
Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.
Capítulo 1 — O Sonho Egoísta de Shiryu
O tempo estava quebrado, e o Santuário já não obedecia às próprias regras.
Onde antes havia escadaria, agora havia um precipício. Um buraco escuro, sem fundo visível, cortando o caminho ao meio.
— Tem alguma coisa muito estranha vindo lá de baixo — disse Shun, recuando um passo. — Tenma, não…
Tenma já tinha pulado.
E sumiu.
Do outro lado do Santuário, Shiryu encontrou o mesmo precipício. Olhou para baixo. E saltou.
E, no meio da queda, o mundo mudou.
Shiryu abriu os olhos e estava em casa.
Nos Cinco Picos de Rozan, com o som da cachoeira ao fundo e o cheiro de comida no ar. Shunrei correndo para recebê-lo na porta. E, agarrado na perna dela, um menino.
— Papai! Papai, eu já sei escrever o meu nome!
Era Shoryu. E ele estava crescido.
Shiryu se sentou à mesa com os dois, comeu, riu, ouviu histórias do dia. O tempo passou de um jeito estranho e macio. Shoryu cresceu mais. Virou um rapaz. E, um dia, apareceu na porta com uma mala na mão.
— Vou estudar na cidade, pai. Mas eu volto.
E Shiryu abraçou o filho e ficou olhando ele se afastar pela estrada, com o coração cheio.
Era a vida mais feliz que ele poderia ter tido.
Foi exatamente por isso que ele acordou.
— Não — sussurrou Shiryu, e o mundo em volta dele começou a rachar. — Essa vida é linda. Mas não é a minha.
Ele ficou de pé no meio da ilusão que desmoronava.
— Eu não nasci para isso. Eu sou um Cavaleiro. Eu luto para proteger o amor e a justiça na Terra. E, se existe um lugar onde eu devo morrer, esse lugar é o campo de batalha.
A ilusão se desfez.
Longe dali, Shun puxou Tenma de volta do buraco com as correntes. Para Shun, tinha passado um instante. Para Tenma, uma eternidade no escuro.
— O tempo está quebrando de verdade — disse Tenma, tremendo. — A gente precisa correr.
Capítulo 2 — Écarlate do Templo do Escorpião
Shiryu chegou à Casa de Escorpião e encontrou um guardião que ele não conseguia ver direito.
O Cavaleiro estava ali — e, ao mesmo tempo, parecia não estar. Por instantes, o corpo dele ficava transparente, quase apagado, como uma imagem prestes a sumir.
— Meu nome é Écarlate — disse o guardião. — E você não vai passar.
— AGULHA ESCARLATE!
A unha vermelha do Cavaleiro de Ouro perfurou o corpo de Shiryu, e uma dor absurda explodiu por dentro dele.
Depois veio a segunda agulha. A terceira. A quarta.
Écarlate ergueu as sobrancelhas.
— Você não grita.
— Não.
— Já são sete agulhas. Sete. — Ele parecia genuinamente impressionado. — Um homem normal já teria enlouquecido de dor.
A Armadura de Dragão finalmente se partiu e caiu aos pedaços no chão de mármore.
Shiryu ficou de joelhos, o sangue escorrendo por sete furos no corpo, sem armadura nenhuma para protegê-lo.
E se levantou, apoiado no cajado do Mestre Ancião — o cajado velho e simples que Dohko carregava havia duzentos e quarenta anos e que Shiryu tinha trazido consigo.
Capítulo 3 — Sangue Dourado
— Como o seu corpo fica transparente? — perguntou Shiryu.
Écarlate ficou em silêncio por um momento. E, então, contou.
Contou que, quando era criança, tinha uma doença que ninguém sabia curar. O corpo dele desaparecia aos poucos, ficava transparente, sumia. Os médicos disseram que não havia nada a fazer: um dia ele simplesmente evaporaria no ar e deixaria de existir.
