
Shun estendeu as correntes.
— CORRENTE NEBULOSA!
As duas correntes voaram, enrolaram nos braços do Orfeu — e seguraram.
Por dois segundos.
Depois os fios da lira subiram por elas, vibraram, e as correntes foram arremessadas de volta.
— Ele é mais forte que a gente — disse Seiya, ofegante, atrás da coluna.
— Não é — respondeu Shiryu.
— Como não?!
E o Shiryu disse a verdade do episódio inteiro:
— A gente é mais forte. — Ele apertou o escudo. — Mas a gente não pode ganhar.
Silêncio no meio da música.
— Como é que a gente para ele sem matar ele, Seiya?
E ninguém tinha resposta.
Capítulo 6 — O que o Shun ouviu
Foi o Shun quem fez a coisa mais perigosa e mais certa.
Ele largou as correntes, levantou as duas mãos abertas e andou na direção do palco.
— SHUN! — berrou Ikki.
— Fica aí!
— Você vai morrer!
— Ele está falando! — gritou Shun, sem parar de andar. — Vocês não estão escutando porque estão prestando atenção na música! ELE ESTÁ FALANDO!
E aí todo mundo prestou atenção.
E era verdade.
Por baixo da música, por dentro dela, tinha uma voz tentando sair — e Orfeu estava repetindo a mesma frase, sem parar, havia vários minutos, com o rosto molhado:
— …me deixa voltar a dormir… por favor, me deixa voltar a dormir…
Shun parou a cinco metros dele, no meio dos fios, com os braços abertos.
— Orfeu. Eu estou aqui.
— Menino… — Os dedos dele continuaram correndo. — Menino, sai daí.
— Me diz o que você quer.
E Orfeu disse, com a voz quebrada e as mãos tocando a coisa mais linda do mundo:
— Eu quero parar.
Capítulo 7 — O dilema
Os cinco se juntaram atrás das pedras, rápido, enquanto os fios cortavam as arquibancadas em volta.
E o Hyoga falou o que ninguém queria falar.
— Tem um jeito de parar ele.
— Hyoga…
— Vocês sabem qual é. — Ele estava sério. — Ele é um morto que foi acordado. Se a gente mandar ele de volta, acaba. Ele descansa. A Eurídice está esperando. Ele até pediu.
— E o céu abre — disse Shiryu.
— É.
— Se a gente matar em nome da Atena, Hyoga, o céu abre e o Zeus apaga a Terra. Foi exatamente isso que o Apolo disse.
— Eu sei o que ele disse!
— Então você sabe que a gente não pode!
— E O QUE É QUE A GENTE FAZ, ENTÃO?! — explodiu o Hyoga, e foi a primeira vez que alguém o viu gritar daquele jeito. — A gente fica aqui atrás de uma pedra ouvindo um amigo nosso implorar?!
Um fio passou acima deles e cortou o topo da coluna.
E o Seiya, encostado na pedra, com a cara suja, de repente levantou o rosto.
— Espera.
— Espera o quê?
— Vocês estão escolhendo entre duas coisas.
— Porque só tem duas!
E o Seiya — que nunca foi o mais esperto do grupo, mas que é o único que nunca aceita a conta que o outro faz por ele — falou:
— Quem foi que disse que só tem duas?
Ele olhou para o Hyoga.
— Hyoga. Como é que o seu mestre fez com aquele navio?
E o Hyoga de Cisne ficou de boca aberta no meio do anfiteatro de Rodorio.
Capítulo 8 — O Caixão de Gelo
— Eu vou precisar de trinta segundos — disse Hyoga, já de pé. — Trinta segundos sem um fio encostando em mim.
— Você tem — respondeu Shiryu.
— Eu preciso de trinta segundos parado, Shiryu. Sem me mexer. É o golpe mais lento que existe.
Ikki estalou o pescoço.
— Então a gente te dá a parada.
E foi isso que eles fizeram.
Os quatro saíram de trás das pedras ao mesmo tempo e viraram alvo de propósito.
Seiya foi pela direita, gritando, chamando atenção:
— METEORO DE PÉGASO!
Os cem socos não foram para acertar o Orfeu. Foram para cima, na teia de fios, para picotar o que desse e obrigar a lira a refazer o desenho.
Shiryu correu pela esquerda, levantou o braço e plantou o escudo no caminho de três fios:
— ESCUDO DO DRAGÃO!
Os fios bateram, rasparam e desviaram com um chiado horrível.
Shun jogou as duas correntes em cruz na frente do Hyoga, formando uma grade:
— CORRENTE NEBULOSA!
E Ikki simplesmente entrou na frente de tudo, de braços abertos, e deixou dois fios acertarem a armadura dele — porque às vezes a defesa mais eficiente do mundo é um Fênix teimoso parado no caminho.
— ANDA, PATO! — ele berrou.
E o Hyoga, parado no meio daquilo, fechou os olhos.
O ar em volta dele começou a ficar branco.
Não foi um golpe de ataque. Não teve explosão, não teve rajada, não teve estrondo.
Foi o contrário: tudo começou a ficar quieto.
