Passado Presente Futuro · Saga dos Céus

Episódio 15: O Lugar que Não Tem Chão

Ilustração do episódio 15: O Lugar que Não Tem Chão

Capítulo 1 — Três dias

Fazia três dias.

Três dias desde que uma fenda se abriu no ar da escadaria do Santuário e engoliu o Ikki de Fênix.

Nesses três dias, o Shun não dormiu.

Ele subia todo dia até o degrau exato. Sentava ali. E ficava.

Às vezes falava sozinho. Às vezes esticava a mão e passava no ar, devagar, como quem procura uma porta no escuro de um quarto conhecido.

E, no colo dele, enroladas, estavam as duas correntes de Andrômeda — as duas quebradas no meio, com as pontas rasgadas, do jeito que o Saga tinha deixado.

Uma corrente partida não serve para nada. Não prende, não protege, não voa.

Era só um monte de metal pesado no colo de um rapaz que não conseguia salvar ninguém.

No terceiro dia, a Atena subiu a escadaria e sentou no degrau ao lado dele.

— Shun.

— Eu vou achar ele.

— Eu sei.

— Eu não ligo para o que aquele deus disse sobre o céu abrir, nem para regra nenhuma, nem para… — A voz dele falhou. — Eu vou achar ele.

E a Atena disse:

— Então levanta, que a gente vai agora.


Capítulo 2 — A flor aponta

Os cinco se juntaram ao pé da escadaria: Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun — e a Atena, de armadura, no meio deles.

— Como a gente acha um lugar que não fica em lugar nenhum? — perguntou Hyoga.

E o Seiya olhou para o Shun.

— A flor.

— A flor aponta para os Elísios — disse Shun. — Não para o meu irmão.

— Já tentou?

— …Não.

— Então tenta.

Shun tirou a flor do bolso. A mesma florzinha teimosa de sempre, aberta, viva, que tinha atravessado um mar duzentos anos antes e agora passava os dias amassada no bolso de um rapaz.

Ele estendeu a mão.

A flor não se moveu.

— Viu?

— Fala o nome dele — disse a Atena.

Shun olhou para ela.

— Fala o nome dele, Shun.

E o Shun, com a voz baixinha, falou:

— Ikki.

E a flor virou.

Girou no caule, devagar, e apontou — não para o céu, não para o horizonte.

Apontou para baixo.

Para o chão.


Capítulo 3 — A fenda

Eles acenderam o cosmo juntos, os cinco, no degrau exato.

E o ar rachou.

Dessa vez a rachadura não veio de um golpe. Veio aos poucos, como vidro cedendo — um risco fino no nada, depois dois, depois uma abertura escura girando devagar no meio da escadaria.

Seiya olhou para dentro e não viu absolutamente nada.

Não era escuro. Escuro é uma cor. Aquilo não tinha cor nenhuma.

— Alguém tem alguma coisa inteligente para dizer antes? — perguntou ele.

— Tenho — disse Shiryu.

— O quê?

— Se a gente se perder lá dentro, a gente se perde junto.

E os cinco entraram.


Capítulo 4 — O lugar que não tem chão

Lá dentro não tinha chão.

Também não tinha céu, nem ar, nem som, nem cima, nem baixo. Tinha só um cinza pálido que ia para todos os lados ao mesmo tempo e não acabava nunca.

Dava para ficar de pé, mas não em cima de nada.

Dava para falar, mas a voz não ecoava — morria na boca.

E a pior parte era essa: o tempo não passava igual.

Dava para sentir. Era como estar com febre. Um segundo durava um minuto, um minuto durava uma hora, e a cabeça da gente começava a escorregar.

— Como é que alguém fica são num lugar desse? — sussurrou Hyoga.

— Ninguém fica — respondeu Shiryu.

E foi aí que eles ouviram o barulho.

Era um som sozinho, repetido, longe.

Pá.

Pausa.

Pá.

Pausa.

Pá.


Capítulo 5 — O homem que não parou

Eles correram naquela direção, por um chão que não existia, e foram chegando perto.

E aí enxergaram.

No meio do nada cinzento, tinha um homem de pé.

A armadura dele estava um horror. Rachada no peito, sem um ombro, sem o antebraço esquerdo. O cabelo estava uma coisa só. Os nós dos dedos dele não eram mais nós de dedo.

E ele estava socando o ar.

Um soco. Descanso. Outro soco. Descanso.

Sem alvo. Sem inimigo. Sem ninguém.

— IKKI!

Shun gritou tão alto que a garganta rasgou, e o grito morreu a dois metros da boca dele, porque ali dentro o som não viaja.

Então ele correu.