Até que um homem apareceu.
— Eu não vou deixar você morrer — disse aquele homem ao menino doente. — Porque um dia você vai ser um Cavaleiro de Ouro, e eu preciso de todos vocês vivos.
O nome dele era Odisseu.
E ele explicou que o problema estava no sangue do garoto. Que seria preciso trocar todo o sangue dele por outro — e que quase ninguém no mundo tinha um sangue compatível com o de qualquer pessoa.
— Mas eu tenho — disse Odisseu, arregaçando a manga. — Chamam de Sangue Dourado. Uma pessoa em cada milhão nasce com ele.
— E se o senhor tirar tanto sangue assim… o senhor morre.
— Provavelmente.
— Então não faça isso!
Odisseu sorriu para o garoto.
— Vem aí uma Guerra Santa contra Hades. E, quando ela chegar, eu preciso que os doze Cavaleiros de Ouro estejam de pé. Todos os doze. Inclusive você. — Ele deitou o menino na maca. — É uma troca justa. Uma vida por doze.
Écarlate sobreviveu.
Odisseu morreu.
E, no cemitério do Santuário, todos os futuros Cavaleiros de Ouro daquela geração — todos eles ainda crianças — ficaram parados diante de uma lápide simples, onde estava escrito apenas: Cavaleiro de Prata.
— Agora você entende? — disse Écarlate a Shiryu, com a voz embargada. — Eu estou vivo porque aquele homem morreu por mim. Não existe nada neste mundo que eu não faça por ele.
— ANTARES!
Capítulo 4 — Aquele Escolhido pelo Dragão
Shiryu ergueu o cajado do Mestre Ancião como escudo.
O golpe mais poderoso de Escorpião atingiu a madeira e a estilhaçou em mil pedaços.
E, no meio dos estilhaços, alguma coisa brilhou.
Uma joia. Uma pedra escondida dentro do cajado havia duzentos e quarenta e três anos, esperando.
Shiryu ficou olhando para ela sem entender — até que a tatuagem do dragão nas suas costas se moveu. Moveu-se de verdade, saiu da pele dele, esticou-se pelo ar e agarrou a joia.
E, então, ele lembrou.
Lembrou de uma frase que o Mestre Ancião tinha dito a ele quando era garoto, e que ele nunca tinha entendido:
"Quando você aprender a ter paciência, Shiryu, o Deus Dragão vai te entregar a joia dele."
Shiryu entendeu naquele instante.
Não era sobre esperar. Era sobre aquela hora, no precipício, quando ele teve nas mãos a vida mais feliz possível — mulher, filho, casa, paz — e escolheu abrir mão dela para voltar ao campo de batalha.
O Deus Dragão tinha visto aquela escolha. E o tinha reconhecido.
Écarlate baixou a mão, atônito.
— Então você é um homem que segue a justiça de verdade. — Ele fez uma pausa longa. — Escute. Suas feridas já estão abertas demais. Você vai perder os cinco sentidos e morrer aqui, e eu não quero matar um homem que foi reconhecido pelo Deus Dragão. — Ele apontou para a saída. — Vá embora. Se você for agora, você vive.
Shiryu limpou o sangue da boca e sorriu.
— Eu já recusei uma vida feliz hoje. — Ele assumiu posição. — Não vou aceitar outra.
Os dois acenderam o cosmo ao mesmo tempo.
— ANTARES!
— CÓLERA DO DRAGÃO!
E os dois golpes se encontraram no meio da Casa de Escorpião, com força suficiente para que Dohko, casas e casas de distância, parasse de caminhar e olhasse para trás.
Capítulo 5 — O Guerreiro de Um Único Soberano
Enquanto isso, na Casa de Capricórnio, Hyoga estava parado diante de Izô com Atena nos braços.
E não atacou.
— Por que você não me ataca? — perguntou Izô, desconfiado.
