Obra original: Saint Seiya: Next Dimension, de Masami Kurumada. Adaptação narrativa de fã preparada por Rafael com auxílio de inteligência artificial. Projeto independente, sem vínculo oficial com os titulares da obra.
Na Casa de Libra, o silêncio depois do poema durou pouco.
Tenma ainda estava ajoelhado ao lado do corpo do mestre, agora vestido com a prata da Armadura de Taça, quando Dohko se levantou devagar e disse a frase que ninguém esperava ouvir:
— Eu vou trair Atena.
Tenma ergueu a cabeça de repente.
— O quê?
— Você ouviu.
— Mas… o senhor é um Cavaleiro de Ouro! O senhor acabou de chorar pelo meu mestre! O senhor não pode…
— Escute — Dohko o interrompeu, e a voz dele não tinha raiva nenhuma, só cansaço. — Eu ouvi a voz do coração do Suikyo antes de ele partir. Ouvi tudo. E agora eu sei de uma coisa que vocês ainda não sabem.
Ele apontou para a grande balança de pedra esculpida na parede da Casa de Libra — o símbolo eterno do equilíbrio entre a Força e a Justiça.
— Vocês estão vendo essa balança? Ela sempre esteve nivelada. Sempre. — A voz dele falhou. — Mas neste exato momento, dentro deste Santuário, a justiça está desaparecendo. Ela está sumindo, garoto. E, quando a justiça some, a balança tomba para o lado da força.
Ele deu as costas aos dois garotos.
— E, se é assim… eu não tenho outra escolha.
Muito longe dali, no Castelo de Hades, um Espectro chamado Meehan de Sapo entrou correndo na sala de Vermeer de Grifo.
— Notícia! Boa notícia! Suikyo está morto!
Vermeer não respondeu. Ele apenas caminhou até o salão principal, onde Pandora esperava — e lá estava, pousada no chão como um pássaro que voltou para casa, a Sapuris de Garuda. Vazia.
Pandora olhou para a armadura por um longo instante.
— Então o traidor finalmente morreu — disse ela, sem uma gota de emoção. — Já perdemos tempo demais com sutilezas.
Ela virou-se para Vermeer.
— Reúna seus Espectros. Marchem sobre o Santuário. E me tragam a cabeça de Atena.
Vermeer sorriu, e era um sorriso que fazia falta de dentes.
— Com prazer.
O exército de Hades não subiu pela porta da frente.
Eles vieram por baixo — pela colina cinzenta do Yomotsu, pela fronteira entre os vivos e os mortos, o único caminho que restava desde que a barreira de Atena tinha enfraquecido.
E lá embaixo, naquele lugar sem cor, começou uma batalha desesperada.
O Contador da Morte — o guardião de Câncer, aquele que atravessava a fronteira dos mortos como quem atravessa a rua — estava exatamente no meio do caminho do exército inteiro.
Ele não tinha escolhido lado nenhum a vida toda. Tinha se orgulhado disso.
Mas, naquela noite, quando os Espectros exigiram que ele os guiasse até Atena, o guardião de Câncer descobriu que tinha um lado, sim.
— Não — ele disse.
E foi só isso. Uma palavra.
Ele usou tudo o que sabia. Mandou Espectro após Espectro de volta para o abismo com as Ondas do Inferno. Usou o Shabadabadaa, sua técnica mais secreta, capaz de puxar alguém de volta do mundo dos mortos, para atravessar o campo de batalha em lugares onde ninguém esperava que ele aparecesse.
Mas eram muitos. Muitos demais.
E, atrás de todos eles, veio Vermeer.
Vermeer de Grifo não lutava com socos. Ele lutava com fios.
Fios finíssimos de cosmo, quase invisíveis, que se prendiam aos braços e às pernas do adversário e o transformavam num boneco articulado — a Marionete Cósmica.
— Abra o Omertá — ordenou Vermeer.
E o Contador da Morte, sem controle sobre o próprio corpo, viu suas mãos abrirem o caixão sozinhas, contra a sua vontade.
— Agora me leve até Atena.
— Não.
Vermeer ergueu as sobrancelhas.
— Não? Que interessante. — Ele girou o dedo no ar. — Vamos dançar, então.
E começou a recitar nomes de posições de balé.
A cada nome, o corpo do Cavaleiro de Câncer se dobrava numa posição diferente, torcendo-se em ângulos que ossos humanos não deveriam fazer, dançando contra a própria vontade no meio daquele campo cinzento.
A armadura dourada de Câncer foi arrancada peça por peça, até sobrar só o elmo.
E, quando até o elmo caiu, caiu junto com ele a peruca do guardião — que rolou pelo chão e parou aos pés de Vermeer.
O Espectro caiu na gargalhada.
— Olha só isso! O grande guardião dos mortos é careca!
Caído no chão, o corpo todo retorcido, o Contador da Morte estendeu a mão trêmula.
— Devolve.
— Como?
— A minha peruca. Devolve. — Ele ergueu o rosto, e não havia nada de cômico no olhar dele. — Um guerreiro de verdade tem que estar bonito. Até na hora de morrer. Principalmente na hora de morrer. — Ele tossiu sangue. — Mas alguém como você nunca ia entender uma coisa dessas.
O sorriso sumiu do rosto de Vermeer.
— Então vamos acabar com isso.
Ele encostou o dedo no pescoço do Cavaleiro caído e começou a girar.
Trinta graus. Sessenta. Noventa. Cento e vinte. Cento e cinquenta…
E parou.
Parou porque uma mão tinha agarrado o dedo de Vermeer e o puxado para trás.
Uma mão em chamas.