Correu por aquele nada, e chegou, e agarrou o braço do irmão.

E o Ikki continuou socando.

— Ikki! Sou eu!

Pá.

— IKKI!

Pá.

Shun se jogou na frente dele e segurou os dois punhos com as mãos.

E o Ikki de Fênix finalmente parou e olhou para ele com os olhos de quem não entende o que está vendo.

— …Shun?

— Sou eu. Sou eu, irmão.

E o Ikki ficou um tempo muito longo olhando para o rosto dele.

Depois perguntou a coisa mais assustadora que ele podia perguntar:

— Quanto tempo?


Capítulo 6 — A conta dele

— Três dias — disse Shun.

Ikki ficou em silêncio.

— …O quê?

— Três dias, Ikki. Hoje é o terceiro dia.

E o Ikki começou a rir.

Foi um riso ruim, de quem está muito cansado, que durou pouco e acabou feio.

— Três dias.

— Ikki, quanto tempo pareceu para você?

Ele não respondeu na hora.

— Eu não sabia contar o tempo aqui — disse, por fim. — Não tem sol. Não tem fome. Não dá sono. Eu tentei contar respirando e me perdi.

Ele olhou para as próprias mãos.

— Aí eu comecei a contar soco.

Ninguém falou nada.

— Um soco, um segundo. Era a única régua que eu tinha. — A voz dele estava rouca. — Eu bati oitocentas e quarenta mil vezes, Shun. Eu parei de contar aí porque o número ficou grande demais para caber na minha cabeça.

Seiya fez a conta e ficou branco.

Oitocentas e quarenta mil.

Quase dez dias sem parar. E ele tinha parado de contar depois disso.

— Por que você não sentou? — perguntou Hyoga, baixinho. — Por que você não esperou parado?

E o Ikki respondeu:

— Porque, se eu sentasse, eu não ia levantar mais.

Ele cuspiu de lado.

— Então eu decidi uma coisa logo no começo: enquanto eu estiver batendo, eu ainda estou tentando sair. No dia que eu parar de bater, eu virei morador.


Capítulo 7 — A porta estava aberta

— Que bonitinho.

A voz veio de todos os lados ao mesmo tempo, porque ali dentro não tinha direção.

Os seis se juntaram de costas uns para os outros.

E Ker apareceu caminhando no nada, do jeito dela, descalça, com a mão enfaixada.

— Eu estava esperando vocês — disse ela. — Faz três dias.

— Você sabia que a gente ia vir — rosnou Seiya.

— Meu amor, eu abri.

Silêncio.

— Pensa um pouquinho. — Ela sorriu, paciente, como professora. — Uma florzinha de jardim apontou o caminho exato para um lugar que não fica em lugar nenhum. Vocês acharam isso normal?

O Shun olhou para a flor na própria mão e sentiu o estômago gelar.

— Eu não encostei na sua flor — disse Ker. — Eu só… deixei a porta destravada. E torci para vocês amarem o bastante esse rapaz teimoso para entrar.

Ela abriu os braços.

— E vocês amaram. Vocês são tão confiáveis.

E aí ela parou de olhar para eles.

E olhou para a Atena.

— Agora vai todo mundo dar licença, porque eu vim falar com ela.


Capítulo 8 — Frente a frente

Os cinco se fecharam em volta da Atena na mesma hora.

E a Atena passou no meio deles.

— Atena, não—

— Está tudo bem, Seiya.

— Não está!

— Está, sim. — Ela parou a cinco passos de Ker. — Ela e eu precisamos conversar faz muito tempo.

As duas ficaram se olhando no meio daquele cinza sem fim.

De um lado, uma deusa de armadura dourada, com um escudo e uma coroa, representando o Olimpo inteiro.

Do outro, uma mulher descalça de vestido escuro, mais velha que todos os deuses do Olimpo somados, que nunca na vida deu um soco em ninguém.

— Você é menorzinha do que eu lembrava — disse Ker.

— Você é mais sozinha do que eu imaginava — respondeu Atena.

Ker riu, encantada.

— Ai, eu gosto de você. Sempre gostei.

— Eu não gosto de você.

— Gosta, sim. — Ela deu um passo. — Você só não gosta do que eu falo. É diferente.


Capítulo 9 — A pergunta

E aí a Ker fez o que ela faz.

— Me responde uma coisa, meu amor. Com sinceridade, que eu sei que você é sincera.

Ela juntou as mãos.

— Quantos?

A Atena não respondeu.

— Quantos meninos morreram dizendo o seu nome?

Silêncio.