— Porque o senhor não é meu inimigo — respondeu Hyoga. — O senhor é o matador de demônios. Um homem que serve Atena. Eu não levanto a mão contra um aliado.
Serpentes começaram a brotar do chão ao redor deles.
Izô nem se virou para olhar.
— EXCALIBUR!
O braço dele cortou o ar e as serpentes se partiram ao meio antes de chegarem perto.
Depois ele encostou a mão nos ferimentos de Hyoga e estancou o sangramento.
— Pode passar.
— Obrigado.
— Espere. — Izô hesitou. — Sobre o Cavaleiro de Sagitário, na próxima casa… — Ele balançou a cabeça. — Não. Deixa. Você vai entender quando vir.
E, quando Hyoga já tinha saído, Izô ficou sozinho, olhando para a porta.
— Aquele garoto — murmurou — vai enfrentar o adversário mais terrível de todos.
Capítulo 6 — O Templo do Centauro
Na Casa de Sagitário, Hyoga encontrou a Armadura de Ouro montada, de pé, sozinha — e uma flecha voando na direção do seu rosto.
Ele congelou a armadura no ar com uma rajada de gelo. Mas uma das flechas se descongelou sozinha, mudou de rota e o acertou na perna.
E foi então que ele viu.
Não era a armadura vazia. Havia alguém ali dentro.
Um homem — com o corpo de um cavalo da cintura para baixo.
— Meu nome é Gestalt — disse o Cavaleiro de Ouro de Sagitário. — E eu sou um Centauro.
Hyoga ficou sem palavras.
— Quando eu era criança — continuou Gestalt, sem esperar pergunta — eu tinha um cavalo. O nome dele era Tanya. Era a única coisa que eu amava neste mundo. E ele adoeceu e morreu.
Ele apertou o arco com força.
— Eu chorei no túmulo dele por três dias seguidos. Não treinei, não comi, não saí de lá. Até que Odisseu apareceu.
— E o que ele fez?
— Eu implorei que ele trouxesse Tanya de volta. Ele disse que não era possível, que ninguém pode ressuscitar os mortos. — A voz de Gestalt tremeu. — Mas eu insisti. Insisti tanto que ele encontrou um jeito.
Gestalt olhou para o próprio corpo.
— Ele juntou Tanya a mim. Metade dele, metade eu. Nós dois num corpo só, para sempre.
Hyoga sentiu um frio diferente de todos os que já tinha sentido.
— Odisseu vai voltar — disse Gestalt. — Vai ressuscitar como um deus. E eu vou impedir qualquer um que tente atrapalhar o retorno dele. Eu devo isso a ele. Eu devo tudo a ele.
Capítulo 7 — O Testamento
— Escute — disse Hyoga, respirando fundo. — Eu perdi minha mãe quando era criança. Ela afundou com um navio, e eu passei anos mergulhando naquela água gelada só para ver o rosto dela outra vez.
Gestalt ficou em silêncio.
— Eu fiquei preso naquela morte durante anos — continuou Hyoga. — E foi preciso muita coisa para eu aprender uma verdade que dói: os que se foram não voltam. Nunca. E amar alguém não é conseguir trazer de volta. É conseguir seguir carregando.
— Você não entende nada.
E Gestalt disparou outra flecha contra ele.
Mas a flecha não acertou.
Ela desviou sozinha no meio do ar — como se algo a tivesse empurrado de lado — e cravou-se numa parede da Casa de Sagitário.
E, da parede atingida, brotou uma luz.
Palavras começaram a se formar no ar, escritas por uma mão que ainda não tinha nascido, atravessando duzentos e quarenta anos de tempo para chegar ali.
Era o Testamento de Aiolos — a carta que um futuro Cavaleiro de Ouro de Sagitário escreveria um dia, ao fugir do Santuário carregando um bebê nos braços, acusado de traidor por todos, para confiar a proteção de Atena aos garotos que viessem depois dele.