— Você fala demais — disse Ikki de Fênix.
Vermeer recuou, avaliando o recém-chegado.
— Ah. O Cavaleiro de Bronze de novo.
— O mesmo.
— Você não aprende, não é? Eu já derrotei você uma vez.
— Aprendo, sim — respondeu Ikki, e as chamas subiram pelos braços dele. — Aprendo rápido demais para o seu gosto.
Os fios voaram. Ikki queimou os fios. Vermeer disparou de novo, mais rápido, prendendo o braço esquerdo de Ikki — e Ikki simplesmente avançou com o braço preso, arrastando o próprio fio consigo, até ficar perto o bastante para acertar o rosto do juiz com o punho direito.
Vermeer cambaleou pela primeira vez naquela noite.
— Impossível… um Bronze não pode…
— GOLPE FANTASMA DE FÊNIX!
A ilusão atravessou o Espectro em silêncio, entrando pelos olhos, indo direto às lembranças mais fundas dele. Vermeer gritou — não de dor física, mas daquele tipo de dor que não tem remédio.
E, enquanto ele estava assim, cambaleando, cego pelas próprias memórias, uma sombra pequena e gorducha subiu no ar atrás dele.
O Contador da Morte, com o corpo retorcido, sem armadura, sem peruca, mal conseguindo ficar de pé — mas de pé.
— Ei, Grifo.
Vermeer se virou.
— Isso é pela minha peruca. — BOMBARDEIRO DE PÊSSEGO!
E o guardião de Câncer se jogou de traseiro contra o juiz do Mundo dos Mortos com toda a força que lhe restava, empurrando Vermeer para trás, para trás, e para dentro do abismo do mundo dos mortos.
O grito de Vermeer foi ficando mais fino, mais distante, até sumir.
Ikki olhou para o Cavaleiro de Câncer com uma expressão que era quase respeito.
— Você é ridículo.
— Eu sei — disse o Contador da Morte, catando a peruca do chão e ajeitando-a na cabeça com toda a dignidade do mundo. — Mas eu sou ridículo e estou vivo. Ele era elegante e está lá embaixo.
Enquanto isso, na Casa de Libra, acontecia a coisa mais dolorosa daquela noite.
Shun tentou primeiro conversar.
— Mestre Ancião! Eu sou companheiro do Shiryu! Nós viemos do mesmo tempo, o senhor pode confiar em mim!
Dohko parou por um segundo ao ouvir aquele nome antigo.
— A Atena de vocês virou um bebê — continuou Shun, desesperado. — Ela é indefesa! O senhor não pode…
— Não importa — cortou Dohko. — Bebê ou deusa, não importa. Eu preciso matá-la. Era isso que o Suikyo queria.
E jogou Shun longe com um único movimento.
Tenma entrou no meio da luta.
— Então vai ter que passar por mim também!
Os dois garotos atacaram juntos. Meteoros e correntes voaram ao mesmo tempo, de dois lados diferentes, com tudo o que eles tinham.
Dohko devolveu os dois ataques sem sair do lugar.
— Foi sério isso? — perguntou, e não era provocação; era decepção. — Porque, se foi, não adianta. Podem repetir quantas vezes quiserem. O resultado vai ser sempre o mesmo.
Ele ergueu o punho para acabar com aquilo de uma vez.
E parou no ar.
Porque algo tinha entrado na Casa de Libra.
No chão de mármore, entre os três, deslizava uma serpente.
Não uma serpente comum. Havia algo nela — uma presença antiga, uma coisa que não deveria mais existir no mundo, um mensageiro vindo de um lugar que tinha sido apagado dos mapas e da memória havia eras.
Dohko arregalou os olhos, e o punho dele caiu ao lado do corpo.
— Ela saiu… — ele sussurrou. — Finalmente saiu.
Tenma e Shun se entreolharam, sem entender nada.
— Então era verdade — continuou Dohko, e a voz dele começou a tremer. — As palavras do Suikyo estavam certas. Ele estava certo o tempo todo. Era isso que ele descobriu. Era isso que ele atravessou a Porta da Morte para vir avisar.
E, então, o Cavaleiro de Ouro de Libra — o guerreiro que tinha acabado de derrotar um Juiz do Mundo dos Mortos, o homem que ia viver duzentos e quarenta e três anos sozinho numa cachoeira — começou a chorar na frente de dois garotos.
— O que eu faço agora? — ele disse, olhando para o nada. — Eu não sei. Eu não sou o inteligente dos dois. Você é o inteligente. Você sempre foi.
Ele apertou os olhos com força.
— Shi… Shion… me diz o que eu faço, Shion!
E, do lado de fora, o Santuário inteiro começava a se encher de Espectros.
Este volume tem duas cenas que combinam de um jeito estranho e perfeito.
Uma é ridícula: um homem baixinho, careca, sem armadura, com o corpo todo torto, derrubando um dos três Juízes do Mundo dos Mortos com um golpe de bumbum — depois de exigir sua peruca de volta porque um guerreiro precisa estar bonito na hora de morrer.
A outra é de partir o coração: um Cavaleiro de Ouro poderosíssimo, chorando no chão da própria casa, pedindo conselho a um amigo que não está ali, porque descobriu uma verdade grande demais para carregar sozinho.
As duas cenas dizem a mesma coisa: coragem não é não ter medo, e não é ser digno o tempo todo. É continuar de pé — de peruca torta ou aos prantos — quando fugir seria muito mais fácil.
Fim do Volume 9. No próximo volume, o segredo do Décimo Terceiro Cavaleiro de Ouro finalmente sai das sombras.
Boa noite, pequeno guerreiro. Amanhã a história continua.
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