— Nessa guerra não. Em todas. — A voz de Ker era doce e paciente e cuidadosa, como quem ajuda uma criança com a lição. — Desde o comecinho de tudo. Guerra Santa atrás de Guerra Santa, século atrás de século, sempre a mesma coisa: você nasce menina, um monte de garoto se apaixona pela sua causa, e eles morrem.

Ela deu mais um passo.

— Aquele de cabelo roxo que morreu sorrindo. Os doze que derrubaram a muralha. Aquele músico que a gente deixou dormindo no gelo. O homem de ouro que eu morei dentro por treze anos.

Ela parou bem na frente dela.

— Eles amam você, e aí eles morrem. Toda vez. Há milhares de anos.

E então a Ker disse a coisa que ela também tinha dito para um rapaz numa estufa quebrada, poucas noites antes, com outras palavras:

— Se você não existisse, eles estariam todos vivos.


Capítulo 10 — A conta errada

A Atena ficou quieta por um tempo muito longo.

Tempo suficiente para o Seiya dar um passo à frente e o Shiryu segurar o braço dele.

E então ela falou.

E não falou gritando.

— Você está contando errado.

— Como é?

— A sua conta. — A Atena ergueu o rosto. — Está errada.

— Meu amor, eu lembro de cada um deles. Eu estava lá.

— Você lembra de cada um que morreu. — A voz da Atena ficou firme. — Você nunca contou os que viveram.

Ker franziu a testa.

— Ah, por favor.

— Conta comigo, então. — A Atena deu um passo na direção dela. — Rodorio. Oitocentas pessoas. O padeiro que sai de casa descalço quando ouve música bonita. A mulher do mercado. O velho que conta história de jardim para quem quiser ouvir.

Mais um passo.

— A moça que ficou um ano inteiro calada fazendo café para o irmão, porque contar a verdade ia machucar ele.

Mais um.

— A Grécia. A China. A Sibéria. O Japão. Todo mundo que acordou hoje de manhã sem saber que esteve perto de não acordar.

Ela parou.

— Bilhões, Ker.

— Isso não apaga os que morreram.

— Não apaga mesmo. — E a voz da Atena rachou ali, pela primeira vez. — Eu carrego cada um deles. Eu sei o nome de cada um. Eu vou carregar isso para sempre, e isso dói todo dia, e eu não quero que pare de doer, porque no dia em que parar eu viro uma deusa igual aos outros.

Ela respirou.

— Mas você está tentando me vender uma conta em que só tem um lado. E essa conta é mentira.


Capítulo 11 — “Eles não morreram por mim”

— Eles morreram por você — insistiu Ker.

— Não.

— Eles gritaram o seu nome.

— Gritaram. — A Atena balançou a cabeça. — E você acha que é a mesma coisa.

Ela apontou para trás, para os cinco.

— Pergunta para aquele ali de cabelo preto por que ele entrou embaixo de uma cachoeira à noite. Não foi por mim: foi porque tem uma moça chamada Shunrei que faz chá para ele todo dia.

Apontou para o Hyoga.

— Pergunta para esse por que ele subiu daquela água. Foi porque a mãe dele mandou ele crescer.

Apontou para o Ikki, arrebentado, de pé a muito custo.

— E pergunta para esse por que ele bateu oitocentas e quarenta mil vezes num lugar sem chão.

Ela olhou nos olhos da Ker.

— Nenhum deles fez isso por mim. Eles fizeram pelo que eles amam. Eu só tive a sorte imensa de estar do mesmo lado que isso.

E ela disse a última frase baixinho:

— Você passou milhares de anos achando que as pessoas morrem por causa de uma deusa. Elas nunca morreram por causa de mim, Ker.

Pausa.

— Elas morrem porque amam alguém. E isso existiria com ou sem Olimpo, com ou sem Guerra Santa, com ou sem você e eu.


Capítulo 12 — A deusa que não entendeu

E aconteceu uma coisa estranha.

A Ker ficou confusa.

Não com raiva. Não ofendida. Confusa mesmo, do jeito de quem escutou uma conta e não consegue refazer.

— Isso não faz sentido — ela disse.

— Faz, sim.

— Não faz. — Ela deu um passo para trás. — Se você tira o deus, cai a guerra. Se cai a guerra, ninguém morre. É simples. É assim desde sempre.

— É assim na sua cabeça.

— É assim!

E a Atena respondeu:

— Você é muito velha e muito inteligente e você nunca amou ninguém. É por isso que a sua conta não fecha.

Silêncio no lugar sem chão.

E a Ker olhou para ela com uma cara que ninguém jamais tinha visto naquela mulher.

Depois virou o rosto.

— Vão embora.

— Como?