Hyoga olhou para aquilo com os olhos cheios d’água.
— Está vendo? — ele disse. — O seu sucessor. O homem que vai vestir essa armadura depois de você. Ele morreu protegendo Atena, chamado de traidor até o último segundo. E foi ele quem confiou essa missão a nós.
Capítulo 8 — A Flecha da Deusa
Gestalt olhou para o testamento por um longo tempo.
E, então, fez a coisa mais perigosa que um Cavaleiro de Sagitário pode fazer.
Ele pegou uma flecha diferente das outras. Uma flecha que brilhava com uma luz que não era deste mundo.
— A Flecha da Deusa — sussurrou Hyoga, gelando. — Não. Você não pode…
— É a arma definitiva de Sagitário — disse Gestalt. — Ela não mata. Ela apaga. Quem é atingido por ela deixa de existir, em todos os tempos, para sempre.
Ele apontou a flecha para a menina desacordada nos braços de Hyoga.
— Se essa criança for mesmo Atena, ela vai conseguir parar a flecha. Se não for… vocês dois somem da existência.
— NÃO!
Gestalt soltou a corda.
Hyoga se virou de costas para proteger a menina e ergueu as mãos nuas contra a flecha, sabendo que não ia adiantar nada.
E, então, uma mão pequena pousou no ombro dele.
Atena estava de pé.
Ela caminhou para a frente de Hyoga, ergueu a mão, e a Flecha da Deusa parou no ar diante da palma dela — parada, tremendo, presa a centímetros da sua pele.
O silêncio na Casa de Sagitário foi absoluto.
E a menina, com os olhos meio abertos, como quem fala de dentro de um sonho, disse:
— Gestalt. Olhe para você mesmo.
— O quê…?
— Olhe de verdade.
Gestalt baixou os olhos para o próprio corpo.
E o corpo de cavalo não estava lá.
Nunca tinha estado.
— Tanya não faz parte de você — disse Atena, com uma ternura terrível. — Nunca fez. Odisseu não juntou vocês dois. Ele apenas colocou essa ideia dentro da sua cabeça, quando você era uma criança chorando num túmulo, porque era a única forma que ele encontrou de te consolar.
Gestalt caiu de joelhos.
— A ilusão foi tão forte que enganou você a vida inteira. E enganou todo mundo à sua volta, porque você acreditava nela com tanta força que os outros passaram a enxergar o que você enxergava. — A voz dela ficou mais baixa. — Você nunca foi um Centauro. Você é só um homem que amava demais o próprio cavalo.
Atena devolveu a flecha à mão dele.
— Não use isso de forma imprudente nunca mais.
E desabou.
E, no instante em que ela caiu, um tremor sacudiu o Santuário inteiro, de baixo até o topo — porque, em algum lugar entre a Casa de Escorpião e a Casa de Sagitário, uma casa que tinha sido apagada da história havia eras começava a reaparecer.
O Fim do Volume 11
Este volume inteiro é sobre uma coisa só: o que a gente faz com o amor pelos que se foram.
Shiryu teve nas mãos uma vida perfeita e inteira — e escolheu devolvê-la, porque sabia quem era.
Écarlate está vivo porque um homem trocou a própria vida pela dele, e não consegue conceber deslealdade a esse homem, mesmo que ela seja necessária.
E Gestalt passou décadas carregando metade de um cavalo que nunca esteve lá, porque preferiu uma mentira gentil à verdade de que Tanya não ia voltar.
Os três amaram alguém. Os três foram marcados para sempre. E só um deles conseguiu seguir em frente.
Repare que Odisseu ainda não apareceu uma única vez — e já é o personagem mais poderoso da história. Ele salvou todo mundo. E é exatamente por isso que ninguém consegue enfrentá-lo.
Fim do Volume 11. No próximo volume, a Décima Terceira Casa se ergue, e Odisseu volta.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.