A temperatura do anfiteatro despencou. O vapor da respiração de todo mundo virou cristal e caiu no chão. As gotas de orvalho das pedras viraram contas de gelo.
E o Hyoga sussurrou, com a voz do mestre dele na cabeça:
— CAIXÃO DE GELO.
Capítulo 9 — O silêncio
O gelo subiu do chão do palco devagar.
Não atacou. Não bateu. Subiu como água enchendo um copo — pelos pés, pelas pernas, pelo tronco, com uma delicadeza que não combinava nada com o tamanho da força que estava sendo usada ali.
E, enquanto subia, a música foi ficando mais lenta.
Mais lenta.
Mais lenta.
Orfeu abriu os olhos e olhou para o Hyoga, e tinha uma coisa no rosto dele que não dava para confundir.
Era alívio.
— Obrigado — ele disse.
As mãos dele tentaram tocar mais uma nota, e não conseguiram.
E o gelo fechou por cima da lira, por cima dos ombros, por cima do rosto — e, no último instante antes de fechar de tudo, Orfeu de Lira sorriu.
E o anfiteatro ficou em silêncio.
Ficou em silêncio por muito tempo.
Os cinco ficaram parados ali, ofegantes, machucados, olhando para o bloco de gelo transparente no meio do palco onde dava para ver, lá dentro, um homem de armadura prateada dormindo com uma lira no colo.
— Ele não está morto — disse Hyoga, baixinho. — Esse golpe não mata.
— Então ele vai acordar? — perguntou Shun, preocupado.
— Não. — Hyoga limpou o rosto. — Ele vai descansar. O tempo não passa aí dentro. É a coisa mais parecida com dormir que existe neste mundo.
Ele encostou a mão no gelo.
— O meu mestre fez isso com um navio inteiro para me proteger de uma coisa que eu não aguentava.
Ele tirou a mão.
— Hoje eu usei para a mesma coisa.
Capítulo 10 — Ela não gostou
— Ah.
A voz veio da arquibancada de cima.
Os cinco se viraram de uma vez.
Ker estava sentada lá no alto, de pernas cruzadas, e dessa vez — pela primeira vez desde que aquela história começou — ela não estava sorrindo.
— Bom — ela disse, e a voz saiu mais seca do que de costume. — Isso eu não tinha previsto.
— Está decepcionada? — provocou Ikki.
— Estou surpresa. — Ela inclinou a cabeça. — Eu te dei duas portas, menino de gelo. Matar o seu amigo e abrir o céu, ou deixar ele sofrer para sempre. Eram duas portas muito boas.
Ela se levantou.
— E você foi lá e abriu uma terceira.
— Vai ter mais — disse Seiya, dando um passo à frente.
— Vai ter, sim. — Ker sacudiu o vestido. — Esse é o ponto.
E aí ela disse a frase que gelou os cinco mais do que o Caixão de Gelo:
— Eu tenho cento e oito.
Silêncio.
— Cento e oito guerreiros dormindo lá embaixo, meus queridos. Todos mortos. Todos com alguma coisa quebrada por dentro, porque é assim que eles morreram.
Ela começou a sumir no escuro da arquibancada.
— Hoje eu mandei um que vocês amavam, para ver o que vocês fariam.
A última frase veio de longe:
— Amanhã eu mando um que vocês odeiam. Vamos ver se a terceira porta ainda está aberta.
O Fim do Episódio 13
A lição desta noite
Hoje a lição é uma ferramenta, e é uma das mais úteis que existem.
Repara no que a Ker fez.
Ela não apareceu com um monstro. Ela montou uma armadilha de duas portas.
Porta número um: matar o amigo e acabar com o mundo.
Porta número dois: ficar parado ouvindo o amigo sofrer.
As duas eram horríveis. E era para ser assim — porque, quando as duas opções são ruins, a pessoa fica tão ocupada escolhendo a menos ruim que esquece de perguntar uma coisa:
Quem foi que disse que só tem duas?
Foi o Seiya quem perguntou isso. E não foi porque ele é o mais inteligente — ele não é. Foi porque ele é teimoso e nunca aceita a conta que os outros fazem por ele.
E a terceira porta estava ali o tempo todo. Estava guardada na Sibéria, num navio afundado, num golpe que o mestre do Hyoga tinha usado anos antes por um motivo parecido.
Isso acontece de verdade, na vida de todo mundo.
Alguém vai te dizer: “ou você faz isso, ou acontece aquilo”. Na escola, com um colega, até com um adulto.
Quase sempre que alguém te dá só duas saídas, e as duas são ruins, é porque essa pessoa precisa que você escolha uma delas.
Quando isso acontecer, para um segundo e pergunta: tem mesmo só duas?
Muitas vezes não tem.
E tem a segunda lição desta noite, que é mais quietinha.
O Hyoga não venceu o Orfeu. Ele cuidou dele.
Nem todo problema se resolve ganhando. Alguns se resolvem com cuidado — e, para esses, não adianta ser o mais forte. Adianta ser o que presta atenção.
Fim do Episódio 13. A aventura continua.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã: doze homens de ouro acordam ao mesmo tempo.
14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.
Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.