— Vão embora! — Ela apontou, e uma fenda se abriu no nada atrás deles, com a luz de Rodorio do outro lado. — Levem o teimoso. Tratem as feridas. Durmam bem.

Ela ajeitou o vestido, e a voz voltou ao normal — doce, calma, carinhosa.

E foi aí que ficou assustador de novo.

— Eu me enganei com você, meu amor. Você não tem rachadura nenhuma.

Ela sorriu.

— Mas eu não preciso de você.


Capítulo 13 — Ela olhou para o lado errado

E, antes de sumir, a Ker virou a cabeça.

E olhou para o Shun.

Foi um segundo. Menos que isso.

Ela não falou nada. Não precisava.

Foi só um olhar carinhoso, de quem sabe uma coisa.

E o Shun, segurando o irmão arrebentado pelos ombros, sentiu uma coisa gelada descer pelas costas.

Porque ele tinha escutado a conversa inteira.

Quer dizer: quase inteira.

Ele tinha escutado perfeitamente a pergunta — “se você não existisse, eles estariam todos vivos” — porque ela é a mesma pergunta que mora na cabeça dele desde a noite da estufa.

Mas, na hora exata em que a Atena começou a responder, o Ikki tinha cambaleado e quase caído, e o Shun tinha se virado para segurar o irmão.

E ele perdeu a resposta.

Ele ouviu a pergunta inteira e metade do remédio.


Capítulo 14 — De volta

Eles saíram pela fenda e caíram na escadaria do Santuário, no fim de tarde, com o sol batendo nas colunas quebradas.

Três dias tinham passado lá fora.

Dez e tanto tinham passado dentro do Ikki.

Ele andou dois passos no chão de pedra, parou, e disse:

— Chão.

— O quê?

— Chão — repetiu ele, batendo o pé duas vezes. — Eu tinha esquecido como é.

E aí o Ikki de Fênix, pela primeira vez na vida dele, sentou no degrau e deixou que cuidassem dele sem reclamar uma única vez.

A Atena ajoelhou na frente dele e começou a tratar as mãos dele, que eram a pior parte.

— Você não precisava ter feito aquilo — disse ela. — Entrar na frente do golpe.

— Precisava.

— Por quê?

E o Ikki, olhando para o irmão caçula sentado dois degraus abaixo, de costas, com duas correntes quebradas no colo, respondeu:

— Porque ele já acha que é culpa dele quando chove.


O Fim do Episódio 15

A lição desta noite

Hoje a lição tem nome: conta errada.

A Ker é a melhor do mundo em uma coisa só, e não é lutar. É fazer uma conta com um lado só e mostrar essa conta para você.

Ela olhou para a Atena e disse: olha quantos morreram por sua causa.

E estava tudo certo no que ela falou. Os meninos morreram mesmo. Os nomes eram verdadeiros. A tristeza era verdadeira.

Mas faltava o outro lado da conta.

Faltavam os bilhões de pessoas que acordaram hoje de manhã, tomaram café, foram para a escola e nem sabem que existiu uma guerra.

Essa é uma armadilha que acontece com todo mundo, inclusive com criança, inclusive com gente grande.

A gente faz uma prova com dez questões, erra duas, e passa a tarde inteira pensando nas duas.
A gente joga uma partida, faz três jogadas boas e uma ruim, e lembra da ruim na hora de dormir.
A gente faz um desenho bonito com um borrão no canto, e só enxerga o borrão.

A sua cabeça é muito boa em contar o que deu errado e muito ruim em contar o que deu certo.

Quando você perceber que está fazendo essa conta — e você vai perceber, porque ela sempre termina em “então a culpa é minha” — para um pouquinho e pergunta:

Eu estou contando os dois lados?

Quase sempre não está.

E tem um detalhe nesse episódio que é importante guardar, porque ele vai doer depois.

O Shun escutou a pergunta da Ker inteirinha.

E perdeu a resposta da Atena, porque o irmão dele cambaleou e ele virou para segurar.

Às vezes a gente ouve a parte ruim bem clarinha e perde justamente a parte que ia consertar.

Por isso vale repetir as coisas boas em voz alta. Mais de uma vez. Para quem a gente ama.

Porque não dá para saber qual delas a pessoa perdeu.

Fim do Episódio 15. A aventura continua.


Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã: a Ker perde. E é exatamente isso que me preocupa.

14+ · Indicação editorial deste site. Leitura recomendada a partir de 14 anos, com conflitos, violência e morte em contexto ficcional. Não é classificação oficial.

Obra original: Saint Seiya, de Masami Kurumada. Adaptação e continuação narrativa de fã preparadas por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.